{"id":7850,"date":"2015-01-12T16:35:02","date_gmt":"2015-01-12T16:35:02","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2015\/01\/12\/infancia-roubada-pela-ditadura\/"},"modified":"2015-01-12T16:35:02","modified_gmt":"2015-01-12T16:35:02","slug":"infancia-roubada-pela-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2015\/01\/12\/infancia-roubada-pela-ditadura\/","title":{"rendered":"Inf\u00e2ncia roubada pela Ditadura"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ratos, lixo hospitalar e separa\u00e7\u00e3o no livro que narra hist\u00f3rias de crian\u00e7as apreendidas em Alagoas por militares<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.extralagoas.com.br\/vgmidia\/resize\/590\/390\/imagens\/8905_ext_arquivo.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\" \/>Andre tinha 4 anos e a irm\u00e3, Priscila, 3 quando foram levados junto com os pais para a pris\u00e3o, em 1969  <!--more-->  <\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s dois anos de muita pesquisa, 2014 foi de esclarecimento para muitos brasileiros. A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade divulgou no in\u00edcio de dezembro o relat\u00f3rio sobre as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos entre 1946 e 1988, abarcando os anos de chumbo da ditadura militar.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Com o objetivo de levantar a verdade hist\u00f3rica, o material serviu como um tipo de justi\u00e7a, mesmo que tenha passado bem longe dos tribunais brasileiros.Entre depoimentos e desabafos, um material se destacou por focar em pessoas que viviam dentro do ativismo contra a ditadura, mas que ainda n\u00e3o entendiam os fatos pol\u00edticos do pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O livro Inf\u00e2ncia Roubada &#8211; <\/strong>Crian\u00e7as atingidas pela Ditadura Militar no Brasil \u2013 narra com detalhes o que acontecia com os filhos daqueles que discordavam do regime pol\u00edtico da \u00e9poca.Em Alagoas, tr\u00eas das muitas crian\u00e7as que foram capturadas contam os abusos da press\u00e3o militar. Uma delas \u00e9 Andr\u00e9 Almeida Cunha Arantes, filho de ativistas contra a ditadura, que mudou-se com a fam\u00edlia de S\u00e3o Paulo para o territ\u00f3rio alagoano.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong> JERRY, O RATO<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u201cTinha 3 anos e l\u00e1 est\u00e1vamos em mais uma situa\u00e7\u00e3o estranha. Durante a noite, uns \u2018amigos\u2019 de meus pais vieram nos buscar em nossa pequena casa que ficava no interior de Alagoas, mais precisamente em Pariconha, distrito de \u00c1gua Branca no alto sert\u00e3o. Nos levaram de jipe para um castelo (Policl\u00ednica da Pol\u00edcia Militar de Alagoas), em Macei\u00f3. Lembro que achei aquilo estranho. Como era noite, o castelo pareceu meio sombrio\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Quando acordou pela manh\u00e3, ele percebeu que seu castelo era um quarto pequeno, cinza e com grades. Da policl\u00ednica da PM foram para a Escola de Marinha de Alagoas. L\u00e1, ele tinha regalias e poderia descer at\u00e9 o p\u00e1tio cheio de lixo e brincar em meio aos Jerrys, nome dado pela sua m\u00e3e aos ratos que transitavam pelo local.\u201cComia no restaurante dos oficiais at\u00e9 o dia em que um oficial pediu que a minha m\u00e3e me deixasse com ele e a esposa, j\u00e1 que ela n\u00e3o tinha futuro pra me oferecer. Mais do que depressa, minha m\u00e3e me pegou pela m\u00e3o e saiu dali.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">No dia seguinte, j\u00e1 est\u00e1vamos comendo no restaurante dos soldados e dias mais tarde fomos transferidos para outra pris\u00e3o\u201d, lembra.Andr\u00e9, a m\u00e3e e a irm\u00e3 ficaram quatro meses presos, j\u00e1 o pai, dois meses a mais. No final desse per\u00edodo foram levados a julgamento, em Recife (PE). Em Alagoas, quando n\u00e3o encontravam o marido prendiam a mulher.\u00a0\u201cCom isso a advogada pediu a liberta\u00e7\u00e3o de nossa m\u00e3e. Acatado o pedido, fomos os tr\u00eas libertados. Meu pai ficou preso mais algum tempo e depois fugiu da pris\u00e3o durante um jogo de futebol entre os dois principais times de Alagoas\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong> JANELA DE PAPEL<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Irm\u00e3 de Andr\u00e9, Priscila tamb\u00e9m tem suas lembran\u00e7as. \u201cPriscila Almeida Cunha Arantes. Foi este o nome que os meus pais me deram em 1\u00ba de maio de 1966 quando nasci, mas n\u00e3o foi este o nome que utilizei at\u00e9 meus 11 anos de idade, quando, ent\u00e3o, meu pai foi preso e minha m\u00e3e ficou foragida, na \u00e9poca da ditadura militar em nosso pa\u00eds. At\u00e9 os meus 11 anos, sempre fui Priscila Guimar\u00e3es Silva, uma crian\u00e7a feliz que vivia como muitas outras de minha idade na periferia de S\u00e3o Paulo com a fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A vida seria de qualquer crian\u00e7a se n\u00e3o fosse o mist\u00e9rio das janelas da casa estarem sempre forradas de papel. Sem contar a mania de seu pai em escutar r\u00e1dio t\u00e3o baixo dentro do quarto. \u201cCerto dia, fomos tirados \u00e0s pressas da avenida Itaquera e levados por meu tio Bruno, irm\u00e3o da minha m\u00e3e, de carro, at\u00e9 Belo Horizonte para a casa de minha av\u00f3 materna. N\u00e3o entendia ao certo porque est\u00e1vamos indo para Belo Horizonte e muito menos o que de fato acontecera.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Mas sabia que era algo muito grave, e alguma coisa acontecera ao meu pai. E de fato ocorreu. Meu pai fora capturado em plena esta\u00e7\u00e3o Para\u00edso, do Metr\u00f4 \u2013 nome engra\u00e7ado! \u2013 pelos militares, em dezembro de 1976\u201d.O pai de Andr\u00e9 e Priscila, Aldo Silva Arantes, nasceu a 20 de dezembro de 1938, em An\u00e1polis (GO). Estudante de direito da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica, do Rio de Janeiro, foi eleito presidente da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE).<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Em dezembro de 1963 casou-se com Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes. Ap\u00f3s o golpe militar de 31 de mar\u00e7o de 1964, exilou-se em Montevid\u00e9u, no Uruguai.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">De volta ao Brasil em 1965, passou a viver na clandestinidade. Em 1968, realizava trabalho pol\u00edtico junto aos camponeses no sert\u00e3o de Alagoas. Em 1972, ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Exerceu o mandato de deputado federal por quatro vezes e foi constituinte em 1988.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Maria Auxiliadora de Almeida Cunha, nascida a 5 de novembro de 1940, em Belo Horizonte (MG), ap\u00f3s sair da pris\u00e3o seguiu com a milit\u00e2ncia de combate \u00e0 ditadura militar. Psic\u00f3loga, mestre em Psicologia Cl\u00ednica e doutora em Ci\u00eancias Sociais pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo, foi coordenadora Geral de Combate \u00e0 Tortura da Secretaria de Direitos Humanos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica (2009-2010).<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Mais uma vez Pariconha<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Em 1968, aos 5 anos de idade, Rita de C\u00e1ssia Resende foi morar com os pais Gilberto e Rosemary em Pariconha, no interior de Alagoas. Ali, eles eram chamados de \u201cJuarez\u201d e \u201cRosa\u201d. A explica\u00e7\u00e3o era que esses nomes seriam sin\u00f4nimos de seguran\u00e7a.Brincava de fazer carro de boi com cacto e palito de dente, fazia guerra de mamona.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Ganhou um pote de barro para carregar \u00e1gua na cabe\u00e7a, mas quebrou. Divertia-se com coisas simples da regi\u00e3o, pois n\u00e3o tinha brinquedo.\u201cFui feliz ali at\u00e9 o dia que aconteceu algo que uma crian\u00e7a n\u00e3o pode entender, nem suportar sem sentir pavor e inseguran\u00e7a. Foi uma noite de pesadelo. Acordei com batidas fortes na porta, gritos, depois porta caindo, a casa sendo invadida por soldados fortemente armados. Hoje eu diria que foi um filme de terror\u201d.Enfim, a pris\u00e3o. Tinha quinze minutos para almo\u00e7ar em um refeit\u00f3rio que sa\u00eda para um pequeno p\u00e1tio.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Corria para l\u00e1 junto a Priscila, o Andr\u00e9 e outras crian\u00e7as presas pol\u00edticas, querendo brincar. \u201cHavia muita sujeira e hoje sei que era lixo hospitalar jogado a c\u00e9u aberto no p\u00e1tio do Hospital do 20\u00ba Batalh\u00e3o da Pol\u00edcia Militar de Alagoas. Apesar dos esfor\u00e7os de meus pais, depois que sa\u00edmos dali s\u00f3 consegui me alfabetizar aos nove anos de idade\u201d.A m\u00e3e de Priscila, Rosemary Reis Teixeira nasceu em 26 de mar\u00e7o de 1944, em Goi\u00e2nia, Goi\u00e1s. Em mar\u00e7o de 1967, com o acirramento da repress\u00e3o, Rosemary e Gilberto casam \u00e0s escondidas e entram para a clandestinidade.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Em abril do mesmo ano, o casal e a filha adotiva Rita v\u00e3o viver em Pariconha. L\u00e1, Rosemary passa a usar o codinome de Rosa e Gilberto assume o codinome de Juarez Echeverria.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Em Pariconha fazem trabalho de base com os camponeses do sert\u00e3o alagoano. Rosemary atua na alfabetiza\u00e7\u00e3o de camponeses por meio do m\u00e9todo Paulo Freire e na politiza\u00e7\u00e3o das mulheres da regi\u00e3o. Hoje, Rosemary \u00e9 servidora p\u00fablica estadual aposentada. Gilberto Franco Teixeira nasceu em 18 de junho de 1941, tamb\u00e9m em Goi\u00e2nia. Depois do per\u00edodo de trabalho de base junto aos camponeses de Pariconha e da pris\u00e3o, j\u00e1 de volta a Goi\u00e1s, Gilberto volta \u00e0 universidade e termina o curso de direito.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong> SERVI\u00c7O<\/strong><br \/> A hist\u00f3ria completa dessas e de outras v\u00edtimas est\u00e3o no livro Inf\u00e2ncia Roubada &#8211; Crian\u00e7as atingidas pela Ditadura Militar no Brasil \u2013, que est\u00e1 dispon\u00edvel online pelo site www.comissaodaverdade.org.br.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Extra Alagoas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ratos, lixo hospitalar e separa\u00e7\u00e3o no livro que narra hist\u00f3rias de crian\u00e7as apreendidas em Alagoas por militares Andre tinha 4 anos e a irm\u00e3, Priscila, 3 quando foram levados junto com os pais para a pris\u00e3o, em 1969<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7850"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7850"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7850\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7850"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7850"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7850"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}