{"id":8177,"date":"2015-11-03T11:12:44","date_gmt":"2015-11-03T11:12:44","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2015\/11\/03\/documentos-da-ditadura-descartam-traicao-a-militante-mineiro-durante-o-regime-militar\/"},"modified":"2015-11-03T11:12:44","modified_gmt":"2015-11-03T11:12:44","slug":"documentos-da-ditadura-descartam-traicao-a-militante-mineiro-durante-o-regime-militar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2015\/11\/03\/documentos-da-ditadura-descartam-traicao-a-militante-mineiro-durante-o-regime-militar\/","title":{"rendered":"Documentos da ditadura descartam trai\u00e7\u00e3o a militante mineiro durante o Regime Militar"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Microfilmes analisados pela UFMG revelam que Wellington Moreira Diniz n\u00e3o entregou Juarez Guimar\u00e3es sob tortura. Morte do soci\u00f3logo e um dos fundadores da Colina em emboscada foi obra de infiltrado do regime militar<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.jex.com.br\/includes\/imagem.php?id_jornal=17299&#038;id_noticia=507\" border=\"0\" width=\"191\" height=\"264\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<address><\/address>\n<address><\/address>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Por muitos anos, houve quem acusasse Wellington Moreira Diniz, um dos principais quadros da Vanguarda Armada Revolucion\u00e1ria Palmares (VAR-Palmares) e da Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR), de, sob tortura, ter entregue ao DOI-Codi do Rio de Janeiro informa\u00e7\u00f5es que teriam ajudado a desmantelar organiza\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia armada \u00e0 ditadura militar. Entre essas informa\u00e7\u00f5es estaria o ponto de encontro que ocorreria em 18 de abril de 1970, no Jardim Bot\u00e2nico, entre Wellington e o soci\u00f3logo mineiro Juarez Guimar\u00e3es de Brito, um dos fundadores da Colina, que, ao lado de Carlos Lamarca e Maria do Carmo Brito, era um dos expoentes da VAR -Palmares e depois da VPR.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Mas cerca de 3 mil documentos dos \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia militares e centros de informa\u00e7\u00e3o da Marinha, do Ex\u00e9rcito e da Aeron\u00e1utica, que integram o acervo microfilmado em an\u00e1lise e em processo de sistematiza\u00e7\u00e3o dentro do Projeto Rep\u00fablica, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sob coordena\u00e7\u00e3o da historiadora Helo\u00edsa Starling, sepultam em definitivo o equ\u00edvoco. \u201cOs microfilmes comprovam como agentes infiltrados por um aparelho repressivo \u2013 que se revela, de forma in\u00e9dita, sob o comando hier\u00e1rquico das For\u00e7as Armadas, tendo os DOI-Codis papel central de reuni\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e processamento das informa\u00e7\u00f5es \u2013, ajudaram a implodir organiza\u00e7\u00f5es clandestinas\u201d, avalia Helo\u00edsa.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O Estado de Minas apresentou a Wellington, de 68 anos, que mora em Prudente de Morais, na Regi\u00e3o Central de Minas, c\u00f3pia do relat\u00f3rio manuscrito pelo agente do Centro de Informa\u00e7\u00f5es da Marinha (Cenimar) Manoel Ant\u00f4nio Mendes Rodrigues. Com o falso nome de \u201cLuciano\u201d, Manoel se empregara em 1969 na Imobili\u00e1ria Bol\u00edvar, com sede em Copacabana, dirigida por Maria Nazareth Cunha da Rocha, que arranjava \u201caparelhos\u201d (apartamentos mobiliados) para organiza\u00e7\u00f5es de esquerda fazerem encontros. Em seus relat\u00f3rios, \u201cLuciano\u201d detalhava \u00e0 repress\u00e3o os passos de Juarez nos cinco dias que antecederam a sua morte: a reuni\u00e3o em S\u00e3o Paulo com Lamarca, o hor\u00e1rio e o local do \u201cponto\u201d com Wellington, que havia faltado a dois encontros da organiza\u00e7\u00e3o na \u00faltima semana. O pr\u00f3ximo, agendado no Jardim Bot\u00e2nico, confirmaria a sua situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Quarenta e cinco anos depois, emocionado, Wellington, que foi preso em 9 de abril de 1970 e torturado por tr\u00eas dias seguidos, desabafa: \u201cEu n\u00e3o sabia deste infiltrado. Agora entendo que possivelmente ele entregou o local onde fui preso, no Largo do Machado, onde se daria uma reuni\u00e3o entre Lamarca e os quadros de outras organiza\u00e7\u00f5es de esquerda. Eu fazia a vistoria de seguran\u00e7a quando fui surpreendido. Houve tiroteio e a minha pris\u00e3o\u201d. Naquele momento, era planejada uma opera\u00e7\u00e3o para o sequestro do embaixador alem\u00e3o Elfrid von Holleben. Segundo Maria do Carmo, seria tarefa de Wellington preparar o esconderijo numa propriedade rural no Rio para manter o embaixador. Ao longo de 1970, o sequestro de diplomatas fazia parte da estrat\u00e9gia das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda como forma de resgatar militantes presos. Wellington havia sido levado para a \u201cboate arrepio\u201d, denomina\u00e7\u00e3o para a sala de tortura do DOI-Codi da Bar\u00e3o de Mesquita. O pau comeu por 72 horas com requintes de crueldade: teve at\u00e9 bisturi rasgando a carne para encostar os fios do choque el\u00e9trico nos ossos.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m conhecido pelos codinomes de Virgulino, Lira e Justino, Wellington, que foi seguran\u00e7a pessoal de Lamarca, exibia em seu curr\u00edculo 58 a\u00e7\u00f5es de \u201cexpropria\u00e7\u00f5es\u201d a bancos e cofres, como o roubo do cofre de Ana Capriglione, amante do ex-governador de S\u00e3o Paulo Adhemar de Barros. Ele sabia muito, inclusive tinha conhecimento de que parte dos cerca US$ 2,8 milh\u00f5es carregados do cofre havia sido depositado na embaixada da Arg\u00e9lia. O interrogat\u00f3rio ia e vinha em torno de tr\u00eas nomes do alto-comando da organiza\u00e7\u00e3o clandestina: onde estavam Juarez, Maria do Carmo Brito e Lamarca? E o dinheiro do cofre? Virgulino resistiu. N\u00e3o falou.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Apesar do sil\u00eancio do militante, em 18 de abril de 1970, a pol\u00edcia repressiva sabia o local do encontro onde um membro da organiza\u00e7\u00e3o faria contato com Wellington. Juarez foi com a esposa, Maria do Carmo, num fusca bege. De longe viram o jipe de Wellington, que fez discreto sinal. Perceberam que o companheiro havia ca\u00eddo. Ele era a \u201cisca\u201d. Juarez e Maria do Carmo deram meia-volta. \u201cEu estava algemado dentro do jipe, com as pernas presas, mas comemorei, pois acreditei que eles haviam compreendido que eu estava preso\u201d, conta Wellington. Mas n\u00e3o foi assim. Leal e solid\u00e1rio, Juarez n\u00e3o deixaria o amigo, a quem considerava filho. Voltou para resgat\u00e1-lo, mas o casal foi cercado por mais de 30 policiais.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>PACTO<\/strong> Juarez e Maria do Carmo tinham um trato: na imin\u00eancia de pris\u00e3o, quem tivesse a arma mataria o outro e se suicidaria. Ela n\u00e3o cumpriu o combinado. Juarez ent\u00e3o arrancou o rev\u00f3lver da m\u00e3o da mulher e se matou com um tiro no ouvido direito, ao mesmo tempo em que era baleado no bra\u00e7o e no abd\u00f4men. \u201cQuando fui presa, o organograma da nossa organiza\u00e7\u00e3o estava completo: eu j\u00e1 estava inserida no cargo de dire\u00e7\u00e3o que ocupava. Era uma das \u00faltimas a cair\u201d, explica Maria do Carmo. Assim como Wellington, ela diz desconhecer a infiltra\u00e7\u00e3o de Manoel. \u201cMas faz todo o sentido\u201d, considera. A morte de Juarez, entre tantas, ocorreu em consequ\u00eancia de agentes infiltrados pelo regime nas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda. \u201cApesar disso, a n\u00e3o ser o caso do Cabo Anselmo, at\u00e9 hoje pouco se soube das estrat\u00e9gias adotadas pela repress\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a eles\u201d, explica Helo\u00edsa Starling. A documenta\u00e7\u00e3o analisada pela UFMG aponta tr\u00eas perfis de infiltrados: militares, ex-militantes que passaram a colaborar depois de tortura e pessoas que atuaram por dinheiro, explica a historiadora.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Ponto<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">As organiza\u00e7\u00f5es clandestinas chamavam de \u201cponto\u201d locais de encontro marcado com militantes. Quando o militante n\u00e3o comparecia ao primeiro \u201cponto\u201d, horas depois havia o que se chamava de \u201cponto alternativo\u201d para encontro em um outro local. Caso n\u00e3o comparecesse, estava previamente agendado o chamado \u201cponto de emerg\u00eancia\u201d ou \u201cponto de resgate\u201d , que ocorreria dias depois em outro local que confirmaria a situa\u00e7\u00e3o do militante. Se n\u00e3o comparecesse, seria sinal de que tinha sido preso.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Colina<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Comando de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (Colina) foi uma organiza\u00e7\u00e3o esquerda criada em Minas Gerais, \u00e0 qual pertenceu a presidente Dilma Rousseff. Juarez Guimar\u00e3es de Brito foi um de seus fundadores. Tanto Colina quanto Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR) s\u00e3o dissid\u00eancias da Organiza\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria Marxista \u2013 Pol\u00edtica Oper\u00e1ria (Polop), organiza\u00e7\u00e3o que se formou no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960, antes do golpe militar. Em julho de 1969, Colina e VPR se fundiram formando a Vanguarda Armada Revolucion\u00e1ria Palmares, chamada de VAR-Palmares. Tr\u00eas meses depois, diverg\u00eancias pol\u00edticas no novo grupo levaram a nova divis\u00e3o, ressurgindo a VPR.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-8176\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/20151101080626838936e.jpg\" border=\"0\" width=\"700\" height=\"1250\" \/><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; EM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Microfilmes analisados pela UFMG revelam que Wellington Moreira Diniz n\u00e3o entregou Juarez Guimar\u00e3es sob tortura. 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