{"id":810,"date":"2012-05-29T16:27:24","date_gmt":"2012-05-29T16:27:24","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/29\/a-verdade-2\/"},"modified":"2012-05-29T16:27:24","modified_gmt":"2012-05-29T16:27:24","slug":"a-verdade-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/29\/a-verdade-2\/","title":{"rendered":"A verdade"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>O Brasil sempre lidou mal com sua hist\u00f3ria. Nossas rupturas n\u00e3o s\u00e3o para valer, mesmo quando deveriam ser. Mudamos tudo para manter tudo como estava, na c\u00e9lebre frase do romance de Lampedusa, &#8220;O Leopardo&#8221;. Ou &#8220;fa\u00e7amos a revolu\u00e7\u00e3o antes que o povo a fa\u00e7a&#8221;, como disse o governador de Minas Gerais, Antonio Carlos, em 1930. Da\u00ed que nossas mudan\u00e7as fiquem truncadas.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Vejamos os grandes acontecimentos de nossa hist\u00f3ria. A independ\u00eancia foi proclamada pelo pr\u00edncipe herdeiro de Portugal, a conselho do pai (&#8220;Pedro, toma essa coroa antes que um aventureiro lance m\u00e3o dela&#8221;). A aboli\u00e7\u00e3o foi assinada pela princesa regente do Imp\u00e9rio. A Rep\u00fablica foi proclamada por Deodoro, que o imperador fizera marechal. A revolu\u00e7\u00e3o de 1930 foi liderada por Get\u00falio Vargas, ex-ministro da Fazenda do presidente que ele dep\u00f4s. A ditadura Vargas foi derrubada em 1945 por Gaspar Dutra, ex-ministro da Guerra do presidente que ele dep\u00f4s. A segunda ditadura caiu em 1985, colocando na presid\u00eancia Jos\u00e9 Sarney, que um ano antes chefiava o partido do regime.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Com tudo isso, como &#8220;passar o Brasil a limpo&#8221;? Cada coisa ruim de nossa hist\u00f3ria &#8211; a col\u00f4nia, a escravid\u00e3o, o despotismo, a fraude eleitoral da oligarquia, o golpe militar de 1964 &#8211; sai de cena derrotada, mas na hora de mudar n\u00e3o se vai adiante. N\u00e3o se cobra, n\u00e3o se conserta, n\u00e3o se renova.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o precisamos ter medo da verdade nem da Comiss\u00e3o<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o de Verdade \u00e9 a tentativa, simb\u00f3lica e mais que simb\u00f3lica, de ir al\u00e9m disso. O Brasil demorou a criar a sua. V\u00e1rios pa\u00edses j\u00e1 o tinham feito. Finalmente o fizemos. Pela primeira vez em nossa hist\u00f3ria, tratamos o passado vergonhoso de maneira consequente. Se ele \u00e9 infame, por que cal\u00e1-lo? Se foi repudiado nas ruas, por que n\u00e3o apurar o que ele efetivamente foi? V\u00e1 l\u00e1 uma anistia, mas anestesia e amn\u00e9sia por qu\u00ea?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Supremo Tribunal decidiu n\u00e3o rever a anistia autoconcedida pelos mesmos que violaram leis humanas e acima do humano. Mas como perdoar, sem antes saber quem e o que est\u00e1 sendo perdoado?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na verdade, a l\u00f3gica da Comiss\u00e3o \u00e9 a mesma da lei do governo FHC, que manda indenizar as v\u00edtimas da ditadura. \u00c9 tamb\u00e9m a l\u00f3gica das a\u00e7\u00f5es afirmativas, que o Supremo recentemente validou por unanimidade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em todos esses casos se reconhece que quem mandava no Brasil agiu mal &#8211; fosse o regime militar, fosse a oligarquia escravagista. Essa a\u00e7\u00e3o m\u00e1 e injusta causou v\u00edtimas e danos. Ora, numa linha de a\u00e7\u00e3o consistente mas in\u00e9dita em nosso pa\u00eds, desde a iniciativa citada do presidente Fernando Henrique o Estado brasileiro explicitamente condena a a\u00e7\u00e3o m\u00e1 desses grupos e, consequ\u00eancia l\u00f3gica tamb\u00e9m nova entre n\u00f3s, busca reverter os resultados igualmente maus que produziram. Essa a raz\u00e3o, por exemplo, de compensar os afrodescendentes para que seu terr\u00edvel \u00f4nus hist\u00f3rico, que os situou nas camadas subalternas da sociedade, seja tempor\u00e1ria e instrumentalmente convertido em b\u00f4nus.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Isso tamb\u00e9m exige trabalhar a mem\u00f3ria. Mentiras e sil\u00eancios precisam ser substitu\u00eddos pela verdade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Uma tradi\u00e7\u00e3o forte que nos vem da Gr\u00e9cia antiga celebra o bem, o belo e o verdadeiro. Essa trindade de valores deveria andar junta. A verdade sobre o passado exige expor o que nele representa o mal. S\u00f3 assim produziremos algo do bem. Tratando-se de uma hist\u00f3ria constru\u00edda a partir do poder, tem que ser revelado o mal exercido com e pela domina\u00e7\u00e3o. Quando passamos, gradualmente, \u00e0 democracia, a cont\u00ednua linha hist\u00f3rica baseada na exclus\u00e3o e na opress\u00e3o n\u00e3o deve subsistir. Mas n\u00e3o basta distribuir renda. \u00c9 preciso abrir o pensamento, a compreens\u00e3o do passado, a constru\u00e7\u00e3o do futuro. Nada disso se far\u00e1 com a mentira ou a ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Pessoalmente, n\u00e3o defendo a revis\u00e3o da anistia. Mas isso porque a verdadeira discuss\u00e3o \u00e9 sobre a mem\u00f3ria. Notem que j\u00e1 esquecemos os presidentes da ditadura. O \u00faltimo governante que lembramos com admira\u00e7\u00e3o, antes dos recentes, foi Kubitschek, que a ditadura cassou; antes dele, Get\u00falio, cuja heran\u00e7a ela quis liquidar. Contra o mal na pol\u00edtica, a verdade \u00e9 o que h\u00e1 de mais precioso. S\u00f3 precisa ter medo dela quem tem raz\u00f5es para tem\u00ea-la. \u00c9 bom separar o joio, raro, do trigo, abundante. Dezenas de milhares de oficiais das nossas For\u00e7as Armadas, que nada t\u00eam a ver com a tortura, s\u00f3 podem se sentir bem ao se demarcarem da minoria que, um dia, agiu contra a honra da farda.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Brasil ganha, desenvolvendo um processo de mudan\u00e7a consistente, pelo qual n\u00e3o s\u00f3 reduz a pobreza medida em poder de compra mas tamb\u00e9m, e sobretudo, revisa a fundo os significados atribu\u00eddos pela sociedade ao que s\u00e3o liberdade e opress\u00e3o, crescimento econ\u00f4mico e explora\u00e7\u00e3o do outro, florescimento da pessoa e sua escraviza\u00e7\u00e3o ou humilha\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o ocorre s\u00f3 no Brasil. Um s\u00e9culo atr\u00e1s, tr\u00eas por cento da popula\u00e7\u00e3o mundial, se tanto, tinham direitos humanos em ampla escala. Hoje, mesmo n\u00e3o sendo otimista, essa propor\u00e7\u00e3o ter\u00e1 passado a trinta, talvez quarenta por cento no mundo. Falta muito. Mas nunca tanta gente &#8211; incluindo mulheres, povos de cor, como os chamava Sukarno, minorias comportamentais, como homossexuais &#8211; desfrutou de direitos como esses. Essa multiplica\u00e7\u00e3o por dez do porcentual de seres humanos respeitados, em cem anos, \u00e9 um avan\u00e7o que nunca antes ocorreu &#8211; e nunca mais ocorrer\u00e1, nessa dimens\u00e3o. Se e quando todos os habitantes do mundo tiverem reconhecidos seus direitos humanos, o avan\u00e7o a partir de hoje ser\u00e1 uma multiplica\u00e7\u00e3o por dois ou tr\u00eas, n\u00e3o por dez, que foi o que conseguimos nas \u00faltimas gera\u00e7\u00f5es. Ora, para realizar este processo, \u00e9 preciso acabar com a mentira. Saber o que foram (ou, infelizmente, ainda s\u00e3o) a tortura e a opress\u00e3o extrema \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o para se construir um mundo melhor.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Valor<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil sempre lidou mal com sua hist\u00f3ria. Nossas rupturas n\u00e3o s\u00e3o para valer, mesmo quando deveriam ser. Mudamos tudo para manter tudo como estava, na c\u00e9lebre frase do romance de Lampedusa, &#8220;O Leopardo&#8221;. Ou &#8220;fa\u00e7amos a revolu\u00e7\u00e3o antes que o povo a fa\u00e7a&#8221;, como disse o governador de Minas Gerais, Antonio Carlos, em 1930. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/810"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=810"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/810\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=810"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=810"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=810"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}