{"id":8280,"date":"2016-03-01T20:18:55","date_gmt":"2016-03-01T20:18:55","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=8280"},"modified":"2016-03-01T20:18:55","modified_gmt":"2016-03-01T20:18:55","slug":"ex-soldado-chileno-relembra-atrocidades-cometidas-na-ditadura-isso-me-corroi","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2016\/03\/01\/ex-soldado-chileno-relembra-atrocidades-cometidas-na-ditadura-isso-me-corroi\/","title":{"rendered":"Ex-soldado chileno relembra atrocidades cometidas na ditadura: &#8220;isso me corr\u00f3i"},"content":{"rendered":"<div class=\"imagem-representativa imagem-615x300\">\n<ul>\n<li>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">Guillermo Padilla, ex-soldado do Ex\u00e9rcito chileno que assassinou presos pol\u00edticos<\/h5>\n<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cena assombra Guillermo Padilla h\u00e1 mais de 40 anos. Como um soldado de 18 anos do Ex\u00e9rcito chileno em 1973, Padilla estava em patrulha com sua unidade em uma cidade do sul quando o propriet\u00e1rio de um supermercado entregou seu pr\u00f3prio filho, o acusando de fornecer muni\u00e7\u00e3o e alimento a um grupo guerrilheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os soldados jogaram o jovem em um po\u00e7o e come\u00e7aram a atirar nele. Depois retiraram seu corpo ensanguentado e crivado de balas, o colocaram em um caminh\u00e3o militar e partiram. Padilla estava assistindo de um jipe pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nunca soube para onde foi levado e nem mesmo seu nome&#8221;, ele disse. &#8220;Toda a experi\u00eancia no Ex\u00e9rcito fez com que eu amadurecesse r\u00e1pido. Tornei-me soldado aos 18 e, depois de tudo o que vi, aos 21 tinha me tornado uma pessoa diferente.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padilla fazia parte de um comando que passou meses vasculhando as cidades e entrepostos remotos no sul do Chile, no final de 1973, \u00e0 procura de armas e opositores da ditadura militar do general Augusto Pinochet. A unidade revistou casas, prendeu e torturou suspeitos, matando pelo menos 30 pessoas, ele disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele reconheceu ter participado de v\u00e1rias execu\u00e7\u00f5es como parte de um pelot\u00e3o de fuzilamento.\u00a0&#8220;Eu n\u00e3o sentia nada&#8221;, ele disse. Mas agora, &#8220;h\u00e1 momentos em que n\u00e3o consigo tirar as imagens daquelas pessoas de minha cabe\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob sucessivos governos civis, o Chile est\u00e1 investigando os abusos de direitos humanos cometidos sob a ditadura militar. Mas o progresso tem sido lento. Mais de 1.370 militares, policiais e agentes civis foram indiciados ou sentenciados por crimes de direitos humanos. Dentre esses, apenas 117 pessoas est\u00e3o na pris\u00e3o, segundo um relat\u00f3rio divulgado em dezembro pelo Programa de Direitos Humanos do Minist\u00e9rio do Interior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 agora, nenhum recruta foi preso. Os ju\u00edzes tratam esses soldados com benevol\u00eancia, na esperan\u00e7a de encoraj\u00e1-los a se apresentarem e ajudar a estabelecer a verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eles s\u00e3o uma fonte valiosa de informa\u00e7\u00e3o&#8221;, disse Mario Carroza, um juiz que est\u00e1 encarregado de mais de 200 casos de direitos humanos. &#8220;Eles estavam sujeitos a uma hierarquia militar r\u00edgida e foram for\u00e7ados a obedecer ordens que n\u00e3o podiam recusar. Nossas leis permitem certos benef\u00edcios caso cooperem, para que se sintam libertados do peso de manter o segredo.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como milhares de outros recrutas, Padilla ainda carrega as cicatrizes emocionais de ter sido for\u00e7ado a testemunhar ou cometer atrocidades; muitos foram ordenados, sob medo de morte, a espancar, matar, torturar ou estuprar pessoas inocentes. Eles ainda sentem a vergonha e o medo instilados neles enquanto saltavam da adolesc\u00eancia para a idade adulta quase da noite para o dia, e o temor de retalia\u00e7\u00e3o, ser evitado pela fam\u00edlia e amigos, ou acabar na pris\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas enquanto a maioria reluta em revelar os segredos de seu passado, Padilla fala francamente de suas experi\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os outros me dizem para n\u00e3o mencionar as execu\u00e7\u00f5es e me recordam de que tenho um lar e fam\u00edlia&#8221;, ele disse. &#8220;Minha esposa tamb\u00e9m n\u00e3o gosta, mas eu perdi todo o medo.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padilla, 62 anos, foi convocado para o Ex\u00e9rcito cinco meses antes dos militares derrubarem o presidente socialista Salvador Allende, em setembro de 1973. Ele nunca imaginou o que o aguardava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo um relat\u00f3rio oficial sobre pris\u00f5es e tortura durante os 17 anos da ditadura Pinochet, depois do golpe, o regimento Puente Alto de Padilla manteve prisioneiros em vag\u00f5es de trens, vendados, atados e privados de \u00e1gua e comida. Muitos detidos foram submetidos a tortura e estupro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por anos, ele tomou medica\u00e7\u00e3o para conseguir dormir \u00e0 noite e anseia pelo perd\u00e3o das fam\u00edlias das v\u00edtimas. Mas ele hesita em contat\u00e1-las; ele diz n\u00e3o saber como, ciente de que grande parte da sociedade considera os soldados como sendo criminosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pai de tr\u00eas filhos adultos, Padilla e sua esposa h\u00e1 40 anos vivem em uma casa modesta e bem cuidada em Caj\u00f3n del Maipo, uma \u00e1rea montanhosa nos arredores de Santiago, a capital. Ele \u00e9 um operador de maquin\u00e1rio pesado em Alto Maipo, um projeto de hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele se descreve como tendo sido um adolescente dur\u00e3o e rebelde, proveniente de um bairro de classe oper\u00e1ria da capital, e gostava de boxe. Seu pai morreu quando ele era menino e ele foi criado pela av\u00f3 em Santiago. Quando foi convocado em 1973, Padilla estava trabalhando em uma mina de gipsita em El Volc\u00e1n, em Caj\u00f3n del Maipo, passando os fins de semana com sua av\u00f3 e namorando uma jovem que trabalhava no refeit\u00f3rio da empresa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meses depois, ele testemunhou a pris\u00e3o dela durante uma batida na empresa. Ela n\u00e3o o reconheceu enquanto era for\u00e7ada a sair sob mira de armas, com os bra\u00e7os erguidos, juntamente com outros funcion\u00e1rios. Ele permaneceu calado, vestindo equipamento militar completo e operando uma metralhadora em um jipe, apontada para sua namorada. Ela ficou detida apenas brevemente. Depois que Padilla concluiu o servi\u00e7o militar em 1975, eles retomaram o relacionamento e se casaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padilla queria ingressar no Ex\u00e9rcito. Ele gostava do uniforme e da vida militar, mas n\u00e3o tinha nenhum interesse em pol\u00edtica. Ele \u00e9 cordial e conversador, mas seus olhos se enchem de l\u00e1grima ao recordar dos eventos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dias depois do golpe, ele contou, um tenente de seu regimento, An\u00edbal Barrera, escolheu um grupo de recrutas para fazerem parte de um pelot\u00e3o de fuzilamento. &#8220;N\u00e3o quer\u00edamos ir, mas ele gritou e nos insultou, amea\u00e7ando que se n\u00e3o cumpr\u00edssemos a ordem, tamb\u00e9m ser\u00edamos mortos&#8221;, disse Padilla.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um prisioneiro foi jogado de bru\u00e7os em um caminh\u00e3o e o oficial e soldados o levaram a La Ballena Hill, em Puente Alto, a poucos quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. O preso n\u00e3o estava vendado, mas foi colocado de costas para o pelot\u00e3o de fuzilamento. Ent\u00e3o os soldados foram ordenados a disparar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relato de Padilla corresponde aos registros da execu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Rodr\u00edguez Hern\u00e1ndez, que foi preso pela pol\u00edcia na rua carregando livros marxistas, entregue ao regimento e morto em La Ballena em 14 de setembro de 1973. D\u00e9cadas depois, Barrera e o comandante do regimento, o coronel Mateo Durruty, reconheceram a morte. Em 2011, Durruty foi sentenciado a quatro anos sob liberdade condicional. Barrera n\u00e3o foi indiciado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padilla n\u00e3o foi identificado como membro do pelot\u00e3o de fuzilamento e nunca foi chamado para testemunhar no tribunal sobre esse ou qualquer outro crime. Ele passou d\u00e9cadas tentando convencer a si mesmo que n\u00e3o \u00e9 um assassino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu disparei contra pessoas, mas n\u00e3o sei dizer se as matei, porque n\u00e3o sei se meus disparos foram respons\u00e1veis pela morte&#8221;, ele disse. &#8220;Ou apenas n\u00e3o quero acreditar.&#8221;\u00a0Ele acrescentou: &#8220;Isso vem me corroendo durante todos esses anos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando foi escolhido para a miss\u00e3o no sul, que ele descreveu como uma &#8220;caravana da morte&#8221;, Padilla e outros soldados\u00a0receberam treinamento especial no Regimento Buin, em Santiago. Certo dia, enquanto os recrutas estavam assistindo a um filme, ele lembrou, os oficiais conduziram um soldado at\u00e9 o p\u00e1tio e o mataram com um tiro. Os recrutas foram informados que o soldado estava passando informa\u00e7\u00e3o confidencial para os comunistas. &#8220;Eles o mataram ali para que todos n\u00f3s v\u00edssemos o que poderia acontecer conosco&#8221;, ele disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de Padilla n\u00e3o saber o nome daquele soldado, ele pode estar se referindo a Mario Gho, um convocado de 19 anos que era contr\u00e1rio ao golpe e foi espancado e executado pelos membros do Regimento Buin em outubro de 1973.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre que o assunto da convoca\u00e7\u00e3o e ditadura surge entre amigos, parentes e colegas de trabalho, disse Padilla, lhe perguntam quantas pessoas ele matou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo ele, costumam lhe dizer: &#8220;Ent\u00e3o, voc\u00ea \u00e9 um dos assassinos de 73?&#8221;. &#8220;Eu convivo o tempo todo com esse tipo de pergunta. Meus filhos ainda n\u00e3o acreditam que pude fazer essas coisas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da passagem do tempo, o desgaste emocional permanece. Agora ele chora at\u00e9 mesmo quando assiste alguns comerciais ou desenhos na televis\u00e3o, ele disse. Ao longo da \u00faltima d\u00e9cada, centenas de ex-recrutas se organizaram por todo o pa\u00eds e agora est\u00e3o processando o Estado em busca de indeniza\u00e7\u00e3o pelos danos morais e psicol\u00f3gicos que sofreram durante seu servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Passei dois anos vivendo com medo&#8221;, disse Padilla. &#8220;\u00c9ramos apenas meninos e eles destru\u00edram nossas vidas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Uol Not\u00edcias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guillermo Padilla, ex-soldado do Ex\u00e9rcito chileno que assassinou presos pol\u00edticos A cena assombra Guillermo Padilla h\u00e1 mais de 40 anos. 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