{"id":812,"date":"2012-05-29T16:34:56","date_gmt":"2012-05-29T16:34:56","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/29\/argentina-outro-silencio-que-se-rompe-2\/"},"modified":"2012-05-29T16:34:56","modified_gmt":"2012-05-29T16:34:56","slug":"argentina-outro-silencio-que-se-rompe-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/29\/argentina-outro-silencio-que-se-rompe-2\/","title":{"rendered":"Argentina: outro sil\u00eancio que se rompe"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>A cumplicidade ativa entre a Igreja Cat\u00f3lica e a mais b\u00e1rbara das ditaduras militares que sacudiram a Argentina nunca foi segredo para ningu\u00e9m. Sua dimens\u00e3o e profundidade, sim. O n\u00famero de capel\u00e3es militares denunciados como tendo assistido, imp\u00e1vidos ou quase, a sess\u00f5es de torturas \u00e9 amplo o suficiente para deixar claro que nada daquele horror podia ser ignorado pela hierarquia eclesi\u00e1stica e, portanto, pelo Vaticano. O que agora se revela \u00e9 estarrecedor. O artigo \u00e9 de Eric Nepomuceno.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A Argentina despertou no domingo, dia 27 de maio, com um sil\u00eancio a menos: um longo texto do veterano jornalista Horacio Verbitsky, no combativo \u2018P\u00e1gina 12\u2019, mostra como foi confirmado e reconhecido o que todo mundo, ou quase, desconfiava. Sim: a Igreja Cat\u00f3lica admitiu formalmente, e diante da Justi\u00e7a, que desde pelo menos 1978 sabia que a ditadura encabe\u00e7ada pelo general Jorge Rafael Videla assassinava presos pol\u00edticos. E mais: n\u00e3o satisfeita em saber e se omitir, a c\u00fapula da Igreja Cat\u00f3lica n\u00e3o se furtou a examinar, junto ao pr\u00f3prio Videla, como manipular a informa\u00e7\u00e3o sobre esses assassinatos, como lidar com a aberrante figura do \u2018desaparecido\u2019.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"> <br \/> <\/span>A cumplicidade ativa entre a Igreja Cat\u00f3lica e a mais b\u00e1rbara das ditaduras militares que sacudiram a Argentina nunca foi segredo para ningu\u00e9m. Sua dimens\u00e3o e profundidade, sim.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>O n\u00famero de capel\u00e3es militares denunciados como tendo assistido, imp\u00e1vidos ou quase, a sess\u00f5es de torturas \u00e9 amplo o suficiente para deixar claro que nada daquele horror podia ser ignorado pela hierarquia eclesi\u00e1stica e, portanto, pelo Vaticano. As palavras p\u00fablicas de padres, bispos e cardeais em apoio \u00e0 \u2018cruzada dos militares no combate ao caos\u2019 \u2013 assim chamavam o genoc\u00eddio \u2013 n\u00e3o eram mero jogo de cena para acobertar um trabalho humanit\u00e1rio feito nos bastidores, na tentativa de salvar vidas e evitar mais tormentos. N\u00e3o, n\u00e3o: o papel nada crist\u00e3o da hierarquia cat\u00f3lica durante aqueles anos de horror e mortandade j\u00e1 foi revelado, mas, como acaba de ficar claro uma vez mais, ainda falta muito a ser desvendado, muito sil\u00eancio a ser rompido.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>O que agora se revela \u00e9 estarrecedor. Por exemplo: o cardeal Ra\u00fal Primatesta, arcebispo de C\u00f3rdoba naquele 1978 de p\u00e9ssima mem\u00f3ria, chegou a advertir o general Videla, durante um almo\u00e7o junto a outros altos mandos da Igreja Cat\u00f3lica, que o costume de \u2018desaparecer\u2019 presos pol\u00edticos \u2013 ou seja, assassinar e depois sumir com os corpos \u2013 era um m\u00e9todo que poderia \u2018trazer m\u00e1s consequ\u00eancias\u2019. Ele quase disse o seguinte: matar, d\u00e1 para entender; sumir com os corpos, n\u00e3o.\u00a0<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>O arcebispo de Buenos Aires, cardeal Juan Aramburu, foi na mesma dire\u00e7\u00e3o: disse que era preciso encontrar um jeito para que as pessoas parassem de fazer perguntas sobre os desaparecidos. Vale repetir: o Vaticano sabia de tudo, o tempo todo.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Poucos dias antes da revela\u00e7\u00e3o feita por Verbitsky, outro documento \u2013 elaborado por m\u00e9dicos argentinos \u2013 denunciou a participa\u00e7\u00e3o de pelo menos mil e duzentos de seus colegas em crimes de lesa humanidade. Acompanhavam ou participavam de sess\u00f5es de tortura, supervisionavam o andamento dos tormentos, indicavam quando parar ou, em casos extremos e sem volta, quando liquidar de vez com a v\u00edtima. N\u00e3o apenas m\u00e9dicos: tamb\u00e9m enfermeiros, psic\u00f3logos e param\u00e9dicos foram c\u00famplices ativos e diretos. Havia m\u00e9dicos civis que se juntavam aos seus companheiros fardados. Todos eles tiveram participa\u00e7\u00e3o direta no mais abomin\u00e1vel dos crimes cometidos pela ditadura que sufocou o pa\u00eds entre 1976 e 1983: separar os rec\u00e9m-nascidos de suas m\u00e3es nos centros de tortura, e entreg\u00e1-los a fam\u00edlias que ningu\u00e9m sabe ao certo quais foram.\u00a0<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Havia pelo menos 30 maternidades clandestinas. As mulheres davam \u00e0 luz algemadas e encapuzadas, para n\u00e3o ver a cara dos m\u00e9dicos que as atendiam. Os beb\u00eas eram encaminhados a doa\u00e7\u00f5es ilegais, as m\u00e3es eram encaminhadas ao matadouro. Pelo menos 500 delas morreram sem saber o destino de seus filhos.\u00a0<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Tamb\u00e9m eram m\u00e9dicos os que aplicavam inje\u00e7\u00f5es dopantes em prisioneiros que eram retirados dos centros de tortura, embarcados vivos em avi\u00f5es e, vivos, atirados no oceano Atl\u00e2ntico ou nas \u00e1guas do rio da Prata. N\u00e3o se conhece nenhuma estat\u00edstica confi\u00e1vel sobre quantos dos desaparecidos desapareceram assim. O que sim, se sabe, \u00e9 que dos cinco mil presos que passaram pelo mais not\u00f3rio centro de tormentos, o que funcionava na antiga ESMA (Escola Superior de Mec\u00e2nica da Armada), pouco mais de 200 sobreviveram. Quantos dos outros foram jogados de avi\u00f5es no vazio?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Existe um claro pacto de sil\u00eancio entre esses assassinos que um dia fizeram o juramento de Hip\u00f3crates, em que se comprometeram n\u00e3o a ser hip\u00f3critas para sempre, mas a, para sempre, salvar vidas humanas. E \u00e9 esse pacto de sil\u00eancio que precisa ser roto, para que se saiba quem \u00e9 quem entre os m\u00e9dicos do pa\u00eds.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Sim, \u00e9 verdade: quanto mais se avan\u00e7a, na Argentina, no caminho da busca da verdade, do resgate da mem\u00f3ria e do cumprimento da justi\u00e7a, mais sil\u00eancios s\u00e3o rompidos, mais horrores s\u00e3o revelados. Mais justi\u00e7a \u00e9 feita.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Quanto mais a Argentina avan\u00e7a na revela\u00e7\u00e3o da verdade de seus tempos de opr\u00f3brios, mais se livra do peso e da mancha da impunidade. E mais claro fica que um pa\u00eds que n\u00e3o conhece a verdade do pr\u00f3prio passado n\u00e3o saber\u00e1 merecer o pr\u00f3prio presente, e muito menos saber\u00e1 aproximar o futuro.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Um vasto sil\u00eancio \u2013 o da cumplicidade da Igreja Cat\u00f3lica com o regime genocida \u2013 se rompe cada vez mais. Outro vasto sil\u00eancio \u2013 o dos m\u00e9dicos transformados em carniceiros \u2013 come\u00e7a a se romper de vez.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>E assim, rompendo sil\u00eancios, removendo sombras, a Argentina ouve cada vez mais a pr\u00f3pria voz, e sabe, cada vez mais, da import\u00e2ncia da claridade.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Carta Capital<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cumplicidade ativa entre a Igreja Cat\u00f3lica e a mais b\u00e1rbara das ditaduras militares que sacudiram a Argentina nunca foi segredo para ningu\u00e9m. Sua dimens\u00e3o e profundidade, sim. 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