{"id":7832,"date":"2014-12-15T00:39:56","date_gmt":"2014-12-15T00:39:56","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/12\/15\/o-relatorio-sobre-a-ditadura-em-tres-historias\/"},"modified":"2014-12-15T00:39:56","modified_gmt":"2014-12-15T00:39:56","slug":"o-relatorio-sobre-a-ditadura-em-tres-historias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/12\/15\/o-relatorio-sobre-a-ditadura-em-tres-historias\/","title":{"rendered":"O relat\u00f3rio sobre a ditadura em tr\u00eas hist\u00f3rias"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\"><span style=\"line-height: 1.3em; text-align: justify;\">Uma mulher que passou d\u00e9cadas sem saber se o marido estava morto; dois sobrinhos que reconstru\u00edram os \u00faltimos dias do tio e uma jornalista que ainda enfrenta pesadelos ap\u00f3s a passagem pela pris\u00e3o e a tortura. Tr\u00eas relatos que resumem o horror e o drama retratados pelo\u00a0relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, divulgado nesta semana.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"line-height: 1.3em;\">\u201cOs militares diziam que a tortura n\u00e3o passa nunca. Tinham raz\u00e3o\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Rose Nogueira foi torturada psicologicamente e abusada sexualmente. Presa 33 dias ap\u00f3s dar \u00e0 luz seu filho, ela ainda guarda as marcas do per\u00edodo. <\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7827\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/1418512628_738857_1418517728_noticia_normal.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\" \/>Rose Nogueira, em visita a uma cela do Memorial da Resist\u00eancia. \/ <span class=\"s1\" \/>VICTOR MORIYAMA   <!--more-->  <\/span><\/address>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">\u201cOs militares diziam que a tortura n\u00e3o passa nunca. Eles tinham raz\u00e3o. A marca n\u00e3o sai, seja no corpo, seja na cabe\u00e7a.\u201d Aos 68 anos, a jornalista Rose Nogueira ainda se preocupa se o filho Cac\u00e1, de 45, est\u00e1 passando frio. Ainda acorda no meio da noite com pesadelos em que acredita estar sendo perseguida. E, depois de passar nove meses presa, entre os anos de 1969 e 1970, n\u00e3o conseguiu engravidar novamente.<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">O relato dela \u00e9 um dos que comp\u00f5em o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, documento divulgado na \u00faltima semana que ajudou a apontar e esclarecer crimes cometidos durante a ditadura militar. Na \u00faltima sexta-feira, ela voltou com a reportagem do EL PA\u00cdS ao local onde foi torturada: a sede do antigo Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), que hoje abriga o Memorial da Resist\u00eancia de S\u00e3o Paulo, um museu sobre os graves crimes cometidos pela repress\u00e3o do regime.<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">\u201cAs celas onde eu fiquei j\u00e1 n\u00e3o existem mais\u201d, aponta ela, enquanto caminha pelo corredor onde est\u00e3o reproduzidas tr\u00eas celas daquele per\u00edodo. Ao come\u00e7ar a contar sua hist\u00f3ria, chama a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico da exposi\u00e7\u00e3o, que se aglomera para ouvir parte dos relatos. Chora ao se lembrar das torturas que presenciou e \u00e9 abra\u00e7ada por uma mulher, que n\u00e3o a conhece, mas se solidariza. Mesmo ap\u00f3s ter visitado o local in\u00fameras vezes, ainda se emociona muito ao lembrar do que viveu.<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando cheguei, no dia 4 de novembro de 1969, ainda estava amamentando. Cac\u00e1 tinha 33 dias. Eu tinha passado 20 dias no hospital porque sofri uma ruptura da bexiga durante o parto. Sangrava muito e tinha apenas uma calcinha, sem absorvente. Na cela n\u00e3o tinha chuveiro, s\u00f3 uma pia. S\u00f3 me deixaram tomar banho um m\u00eas depois. Eu fedia a leite azedo\u201d, conta ela, que foi presa ao lado do ent\u00e3o marido Luiz Roberto Clauset por emprestar sua casa para o encontro de membros da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), entre eles o l\u00edder Carlos Marighella. \u201cA gente era cururu [militante de menor import\u00e2ncia na organiza\u00e7\u00e3o]. Eles queriam saber quem mais a gente conhecia. Naquele dia tocou o telefone na delegacia e algu\u00e9m gritou: \u2018ele entrou!\u2019. Os policiais sa\u00edram correndo, agarraram um monte de arma, mandaram a gente descer pras celas. Mais tarde voltaram gritando: \u2018matamos o chefe!\u2019\u201d, conta ela. O chefe, no caso, era Marighella, morto em uma emboscada no pr\u00f3prio dia 4. \u201cNingu\u00e9m acreditou. Mas a\u00ed chegou a fot\u00f3grafa Makiko Kishi, que tinha sido presa ao fotografar o corpo dele, que confirmou a informa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7828\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/1418512628_738857_1418517857_sumario_grande.jpg\" border=\"0\" width=\"560\" height=\"373\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/1418512628_738857_1418517857_sumario_grande.jpg 560w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/1418512628_738857_1418517857_sumario_grande-300x200.jpg 300w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/1418512628_738857_1418517857_sumario_grande-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">Reprodu\u00e7\u00e3o de uma das celas do Dops, no Memorial da Resist\u00eancia. \/ <span class=\"s1\">VICTOR MORIYAMA<\/span><\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><br \/><\/span><\/address>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">Rose ficou no Dops por 50 dias. A todo momento ouvia dos policiais que buscariam seu filho rec\u00e9m-nascido para tortur\u00e1-lo. Teve uma infec\u00e7\u00e3o que s\u00f3 foi tratada tarde, motivo pelo qual desconfia nunca mais ter podido engravidar. Bonita, foi apelidada pelos guardas de Miss Brasil. \u201cDiziam: acabou de ter um filho e como tem esse corpo? \u00c9 uma vaca. Uma vaca terrorista\u201d, lembra. Assim como muitas outras mulheres que passaram pelo Dops, foi violentada. Por diversas vezes foi colocada em uma sala e despida. \u201cO [policial Jo\u00e3o Carlos] Tralli me colocava debru\u00e7ada e enfiava o dedo em mim. E como eu estava fedida por causa do leite ele me beliscava, me batia, por eu atrapalhar o prazer dele.\u201d Algum tempo depois, um m\u00e9dico aplicou nela uma inje\u00e7\u00e3o que cortou o leite.<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">Depois do Dops, a jornalista foi levada para o pres\u00eddio Tiradentes, onde dividiu cela com a presidenta Dilma Rousseff (PT), uma \u201cjovem estudiosa e inteligente\u201d. Ficou l\u00e1 por sete meses. Um dia recebeu um telefonema: o padrasto, por quem foi criada desde crian\u00e7a, tinha morrido. \u201cN\u00e3o tive coragem de ir ao enterro algemada, com escolta policial. Era uma humilha\u00e7\u00e3o enorme\u201d, relata. \u201cQuando eu sa\u00ed, meu filho tinha dez meses. Foi quando comecei a conhec\u00ea-lo melhor\u201d.<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">Ao lado de seu grupo da ALN, s\u00f3 foi julgada dois anos depois e acabou absolvida, ao lado de v\u00e1rios militantes. \u201cS\u00f3 que todas as pessoas tinham tido a vida destro\u00e7ada. Mesmo sem ter sido condenados, j\u00e1 tinham sido. J\u00e1 tinham cumprido pena\u201d. No dia em que voltou ao trabalho ap\u00f3s o julgamento, numa revista t\u00e9cnica de constru\u00e7\u00e3o, foi avisada da demiss\u00e3o pelo porteiro, ainda na cal\u00e7ada do pr\u00e9dio. \u201cEle me disse que tinham me visto na imprensa, que eu era uma terrorista e que colocava todo mundo ali em perigo\u201d, relembra.<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">Logo depois, conseguiu um emprego na TV Cultura, onde trabalhou com o jornalista Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da emissora. \u201cTudo o que eu aprendi sobre televis\u00e3o foi ele quem me ensinou\u201d. O grupo conseguia fazer um jornal mais progressista para a \u00e9poca, apesar da censura. At\u00e9 chamar a aten\u00e7\u00e3o dos ditadores. \u201cUm dia, Vlado chamou todo mundo da equipe, disse que a pol\u00edcia estava na casa dele e que ele tinha decidido se apresentar. Fui para a casa apavorada. No outro dia, \u00e0 noite, era um s\u00e1bado. Dois funcion\u00e1rios da TV bateram em casa para dizer que ele havia se suicidado na cadeia\u201d, conta ela, emocionada. Apenas em 15 de mar\u00e7o do ano passado \u00e9 que a fam\u00edlia dele conseguiu ter um atestado de \u00f3bito onde constava a informa\u00e7\u00e3o verdadeira: ele foi assassinado pelos militares durante o interrogat\u00f3rio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">Dentre as marcas que ficaram em Rose ap\u00f3s esse per\u00edodo, h\u00e1 algo de positivo. \u201cSa\u00ed com a necessidade de luta. Desde que deixei a pris\u00e3o, decidi que tinha a obriga\u00e7\u00e3o de defender os direitos humanos\u201d, diz ela, que ap\u00f3s o fim da ditadura presidiu o grupo Tortura Nunca Mais, que luta contra as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, e o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana de S\u00e3o Paulo (Condepe).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cPor 34 anos eu n\u00e3o soube se meu marido estava vivo ou morto\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Apenas em 2004 Ilda Martins da Silva, de 83 anos, teve certeza de que seu marido havia sucumbido ap\u00f3s ser torturado por militares em 1969. <\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7829\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/1418512276_473792_1418514227_noticia_normal.jpg\" border=\"0\" width=\"560\" height=\"334\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">Ilda Martins da Silva, diante de uma foto do marido V\u00edrgilio tirada no dia em que ele ganhou o concurso de mais resistente dan\u00e7arino. \/ <span class=\"s1\">VICTOR MORIYAMA<\/span><\/address>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">Passavam-se 25 dias do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick quando V\u00edrgilio Gomes da Silva, o Jonas, comandante da a\u00e7\u00e3o, foi capturado e levado por militares da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante (Oban) para sede do temido departamento no Para\u00edso, em S\u00e3o Paulo. No dia seguinte, a oper\u00e1ria Ilda Martins da Silva, de 38 anos, m\u00e3e de quatro filhos, foi retirada do local onde vivia, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o, litoral norte da capital paulista, e levada para a mesma pris\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">Mulher de Virg\u00edlio, ela foi brutalmente torturada, com choques, pontap\u00e9s no peito, tapas e socos, conta ela, hoje uma senhora de 83 anos e profundos olhos azuis, que ainda se enchem de l\u00e1grimas quando ela relembra o doloroso passado. Parte de seu relato foi usado pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade e est\u00e1 no relat\u00f3rio final do grupo, entregue na semana passada \u00e0 presidenta Dilma Rousseff. No \u00faltimo s\u00e1bado, a aposentada recebeu o EL PA\u00cdS em sua casa, no Jabaquara (em S\u00e3o Paulo), para contar sobre suas lembran\u00e7as da \u00e9poca da ditadura.<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">\u201cNo dia em que fui presa, levaram tr\u00eas dos meus quatro filhos. Vlademir [8 anos], Virg\u00edlio [7 anos] e Isa [quatro meses] foram encaminhados ao Juizado de Menores. O Greg\u00f3rio [2 anos] se salvou porque estava com uma das av\u00f3s. Quando cheguei na pris\u00e3o o Virg\u00edlio j\u00e1 havia sumido.\u201d<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">De acordo com relatos de presos, o dirigente da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), movimento que lutava contra a ditadura militar, havia apanhado durante o dia anterior inteiro e a madrugada. Campe\u00e3o de resist\u00eancia ao aguentar por 72 horas um concurso de dan\u00e7a organizado pela r\u00e1dio Record em 1957, ele sucumbiu \u00e0s violentas agress\u00f5es dos militares e morreu aos gritos de \u201cest\u00e3o matando um bom brasileiro.\u201d<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">Ilda ficou oito dias na sede da Oban, depois foi levada para o Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), no centro de S\u00e3o Paulo, onde ficou um m\u00eas. Era uma presa incomunic\u00e1vel. \u201cN\u00e3o sabia nada dos meus filhos. Os policiais diziam que eu era muito perigosa, ent\u00e3o n\u00e3o podia falar com ningu\u00e9m de fora\u201d, conta ela. \u201cDepois, passaram a dizer que meus filhos estavam com a minha fam\u00edlia, o que me desesperou. Achava que eles iam sumir com as crian\u00e7as e dizer que foi culpa da minha fam\u00edlia. Essa era a minha maior tortura. N\u00e3o saber como eles estavam\u201d, conta.<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">Foi depois desse m\u00eas no Dops, quando foi transferida para o pres\u00eddio Tiradentes, que Ilda teve uma pista do paradeiro das crian\u00e7as. \u201cAproveitei uma menina que estava sendo solta, entreguei para ela o endere\u00e7o da minha fam\u00edlia e pedi para ela ir l\u00e1 e ver se eles estavam bem. Ela foi, tirou uma fotografia e conseguiu me entregar no pres\u00eddio\u201d, relembra. Antes de se reunirem \u00e0 fam\u00edlia de Ilda, Vlademir, Virg\u00edlio e Isa ficaram em uma casa do Juizado. Os mais velhos contam que eram levados pelos funcion\u00e1rios do local para visitas em resid\u00eancias ricas e oferecidos para ado\u00e7\u00e3o. \u00c0 noite, deitavam embaixo do ber\u00e7o onde a irm\u00e3 dormia e se amarravam a ele, para evitar que a levassem. Estariam preparados para lutar, se fosse o caso. Ensinados pelo pai a n\u00e3o darem informa\u00e7\u00f5es sobre a fam\u00edlia, causaram desespero quando a irm\u00e3 do militante finalmente descobriu onde as crian\u00e7as estavam e foi busc\u00e1-las. Os meninos disseram que n\u00e3o a conheciam, que n\u00e3o sabiam quem ela era. S\u00f3 depois de serem convencidos de que n\u00e3o causariam mal a ningu\u00e9m, revelaram a verdade e concordaram em ir embora.<\/p>\n<p class=\"p8\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7830\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/1418512276_473792_1418514395_sumario_grande.jpg\" border=\"0\" width=\"560\" height=\"373\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/1418512276_473792_1418514395_sumario_grande.jpg 560w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/1418512276_473792_1418514395_sumario_grande-300x200.jpg 300w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/1418512276_473792_1418514395_sumario_grande-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">Ilda aponta para sua imagem em um retrato de fam\u00edlia, em que Virg\u00edlio aparece de branco, na ponta inferior \u00e0 direita. \/ <span class=\"s1\">VICTOR MORIYAMA<\/span><\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><br \/><\/span><\/address>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">Ilda passou quase sete meses no pres\u00eddio Tiradentes, onde fazia parte do grupo das \u201cdonzelas da torre\u201d, presas pol\u00edticas agrupadas no fundo da pris\u00e3o, em um local alto, parecido a uma torre. Entre elas estava\u00a0 Dilma Rousseff, com quem a oper\u00e1ria chegou a dividir a cela por um breve per\u00edodo. Ficou por mais tr\u00eas meses incomunic\u00e1vel. \u201cMinha fam\u00edlia era proibida de me ver\u201d.<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">Um dia, foi solta. \u201cMe disseram que eu ia embora. N\u00e3o me explicaram nada.\u201d N\u00e3o tinha papel, n\u00e3o foi fichada, n\u00e3o foi julgada. \u201cHoje, vejo que minha pris\u00e3o foi um sequestro. Eu n\u00e3o tinha nenhum documento que provasse que eu havia sido presa. Quando juntei meus papeis para pedir indeniza\u00e7\u00e3o ao Estado, tive que recorrer a depoimentos das minhas companheiras de cela para provar que estive l\u00e1\u201d, conta ela.<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">\u201cTenho certeza de que me prenderam porque n\u00e3o queriam que eu fosse atr\u00e1s do Virg\u00edlio, de saber se ele estava vivo ou morto\u201d.<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">Ao sair do pres\u00eddio, tentou por algum tempo descobrir o paradeiro do marido, um dos primeiros dos 243 militantes desaparecidos na \u00e9poca, segundo dados do relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o da Verdade. Mas percebeu que estava sendo seguida e, com medo, desistiu. N\u00e3o conseguia emprego. \u201cSempre me davam uma desculpa: que eu tinha muitos filhos, que eu estava velha. Mas acho que todo mundo sabia da minha hist\u00f3ria, saiu em todos os jornais na \u00e9poca\u201d.<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">Mudou-se, ent\u00e3o, para o Chile, com a ajuda da ALN, onde ficou um ano. Depois, foi para Cuba, com os quatro filhos, onde recebeu uma casa do Governo, pens\u00e3o e seus filhos puderam fazer faculdade. Trabalhou como volunt\u00e1ria em diversas atividades e depois como costureira. Permaneceu por 18 anos, per\u00edodo em que s\u00f3 viu a fam\u00edlia brasileira uma \u00fanica vez, em 1986, quando Cuba e Brasil restabeleceram rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas.<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">Durante muito tempo, teve uma certa esperan\u00e7a de reencontrar o marido. O pr\u00f3prio Governo militar negava o assassinato dele. Na pris\u00e3o dela, os torturadores, mesmo j\u00e1 sabendo da morte dele, diziam que ele havia fugido e, enquanto a torturavam, perguntavam sobre o paradeiro dele. \u201cTodos [os militantes de esquerda] diziam que ele estava morto, mas eu n\u00e3o tinha certeza. Achava que ele pudesse estar pelas ruas, louco em consequ\u00eancia das torturas. Ou que ele estava escondido e um dia ia nos encontrar em Cuba porque ia saber que est\u00e1vamos l\u00e1.\u201d<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">Em 2004, 34 anos depois da pris\u00e3o, ela recebeu uma visita do jornalista M\u00e1rio Magalh\u00e3es, que preparava a biografia Marighella \u2013 O guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia Das Letras, 2012), sobre Carlos Marighella, o fundador da ALN. Ele trazia uma c\u00f3pia de um documento mantido sob sigilo pela ditadura, o laudo da necropsia de Virg\u00edlio, datado de 7 de outubro de 1969.<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">Ele continha uma fotografia do militante morto, ap\u00f3s as torturas, impress\u00f5es digitais e o nome dele completo, al\u00e9m da causa da morte: traumatismo cr\u00e2nioencef\u00e1lico por instrumento contundente. Tamb\u00e9m continha uma lista dos horrores praticados com seu corpo: fratura completa circular com afundamento do osso frontal do rosto, fratura completa da oitava, nona e d\u00e9cima costelas, escoria\u00e7\u00f5es nos dois punhos (compat\u00edveis com o pau de arara), hematomas na regi\u00e3o escrotal (devido a choques el\u00e9tricos no local), e outras dezenas de traumas.<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">O documento dizia ainda que o corpo havia sido encontrado em um terreno baldio. \u201cEra uma forma de dizer que ele tinha sido morto por bandidos. Mas os bandidos eram eles, os militares\u201d, explica Ilda. Apesar de estar plenamente identificado, Virg\u00edlio foi enterrado como indigente. E o documento dizia onde: no cemit\u00e9rio de Vila Formosa. Com esse laudo, a fam\u00edlia conseguiu obter um atestado de \u00f3bito definitivo, ao inv\u00e9s de um de morte presumida. Tamb\u00e9m conseguiu a exuma\u00e7\u00e3o de restos mortais no local onde o militante estaria. Feita no final de 2010, Ilda diz que ainda n\u00e3o sabe qual foi o resultado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">O relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o da Verdade afirma que at\u00e9 o momento nada foi identificado na exuma\u00e7\u00e3o. Mas que novas escava\u00e7\u00f5es devem ser feitas em locais onde estariam enterrados mais desaparecidos pol\u00edticos. \u201cGostaria que houvesse um empenho para se achar a ossada porque isso muda muita coisa. A gente passa a ter um lugar, a saber onde ele est\u00e1. Enquanto a gente n\u00e3o sabe \u00e9 uma vida sem fim.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cA pesquisa sobre o meu tio morto me reconectou com a fam\u00edlia\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"line-height: 15.8079996109009px;\">Os sobrinhos de Raul conseguiram provar neste ano a causa real da morte do tio: assassinato causado pelas torturas dos militares. <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"line-height: 15.8079996109009px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7831\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/1418517456_074106_1418521207_noticia_normal.jpg\" border=\"0\" width=\"560\" height=\"324\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/1418517456_074106_1418521207_noticia_normal.jpg 560w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/1418517456_074106_1418521207_noticia_normal-300x174.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><br \/><\/span><\/strong><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">Felipe Carvalho Nin Ferreira, 28, com a foto do tio desaparecido. \/ <span class=\"s1\">DANIEL MARENCO<\/span><\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Miguel demorou cerca de quatro d\u00e9cadas para chorar em p\u00fablico a morte do irm\u00e3o, Raul Amaro Nin Ferreira, morto em 1971 no Hospital Central do Ex\u00e9rcito (HCE) do Rio de Janeiro. O fez em junho deste ano, na frente de uma \u00e1rvore rec\u00e9m plantada no dia em que Raul completaria 70 anos, se n\u00e3o tivesse sido torturado at\u00e9 sua morte nos por\u00f5es da ditadura brasileira (1964-1985). Miguel, que sempre manteve um tenso sil\u00eancio sobre o epis\u00f3dio em casa, desmanchou-se na frente de um de seus dois filhos. &#8220;Nunca tinha visto ele chorar pela lembran\u00e7a do irm\u00e3o. Foi uma vida inteira engolindo a dor, o que marcou muito a personalidade dele e a fam\u00edlia toda&#8221;, relata o ca\u00e7ula de 28 anos, Felipe Nin. Naquele dia Miguel deixou escapar: &#8220;finalmente estou enterrando meu irm\u00e3o da forma correta&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A forma correta queria dizer com a verdade marcada no papel, porque a fam\u00edlia nunca acreditou que o engenheiro de 27 anos, militante do Movimento Revolucion\u00e1rio 8 de Outubro, havia morrido de infarto, como os militares disseram na \u00e9poca. Foi com a for\u00e7a da incredulidade que Mariana Lanari, m\u00e3e de Raul, abriu o caminho para a descoberta da verdadeira vers\u00e3o dos fatos. &#8220;O papel que ela teve foi muito importante porque ela lutou sozinha e conseguiu, ainda na ditadura, desfazer a mentira oficial provando que meu tio foi torturado e assassinado&#8221;, conta Felipe. Motivada pelo fervor cat\u00f3lico e pela determina\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia de Vladimir Herzog em mudar a vers\u00e3o oficial da morte do jornalista, a av\u00f4 de Felipe tornou-se uma das primeiras pessoas no Brasil em reclamar com sucesso a responsabilidade da Uni\u00e3o na morte do filho. A vit\u00f3ria s\u00f3 chegou em 1994. Mas uma d\u00e9cada depois Mariana morreu e com ela se foram os encontros da ampla fam\u00edlia e a hist\u00f3ria at\u00e9 ent\u00e3o conhecida de Raul, edulcorada pelo amor de m\u00e3e e pelas lembran\u00e7as dilu\u00eddas pelo tempo.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Tiveram que se passar mais 20 anos para que os detalhes da descoberta de Mariana fossem reconstru\u00eddos a partir de dezenas de documentos oficiais. N\u00e3o foi a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade ou os irm\u00e3os de Raul os que teceram (quase) toda a hist\u00f3ria, mas os sobrinhos mais novos, um jovem advogado e um arquiteto, os filhos do pai que chorou pela primeira vez. &#8220;N\u00f3s tivemos sorte porque recebemos toda a documenta\u00e7\u00e3o digitalizada, mas existem milhares de documentos jogados no ch\u00e3o \u00famido de dep\u00f3sitos&#8221;, lembra Felipe.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">MAIS INFORMA\u00c7\u00d5ES<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><span> <\/span>\u2022<span> <\/span>Empresas passavam \u2018listas negras\u2019 de trabalhadores<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><span> <\/span>\u2022<span> <\/span>Brasil reescreve a sua hist\u00f3ria ao revelar detalhes da ditadura<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><span> <\/span>\u2022<span> <\/span>Acusadas 377 pessoas por graves viola\u00e7\u00f5es durante a ditadura<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><span> <\/span>\u2022<span> <\/span>\u201cEu acho, n\u00e3o, tenho quase certeza que eu n\u00e3o fui estuprada\u201d<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><span> <\/span>\u2022<span> <\/span>Dilma: \u201cAs marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A pesquisa documental, iniciada em julho de 2012, acabou um ano e seis meses depois com um relat\u00f3rio de 300 p\u00e1ginas que foi apresentado \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade do Rio de Janeiro e motivou um novo laudo m\u00e9dico sobre a morte de Raul Amaro onde se defendeu a rela\u00e7\u00e3o da morte com prolongadas sess\u00f5es de torturas sofridas durante o encarceramento. &#8220;Ele j\u00e1 n\u00e3o tinha mais condi\u00e7\u00f5es de andar e estava enrolado em uma manta. Aquilo me marcou muito porque foi a primeira vez que vi algu\u00e9m agonizando&#8221;, testemunhou em 1981 o ex-soldado Marco Aur\u00e9lio Magalh\u00e3es, presente nos interrogat\u00f3rios de Raul, antes de o militante ser transferido para o hospital.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O relat\u00f3rio dos irm\u00e3os abre tamb\u00e9m a possibilidade de que Raul Amaro tenha sido torturado no pr\u00f3prio hospital militar com a coniv\u00eancia da equipe m\u00e9dica. O caso \u00e9 considerado muito relevante na reconstru\u00e7\u00e3o dos anos de chumbo do Brasil porque abriu as portas para a investiga\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias outras mortes no HCE. Os pr\u00f3prios sobrinhos ficaram surpresos em descobrir como aquele epis\u00f3dio havia sido documentado. &#8220;H\u00e1 mais de 50 p\u00e1ginas relatando o per\u00edodo que ele ficou preso, \u00e9 uma quantidade muito grande de informa\u00e7\u00e3o&#8221;, avalia Felipe. O mergulho em toda aquela documenta\u00e7\u00e3o oficial permitiu reconstruir detalhes cru\u00e9is como a ordem de um coronel para adicionar nos autos que o pai de Raul tinha delatado o pr\u00f3prio filho. &#8220;Encontramos at\u00e9 o bilhete em que ele pedia para modificar o relat\u00f3rio para incluir o papel delator do nosso av\u00f4. Foi tudo uma montagem&#8221;, afirma Felipe.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3e de Raul nunca mencionava o envolvimento pol\u00edtico do filho na luta contra o regime. Ao que parece, ela nunca o assumiu. Mas as entrevistas dos sobrinhos com o c\u00edrculo pr\u00f3ximo do tio revelaram que o engenheiro se debatia entre manter sua condi\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel de funcion\u00e1rio no Minist\u00e9rio da Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio ou entrar de cabe\u00e7a no movimento guerrilheiro revolucion\u00e1rio. &#8220;Raul era um ponto de interroga\u00e7\u00e3o sobre duas pernas&#8221;, relatou a ex-namorada Vera Marina aos jovens. A pesar da indecis\u00e3o que o caracterizava, dessa vez Raul n\u00e3o teve a op\u00e7\u00e3o de decidir e nenhum dos parentes sabia, nem quis saber, o que de verdade aconteceu.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Lidar com a parte afetiva desta hist\u00f3ria foi o mais dif\u00edcil. A pesquisa me aproximou e me reconectou com a fam\u00edlia. Nunca antes tivemos a no\u00e7\u00e3o do que representava esta hist\u00f3ria, o que significava esta busca para as pessoas. \u00c0s vezes, pequenas coisas para n\u00f3s eram enormes para o resto&#8221;, conta Felipe ao lembrar do desconforto que a ex-namorada do seu tio sentiu ao ser convidada para ir a uma pizzaria na mesma rua onde Raul vivia.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Preso em primeiro de agosto de 1971 durante uma blitz do Ex\u00e9rcito quando voltava de uma festa &#8220;com atitude suspeita&#8221;, conforme uma das quatro vers\u00f5es dos relat\u00f3rios da pris\u00e3o, Raul ficou mais 11 dias nas m\u00e3os dos militares antes de morrer. At\u00e9 o dia de hoje e apesar de que sua m\u00e3e ter conseguido que a Uni\u00e3o reconhecesse seu papel nas torturas infligidas ao filho, a certid\u00e3o de \u00f3bito de Raul Amaro ainda mant\u00e9m em branco a causa de sua morte.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 algo a ser conquistado, mas n\u00e3o tem sido nosso objetivo&#8221;, ressalta Felipe, ocupado com quest\u00f5es mais priorit\u00e1rias para ele. &#8220;O mais importante para n\u00f3s \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o do nunca mais. A transforma\u00e7\u00e3o dos locais de repress\u00e3o e tortura em locais de mem\u00f3ria cumpre um papel muito mais importante do que prender os algozes do meu tio&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O antigo pr\u00e9dio do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), mais um lugar em decad\u00eancia no centro do Rio, \u00e9 o local escolhido para ilustrar esta reportagem. Aqui foi onde Raul Amaro passou os primeiros dias do seu cativeiro antes de ser enviado ao hospital agonizando, e onde outros muitos cariocas, como o taxista que nos levou at\u00e9 l\u00e1, viram pela ultima vez seus familiares. Hoje o principal objetivo do sobrinho Felipe, vestido com uma camiseta estampada com a fachada do edif\u00edcio, \u00e9 ganhar a batalha que seu tio n\u00e3o conseguiu: contrariar a vontade dos agentes. A luta \u00e9 evitar que a pol\u00edcia construa ali um museu da corpora\u00e7\u00e3o. Eles querem que o local seja transformado em uma esp\u00e9cie de homenagem arquitet\u00f4nica a Raul Amaro e \u00e0s mais de 400 v\u00edtimas que n\u00e3o se curvaram diante o sistema.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; El Pa\u00eds<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma mulher que passou d\u00e9cadas sem saber se o marido estava morto; dois sobrinhos que reconstru\u00edram os \u00faltimos dias do tio e uma jornalista que ainda enfrenta pesadelos ap\u00f3s a passagem pela pris\u00e3o e a tortura. Tr\u00eas relatos que resumem o horror e o drama retratados pelo\u00a0relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, divulgado nesta semana. 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