{"id":7917,"date":"2015-03-30T16:40:28","date_gmt":"2015-03-30T16:40:28","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2015\/03\/30\/vitimas-da-ditadura-mostram-revolta-com-pedidos-de-intervencao-militar\/"},"modified":"2015-03-30T16:40:28","modified_gmt":"2015-03-30T16:40:28","slug":"vitimas-da-ditadura-mostram-revolta-com-pedidos-de-intervencao-militar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2015\/03\/30\/vitimas-da-ditadura-mostram-revolta-com-pedidos-de-intervencao-militar\/","title":{"rendered":"V\u00edtimas da ditadura mostram revolta com pedidos de interven\u00e7\u00e3o militar"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cl\u00ednicas do Testemunho atendem 140 pessoas que sofreram com o regime.<br \/> &#8216;A ditadura \u00e9 a lei do inferno&#8217;, diz militar torturado por elogiar Brizola.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7914\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/000_mvd6672879.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\" \/>Faixas pediram a interven\u00e7\u00e3o militar em protestos do dia 15 de mar\u00e7o (Foto: Nelson Almeida\/AFP)  <!--more-->  <\/address>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Em um supermercado da Zona Norte do Rio, Belmiro Dem\u00e9sio Berraro Filho, de 68 anos, ouve na fila uma mulher reclamando da corrup\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Em certo momento, ela se vira e diz que \u00e9 a favor da interven\u00e7\u00e3o militar, pedida por uma minoria durante manifesta\u00e7\u00f5es do dia 15 de mar\u00e7o em todo o pa\u00eds \u2013 neste s\u00e1bado (28) um pequeno grupo fez outra passeata pelo Centro do Rio. A rea\u00e7\u00e3o foi contundente.<\/p>\n<p> &#8220;A senhora foi presa, perdeu filhos, pais, m\u00e3es nos por\u00f5es? A senhora n\u00e3o sabe o que est\u00e1 falando. Ditadura \u00e9 a lei do inferno. Eles respondem com morte, com fogo, terror e maldade\u201d, lembra-se Belmiro, em entrevista ao G1.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Ele \u00e9 uma das 140 pessoas atendidas pelas Cl\u00ednicas do Testemunho, da Comiss\u00e3o de Anistia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, que forma n\u00facleos de apoio e aten\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica aos afetados pela viol\u00eancia do estado durante a ditadura militar. Aplicado h\u00e1 dois anos e vinculado \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade \u2013 que investiga crimes da ditadura \u2013, o projeto instalou cinco cl\u00ednicas nesta primeira etapa: duas em S\u00e3o Paulo e uma em Porto Alegre, Rio e Recife.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Segundo o relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, o n\u00famero de mortos e desaparecidos durante a ditadura militar chegou a 434: 210 desaparecidos, 191 mortos e 33 corpos encontrados. Foramresponsabilizados 377 agentes das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Belmiro foi um dos 3.340 militares da Aeron\u00e1utica perseguidos. Ele conta que o sonho de ser aviador servindo ao pa\u00eds foi interrompido em 1969, quando perguntado por outro militar a respeito de Leonel Brizola, ent\u00e3o ex-governador do Rio Grande do Sul \u2013 depois governou tamb\u00e9m o Rio de Janeiro \u2013 e um dos maiores representantes da esquerda. Ao responder que &#8220;nenhum pol\u00edtico da \u00e9poca chegava aos p\u00e9s&#8221;, caiu em uma armadilha quase fatal.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;O capit\u00e3o me chamou, e na sexta-feira \u00e0 tarde j\u00e1 estava preso. Passei 15 dias dentro de um inferno. Fui poupado da morte. Fui colocado no ch\u00e3o e fui levado para ser sacrificado por ser subversivo, comunista e elemento perigoso para a p\u00e1tria. Quando houve o disparo de fuzil na minha cabe\u00e7a, a bala n\u00e3o pegou nela. Bateu na relva, do lado da minha cabe\u00e7a. Fui penalizado com torturas, recebi um chute na minha testa com bota que me rendeu uma cicatriz at\u00e9 hoje, urinaram no meu peito, fui humilhado. Mas estou vivo&#8221;, conta, emocionado.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s quatro anos se dividindo entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, veio para o Rio em 1973, onde vive at\u00e9 hoje. Os pedidos pela interven\u00e7\u00e3o militar na passeata contra a corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras e pelo impeachment de Dilma Rousseff, na Praia de Copacabana, causou revolta. &#8220;Eles n\u00e3o t\u00eam no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 viver dentro dos muros de um quartel, dentro de um inferno. Prometeram em 1964 que haveria novas elei\u00e7\u00f5es e elas nunca existiram&#8221;, lembra.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><strong> Cl\u00ednica como pol\u00edtica de estado<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Jane Alencar, de 70 anos, tamb\u00e9m \u00e9 atendida pelas Cl\u00ednicas da Testemunho, que a Comiss\u00e3o da Verdade do Rio, em seu relat\u00f3rio parcial, ao qual o G1 teve acesso, recomenda \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade que seja transformada em pol\u00edtica de Estado. Para ela, defender a interven\u00e7\u00e3o revela &#8220;um profundo desconhecimento da hist\u00f3ria do Brasil&#8221;.<\/p>\n<p> &#8220;Tivemos duas ditaduras, com Get\u00falio Vargas e civil-militar, que s\u00f3 deixaram marcas de dor e retrocesso. Essas pessoas deveriam estudar um pouco a hist\u00f3ria do nosso pa\u00eds e ver que a democracia tem falhas, limita\u00e7\u00f5es. \u00c9 um processo lento e dificil, mas n\u00e3o existe melhor alternativa pol\u00edtica.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7915\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/foto_1_1.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">Celas femininas ficavam no 1\u00ba andar do DOPS-RJ\/<span style=\"font-size: 12.1599998474121px; line-height: 1.3em;\">(Foto: Marcelo Elizardo\/ G1)<\/span><\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12.1599998474121px; line-height: 1.3em;\"><br \/><\/span><\/address>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Jane diz que foi detida tr\u00eas vezes durante a ditadura, teve de encarar uma das mais temidas pris\u00f5es do per\u00edodo: o pr\u00e9dio do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (DOPS-RJ), localizado na rua da Rela\u00e7\u00e3o. Quando foi presa pela primeira vez, tinha entre 16 e 17 anos.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fui presa porque, em uma, eu era militante da JEC [Juventude Estudantil Catolica], ligada \u00e0 Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Na outra, porque era militante do movimento estudantil de resist\u00eancia \u00e0 ditadura. Em outra vez, dava aulas para pessoas carentes em Oswaldo Cruz. Fui presa pelo Cenimar [Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00f5es da Marinha] no pr\u00e9dio da Marinha, perto da Praca Mau\u00e1, e muito torturada&#8221;, conta Jane, que diz sofrer at\u00e9 hoje com dores agudas e intensas pelo corpo, doen\u00e7as autoimunes, instabilidade emocional e ins\u00f4nia.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12.1599998474121px; line-height: 1.3em;\">&#8220;Quem sofreu essa pr\u00e1tica s\u00e1dica e covarde luta cotidianamente para superar essa sensa\u00e7\u00e3o de tristeza e revolta.\u00a0 As Cl\u00ednicas do Testemunho t\u00eam dado uma colabora\u00e7\u00e3o fundamental na busca do fortalecimento e equil\u00edbrio emocional. Queremos ainda a puni\u00e7\u00e3o disso tudo.&#8221;<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12.1599998474121px; line-height: 1.3em;\"><br \/><\/span><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong> Projeto<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Segundo a psic\u00f3loga Vera Vital, que atende aos pacientes das cl\u00ednicas, \u00e9 em grupo que eles se sentem mais \u00e0 vontade para falar.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Uma das consequ\u00eancias mais graves da viol\u00eancia repressiva foi sobre os v\u00ednculos sociais, como fam\u00edlia e amigos, e tamb\u00e9m com o Estado. Existe uma desconfian\u00e7a muito intensa tamb\u00e9m na rela\u00e7\u00e3o com os companheiros de milit\u00e2ncia. Muitas dessas v\u00edtimas jamais tinham falado com qualquer pessoa sobre tortura&#8221;, analisa Vera.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7916\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/jane_vera_dops.jpg\" border=\"0\" width=\"620\" height=\"465\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/jane_vera_dops.jpg 620w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/jane_vera_dops-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">Vera Vital (de \u00f3culos escuros) visitou pr\u00e9dio do DOPS-RJ acompanhada de Jane Alencar (ao fundo) e outras v\u00edtimas da Ditadura (Foto: Austral Foto\/Renzo Gostoli)<\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tortura silencia. E o estado brasileiro n\u00e3o criou dispositivos para ouvir essas pessoas. \u00c9 essa lacuna que queremos preencher, pedindo ao estado brasileiro que disponibilize esse dispositivo&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p> O presidente da Comiss\u00e3o da Verdade do Rio, Wadih Damous, diz que a experi\u00eancia das Cl\u00ednicas do Testemunho deveria se estender a todo o territ\u00f3rio brasileiro. &#8220;A viol\u00eancia n\u00e3o foi s\u00f3 f\u00edsica, ela deixou sequelas psicol\u00f3gicas nos filhos, maridos, esposas que ficaram. No Chile \u00e9 assim, na Argentina tamb\u00e9m e por disposi\u00e7\u00e3o de lei. O estado l\u00e1 tem obriga\u00e7\u00e3o de prestar assist\u00eancia. E j\u00e1 passou da hora disso acontecer aqui.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><strong> Recomenda\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o da Verdade<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Entre as 28 redomenda\u00e7\u00f5es do relat\u00f3rio parcial da Comiss\u00e3o da Verdade do Rio, est\u00e3o a\u00a0 cria\u00e7\u00e3o de de Espa\u00e7os de Mem\u00f3ria sobre a ditadura em pontos estrat\u00e9gicos, como o DOPS\/RJ, a Casa da Morte, em Petr\u00f3polis, a Ilha das Flores, em S\u00e3o Gon\u00e7alo, o est\u00e1dio Caio Martins, em Niter\u00f3i, entre outros.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, h\u00e1 a recomenda\u00e7\u00e3o da tipifica\u00e7\u00e3o do desaparecimento for\u00e7ado, um dos m\u00e9todos de repress\u00e3o mais caracter\u00edsticos da ditadura militar, e de retifica\u00e7\u00e3o das certid\u00f5es de \u00f3bito dos assassinados pelo regime com a realcausa mortis. O documento tamb\u00e9m pede a extin\u00e7\u00e3o jur\u00eddica do termo auto de resist\u00eancia, usado frequentemente para encobrir casos de abuso e execu\u00e7\u00e3o de civis por agentes do estado.<\/p>\n<p> &#8220;S\u00e3o termos que mostram que a ditadura ainda vive em nossos tempos. S\u00e3o tempos passados que n\u00e3o passam&#8221;, explicou Damous.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O documento ainda pede a revis\u00e3o da Lei de Anistia, assinada em 1979, que perdoa os crimes cometidos por militantes pol\u00edticos e agentes do estado durante a ditadura.<\/p>\n<p> A Comiss\u00e3o da Verdade do Rio, em seu relat\u00f3rio parcial, destacou momentos importantes, como o depoimento de Paulo Malh\u00e3es, oficial que foi respons\u00e1vel, entre outros crimes, pelo desaparecimento do corpo de Rubens Paiva. A investiga\u00e7\u00e3o descobriu, atrav\u00e9s do depoimento do coronel reformado Raimundo Ronaldo Campos, que confessou ter levado um carro a um ponto distante e o queimado. Depois, soube que aquilo havia sido feito para &#8220;justificar o desaparecimento de Rubens Paiva&#8221;.<\/p>\n<p> Malh\u00e3es, torturador confesso, deu detalhes no dia 11 de mar\u00e7o sobre o destino do corpo de Rubens Paiva, que foi jogado em um rio de Itaipava, na Regi\u00e3o Serrana do Rio. Pouco mais de um m\u00eas depois, foi encontrado morto em sua casa na Baixada Fluminense. A pol\u00edcia concluiu, em julho do ano passado, que Malh\u00e3es foi v\u00edtima de latroc\u00ednio.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; G1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cl\u00ednicas do Testemunho atendem 140 pessoas que sofreram com o regime. &#8216;A ditadura \u00e9 a lei do inferno&#8217;, diz militar torturado por elogiar Brizola. 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