{"id":7970,"date":"2015-05-26T21:30:29","date_gmt":"2015-05-26T21:30:29","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2015\/05\/26\/o-banquete-dos-mendigos-celebrou-direitos-humanos-em-plena-ditadura\/"},"modified":"2015-05-26T21:30:29","modified_gmt":"2015-05-26T21:30:29","slug":"o-banquete-dos-mendigos-celebrou-direitos-humanos-em-plena-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2015\/05\/26\/o-banquete-dos-mendigos-celebrou-direitos-humanos-em-plena-ditadura\/","title":{"rendered":"&#8216;O Banquete dos Mendigos&#8217; celebrou Direitos Humanos em plena ditadura"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>&#8221;A barra estava pesada para a m\u00fasica brasileira em 1973. Ao mesmo tempo em que o governo M\u00e9dici exterminava a guerrilha do Araguaia e os movimentos de esquerda, \u00e1lbuns como Milagre dos Peixes, de Milton Nascimento, e Chico Canta Calabar, de Chico Buarque, eram mutilados por interfer\u00eancia direta da censura. Em 10 de dezembro daquele ano, Milton e Chico foram alguns dos convidados por Jards Macal\u00e9 para participar do show O Banquete dos Mendigos, no Museu de Arte Moderna do Rio, que se tornou um manifesto contra a ditadura militar. A \u00edntegra da apresenta\u00e7\u00e3o chega ao mercado pela primeira vez, na caixa Direitos Humanos no Banquete dos Mendigos, com tr\u00eas CDs.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um documento do panorama da MPB naquele momento. Macal\u00e9, que organizou o show com Xico Chaves, escalou um elenco que ia da pr\u00e9-bossa nova de Johnny Alf, passava pela gera\u00e7\u00e3o revelada nos festivais dos anos 1960, e dava espa\u00e7o aos que haviam lan\u00e7ado seu primeiro \u00e1lbum naquele ano, caso de Gonzaguinha, Raul Seixas e Luiz Melodia. Do show ao atual lan\u00e7amento, houve v\u00e1rios percal\u00e7os envolvendo Banquete.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O plano de Macal\u00e9 era conceber um espet\u00e1culo em &#8221;autobenef\u00edcio&#8221;. &#8220;Era uma piada, n\u00e9? Mas tamb\u00e9m era s\u00e9rio porque faz\u00edamos shows para v\u00e1rias entidades ou para ajudar um amigo que precisasse. Eu estava num mau momento da carreira, havia sido desligado da gravadora em que eu estava.&#8221; Ap\u00f3s receber o sim de todos os artistas convidados, ele conversou com Cosme Alves Neto, diretor da cinemateca do MAM, que sugeriu atrelar a apresenta\u00e7\u00e3o \u00e0 mostra que a institui\u00e7\u00e3o promoveria em parceria com a ONU para celebrar os 25 anos da Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Artigos do documento foram escolhidos para serem lidos entre uma m\u00fasica e outra pelo poeta Ivan Junqueira. A escala\u00e7\u00e3o de &#8221;subversivos&#8221;, divulgada por meio de pap\u00e9is mimeografados distribu\u00eddos nas esquinas do Rio, atraiu a aten\u00e7\u00e3o de agentes da repress\u00e3o, que cercaram com tanques o entorno do MAM.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Alguns deles, ficaram pr\u00f3ximos a Maurice Hughes, o t\u00e9cnico de som, que estava em meio \u00e0 plateia estimada em 5 mil pessoas e gravou o show clandestinamente. &#8220;A grava\u00e7\u00e3o s\u00f3 existe por causa dele, um ingl\u00eas, porque nenhum brasileiro havia pensado nisso. Os agentes o vigiavam, querendo saber o que eram aquelas fitas. Ele dizia que eram fitas de eco e ia passando pro Bruce Henry (baixista do grupo Soma)&#8221;, lembra Macal\u00e9.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A \u00edntegra do show eterniza o impacto e as tens\u00f5es daquela noite, aberta por Paulinho da Viola. Durante sua apresenta\u00e7\u00e3o, lembra Macal\u00e9, houve quem gritasse &#8220;fora comunistas&#8221;. Estes foram expulsos do local pela plateia, que reagiu calorosamente durante a leitura dos artigos &#8211; alocados em uma \u00fanica faixa, no terceiro CD da caixa &#8211; que tratam diretamente de tortura e ex\u00edlio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Chico e o MPB-4 fizeram a apresenta\u00e7\u00e3o mais contundente, emendando Pesadelo (?Voc\u00ea corta um verso, eu escrevo outro\/Voc\u00ea me prende vivo, eu escapo morto?), de Maur\u00edcio Tapaj\u00f3s e Paulo C\u00e9sar Pinheiro, a Quando o Carnaval Chegar. Ap\u00f3s Bom Conselho, Chico avisa que n\u00e3o pode cantar Vai Trabalhar, Vagabundo. Mas anuncia que vai cantar um peda\u00e7o de uma m\u00fasica ainda incompleta, &#8220;chupada de Jorge Ben&#8221;. \u00c9 Jorge Maravilha, dos versos ?voc\u00ea n\u00e3o gosta de mim, mas sua filha gosta?, cuja autoria seria atribu\u00edda a Julinho da Adelaide, personagem criado pelo compositor para passar composi\u00e7\u00f5es pela censura entre 1974 e 1975. Mas o espet\u00e1culo terminaria de maneira pl\u00e1cida, com Gal Costa interpretando Ora\u00e7\u00e3o de M\u00e3e Menininha, de Dorival Caymmi.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Se tudo corresse como o planejado, o registro do show sairia em disco logo em seguida. Veio a proibi\u00e7\u00e3o. &#8220;As m\u00fasicas do disco, interpretadas por v\u00e1rios nomes, entre os quais Chico Buarque, Paulinho da Viola, Raul Seixas, Edu Lobo e Gal Costa, t\u00eam conota\u00e7\u00f5es pol\u00edticas desfavor\u00e1veis ao governo&#8221;, alegou o diretor do Departamento de Censura, Rog\u00e9rio Nunes. O lan\u00e7amento s\u00f3 foi autorizado em 1978, e no ano seguinte uma vers\u00e3o condensada em LP duplo chegou \u00e0s lojas pela RCA. \u00c0 \u00e9poca, Macal\u00e9 levou um exemplar \u00e0s m\u00e3os de Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil do governo Ernesto Geisel, ao lado de um plano educacional, causando pol\u00eamica entre a esquerda brasileira.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mesmo com a libera\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum, houve a preocupa\u00e7\u00e3o com a seguran\u00e7a e preserva\u00e7\u00e3o das fitas. Durante anos, elas ficaram guardadas em um cofre no est\u00fadio Transam\u00e9rica, sob os cuidados de um t\u00e9cnico de som, at\u00e9 voltarem \u00e0s m\u00e3os de Macal\u00e9 nos anos 1990. Ele afirma que, desde ent\u00e3o, tentava lan\u00e7ar o material na \u00edntegra, sua inten\u00e7\u00e3o desde os anos 1970.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para Jorge Mautner, um dos que subiram ao palco naquela noite, o espet\u00e1culo tamb\u00e9m foi fundamental para restabelecer a democracia no Brasil. &#8220;O povo, os estudantes, os militares e os artistas estavam l\u00e1. Era uma \u00e9poca em que parte da esquerda via os Direitos Humanos como algo burgu\u00eas, e depois se entendeu melhor seu significado. Todos sa\u00edram dali com novas vontades, que estariam presentes nas Diretas e na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Fonte &#8211; <\/span>O Estado de S. Paulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8221;A barra estava pesada para a m\u00fasica brasileira em 1973. Ao mesmo tempo em que o governo M\u00e9dici exterminava a guerrilha do Araguaia e os movimentos de esquerda, \u00e1lbuns como Milagre dos Peixes, de Milton Nascimento, e Chico Canta Calabar, de Chico Buarque, eram mutilados por interfer\u00eancia direta da censura. 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