{"id":8269,"date":"2016-02-19T16:44:38","date_gmt":"2016-02-19T16:44:38","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=8269"},"modified":"2016-02-19T16:44:38","modified_gmt":"2016-02-19T16:44:38","slug":"estranhos-na-noite-filme-sobre-censura-a-imprensa-na-ditadura-estreia-sabado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2016\/02\/19\/estranhos-na-noite-filme-sobre-censura-a-imprensa-na-ditadura-estreia-sabado\/","title":{"rendered":"&#8216;Estranhos na Noite&#8217;, filme sobre censura \u00e0 imprensa na ditadura, estreia s\u00e1bado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Sexta-feira, 13 de dezembro de 1968. Num dia tradicionalmente identificado com o azar, a reda\u00e7\u00e3o de O Estado de S. Paulo, ent\u00e3o no centro da cidade, \u00e9 invadida por policiais que tentam &#8211; sem sucesso &#8211; bloquear a sa\u00edda e apreender os jornais no cais da expedi\u00e7\u00e3o da rua Major Quedinho. Nesse mesmo dia, o governo militar decreta o Ato Institucional n.\u00ba 5 (AI-5), que fecha o Congresso, cassa os direitos dos cidad\u00e3os e acaba com a liberdade de imprensa. O primeiro alvo \u00e9 o Estad\u00e3o, que ousou publicar, nesse mesmo dia 13, o editorial Institui\u00e7\u00f5es em Frangalhos, criticando duramente o presidente da Rep\u00fablica, marechal Costa e Silva (1899-1969), por pretender passar por cima da lei para processar o deputado M\u00e1rcio Moreira Alves, autor de um discurso ofensivo \u00e0s For\u00e7as Armadas. No dia anterior, a C\u00e2mara dos Deputados rejeitara o pedido de licen\u00e7a para que o Supremo Tribunal Federal processasse o pol\u00edtico oposicionista. Ent\u00e3o, o 2.\u00ba Ex\u00e9rcito entrou de prontid\u00e3o nessa noite. A trag\u00e9dia apenas come\u00e7ava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As institui\u00e7\u00f5es, confirmando o \u00faltimo editorial redigido pelo diretor do jornal, Julio de Mesquita Filho (1892-1969), estavam mesmo em frangalhos. A prova fatal viria \u00e0s 22 horas desse dia 13, uma hora antes de o ministro da Justi\u00e7a, Gama e Silva, anunciar o AI-5: recusando-se \u00e0 autocensura, o Estad\u00e3o foi submetido \u00e0 censura por ordem governamental. Alvo de amea\u00e7as e telefonemas an\u00f4nimos, o jornal viria a ser censurado por tr\u00eas anos &#8211; de 2 de agosto de 1973 a 3 de janeiro de 1975. Nesse per\u00edodo, segundo levantamento do coordenador do Acervo Estad\u00e3o, Edmundo Leite, foram cortados da edi\u00e7\u00e3o 1.136 textos, substitu\u00eddos por excertos de Os Lus\u00edadas (no caso do Estad\u00e3o) e receitas de bolo (no Jornal da Tarde), em protesto contra o arb\u00edtrio dos censores, que se instalaram na sede do jornal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um filme com os protagonistas dessa hist\u00f3ria, dirigido por Camilo Tavares, filho de um deles, o jornalista Fl\u00e1vio Tavares, ex-editorialista do Estad\u00e3o banido pelo regime militar, estreia neste s\u00e1bado, 20, \u00e0s 14 horas, no Museu da Resist\u00eancia. Com roteiro do jornalista Jos\u00e9 Maria Mayrink, autor do livro Morda\u00e7a no Estad\u00e3o, seu t\u00edtulo, Estranhos na Noite, evoca um antigo sucesso de Frank Sinatra, Strangers in the Night. Com deliberada ironia, quem cantava a m\u00fasica na Reda\u00e7\u00e3o era o diagramador Gellulfo Gon\u00e7alves, anunciando em c\u00f3digo a presen\u00e7a de censores. Gellulfo tamb\u00e9m aparece no document\u00e1rio, produzido pela Pequi Filmes, que, entre 27 depoimentos, traz Eva Wilma e Irene Ravache, duas veteranas atrizes que lutaram contra a censura e resistiram \u00e0s arbitrariedades da ditadura. Irene, inclusive, negou-se a revelar o paradeiro de colegas perseguidos pelos militares, colocando sua seguran\u00e7a em risco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atos de coragem custaram caro a jornalistas que n\u00e3o tiveram a mesma sorte, como Antonio Carlos Fon, rep\u00f3rter policial que denunciou os crimes do Esquadr\u00e3o da Morte, foi preso e barbaramente torturado. A sua \u00e9 uma das muitas hist\u00f3rias do filme que ser\u00e1 exibido no s\u00e1bado, no Memorial da Resist\u00eancia, antiga sede do Dops (Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social), extinto em 1983. Como ele, outros jornalistas do Estad\u00e3o foram perseguidos por defender a causa das liberdades e dos direitos humanos. Carlos Garcia, chefe da sucursal do Recife em 1974, entrevistado no filme, levou choques el\u00e9tricos e foi pendurado no pau de arara para revelar como funcionava a &#8220;c\u00e9lula comunista&#8221; no Estad\u00e3o, um jornal que, evoque-se, apoiou o golpe militar de 1964 &#8211; a desilus\u00e3o com os desvios do regime antidemocr\u00e1tico n\u00e3o tardou a chegar. Claro que muitos dos seus jornalistas eram comunistas. A dire\u00e7\u00e3o do jornal, como enfatiza J\u00falio C\u00e9sar Mesquita no filme, n\u00e3o pedia atestado ideol\u00f3gico de seus funcion\u00e1rios. &#8220;\u00c9 uma tradi\u00e7\u00e3o nossa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A censura proibiu a not\u00edcia da pris\u00e3o de Garcia. Por vezes era a Pol\u00edcia Federal que avisava por telefone quais temas deviam ser evitados ou simplesmente proibidos. Outras vezes, eram bilhetes de oficiais do Ex\u00e9rcito. O roteirista do filme, Jos\u00e9 Maria Mayrink, entrevistou profissionais que testemunharam os mais absurdos casos. &#8220;Todos os jornais publicaram a cobertura da sa\u00edda do ministro da Agricultura, Luiz Fernando Cirne Lima, em maio de 1973, menos o Estad\u00e3o&#8221;, lembra Mayrink, o primeiro rep\u00f3rter a ver o corpo do guerrilheiro Carlos Marighella (1911-1969) ainda no carro, emboscado na Alameda Casa Branca. Sobre Cirne Lima, o an\u00fancio de sua demiss\u00e3o foi substitu\u00eddo, na edi\u00e7\u00e3o de 10 de maio de 1973, por um an\u00fancio de um programa da r\u00e1dio Eldorado, Agora \u00c9 Samba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Delfim Neto, ent\u00e3o ministro da Fazenda, aparece no filme negando que tenha sido o piv\u00f4 da demiss\u00e3o de Cirne Lima. E aproveita para declarar que nunca houve &#8220;milagre econ\u00f4mico&#8221; e assinaria de novo o AI-5, que permitiu a censura aos jornais. Sobre ela, ali\u00e1s, Julio de Mesquita Neto (1922-1996), diretor respons\u00e1vel do Estad\u00e3o, cargo que assumiu em 1969, guardou uma hist\u00f3ria lembrada por Mayrink no filme. Chamado a depor num Inqu\u00e9rito Policial Militar, em janeiro de 1973, o editor, interpelado por um major se era o diretor respons\u00e1vel do jornal, respondeu: &#8220;N\u00e3o, \u00e9 o professor Alfredo Buzaid, ministro da Justi\u00e7a&#8221;. E completou: &#8220;No caso, depois da censura, quem decide o que sai ou deixa de sair no Estado \u00e9 o professor Alfredo Buzaid&#8221;. A ironia, claro, n\u00e3o foi bem recebida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o havia mais censura aos jornais em 1975 quando o jornalista Marco Ant\u00f4nio Rocha, hoje editorialista do jornal, recorreu ao ent\u00e3o editor Ruy Mesquita (1925-2013), ao ser amea\u00e7ado, no mesmo ano da pris\u00e3o e morte de Vladimir Herzog no DOI-Codi. Rocha conta no filme que o editor ligou para o ministro da Justi\u00e7a assumindo que ele se encontrava sob sua prote\u00e7\u00e3o. &#8220;Papai o recebeu em casa e ele dormiu no meu quarto&#8221;, conta Ruy Mesquita Filho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Naquela \u00e9poca, o inimigo tinha nome endere\u00e7o&#8221;, comenta a atriz Irene Ravache. &#8220;Hoje, com ju\u00edzes desfilando em carros de condenados, vejo que ainda n\u00e3o chegamos ao fundo do po\u00e7o, que n\u00e3o temos uma verdadeira oposi\u00e7\u00e3o&#8221;, conclui. No filme, a palavra final \u00e9 dela, condenando os anistiados do regime que argumentaram estar cumprindo ordens: &#8220;As ordens tamb\u00e9m existem para n\u00e3o serem cumpridas&#8221;. E, lendo um trecho de Mill\u00f4r Fernandes, Eva Wilma completa: &#8220;Mas, no fim, o mal nem sempre vence&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Fonte &#8211;\u00a0O Estado de S. Paulo\/Paran\u00e1 Online<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sexta-feira, 13 de dezembro de 1968. Num dia tradicionalmente identificado com o azar, a reda\u00e7\u00e3o de O Estado de S. Paulo, ent\u00e3o no centro da cidade, \u00e9 invadida por policiais que tentam &#8211; sem sucesso &#8211; bloquear a sa\u00edda e apreender os jornais no cais da expedi\u00e7\u00e3o da rua Major Quedinho. 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