{"id":8028,"date":"2015-07-21T11:51:51","date_gmt":"2015-07-21T11:51:51","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2015\/07\/21\/espiao-da-ditadura-cabo-anselmo-diz-que-foi-traido-por-chefe-da-repressao-apos-entregar-namorada\/"},"modified":"2015-07-21T11:51:51","modified_gmt":"2015-07-21T11:51:51","slug":"espiao-da-ditadura-cabo-anselmo-diz-que-foi-traido-por-chefe-da-repressao-apos-entregar-namorada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2015\/07\/21\/espiao-da-ditadura-cabo-anselmo-diz-que-foi-traido-por-chefe-da-repressao-apos-entregar-namorada\/","title":{"rendered":"Espi\u00e3o da ditadura, Cabo Anselmo diz que foi tra\u00eddo por chefe da repress\u00e3o ap\u00f3s entregar namorada"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Autobiografia do mais conhecido agente duplo brasileiro chega \u00e0s livrarias<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img.r7.com\/images\/2015\/07\/18\/8zq9r7f75u_6fxpqd7cpe_file?dimensions=780x536&#038;no_crop=true\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\" \/>\u201cN\u00e3o fiz nenhum juramento \u00e0 foice e ao martelo\u201d, afirma, em entrevista ao R7, Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, 74 anos, o mais conhecido agente duplo da ditadura militar. Nos anos 1960, ele era um talism\u00e3 da esquerda. Tinha um discurso incendi\u00e1rio e treinamento em Cuba. Dez anos mais tarde, revelou-se outro: infiltrado entre guerrilheiros, permitiu que a repress\u00e3o prendesse e torturasse inimigos do regime. A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade apontou, em seu relat\u00f3rio final, nove mortes relacionadas ao espi\u00e3o. Entre elas, a de Soledad Barrett Viedma, sua ent\u00e3o namorada.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEra uma pessoa doce\u201d, diz Anselmo sobre Soledad. \u201cMas en\u00e9rgica em rela\u00e7\u00f5es \u00e0s quest\u00f5es da ideologia\u201d. Capturada em 1973 com a ajuda de Anselmo, ela foi torturada e morta ao lado de outros cinco militantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria), em Pernambuco, no epis\u00f3dio que ficou conhecido como o Massacre da Ch\u00e1cara S\u00e3o Bento. \u201cFoi o pior dia da minha vida\u201d, diz Anselmo. O espi\u00e3o nega que a namorada estivesse gr\u00e1vida, como se acredita. E acusa seu chefe, o delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury, j\u00e1 falecido, de n\u00e3o ter cumprido o acordo de poup\u00e1-la. \u201cEu pedi e ele prometeu.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O infiltrado acaba de lan\u00e7ar a autobiografia Cabo Anselmo: Minha Verdade (256 p\u00e1ginas, R$ 39,90). Duas noites de aut\u00f3grafo devem acontecer nesta semana, em S\u00e3o Paulo. Marinheiro de primeira classe \u2014 uma esp\u00e9cie de soldado da Marinha \u2014 foi chamado de \u201ccabo\u201d pela imprensa e assim ficou o apelido. Na semana passada, na sede da editora Matrix, na zona oeste de S\u00e3o Paulo, ele concedeu entrevista ao R7. Por duas horas, deu detalhes sobre sua atua\u00e7\u00e3o como colaborador, tratou de sua vida e do Brasil de hoje e elogiou as \u00faltimas manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00f3-impeachment. Revelou que, an\u00f4nimo, foi ao ato de 15 de mar\u00e7o no Rio.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Anselmo respondeu sobre pontos nebulosos de sua biografia, como a ajuda do l\u00edder comunista Carlos Marighella na concep\u00e7\u00e3o do discurso que deu origem \u00e0 Revolta dos Marinheiros, em 25 de mar\u00e7o de 1964. \u201cEle mesmo sentou na m\u00e1quina e me deu o discurso pronto\u201d, diz. O encontro teria acontecido na rua M\u00e9xico, centro do Rio. A fala de Anselmo na festa de anivers\u00e1rio da associa\u00e7\u00e3o dos marinheiros provocou um levante que irritaria a c\u00fapula das For\u00e7as Armadas e se tornaria um dos estopins para o golpe militar ocorrido em 1\u00ba de abril, uma semana depois.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O espi\u00e3o deu detalhes tamb\u00e9m sobre como escapou da delegacia do Alto da Boa Vista, no Rio, em 1966. Ap\u00f3s o golpe, Anselmo permaneceu preso por dois anos. Para fugir, teria dito ao policial de plant\u00e3o que havia marcado um encontro amoroso. \u201cFoi um papo de homem: \u2018Olha, eu vou encontrar uma menina ali e tal, volto j\u00e1\u2019.\u201d A facilidade \u00e9 apontada por alguns como um ind\u00edcio de que Anselmo j\u00e1 seria, naquela \u00e9poca, um colaborador do regime, possivelmente um agente da ag\u00eancia de espionagem americana, a CIA. Ele nega.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Anselmo afirma que passou a atuar a favor da pol\u00edcia em 1971, ap\u00f3s ser novamente preso, sofrer duas sess\u00f5es de tortura e ser convidado a mudar de lado pelo delegado Fleury, um dos mais truculentos perseguidores de guerrilheiros. \u201cEu tinha j\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o: \u2018Bom, eu vou ser preso. E quando for preso, eu vou abrir o jogo\u2019.\u201d O espi\u00e3o diz ter aceitado a proposta ap\u00f3s ter se decepcionado com a realidade cubana, durante os dois anos em que esteve na ilha. \u201cQuando eu cheguei aqui [Brasil], o que eu vi nesta na\u00e7\u00e3o? As pessoas na rua, trabalhando, pleno emprego.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O espi\u00e3o confirma, ainda, a colabora\u00e7\u00e3o na captura de Jos\u00e9 Raimundo da Costa. \u201cSem d\u00favida nenhuma\u201d. Ex-colega de Anselmo na Marinha e militante da VPR, Jos\u00e9 Raimundo est\u00e1 desaparecido desde 1971. Mas nega envolvimento em outras mortes, como as de Edgar Aquino Duarte e Aluizio Palhano Pedreira Ferreira. A certa altura da entrevista, Anselmo chega a afirmar que entregou Yoshitane Fujimori, ativista da VPR morto em 1970. Mas, em seguida, nega. \u201cN\u00e3o. O Fujimori, n\u00e3o\u201d, diz. \u201cNessa \u00e9poca, eu nem estava nisso.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Anselmo fala ainda de como sobrevive desde sua \u00faltima a\u00e7\u00e3o como infiltrado, em 1973: a opera\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica para n\u00e3o ser reconhecido, o trabalho em uma madeireira e a atua\u00e7\u00e3o como consultor de recursos humanos para grandes empresas. Diz ter estudado os mestres da psicologia. \u201cEu li todo Freud, Adler, Jung.\u201d E afirma ter aplicado t\u00e9cnicas de programa\u00e7\u00e3o neurolingu\u00edstica em treinamento de pessoal. \u201cA programa\u00e7\u00e3o neurolingu\u00edstica foi boa para mim\u201d diz. \u201cMas foi muito melhor trabalhar, travar relacionamentos.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 anos, ele luta para recuperar sua carteira de identidade. \u201cVoc\u00ea tem uma para mim a\u00ed?\u201d, pergunta. Sua certid\u00e3o de nascimento sumiu, e a Marinha, apesar de ter comparado suas digitais com as cadastradas quando era marinheiro, n\u00e3o pode fornecer o documento ao homem que foi banido da corpora\u00e7\u00e3o em 1964, com o Ato Institucional n\u00ba 1 \u2014 o primeiro do regime militar. Apontado como um dos maiores traidores da hist\u00f3ria do Brasil, Anselmo diz ter a consci\u00eancia tranquila. \u201cEu n\u00e3o acorrentei ningu\u00e9m\u201d, afirma. \u201cA decis\u00e3o foi pessoal, a decis\u00e3o foi de cada um.\u201d Ele diz ter tra\u00eddo a p\u00e1tria no momento em que foi a Cuba aprender t\u00e9cnicas de guerrilha. Mas nega ter tra\u00eddo seus companheiros de luta armada. \u201cN\u00e3o fiz nenhum juramento \u00e0 foice e ao martelo.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-8022\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/blog-marinheiros-uh.png\" border=\"0\" width=\"409\" height=\"550\" \/><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Marighella, a Revolta dos Marinheiros e a fuga do Alto da Boa Vista, na vers\u00e3o de Cabo Anselmo<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, tornou-se uma figura not\u00f3ria a partir de 25 de mar\u00e7o de 1964. A associa\u00e7\u00e3o dos marinheiros, da qual era presidente, comemorava seu segundo anivers\u00e1rio. Ap\u00f3s discurso de Anselmo, os pra\u00e7as iniciaram uma revolta. A manifesta\u00e7\u00e3o acabou somente no dia seguinte. O presidente Jo\u00e3o Goulart anistiou todos os amotinados, que haviam tido pris\u00e3o decretada pela indisciplina. A c\u00fapula das For\u00e7as Armadas interpretou o ato de Jango como uma quebra na hierarquia militar. Em 1\u00ba de abril, os generais tomaram o poder.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Anselmo foi preso pouco depois do golpe. Ap\u00f3s passar por diversas pris\u00f5es, foi acomodado na carceragem da delegacia do Alto da Boa Vista, no Rio. L\u00e1 permaneceu at\u00e9 mar\u00e7o de 1966. Sua fuga, facilitada pelo policial que estava de plant\u00e3o, \u00e9 apontada como suspeita pelos que consideram que Anselmo j\u00e1 colaborava com os militares ou com a CIA desde antes do golpe ou desde o in\u00edcio do regime militar. Anselmo nega essa condi\u00e7\u00e3o e afirma que s\u00f3 passou a colaborar com o regime a partir de sua segunda pris\u00e3o, em junho de 1971.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Confira a entrevista:<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 \u2013 Em sua rec\u00e9m-lan\u00e7ada autobiografia, o senhor diz que o discurso que fez na associa\u00e7\u00e3o dos marinheiros em 1964 foi, em parte, escrito por Carlos Marighella. Como se deu isso? O senhor se encontrou pessoalmente com Marighella?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Jos\u00e9 Anselmo dos Santos \u2013 <\/strong>A diretoria da associa\u00e7\u00e3o estava dividida. Eu era a parte, digamos assim, de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Era o mocinho que fazia os discursos. Agora, a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mesmo estava com Marco Ant\u00f4nio da Silva Lima [morto pela repress\u00e3o em 1970], que era um caboclo da Para\u00edba, ponta firme, que tinha contatos pol\u00edticos. Havia outros dentro da associa\u00e7\u00e3o, uns poucos, que s\u00f3 agora eu estou sabendo, pela leitura de um outro livro, que eram do Partido Comunista. Mas o Marco Ant\u00f4nio n\u00e3o. O Marco Ant\u00f4nio era mais radical. Ent\u00e3o, ele se uniu com o pessoal do Marighella, que estava saindo do Partido Comunista. O Marco Ant\u00f4nio me levou at\u00e9 o Marighella. N\u00f3s hav\u00edamos feito uma reuni\u00e3o na diretoria para saber como seria o discurso, fizemos um esbo\u00e7o de discurso. Sa\u00edmos com Marco Ant\u00f4nio e um outro, n\u00e3o me lembro quem, para um escrit\u00f3rio na rua M\u00e9xico, no Rio. L\u00e1 estava o Marighella e mais dois outros senhores. Ele leu o discurso e disse: \u2018Ah, n\u00e3o! Vamos melhorar isso\u2019. Ele mesmo sentou na m\u00e1quina e&#8230; me deu o discurso pronto. Com toda parte ligada \u00e0 coisa pol\u00edtica, apoio \u00e0s reformas etc. e tal.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Apoio \u00e0s reformas de base?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Exato. Eu li aquele discurso umas duas, tr\u00eas vezes. Ou quatro. E tudo bem. Veja: eu era um mo\u00e7o, estava na presen\u00e7a de pessoas importantes na pol\u00edtica. Eu n\u00e3o sabia direito quem eram, mas eram pessoas importantes. T\u00e3o importantes para mim como o almirante Arag\u00e3o, t\u00e3o importantes quanto o Darcy Ribeiro, t\u00e3o importantes quanto&#8230; entende? Pessoas que eu tive contatos espor\u00e1dicos e que estavam ali para ajudar a associa\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio presidente da Academia Brasileira de Letras, Austreg\u00e9silo de Athayde, que me deu duas caixas de livro para botar na biblioteca da associa\u00e7\u00e3o. Quer dizer, essas pessoas importantes. Mas a coisa pol\u00edtica, da Guerra Fria&#8230; isso era muito t\u00eanue na minha cabe\u00e7a e na cabe\u00e7a l\u00e1 da maioria [dos marinheiros].<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor memorizou o discurso?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o. Eu li.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Outro epis\u00f3dio controverso de sua vida \u00e9 a fuga da delegacia do Alto da Boa Vista, em 1966. Como era exatamente a sua situa\u00e7\u00e3o ali na carceragem? O senhor tinha livre circula\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> O panorama era o seguinte, os pr\u00f3prios policiais achavam: \u2018Ah! isso tudo vai passar! Voc\u00ea vai ser solto logo\u2019. S\u00f3 que foram soltos, por habeas corpus, todos, quase 40 ex-marinheiros e fuzileiros navais. S\u00f3 o habeas corpus para mim \u00e9 que n\u00e3o ia para adiante. Foram soltos todos aqueles caras do Partido Comunista, sargentos etc., que estavam em uma pris\u00e3o especial l\u00e1 em cima. E o \u00fanico prisioneiro que restou fui eu. Ent\u00e3o, l\u00e1 dentro, sozinho, os policiais sempre chegavam para bater papo. O pr\u00f3prio chefe da delegacia chegou e falou: \u2018Olha, ser\u00e1 que voc\u00ea n\u00e3o podia ajudar a gente aqui a datilografar umas coisas?\u2019. Respondi: \u2018Claro!\u2019. Eu n\u00e3o tinha o que fazer. Meu neg\u00f3cio l\u00e1 era ler, fazer exerc\u00edcio no p\u00e1tio, na hora do banho de sol&#8230;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; E, mesmo na condi\u00e7\u00e3o de preso, o senhor chegou a ir para a rua?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Houve. A primeira vez que houve uma circula\u00e7\u00e3o assim livre na rua foi quando houve uma chuva forte, que toda a parte do Alto da Tijuca ficou isolada. Ent\u00e3o, toda a popula\u00e7\u00e3o ali se mobilizou para fazer assist\u00eancia \u00e0s pessoas. E o chefe que estava na delegacia, o investigador Marinho, se n\u00e3o me engano, disse: \u2018Voc\u00ea n\u00e3o quer ajudar na escola?\u2019. Eu disse: \u2018Quero. Claro! Vou l\u00e1 ajudar\u2019. E fui l\u00e1 para a escola para ajudar. Percorria algumas lojas pedindo material para alimenta\u00e7\u00e3o. E eles levavam at\u00e9 a escola, onde havia um monte de pessoas. Eu ajudei um pouco ali e depois voltei. At\u00e9 ganhei uma garrafa de vinho \u201cNau Sem Rumo\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Mas, no momento da fuga, o senhor pagou uma propina para o policial que estava no plant\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>N\u00e3o foi uma propina, n\u00e3o. O alem\u00e3oz\u00e3o que estava l\u00e1 era um cara legal, tinha fam\u00edlia etc. E eu tinha algum dinheiro. Bom, eu ia sair, n\u00e3o ia precisar mais daquele dinheiro. Algu\u00e9m ia cobrir as minhas despesas. Ent\u00e3o, eu cheguei e disse: \u2018Toma a\u00ed! Para voc\u00ea!\u201d. Eu sabia que ele era um cara casado, com filhos, com dificuldades etc. Foi muito mais uma ajuda para ele. Mas n\u00e3o como uma forma de comprar o cara. Todos eles tinham confian\u00e7a. No conv\u00edvio, se estabeleceu uma confian\u00e7a. N\u00e3o que eu fosse policial ou que tivesse me tornado policial ou coisa parecida. Foi uma confian\u00e7a humana.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor, ent\u00e3o, conseguiria sair dali sem a propina?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Sim, sem d\u00favida nenhuma. E tamb\u00e9m, [para ser liberado] foi um papo de homem: \u2018Olha, eu vou encontrar uma menina ali e tal, volto j\u00e1\u2019.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Foi a A\u00e7\u00e3o Popular [grupo de esquerda] que o ajudou na fuga?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o. A AP [A\u00e7\u00e3o Popular] passou o trabalho para a Polop, Pol\u00edtica Oper\u00e1ria [outro grupo de esquerda]. A Polop que me transportou dali. Imediatamente fomos embora. Quando descobriram que eu n\u00e3o estava mais na cadeia, na pris\u00e3o, eu j\u00e1 estava a meio caminho de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-8023\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/2b4fb96b-3612-4e84-9355-43ba2d8b4d1f.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"431\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/2b4fb96b-3612-4e84-9355-43ba2d8b4d1f.jpg 400w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/2b4fb96b-3612-4e84-9355-43ba2d8b4d1f-209x300.jpg 209w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<address>Capa do livro Cabo Anselmo: Minha Verdade, rec\u00e9m-lan\u00e7ado\u00a0(Ed. Matrix, 256 p\u00e1ginas, R$ 39,90)\/<span style=\"font-size: 12.1599998474121px; line-height: 1.3em;\">Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/span><\/address>\n<address><span style=\"font-size: 12.1599998474121px; line-height: 1.3em;\"><br \/><\/span><\/address>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cabo Anselmo confirma encontro com atleta cubana antes de ser preso: &#8216;Entreguei um chaveiro a ela&#8217;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A segunda pris\u00e3o de Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, em junho de 1971, \u00e9 um epis\u00f3dio controverso. Ap\u00f3s sua fuga do Alto da Boa Vista, em 1966, Anselmo encontrou-se com Leonel Brizola (que do ex\u00edlio tentava organizar a resist\u00eancia contra os militares) e foi, ent\u00e3o, enviado a Cuba para ter aulas de t\u00e9cnicas de guerrilha. Retornou ao Brasil em 1970, como integrante do grupo guerrilheiro VPR (Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria). Com um bilhete ao comando da organiza\u00e7\u00e3o, chega a encontrar-se, ainda em 1970, com l\u00edder Carlos Lamarca. N\u00e3o h\u00e1 uma vers\u00e3o clara, por\u00e9m, sobre como, no ano seguinte, a equipe do delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury localizou Anselmo em um apartamento da rua Martins Fontes, no centro de S\u00e3o Paulo, e o capturou. Nem o pr\u00f3prio Anselmo consegue explicar. Mas confirma ter-se encontrado, pouco antes de ser detido, com atleta cubana \u2014 uma das hip\u00f3teses \u00e9 a de que ele teria sido seguido a partir de ent\u00e3o. A imprecis\u00e3o sobre como o ex-marinheiro foi rastreado foi apontado como mais um ind\u00edcio de que ele j\u00e1 seria um infiltrado desde os anos 1960. Anselmo nega. E conta como foi torturado naquele ano.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Confira a entrevista:<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Um epis\u00f3dio que ainda deixa d\u00favidas \u00e9 a sua segunda pris\u00e3o, em 1971, no apartamento da rua Martins Fontes. O Edgar de Aquino Duarte estava com o senhor naquele momento [detido na mesma data, Edgar dividia o apartamento com Anselmo e est\u00e1 desaparecido at\u00e9 hoje]?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Jos\u00e9 Anselmo dos Santos \u2013<\/strong> N\u00e3o. O Edgar estava fora, estava no trabalho dele. Ele nem sempre estava ali, dormia em outro lugar. Aquele apartamento, ele alugou mais para me guardar. Mas ele passava l\u00e1 quase toda tarde, quando sa\u00eda do trabalho.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O Edgar estava fora da luta armada na \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> O Edgar estava. Olha, voc\u00ea quer saber uma coisa? Eu me surpreendi tamb\u00e9m lendo um livro, que baixei recentemente na internet: Todo Leme a Bombordo. Ali existe uma s\u00e9rie de coisas sobre aquelas pessoas da associa\u00e7\u00e3o [dos marinheiros]. Uma delas \u00e9 que o Edgar teria participado de um grupo de guerrilhas l\u00e1 no interior do Mato Grosso ou coisa parecida. E quando eu me encontrei com ele, no Uruguai, ele disse que n\u00e3o ia fazer nada. Ou seja: compartimentou a miss\u00e3o dele [a compartimenta\u00e7\u00e3o era uma t\u00e9cnica usada pela guerrilha para proteger seus integrantes de dela\u00e7\u00f5es: cada um guardava s\u00f3 para si sua miss\u00e3o]. Mas, quando acabou aquele neg\u00f3cio, ele se estabeleceu aqui em S\u00e3o Paulo e foi viver a vida dele. Estava absolutamente fora. Tenho certeza de que estava absolutamente fora.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Trabalhava na Bolsa?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Trabalhava na Bolsa de Valores.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Houve um depoimento recente na Comiss\u00e3o da Verdade de S\u00e3o Paulo [&#8230;]<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> [interrompe] Comiss\u00e3o da mentira. Ali\u00e1s, comiss\u00e3o da meia verdade, que \u00e9 a verdade que interessa somente para o lado do pessoal de esquerda. Eu sei que eles querem encobrir todos os erros deles, como o pessoal da direita quer encobrir tamb\u00e9m. Todos os erros de uma guerra suja que ningu\u00e9m esclareceu na totalidade.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Nesse depoimento, uma senhora chamada Maria Jos\u00e9 Wilhensen, que era pr\u00f3xima do Edgar, afirmou ter ouvido dele uma men\u00e7\u00e3o ao epis\u00f3dio do encontro com a sele\u00e7\u00e3o de v\u00f4lei cubana, no qual o senhor teria entregado \u00e0 capit\u00e3 do time um bilhete ou um presente destinado a Fidel Castro. H\u00e1 uma vers\u00e3o de que o senhor teria sido seguido e preso a partir desse epis\u00f3dio. Esse encontro com a delega\u00e7\u00e3o cubana ocorreu? O senhor foi assistir a esse jogo?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Que jogo? Que jogo? A gente tinha ido ver um filme naquele cinema da avenida S\u00e3o Jo\u00e3o, Cine Espacial. Antigamente existia: era um cinema com tr\u00eas telas e n\u00e3o sei o que l\u00e1. Fomos ver um filme ali. Quando sa\u00edmos do cinema, caminhando a p\u00e9 para chegar at\u00e9 a Martins Fontes, em frente ao hotel San Raphael, estava aquele monte de gente da delega\u00e7\u00e3o cubana. Me deu um saudosismo naquele momento. A\u00ed eu fui l\u00e1, eu tinha um chaveirinho que era um chapeuzinho de cangaceiro, e disse: \u2018Olha, toma a\u00ed para voc\u00ea\u2019. Entreguei para uma atleta. Isso \u00e9 fato. Mas foi uma coisa assim: pluf-pluf. \u2018Oi, tudo bem? Toma a\u00ed para voc\u00ea um presente\u2019.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O presente era para a atleta? N\u00e3o era para Fidel?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Que para o Fidel!? Ali\u00e1s, Fidel Castro, eu tive diante dele, a quatro metros de dist\u00e2ncia, durante horas. N\u00e3o me aproximei porque&#8230; sabe aquele neg\u00f3cio de o esp\u00edrito n\u00e3o bater? E de ver assim a cara de prepotente. Eu digo: \u2018Tem falsidade a\u00ed\u2019. N\u00e3o me aproximei.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; No livro, ao tratar dessa sua segunda pris\u00e3o, em 1971, o senhor menciona que o Alu\u00edzio Palhano Ferreira havia sumido [desaparecido pol\u00edtico, Palhano era militante da VPR com quem Anselmo mantinha contato]. O senhor atribuiu a ele a sua captura?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o. N\u00e3o atribuo ao Palhano. Quando eles encontraram o endere\u00e7o, a \u00fanica pessoa que tinha aquele endere\u00e7o era o Palhano. Ele era o chefe, o superior meu dentro daquele grupo. Digamos, era o comandante do neg\u00f3cio l\u00e1. Comandante de dois ou tr\u00eas. Muito bem. [Edson] Quaresma some [ex-marinheiro, militante da VPR], eu pego no jornal, est\u00e1 l\u00e1: morto. Da\u00ed eu vou encontrar com o Palhano, o Palhano sumiu. \u2018E agora, Jos\u00e9?\u2019 A \u00fanica pessoa que tinha, em c\u00f3digo, o meu endere\u00e7o era ele. O Carlos Alberto [hoje delegado de pol\u00edcia, o ent\u00e3o investigador Carlos Alberto Augusto agente do Dops] conta uma outra hist\u00f3ria. A hist\u00f3ria de um cheque que Edgar deu para um camarada para compra de um terreno etc. Eu fico com uma interroga\u00e7\u00e3o desse tamanho se foi esse cheque, ou se foi o Palhano, ou se eu j\u00e1 estava sendo seguido sem saber. Essa interroga\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande. A \u00fanica pessoa que poderia esclarecer, se quisesse, \u00e9 o Carlos Alberto. Mas a hist\u00f3ria do Carlos Alberto&#8230; eu tenho d\u00favidas.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; H\u00e1 quem atribua a morte do Palhano ao senhor.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Ah, n\u00e3o! tsc-tsc-tsc.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Foi antes?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Foi antes. \u00c9 s\u00f3 pegar as datas. Se voc\u00ea pegar os documentos, as datas etc., voc\u00ea vai ver. \u00c9 tranquilo.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; No livro, o senhor narra um encontro com uma pessoa em Ibi\u00fana&#8230;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>N\u00e3o, n\u00e3o vou dizer quem \u00e9.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Mas havia uma mulher na sacada que seria do Dops.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>\u00c9 que a pessoa com quem eu me encontrei disse: \u2018Voc\u00ea est\u00e1 vendo aquela pessoa na sacada? \u00c9 uma agente do Dops\u2019.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Nesse momento, o senhor estava com o Yoshitane Fujimori [militante da VPR morto pela repress\u00e3o em dezembro de 1970].<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Estava.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; E o senhor acredita que foram seguidos a partir desse encontro?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o. N\u00e3o fomos porque n\u00f3s entramos no mato. E no mato \u00e9 muito mais f\u00e1cil de observar quem que vem.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; E por que o senhor n\u00e3o quer revelar quem \u00e9 essa pessoa?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Voc\u00ea vai mexer em feridas&#8230;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Depois da captura, na Martins Fontes, o senhor foi levado ao DOPS e l\u00e1 sofreu duas sess\u00f5es de tortura? Ou foram mais?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Exatamente. Eu fui preso de tarde, umas tr\u00eas horas da tarde, por a\u00ed. Me botaram numa cela isolada e na madrugada do dia seguinte me levaram para a primeira sess\u00e3o de porrada.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Quem que eram os torturadores? Henrique Perrone [policial da equipe do delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury no Dops] estava entre eles?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Esse camarada a\u00ed era o chefe do neg\u00f3cio. Ele tinha um anel com uma caveira. E tinha outros. Eu n\u00e3o me lembro o nome dessa gente mais, n\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Nem apelido?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Eu n\u00e3o sei se tinha um Parreirinha. Deixa eu ver&#8230; Eu apaguei&#8230; Olha, \u00e9 um tro\u00e7o t\u00e3o doloroso que eu apaguei. Eu j\u00e1 citei outros nomes em outra ocasi\u00e3o, mas eu apaguei da minha mem\u00f3ria esse tro\u00e7o. \u00c9 um neg\u00f3cio muito ruim de lembrar. Muito constrangedor, \u00e9 horr\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Perrone participou da pris\u00e3o do senhor?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Eu n\u00e3o sei. Um dos que eu me lembro que participou era chamado de \u00cdndio, um camarada com cara de \u00edndio, escura. Esse participou.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Carlos Alberto Augusto participou tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> O Carlos Alberto estava ali tamb\u00e9m. Estava.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-8024\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/106741-970x600-1.jpeg\" border=\"0\" width=\"670\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<address>Foto da capa do livro: Cabo Anselmo durante a Revolta dos Marinheiros, em 1964<\/address>\n<address><\/address>\n<address><\/address>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Decis\u00e3o de entregar companheiros de luta armada foi tomada ap\u00f3s viagem a Cuba, diz Cabo Anselmo<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, afirma que, depois de sua pris\u00e3o em 1971, decidiu colaborar com a repress\u00e3o conscientemente, pois havia se desiludido com o regime socialista ap\u00f3s as passagens por Tchecoslov\u00e1quia e Cuba. Anselmo afirma tamb\u00e9m que, mais do que um agente duplo, se considerava um prisioneiro do delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury. Ele conta como ocorria sua colabora\u00e7\u00e3o, tanto na localiza\u00e7\u00e3o de militantes como na an\u00e1lise de interrogat\u00f3rios de presos.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Confira a entrevista:<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Como foi esse in\u00edcio dessa vida como agente duplo?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Jos\u00e9 Anselmo dos Santos \u2013<\/strong> \u00c9. Eu j\u00e1 tinha a inten\u00e7\u00e3o de cair fora desde que estava em Cuba. Por causa do que eu vi, por exemplo, na minha passagem pela Tchecoslov\u00e1quia, a experi\u00eancia que tive por l\u00e1, na minha passagem por Cuba, durante os dois anos. E \u00e9 gozado o seguinte: eu estive em Cuba nos dois anos e meio, mais ou menos, em que aqui se davam os maiores embates e assaltos [a banco promovidos pela guerrilha para financiar a luta armada]. Aquela coisa quente da guerrilha urbana eu n\u00e3o vivi. Cheguei aqui quando estava quase tudo acabado. Agora, veja, eu tinha j\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o: \u2018Bom, eu vou ser preso. E quando for preso, eu vou abrir o jogo\u2019. Quando eu cheguei aqui, o que eu vi nessa na\u00e7\u00e3o? As pessoas na rua, trabalhando, pleno emprego, a liberdade, aquele neg\u00f3cio todo. Tinha at\u00e9 jornal falando contra o governo j\u00e1. Quando eu vi aquele neg\u00f3cio, eu disse: \u2018Algo est\u00e1 errado\u2019. Daquela ideologiza\u00e7\u00e3o, daquela coisa vivida em Cuba&#8230; Era da \u00e1gua para o vinho. Ent\u00e3o, eu j\u00e1 tinha essa inten\u00e7\u00e3o. Na hora em que fui preso, bom, fiquei calado no in\u00edcio porque tinha uma identidade falsa e eles n\u00e3o sabiam ainda quem eu era. Depois da primeira sess\u00e3o de porrada, eles j\u00e1 sabiam quem eu era. A\u00ed, partiram para a segunda sess\u00e3o de porrada. E, no terceiro dia, eu fui levado para a presen\u00e7a do doutor Fleury [S\u00e9rgio Paranhos Fleury, um dos principais atores da repress\u00e3o]. E disse: \u2018Olha, n\u00e3o precisa mais, n\u00e3o. Est\u00e1 tudo bem. Agora eu colaboro com voc\u00eas. Eu vou ser informante de voc\u00eas. N\u00e3o tem problema nenhum\u2019.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Ent\u00e3o a iniciativa partiu do senhor?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o. Desculpa, n\u00e3o \u00e9 isso. N\u00e3o \u00e9 que a iniciativa partiu de mim. Ele disse: \u2018Voc\u00ea colabora e tudo bem\u2019. Eu disse: \u2018Est\u00e1 bom, colaboro e tudo bem. Como \u00e9 essa colabora\u00e7\u00e3o? Quais s\u00e3o os termos dessa colabora\u00e7\u00e3o?\u2019. \u2018Bom, voc\u00ea vai fazer o ponto e, depois do ponto, n\u00f3s seguimos a pessoa. Deixa que tomamos conta. \u00c9 s\u00f3 isso\u2019 [\u2018fazer o ponto\u2019 \u00e9 a g\u00edria para os encontros, que ocorriam geralmente na rua, entre os integrantes da luta armada para troca de informa\u00e7\u00e3o e material].<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; No livro, me pareceu haver uma tens\u00e3o sobre essa \u00e9poca em que o senhor era agente duplo[&#8230;]<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> [interrompe] Voc\u00ea diz agente duplo. Na minha considera\u00e7\u00e3o, eu simplesmente era um prisioneiro dando informa\u00e7\u00f5es para negociar minha pr\u00f3pria liberdade. Uma liberdade que, depois, eu vim a reconhecer como mito. Hoje, at\u00e9 voc\u00ea est\u00e1 sendo vigiado 24 horas por dia. Basta ter um celular&#8230;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Mas \u00e9 justamente essa tens\u00e3o a que eu me refiro. H\u00e1 momentos, em que o senhor atribui o seu papel de colaborador ao fato de ter sido torturado, de permanecer o tempo todo sob vigil\u00e2ncia. Em outros momentos, o senhor se coloca como uma pessoa consciente que desejava combater o comunismo.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> De fato. Os policiais fizeram aquilo porque n\u00e3o sabiam, n\u00e3o estavam dentro da minha cabe\u00e7a para saber que eu j\u00e1 havia tomado essa decis\u00e3o. Agora, eles que estavam com o preso, eles que colocariam os termos. Eu esperei que eles colocassem. Eu poderia dizer: \u2018N\u00e3o. Eu n\u00e3o vou fazer isso\u2019. Ia continuar preso? Ia continuar levando cacete? Quando eu conscientemente j\u00e1 sabia&#8230;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Minha quest\u00e3o \u00e9 a seguinte: Essa colabora\u00e7\u00e3o com a pol\u00edcia, o quanto se deve \u00e0 sua consci\u00eancia e o quanto se deve \u00e0 pris\u00e3o, \u00e0 tortura, \u00e0 vigil\u00e2ncia etc.?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> A pris\u00e3o, a tortura etc. foi somente assim uma ponte. Agora, conscientemente, desde Cuba eu sabia: \u2018Eu n\u00e3o foi continuar fazendo isso. E, se a pol\u00edcia me prender, eu falo\u2019.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Sobre a suspeita de o senhor era, desde antes de 1964, agente da CIA [&#8230;]<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> [interrompe] \u00d4! Voc\u00ea sabe, rapaz? Eu at\u00e9 tenho que cobrar os d\u00f3lares desse \u00faltimo m\u00eas, porque eu n\u00e3o recebi ainda. Barbaridade! Eu n\u00e3o vou responder a isso porque \u00e9 t\u00e3o&#8230; [sil\u00eancio]<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Na \u00e9poca em que estava \u00e0 frente da associa\u00e7\u00e3o dos marinheiros, em nenhum momento o senhor chegou a passar informa\u00e7\u00f5es sobre o que se passava ali a seus superiores?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o. Tudo o que eu fazia ali era p\u00fablico. O \u00fanico encontro que eu tive com um almirante tamb\u00e9m tinha um outro companheiro da diretoria do lado. O resto era p\u00fablico, era not\u00f3rio.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 \u2013 Ap\u00f3s o senhor aceitar colaborar, foi sempre [investigador, hoje delegado] Carlos Alberto Augusto que seguiu o senhor?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Desde o princ\u00edpio.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; E, ap\u00f3s o ponto, os policiais do Dops se encontravam com o senhor?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Sim, claro.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Logo em seguida?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Logo em seguida. Eu fazia o ponto e deveria ir a um ponto de encontro onde eles estavam me esperando. \u00c0s vezes at\u00e9 voltava de \u00f4nibus.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; E o senhor se encontrava com Fleury pessoalmente?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Eu ia para a pris\u00e3o. Tinha uma cela que eu estava l\u00e1 e me tiravam de l\u00e1 para fazer o ponto.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Pris\u00e3o no Dops?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> No Dops.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Uma outra parte desse trabalho do senhor como agente duplo era a an\u00e1lise dos interrogat\u00f3rios do Dops. Como era feito isso?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Como voc\u00ea descobriu isso?<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Fui lendo por a\u00ed.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Lendo?<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; \u00c9, lendo.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Hum&#8230; \u00c9, est\u00e1 dito sim. O doutor Tuma me chamou algumas vezes, o pessoal que estava trabalhando com ele, para analisar as coisas que as pessoas diziam. Porque havia nomes conhecidos dentro daquele neg\u00f3cio. Conhecidos da VPR, etc. \u2018Voc\u00ea conhece esse? Conhece esse? Conhece esse?\u2019 Gente que havia estado em Cuba, tal, essa coisa toda. Ent\u00e3o eu dizia: \u2018O que ele est\u00e1 dizendo \u00e9 verdade\u2019, \u2018o que ele est\u00e1 dizendo n\u00e3o \u00e9\u2019, \u2018isso aqui, eu acho que n\u00e3o \u00e9 assim\u2019. Esse era o tipo de coisa.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Isso era com Romeu Tuma?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Isso foi algumas poucas vezes com o doutor Tuma, l\u00e1 no quinto andar, onde era a intelig\u00eancia do Dops.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Era o pr\u00f3prio Tuma que te fazia perguntas a respeito dos interrogat\u00f3rios?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>N\u00e3o, o Tuma n\u00e3o. Os rapazes que trabalhavam com ele. Eram tr\u00eas. Tinha um escriv\u00e3o e dois rapazes que eram, sei l\u00e1, estagi\u00e1rios.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-8025\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/ph_fot_5610_33.jpg\" border=\"0\" width=\"450\" height=\"589\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/ph_fot_5610_33.jpg 450w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/ph_fot_5610_33-229x300.jpg 229w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<address>Cabo Anselmo durante a Revolta dos Marinheiros, em 1964\/<span style=\"font-size: 12.1599998474121px; line-height: 1.3em;\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/span><\/address>\n<address><\/address>\n<address><span style=\"font-size: 12.1599998474121px; line-height: 1.3em;\"><br \/><\/span><\/address>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cabo Anselmo fala sobre namorada morta ap\u00f3s sua dela\u00e7\u00e3o: &#8216;Fleury tinha prometido poup\u00e1-la&#8217;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Soledad Barrett Viedma era namorada do espi\u00e3o Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo. Nascida no Paraguai e treinada em Cuba, veio ao Brasil para militar na VPR (Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria). Sua miss\u00e3o era, ao lado de Anselmo, montar uma casa de apoio no Recife. S\u00f3 descobriu que o companheiro colaborava com a repress\u00e3o em janeiro de 1973, pouco antes de ser apanhada pela equipe do delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury. O comando da guerrilha havia identificado a dupla atua\u00e7\u00e3o de Anselmo e enviou a ela uma mensagem para executar o traidor.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Detida, Sol, como Anselmo a chamava, foi torturada e assassinada ao lado de outros cinco militantes da VPR: Pauline Philipe Reichstul, Eudaldo Gomes da Silva, Evaldo Luis Ferreira, Jarbas Pereira Marques e Jos\u00e9 Manoel da Silva. O epis\u00f3dio ficou conhecido como Massacre da Ch\u00e1cara S\u00e3o Bento. Anselmo admite ter colaborado para a captura da companheira e nega que ela estivesse gr\u00e1vida. Segundo ele, o feto encontrado no IML junto aos corpos era o beb\u00ea de Pauline. O espi\u00e3o ainda acusa o delegado Fleury de n\u00e3o ter cumprido a promessa de poupar Soledad.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Confira a entrevista:<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; No livro, o senhor narra um encontro amoroso com uma mulher em Cuba, que termina numa \u2018pousada\u2019. Essa mulher \u00e9 Soledad?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Jos\u00e9 Anselmo dos Santos \u2013<\/strong> N\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; \u00c9 outra mulher?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> \u00c9 outra.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Mas o senhor conheceu Soledad em Cuba.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> \u00c9.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; N\u00e3o teve um contato amoroso com ela l\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o, a Soledad era companheira do Francisco [codinome do militante Jos\u00e9 Maria Ferreira de Ara\u00fajo, ex-marinheiro]. N\u00f3s \u00e9ramos muito amigos, todo mundo do grupo era amigo. E eu era fot\u00f3grafo, aprendi fotografia l\u00e1. E eu fotografei a filha da Soledad at\u00e9 que ela deu os primeiros passos.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; A \u00d1ai?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> \u00c9, a \u00d1asaindy.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte dela, ap\u00f3s ela ser capturada a partir de sua atua\u00e7\u00e3o, o senhor narra no livro que havia uma promessa de Fleury para poup\u00e1-la[&#8230;]<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>[interrompe] Eu pedi. Eu pedi e ele prometeu.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12.1599998474121px; line-height: 15.8079996109009px;\">R7 &#8211; <\/span>Ele prometeu?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Prometeu.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Na entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2011, o senhor afirmou que ele n\u00e3o havia dito nada.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>N\u00e3o, ele n\u00e3o tinha dito nada de que iria prender e&#8230; [sil\u00eancio]<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor n\u00e3o imaginava o desfecho?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o. De maneira nenhuma, de maneira nenhuma. Eu via todo mundo ser preso. Ser preso, levar cacete para poder dar mais coisa etc. Como eu podia imaginar que houvesse outro tipo de coisa? Mas de modo nenhum. N\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Mas havia outros militantes, companheiros do senhor, que haviam sido presos e, ap\u00f3s a pris\u00e3o, mortos. O senhor tinha essa informa\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o. Companheiro morto ap\u00f3s a pris\u00e3o? Quando eu cheguei no Brasil, Marco Ant\u00f4nio [da Silva Lima, um dos l\u00edderes dos marinheiros] j\u00e1 tinha morrido, o marido da Soledad [Jos\u00e9 Maria Ferreira de Ara\u00fajo] j\u00e1 tinha morrido. Olha, a gente est\u00e1 tratando de pessoas que&#8230; aqueles da associa\u00e7\u00e3o dos marinheiros que foram para l\u00e1 [Cuba] eram caras fant\u00e1sticos. Era gente boa de cora\u00e7\u00e3o que estava envolvida dentro de um neg\u00f3cio que n\u00e3o entendia direito. Agora, no caso em que voc\u00ea me perguntou aqui, da Soledad, quando j\u00e1 estava l\u00e1 no Recife, n\u00f3s \u2014 eu, ela \u2014 convers\u00e1vamos que: \u2018Esse tro\u00e7o daqui n\u00e3o tem futuro\u2019. E v\u00e1rias vezes eu disse para ele: \u2018Olha, por que voc\u00ea n\u00e3o vai para Cuba e fica com a \u00d1ai?\u2019. Ela j\u00e1 estava decidida a fazer isso. Nessa ocasi\u00e3o, ent\u00e3o, eu falei a ela e ao irm\u00e3o dela: \u2018Deixa isso a\u00ed\u2019. O irm\u00e3o n\u00e3o tinha nada a ver com o grupo, ele estava de visita, casou com uma menina l\u00e1 que n\u00e3o tinha nada a ver com pol\u00edtica, absolutamente. O Jorge era um artista. Ele compunha, o neg\u00f3cio dele era compor.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; No dia da pris\u00e3o de Soledad, o senhor sabia que ela seria presa?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Sabia. Naquele instante eu sabia que ela seria presa porque ela tinha sido seguida saindo de casa. E j\u00e1 todo mundo estava sabendo que eu estava imobilizado para decidirem o que iriam fazer comigo. E essa decis\u00e3o seria&#8230; \u2018piz\u2019! [a VPR havia decidido mat\u00e1-lo]<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor viveu com ela no Recife por quanto tempo?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Um ano ou mais.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; E o [investigador, hoje delegado] Carlos Alberto Augusto ficava com o senhor o tempo todo.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Ficava.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Como se davam os encontros com ele sem que Soledad soubesse.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Eu e a Soledad montamos uma fachada. Era uma lojinha que vendia blusas bordadas a m\u00e3o. Eu vi que naquele mercado n\u00e3o existia isso. E depois, como no Paraguai o pessoal borda muito, resolvemos fazer blusas bordadas a m\u00e3o para vender para turista. Ela contratou uma mo\u00e7a que era costureira. Montamos a lojinha l\u00e1 e ao lado da lojinha tinha uma garagem. Fechamos a garagem e, como a gente tinha, em Olinda, contatos com artistas, a cada tempo se fazia ali uma mostra de quadros dos artistas locais para que a imprensa fosse e para divulgar a loja. Ent\u00e3o, ela ficava l\u00e1 no trabalho dela, eu sa\u00eda.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Foi Carlos Alberto que, pouco antes da pris\u00e3o de Soledad, informou o senhor que a VPR havia decidido execut\u00e1-lo?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> O Carlos n\u00e3o. A gente que sabia.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor sabia?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Sabia.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Como o senhor soube?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Eu li.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Leu a mensagem que foi passada para Soledad?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Sim.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Ela mostrou para o senhor?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Mostrou.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; E&#8230;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Ela mostrou e depois disse: \u2018Eu vou sair\u2019. E saiu.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Foi naquele momento que ela foi presa?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Uhum [afirmativo]&#8230;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Ela mostrou para que o senhor fugisse?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o, porque na casa havia outras pessoas ali comigo.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Essas pessoas foram presas tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Foram presas.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Fazem parte dos seis [mortos no Massacre da Ch\u00e1cara S\u00e3o Bento]?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o. Era pessoal da fam\u00edlia da mulher do Jorge. Estava a irm\u00e3 da mulher do Jorge, a mulher do Jorge. Estavam crian\u00e7as da fam\u00edlia dela.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Ent\u00e3o Soledad deu uma oportunidade para que o senhor fugisse antes que fosse executado pela VPR?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> [sil\u00eancio] Tanto que eu cheguei at\u00e9 a janela, o Carlos [Alberto Augusto] apareceu l\u00e1 embaixo na porta de um boteco e fez um sinal: \u2018Sai, vamos\u2019. Da\u00ed eles entraram, subiram para me dar uma retaguarda e cobertura. E eu fui direto para o aeroporto.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Em nenhum momento, o senhor chegou a pensar em abrir o jogo para ela?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Daquilo tudo? N\u00e3o&#8230; \u00d4, cabra, ela tinha tomado uma decis\u00e3o na vida dela. Ela tinha toda uma forma\u00e7\u00e3o de um lar comunista, tinha estudado na [universidade] Patrice Lumumba, na R\u00fassia, tinha passado pelo Chile, depois por Cuba, onde se juntou com esse companheiro da gente, ex-marinheiro. Teve uma filha l\u00e1. Eu nem imaginava que ela fosse abandonar a filha e vir para c\u00e1. Quando ela chegou, tudo bem. \u2018Opa, uma pessoa conhecida. Querida e tal\u2019. Agora, ela veio para ser, sei l\u00e1, a mulher que era a minha fachada. A partir da\u00ed, n\u00f3s nos relacionamos amorosamente e&#8230; ela era uma pessoa doce. Agora, era en\u00e9rgica em rela\u00e7\u00f5es \u00e0s quest\u00f5es da ideologia. Ela tinha prepara\u00e7\u00e3o desde a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O que aconteceu imediatamente depois desse resgate do senhor?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Eles me levaram para o aeroporto de Guararapes. Havia um voo de um avi\u00e3o militar, da FAB. Eu vim para S\u00e3o Paulo, me botaram em um hotel. Eu fiquei no hotel aguardando algum tempo at\u00e9 que&#8230; Na manh\u00e3 seguinte, fui ler o jornal e&#8230; Foi o pior dia da minha vida, posso dizer, tive um choque, uma dor imensa de ver na manchete as fotografias do que havia acontecido no Recife [o Massacre da Ch\u00e1cara S\u00e3o Bento]. Foi uma das piores experi\u00eancias na minha vida. A pior. Da minha vida toda.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor afirma no livro que Soledad n\u00e3o estava gr\u00e1vida.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o. N\u00e3o estava, n\u00e3o estava. Voc\u00ea tem a\u00ed a prova no livro.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor menciona que ela teria ido a um posto de sa\u00fade para colocar um DIU. Onde exatamente aconteceu esse procedimento?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Olha, logo que ela chegou, ela passou algum tempo aqui em S\u00e3o Paulo sem que eu tivesse contato. Eu estava no Recife. At\u00e9 que houve uma pessoa que chegou l\u00e1 no Recife com uma mensagem que disse: \u2018Olha, voc\u00ea vai para S\u00e3o Paulo fazer o ponto com a pessoa que voc\u00ea vai trazer para c\u00e1\u2019. A pessoa nem sabia quem era. Eu viajei a S\u00e3o Paulo e fui at\u00e9 o local para o encontro. Quem surge? Soledad. Da\u00ed eu fui com ela para o Recife e um m\u00eas, dois meses depois que a gente estava no Recife, ela fala no neg\u00f3cio de abortar, que ela estava com um filho que n\u00e3o era desejado&#8230; Ent\u00e3o eu a trouxe para S\u00e3o Paulo de novo, pois eu tinha morado numa pens\u00e3o ali na Vila Mariana, numa casa dessas em que se aluga quarto, e conheci uma senhora, muito amiga minha, que tinha abortado v\u00e1rias vezes. Fui l\u00e1, apresentei, e a pessoa a levou para fazer o aborto. Passamos ali alguns dias nessa mesma pens\u00e3o, at\u00e9 ela se recuperar um pouco, e voltamos para o Recife. No Recife, logo que ela chegou, foi a um posto de sa\u00fade e colocou um dispositivo intrauterino, um DIU.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Ent\u00e3o foi em um posto de sa\u00fade do Recife?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Foi no Recife.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Que posto de sa\u00fade era esse?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>N\u00e3o, n\u00e3o. Ela foi com a mulher do Jorge, a Leninha. Era amiga dela. Eu estava aplicado em outras coisas, entende? A minha parte, que ela n\u00e3o sabia, de \u2018fazer a revolu\u00e7\u00e3o\u2019 [a compartimenta\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o]. Enquanto que ela tinha a parte dela, que eu n\u00e3o sabia. As ordens dela de \u2018fazer a revolu\u00e7\u00e3o\u2019. Isso \u00e9 compartimenta\u00e7\u00e3o. Cada um tem uma coisa que fazer.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor afirma que era Pauline que estaria gr\u00e1vida.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>A Pauline, sim. A Pauline chegou na nossa casa de apoio uma vez e foi com a pr\u00f3pria Sol [Soledad] a um posto de sa\u00fade porque estava com problema de gravidez.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Isso ocorreu quanto tempo antes da pris\u00e3o e morte dos seis?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Olha, voc\u00ea est\u00e1 com um espa\u00e7o a\u00ed de um ano. Digamos menos tr\u00eas meses, nove meses. Nove meses, digamos. Voc\u00ea est\u00e1 com um tempo a\u00ed de um tempo de gesta\u00e7\u00e3o, normal.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor nunca teve d\u00favida sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Eu fiquei na d\u00favida at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, quando eu vi a entrevista do Jorge. Eu tinha uma baita d\u00favida: \u2018Como \u00e9 que pode?\u2019. Ela tinha o dispositivo, n\u00f3s t\u00ednhamos todo cuidado nesse sentido. Nenhum queria mais fazer outro aborto ou coisa parecida. E, depois, naquela pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de vida, n\u00e3o dava para fazer aquilo. Fazer filho? Eu sabia que a Pauline estava&#8230; Ent\u00e3o eu desconfiava: \u2018Poxa, houve uma troca a\u00ed. Mas quem que fez essa troca? Foram os m\u00e9dicos? Foram os policiais? Ou ser\u00e1 que foi a imprensa para mostrar o monstro que era o Anselmo?\u2019. Eu tinha d\u00favida nesse sentido. Mas quando eu vi a entrevista do Jorge [depoimento no site Documentos Revelados]: \u2018Ai, que al\u00edvio!\u2019. Porque ali ele determina uma coisa: a doutora M\u00e9rcia, que era a advogada que foi ao IML, ela pegou a fotografia da Pauline e a fotografia da Soledad e trocou, simplesmente.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-8026\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/caboanselmo1.jpg\" border=\"0\" width=\"724\" height=\"469\" \/><\/p>\n<address>Cabo Anselmo durante a Revolta dos Marinheiros, em 1964\/<span style=\"font-size: 12.1599998474121px; line-height: 1.3em;\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/span><\/address>\n<address><\/address>\n<address><span style=\"font-size: 12.1599998474121px; line-height: 1.3em;\"><br \/><\/span><\/address>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cabo Anselmo lista guerrilheiros que delatou<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Edson Neves Quaresma e Yoshitane Fujimori foram mortos em dezembro de 1970. Aluizio Panhano Pedreira Ferreira desapareceu em maio de 1971 ap\u00f3s ser capturado. Os tr\u00eas haviam tido contato com Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, antes de sua pris\u00e3o, em junho de 1971. As \u201cquedas\u201d dos militantes foram apontadas como mais um ind\u00edcio de que ele j\u00e1 colaborava com o regime. Anselmo chega a dizer que Fujimori foi v\u00edtima de sua atua\u00e7\u00e3o, mas depois nega.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Na entrevista abaixo, ele faz refer\u00eancia a pessoas que o levaram at\u00e9 o l\u00edder da VPR, Carlos Lamarca, ainda 1970. In\u00eas Etienne Romeu foi a guia de Anselmo no encontro. Poucos meses depois, ela foi capturada pela equipe de Fleury e se tornaria a \u00fanica sobrevivente das torturas da Casa da Morte, em Petr\u00f3polis. O espi\u00e3o nega envolvimento na deten\u00e7\u00e3o de In\u00eas.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Anselmo confirma, por\u00e9m, ter colaborado com a captura de seu ex-colega de Marinha Jos\u00e9 Raimundo da Costa, integrante da VPR, e de Carlos Eug\u00eanio Paz, o Clemente, militante da ALN.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Confira a entrevista:<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor nega a estimativa de que 200 pessoas foram presas a partir de sua atua\u00e7\u00e3o. Tem, ent\u00e3o, ideia de quantos foram presos, mortos ou desapareceram a partir da colabora\u00e7\u00e3o do senhor?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Jos\u00e9 Anselmo dos Santos \u2013 <\/strong>N\u00e3o, n\u00e3o tenho. Durante os pontos feitos em S\u00e3o Paulo, digamos que cada ponto rendesse outra pessoa, que levava a outra e assim vai. Como voc\u00ea vai saber?<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Essa a\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo ocorreu somente em 1971?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Sim.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211;\u00a0Depois disso, o senhor estava no Recife?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Sim, sim.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; H\u00e1 alguns casos de pessoas que teriam desaparecido a partir da sua atua\u00e7\u00e3o. Um deles \u00e9 Luiz Ara\u00fajo de Almeida, da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional, a ALN [grupo de esquerda], que teria levado Paulo de Tarso Celestino [desaparecido em julho 1971] a um encontro com o senhor. O senhor se lembra desse epis\u00f3dio?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Eu n\u00e3o lembro com quem eu me encontrava. Olha, com o Clemente [Carlos Eug\u00eanio Paz, outro militante da ALN, que est\u00e1 vivo] eu tenho certeza.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Clemente [Carlos Eug\u00eanio Paz] narra, em uma entrevista ao site \u00d3pera Mundi, um epis\u00f3dio em que foi perseguido de autom\u00f3vel por Fleury, na Vila Mariana, ap\u00f3s encontrar-se com o senhor&#8230;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Eu li isso, eu li. Eu achei um pouco fantasioso pelo seguinte: o \u00fanico encontro que eu tive com o Clemente foi em Santo Amaro e ele me passou um rev\u00f3lver. Nos encontramos numa rua, tinha o neg\u00f3cio da senha e tal. Ele me encontrou, me passou um rev\u00f3lver. Ele foi para um lado e eu fui para o outro.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; N\u00e3o houve um encontro num apartamento?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o. Eu acho que isso a\u00ed j\u00e1 \u00e9 exagero, fantasia, sei l\u00e1. \u00c9 mito. Agora, eles est\u00e3o no pleno direito de dizer qualquer coisa, porque eles t\u00eam toda uma organiza\u00e7\u00e3o para montar aquilo que eles quiserem dizer dentro dessa hist\u00f3ria. E eu sou um \u00fanico. E \u00e9 a primeira vez que eu estou falando&#8230; \u201cA minha verdade\u201d [t\u00edtulo do livro].<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 \u2013 Na \u00e9poca em que colaborava, o senhor se encontrou com Jos\u00e9 Raimundo da Costa?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Jos\u00e9 Raimundo, sim.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Jos\u00e9 Raimundo foi capturado depois de se encontrar com senhor?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Sem d\u00favida nenhuma.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; H\u00e1 alguma outra pessoa?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Ah! O Fujimori. [sil\u00eancio] O Fujimori? N\u00e3o. O Fujimori n\u00e3o. O Z\u00e9 Raimundo, o Clemente, sim. Tem pessoas que n\u00e3o foram presas, pessoas que me levaram de S\u00e3o Paulo para o Rio, para o encontro com o Lamarca. Ali\u00e1s, n\u00e3o. Nessa \u00e9poca, nessa \u00e9poca, eu nem estava nisso [atuando como agente duplo].<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; In\u00eas Etienne Romeu?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> A In\u00eas n\u00e3o. Eu nem tive contato com ela durante esse per\u00edodo em que eu estava&#8230; preso.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Na morte de Edson Quaresma o senhor tamb\u00e9m n\u00e3o teve envolvimento?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Tamb\u00e9m n\u00e3o. Foi antes, muito antes.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Ele morreu com Fujimori.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Eu n\u00e3o tenho nem ideia de quando o Fujimori foi&#8230; Ah \u00e9! Estava junto, \u00e9 verdade. Acho que foi no mesmo caso.\u00a0No mesmo tiroteio l\u00e1 que morreram os dois [A vers\u00e3o oficial, na \u00e9poca, era de tiroteio].<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; No livro, o senhor narra muito rapidamente o encontro com o Onofre Pinto [um dos l\u00edderes da VPR] no Chile. Como foi esse contato?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>\u00c9. Eu havia perdido os contatos aqui, n\u00e9? Perdi todos os contatos&#8230; Eu, ent\u00e3o, viajo para o Chile para refazer contatos. Penso: \u2018Bom, e agora? Como \u00e9 que \u00e9?\u2019 E decido: \u2018Eu vou ao Chile, fa\u00e7o contatos e vai continuar a mesma coisa. Eu fa\u00e7o o ponto e a pol\u00edcia se encarrega\u2019.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Mas, sem contatos, como o senhor encontrou o Onofre l\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Ah, t\u00e1! Durante a viagem que eu fiz para Cuba, passando pela Tchecoslov\u00e1quia, eu fiquei em um hotel internacional e conheci duas meninas chilenas. Ent\u00e3o, eu e o outro menino que estava comigo fizemos contato com essas duas chilenas. Est\u00e1vamos sempre juntos, fomos a teatro juntos, passeamos juntos. E eu sabia do nome das meninas chilenas [n\u00e3o usavam codinomes]. Eu tinha o telefone de uma delas. Fui a Santiago, telefonei, n\u00f3s nos encontramos. E ela disse: \u2018Olha, quem vai poder te ajudar nisso \u00e9 a outra mo\u00e7a\u2019. A\u00ed me colocou em contato com a outra mo\u00e7a, que era ativista e tinha contato com o senador Altamirano [Carlos Altamirano Orrego, ent\u00e3o secret\u00e1rio-geral do Partido Socialista do Chile]. Eu tinha conhecido o senador Altamirano em Cuba, na confer\u00eancia da OLAS [Organiza\u00e7\u00e3o Latino-Americana de Solidariedade, composta por movimentos de esquerda latino-americanos]. Ent\u00e3o, ela me conduziu ao gabinete do Altamirano. Ele mandou que eu esperasse no hotel e, um dia depois, foi dado o contato. E o contato era&#8230; o Onofre Pinto.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; E, mesmo no Chile, o [investigador, hoje delegado] Carlos Alberto continuou te seguindo?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>N\u00e3o, o Carlos Alberto n\u00e3o foi. Mas que durante todo tempo havia seguimento, havia.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Inclusive no Chile?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Inclusive l\u00e1 no Chile.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor lembra quem era?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Nem sabia quem era. S\u00f3 sabia que estava presente.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Mas isso era uma desconfian\u00e7a do senhor ou o senhor tinha certeza?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o era desconfian\u00e7a, n\u00e3o. Era certeza. O pr\u00f3prio pessoal aqui, o Fleury no caso, disse: \u2018Voc\u00ea vai estar coberto o tempo inteiro\u2019. Coberto significa: \u2018Algu\u00e9m vai estar vigiando voc\u00ea o tempo inteiro\u2019.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor n\u00e3o chegou a pensar em pedir asilo no Chile?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Se eu pedisse asilo naquele instante&#8230; Quando eu fui ao Chile, o Chile j\u00e1 estava comunista. Eu iria pedir asilo, tamb\u00e9m sendo contr\u00e1rio? Conscientemente, eu era contr\u00e1rio \u00e0quilo. Eu ia pedir asilo dali para qu\u00ea? Para ficar distante do meu Pa\u00eds. N\u00e3o, eu nasci aqui e tenho que morrer aqui. \u00c9 aqui que eu tenho que pagar meus pecados e morrer. Eu posso ir l\u00e1, achar muito bonito. Conhecer a Fran\u00e7a, conhecer a It\u00e1lia, conhecer a Su\u00ed\u00e7a, passar pelo Canad\u00e1, pela Irlanda. Eu passo, lindo, poxa. Mas simplesmente um passeio cultural. Agora, a minha raiz est\u00e1 aqui. Comer mandioca, tapioca.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor conhecia outros infiltrados?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> A informa\u00e7\u00e3o que eu tinha era informa\u00e7\u00e3o l\u00e1 de dentro. Se voc\u00ea quiser saber alguma coisa mais, e se ele quiser falar, procure o Carlos Alberto.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor n\u00e3o conheceu nenhum outro infiltrado?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>N\u00e3o. Eu li alguma coisa&#8230; Vamos l\u00e1: isso aqui \u00e9 ila\u00e7\u00e3o. Eu li, penso: \u2018Puxa, aconteceu isso, pode estar acontecendo isso\u2019. Eu li que pessoas fizeram tamb\u00e9m o trabalho de informa\u00e7\u00e3o, depois trocaram de nome e est\u00e3o vivas at\u00e9 hoje. E as fam\u00edlias nunca tiveram contato: s\u00e3o desaparecidos. E as fam\u00edlias recebem indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Quem seriam essas pessoas?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Ah! [aceno negativo] Voc\u00ea acha que, se algu\u00e9m fez isso, vai dizer? N\u00e3o vai nunca dizer.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor n\u00e3o tem poss\u00edveis nomes?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o. De leituras que eu fiz, eu cheguei a essa conclus\u00e3o. E, se voc\u00ea for pesquisar, voc\u00ea vai ver tr\u00eas ou quatro nomes que est\u00e3o l\u00e1 postos.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-598\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%20-%20Soledad%20Barret-horz.jpg\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"259\" \/><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<address>Soledad Barrett Viedma, namorada de Anselmo, capturada com a colabora\u00e7\u00e3o dele e morta pela repress\u00e3o<\/address>\n<address><\/address>\n<address><\/address>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A cirurgia pl\u00e1stica de Cabo Anselmo, a vida atual e a participa\u00e7\u00e3o nas manifesta\u00e7\u00f5es anti-Dilma<\/strong><\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Em 1973, a a\u00e7\u00e3o que levou \u00e0s mortes de Soledad Barrett Viedma e outros cinco integrantes da VPR no Massacre da Ch\u00e1cara S\u00e3o Bento foi a \u00faltima de Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, como agente infiltrado. Reconhecido como traidor e condenado \u00e0 morte pelo comando da guerrilha, Anselmo desaparece e passa por cirurgia pl\u00e1stica. Nesta entrevista, ele fala da cria\u00e7\u00e3o de uma empresa de consultoria de recursos humanos, de sua vida atual. E revela ter participado da primeira manifesta\u00e7\u00e3o anti-Dilma, em 15 de mar\u00e7o deste ano, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Confira a entrevista:<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Nesse per\u00edodo ap\u00f3s 1973, a pl\u00e1stica ajudou? O senhor nunca foi reconhecido na rua?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Jos\u00e9 Anselmo dos Santos \u2013<\/strong> A pl\u00e1stica ajudou bastante. Eles botaram um peda\u00e7o de osso aqui [no nariz]. Est\u00e1 vis\u00edvel. Ent\u00e3o o nariz deixou de ser assim [formato c\u00f4ncavo] e passou a ser assim [convexo]. E pegaram outro peda\u00e7o da costela, tiraram aqui, e botaram aqui [na sobrancelha]. Tem um amontoado aqui para ganhar testa. No princ\u00edpio, quando minha m\u00e3e chegou para ficar comigo e eu fui receb\u00ea-la no aeroporto, ela n\u00e3o me reconheceu. Depois ela olhou para mim e fez: \u2018Meu filho! O que fizeram com voc\u00ea!?\u2019.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Isso foi em 1973?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>\u00c9. A partir da\u00ed de 1973, eu fui trabalhar com uma empresa de corte e transporte de madeira, de um delegado de pol\u00edcia do Dops que era uma pessoa rica. O pai dele tinha v\u00e1rias fazendas de caf\u00e9. N\u00e3o tinha nem necessidade de ele estar na pol\u00edcia: Affonso Celso de Lima Acra. Era um\u00a0bon vivant. Aquilo l\u00e1 [o trabalho na pol\u00edcia], para ele, n\u00e3o significava nada, era s\u00f3 status. Ele me levou para administrar o neg\u00f3cio do corte de madeira. Fazia transportes de eucaliptos para a f\u00e1brica de papel Sim\u00e3o. Eu tinha meu ganho mensal, essa coisa toda. Mas n\u00e3o tinha registro. Pouco tempo depois, veio a minha m\u00e3e e foi alugada uma casa. Eu pagava aluguel porque eu j\u00e1 estava trabalhando. Mas o aluguel estava em nome de outra pessoa. Uma casinha l\u00e1 em Guarulhos, uma casinha geminada. E eu morei l\u00e1 com a minha m\u00e3e por muito tempo.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor passou todo esse per\u00edodo, at\u00e9 o fim dos anos 1990, nessa empresa?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o. Depois de um tempo, eu sa\u00ed da empresa do doutor Acra e, eu tinha uma companheira&#8230; E tamb\u00e9m n\u00e3o me pergunte nome, nem nada porque eu n\u00e3o vou dizer. Ela morreu tamb\u00e9m, mas tem toda a fam\u00edlia dela e eu n\u00e3o quero absolutamente causar constrangimento. Como fiz com a minha fam\u00edlia durante muito tempo. Ent\u00e3o, com essa companheira, n\u00f3s montamos uma pequena empresa de consultoria.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Consultoria?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Consultoria de recursos humanos para empresas. Eu comecei a fazer cursos. Ler tudo que tinha sobre administra\u00e7\u00e3o empresarial. Alvin Toffler, por exemplo, me ajudou muito. Um dos primeiros trabalhos que eu fiz foi, por exemplo, entrevistar 830 empregados de uma empresa. E depois tra\u00e7ar um layout operacional e fazer um relat\u00f3rio de sugest\u00f5es para aquela empresa. Foi tudo aceito, parte foi feito, funcionou muito bem. A partir da\u00ed veio mais uma, outra, outra, outra. E no final, a gente trabalhava muito com treinamento de pessoal. Eu montei cursos, trabalhei com o Senac, trabalhei com um monte de empresa. Fazia treinamento empresarial. Muito bem, a\u00ed n\u00f3s chegamos \u00e0 entrevista para o livro Eu, Cabo Anselmo [depoimento de Anselmo ao jornalista Percival de Souza, publicado em 1999].<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor menciona, no livro, ter trabalhado com PNL [programa\u00e7\u00e3o neurolingu\u00edstica]. O senhor usou a PNL tamb\u00e9m para pensar sobre sua pr\u00f3pria vida?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Ah, n\u00e3o foi a PNL que me ajudou a pensar. Eu pensei. Eu li todo Freud, Adler, Jung. Li, n\u00e3o. Estudei. Detestei o Freud, amei o Jung. O Adler meio l\u00e1, meio c\u00e1. Karen Horney. E vai por a\u00ed. Li muita gente do meio psicol\u00f3gico para saber que diacho era aquilo. Depois eu conheci um curso de desenvolvimento espiritual. Aprendi muita coisa, foi bom. E depois veio a Sociedade Brasileira de Programa\u00e7\u00e3o Neurolingu\u00edstica. Eu fui fazer aquele fim de semana [treinamento]. \u2018Esse tro\u00e7o \u00e9 legal\u2019, pensei. A\u00ed passei na Summus Editorial e comprei tudo que tinha de livro sobre programa\u00e7\u00e3o neurolingu\u00edstica. Sapos em Pr\u00edncipes, Atravessando, Transformando-se e vai por a\u00ed. Li todas aquelas escolas de programa\u00e7\u00e3o neurolingu\u00edstica. Li tudo. E comecei a pegar coisa dali e praticar, inclusive no treinamento do pessoal. A programa\u00e7\u00e3o neurolingu\u00edstica foi bom para mim. Mas foi muito melhor para mim trabalhar, travar relacionamentos. Quer dizer: autoestima. Poder pensar: \u2018Eu posso fazer por mim, pela minha vida e pelos outros\u2019. Eu tenho o princ\u00edpio: \u2018Se eu n\u00e3o estou servindo aos outros, de quem eu dependo, qual seria a outra coisa a fazer?\u2019. Minha miss\u00e3o na vida \u00e9 essa, acabou.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Em 1999, a partir da publica\u00e7\u00e3o do livro Eu, Cabo Anselmo e de uma reportagem na TV, a sua nova imagem, ap\u00f3s a pl\u00e1stica, tornou-se p\u00fablica.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> \u00c9. A\u00ed eu tive que abrir m\u00e3o de todas as empresas com quem eu trabalhava porque sen\u00e3o eu seria reconhecido.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; E do que o senhor vive hoje?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Tem umas pessoas que botam um dinheirinho para mim na conta de um amigo meu e o meu amigo vai l\u00e1 no banco, tira e me d\u00e1.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Mensalmente?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Sim, senhor.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Pessoas da \u00e9poca em que o senhor atuou no Dops?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>N\u00e3o, pessoas que eu conheci depois. Pessoas at\u00e9 que o Carlos Alberto me apresentou. Mas \u00e9 empres\u00e1rio, esse tipo de gente.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O [investigador, hoje delegado] Carlos Alberto Augusto n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Ele n\u00e3o tem onde cair morto. O Carlos Alberto casou, divorciou, ainda paga plano de sa\u00fade para filha e para o filho que j\u00e1 s\u00e3o adultos. Carlos Alberto \u00e9 um Dom Quixote. O Dom Quixote est\u00e1 lutando num terreno que n\u00e3o \u00e9 o dele, que n\u00e3o existe. E, do outro lado, Dom Quixote est\u00e1 buscando o amor das mulheres. E, ainda, Dom Quixote est\u00e1 dando tudo o que pode. Ele \u00e9 um sonhador.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Carlos Alberto reapareceu agora, ficou em evid\u00eancia em reportagens de TV, durante as \u00faltimas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Eu vi.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O que o senhor achou? Teve vontade de participar das manifesta\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Eu participei de uma.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Qual?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> A do Rio. Achei fant\u00e1stico.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; A primeira delas? De 15 de mar\u00e7o?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> A primeira. Achei um tro\u00e7o fant\u00e1stico.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Subiu em carro de som?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o. Eu passei pela avenida. Mas n\u00e3o foi gritando, nada disso. Eu sou observador. O neg\u00f3cio \u00e9 o seguinte: eu acho que a popula\u00e7\u00e3o toda tem que se manifestar. E quando voc\u00ea v\u00ea hoje as pesquisas de opini\u00e3o, v\u00ea que a governante est\u00e1 com 9% de aprova\u00e7\u00e3o, eu fico pensando: \u2018Poxa, como \u00e9 que pode?\u2019. Depois voc\u00ea v\u00ea a fala da mo\u00e7a, o jeito que ela fala, \u2018mandioca\u2019, \u2018mulher sapiens\u2019. Como \u00e9 que pode um neg\u00f3cio desse?<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor chegou a ser reconhecido na passeata?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo <\/strong>\u2013 N\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Desde a divulga\u00e7\u00e3o de sua imagem, em 1999, algu\u00e9m te reconheceu?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Reconheceu, veja voc\u00ea. Quando eu dei entrevista na TV Cultura, no Roda Viva, eu dormi num hotelzinho e, no dia seguinte, fui para rodovi\u00e1ria tomar um \u00f4nibus para ir para o lugar onde eu estava. Ali, um sujeito gritou: \u2018Eu vi voc\u00ea, voc\u00ea \u00e9 o fulano e tal, gostei\u2019. Eu tomei um susto danado naquele momento.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Foi o \u00fanico momento?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Ah, n\u00e3o! Tamb\u00e9m no Rio de Janeiro uma mulher que estava num daqueles grupos ali me reconheceu. Ela chegou e disse: \u2018Voc\u00ea \u00e9 o fulano!\u2019. A\u00ed eu fiz que n\u00e3o era comigo, dei as costas e fui&#8230;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Na passeata?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> \u00c9, \u00e9. Pode at\u00e9 ter sido uma pessoa com quem eu convivi naquele tempo, n\u00e9? Sei l\u00e1.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor diz que perdeu sua carteira de identidade naquela \u00e9poca e n\u00e3o recuperou at\u00e9 hoje. Como est\u00e1 essa situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Opa! Voc\u00ea tem uma para mim a\u00ed? Est\u00e1 como voc\u00ea viu [no livro].<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Mas h\u00e1 alguma a\u00e7\u00e3o na Justi\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Eu n\u00e3o tenho um tost\u00e3o para pagar advogado. O que me d\u00e3o, d\u00e1 para mal comer.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor conta que j\u00e1 houve um comparativo entre as suas digitais e as digitais de seu cadastro na Marinha.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Claro.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; E o que ocorreu?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>A Marinha disse que n\u00e3o podia dar o documento.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; J\u00e1 chegou a ser parado na rua pela pol\u00edcia e n\u00e3o ter como explicar essa falta de documentos?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o. Sou um velho de cabelo branco.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Ap\u00f3s sua nova imagem ser veiculada, em 1999, o senhor chegou a receber alguma amea\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o. S\u00f3&#8230; voc\u00ea lendo determinados blogs, voc\u00ea v\u00ea pessoas que eram militantes, extremistas que perderam amigos ou que perderam familiares etc&#8230; Quer dizer: toda a esquerda mais comprometida com o movimento guerrilheiro, a mais radical, sem d\u00favida, tem \u00f3dio de mim. Eu n\u00e3o odeio ningu\u00e9m. O mais importante para mim, sabe o que \u00e9? \u00c9 o meu esp\u00edrito. Estando de bem com isso aqui, eu te reconhe\u00e7o como parte de uma totalidade que nos perpassa. E que, se eu n\u00e3o estou te servindo, n\u00e3o estou fazendo nada.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-8027\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/149531-370x270-1.jpeg\" border=\"0\" width=\"370\" height=\"270\" \/><\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8216;Tenho a consci\u00eancia tranquila&#8217;, afirma Cabo Anselmo<\/strong><\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 Anselmo dos Santos afirma que escreveu a autobiografia Cabo Anselmo: Minha Verdade porque devia essa narrativa \u00e0 sua fam\u00edlia. No \u00faltimo trecho desta entrevista ao R7, Anselmo fala de suas convic\u00e7\u00f5es. E diz ter a consci\u00eancia tranquila.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Confira a entrevista:<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O que o motivou a escrever o livro? \u00c9 um acerto de contas com sua hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Jos\u00e9 Anselmo dos Santos \u2013<\/strong> Eu devia essa hist\u00f3ria \u00e0s pessoas da minha pr\u00f3pria fam\u00edlia, aos meus amigos e para as novas gera\u00e7\u00f5es do Brasil que n\u00e3o viram aquilo l\u00e1. Voc\u00ea est\u00e1 em um ambiente hoje que \u00e9 bem diferente daquilo. O ambiente do mundo globalizado, da comunica\u00e7\u00e3o em tempo real, o ambiente em que voc\u00ea tem a informa\u00e7\u00e3o que quer na pr\u00f3pria m\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Desde 2009 o livro estava escrito. Por que public\u00e1-lo s\u00f3 agora?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Eu tenho um tipo de vida que \u00e9 dependente de outras pessoas tomarem ou n\u00e3o iniciativa. Ent\u00e3o, eu passei esse livro para uma pessoa que disse: \u2018Eu vou buscar uma editora\u2019. Mas essa pessoa \u2014 uma pessoa muito querida que at\u00e9 me ajudou a rever algumas coisas ali, a escrever algumas coisas \u2014, por motivos de trabalho, n\u00e3o publicou. Num determinado instante, eu conheci uma outra pessoa que disse: \u2018Ah! eu arrumo um editor!\u2019. Essa pessoa foi a Marta Serrat. Ela me entrevistou h\u00e1 dois anos e disse: \u2018Eu arrumo um editor\u2019. Ent\u00e3o, eu comecei a retrabalhar o livro e, finalmente, ela arrumou a Matrix, que topou a parada de fazer a edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Essa primeira pessoa, que n\u00e3o conseguiu o editor, te ajudou a escrever?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Ele fez duas leituras extensas comigo, em fins de semana. Inseriu coisas, mas eu tirei. Quer dizer, ele se dedicou nesse sentido.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Em determinado momento do livro, o senhor diz que os militares exerceram \u2018uma ingrata, mas patri\u00f3tica fun\u00e7\u00e3o constitucional\u2019.\u00a0Para o senhor, a ditadura foi isso?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Voc\u00ea tinha naquele instante um mundo dividido, ambientado na Guerra Fria. Os militares do Brasil, naquele instante, tinham sido formados onde? Nos Estados Unidos. A escola de forma\u00e7\u00e3o dos militares era os Estados Unidos. O que os militares fizeram no momento? Os militares foram garantir a estrutura do poder, a institui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do mundo ocidental, naquele momento, aqui. E os militares, ideologicamente, eram democratas naquele instante.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor, ent\u00e3o, acredita que os militares defenderam a democracia?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Naquele instante. A consci\u00eancia, naquele instante, era essa. Tanto que, na rua, saiu gente a chamado das mulheres&#8230; tomaram a rua na Marcha da Fam\u00edlia. Era gente de toda parte. N\u00e3o era s\u00f3 estudante, como foi o neg\u00f3cio do Collor. \u00c9 f\u00e1cil, voc\u00ea deve saber perfeitamente isso, formar opini\u00e3o num grupo, esse grupo se transformar numa massa cr\u00edtica, e a\u00ed sair movimento na rua, tal, que vai num crescendo&#8230;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 \u2013 No livro, o senhor diz tamb\u00e9m: \u2018Se h\u00e1 alguma liberdade no Brasil hoje, eu contribu\u00ed para isso\u2019. O senhor acredita que o Brasil deve te agradecer?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o. Eu n\u00e3o quero que agrade\u00e7a, n\u00e3o. Eu contribu\u00ed de livre e espont\u00e2nea vontade como miss\u00e3o. Ningu\u00e9m no Brasil deve agradecer nada a nenhum her\u00f3i, l\u00edder, n\u00e3o sei o que l\u00e1&#8230; N\u00e3o. Cada brasileiro \u00e9 um her\u00f3i quando est\u00e1 trabalhando, levando a comida para casa, educando seus filhos, participando de comemora\u00e7\u00f5es, tomando sua cerveja no fim de semana, com a sua pizza, indo ao culto da sua igreja, seja ela qual for.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; O senhor tem a consci\u00eancia tranquila?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Ah sim. Claro. Sabe por qu\u00ea? Sabe por que eu tenho a consci\u00eancia tranquila? Eu n\u00e3o acorrentei ningu\u00e9m, nem disse que fosse para l\u00e1 fazer aquilo. A decis\u00e3o foi pessoal, a decis\u00e3o foi de cada um, a ideologia era de cada um, a forma\u00e7\u00e3o era de cada um. N\u00e3o fui eu. Agora, era um momento de guerra. Tudo pode acontecer na guerra. Era uma guerra n\u00e3o declarada. \u00c9 o que acontece na guerra dos morros: a pol\u00edcia vai l\u00e1 e mata o bandido. Ele \u00e9 bandido porque eu mandei ele ser bandido?<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; H\u00e1 casos desses que s\u00e3o execu\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Sim. Onde \u00e9 que n\u00e3o tem isso? Do outro lado tamb\u00e9m n\u00e3o teve execu\u00e7\u00e3o? O pr\u00f3prio Clemente conta da execu\u00e7\u00e3o que ele fez. Ele tem a consci\u00eancia tranquila porque matou um sujeito em defesa da coisa dele. Em defesa da revolu\u00e7\u00e3o comunista [Em 2012, Carlos Eug\u00eanio Paz, o Clemente, afirmou, entrevista ao programa Dossi\u00ea Globonews ter participado da execu\u00e7\u00e3o de um companheiro condenado \u00e0 morte pelo comendo da guerrilha].<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 \u2013 O senhor falou em her\u00f3is&#8230; eu queria terminar com a seguinte quest\u00e3o: O senhor se considera um her\u00f3i? Ou um traidor?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Eu tra\u00ed a p\u00e1tria, tra\u00ed o juramento no momento em que fui para Cuba. Tra\u00ed o meu povo naquele instante. Agora, eu n\u00e3o fiz nenhum juramento \u00e0 bandeira cubana, \u00e0 bandeira sovi\u00e9tica, nem \u00e0 foice e ao martelo, nem ao Marx, nem ao Engels, nem ao Lenin, nem ao Tr\u00f3tski, nem ao Stalin. N\u00e3o fiz. Eu fui envolvido dentro de um neg\u00f3cio, fui para l\u00e1, sem op\u00e7\u00e3o. O Brizola n\u00e3o me perguntou: \u2018Quer ficar aqui estudando? Quer ir para It\u00e1lia?\u2019 N\u00e3o. \u2018O companheiro vai para l\u00e1 para fazer um treinamento de t\u00e1ticas e t\u00e9cnicas de guerrilha\u2019.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; E Soledad? O senhor n\u00e3o a traiu?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013<\/strong> Mas de que modo eu tra\u00ed a Soledad? A Soledad tinha desde a inf\u00e2ncia uma op\u00e7\u00e3o de vida. Eu s\u00f3 poderia ficar junto, me casar com uma mo\u00e7a como a Soledad, se ela n\u00e3o estivesse naquilo. Mas a op\u00e7\u00e3o de vida foi dela, a escolha foi dela. Ela n\u00e3o poderia, por exemplo, fazer uma outra escolha, que, para mim, seria muito mais racional, l\u00f3gica e humana: ficar criando a filha dela em Cuba?<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>R7 &#8211; Ela tinha confian\u00e7a no senhor.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anselmo \u2013 <\/strong>Mas ela n\u00e3o veio para c\u00e1 para&#8230; Ela nem sabia que ia encontrar comigo. Ela n\u00e3o sabia com que ela ia encontrar. Como eu n\u00e3o sabia que ia encontrar com ela em S\u00e3o Paulo para ir l\u00e1 para o Recife. Ela veio por uma decis\u00e3o de fazer a guerrilha no Brasil. A guerrilha internacional.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; R7<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autobiografia do mais conhecido agente duplo brasileiro chega \u00e0s livrarias \u201cN\u00e3o fiz nenhum juramento \u00e0 foice e ao martelo\u201d, afirma, em entrevista ao R7, Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, 74 anos, o mais conhecido agente duplo da ditadura militar. Nos anos 1960, ele era um talism\u00e3 da esquerda. Tinha um discurso incendi\u00e1rio e treinamento em Cuba. 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