{"id":8315,"date":"2016-03-08T01:20:48","date_gmt":"2016-03-08T01:20:48","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=8315"},"modified":"2016-03-08T01:32:01","modified_gmt":"2016-03-08T01:32:01","slug":"companheiras","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2016\/03\/08\/companheiras\/","title":{"rendered":"COMPANHEIRAS"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: justify;\">*Por Rose Nogueira, especial para o site da ABAP<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando cheguei ao Pres\u00eddio Tiradentes, nas v\u00e9speras do Natal de 1969, s\u00f3 encontrei mulheres desde a carceragem. Uma diretora, as carcereiras \u2013 chamadas de \u201ctias\u201d \u2013 e as policiais femininas, que me fizeram passar por uma \u201crevista\u201d completa. Depois, por um corredor aberto, onde havia v\u00e1rias celas, uma ao lado da outra, com grades em toda a frente, conheci o que chamavam de presas correcionais. Estavam l\u00e1, como diz o nome, para levar \u201cum corretivo\u201d.<\/p>\n<div style=\"width: 970px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/ra\/grande\/Pub\/GP\/p2\/2010\/12\/29\/VidaPublica\/Imagens\/presidio_de_Tiradentes_1-_Folhapress.jpg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"719\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Pres\u00eddio Tiradentes. Avenida Tiradentes, 451, Bom Retiro<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Presas na maior parte por prostitui\u00e7\u00e3o ou \u201cvadiagem\u201d, ficavam ali por um m\u00eas, segundo as \u201dregras penais\u201d da \u00e9poca. N\u00e3o sei se havia lei nesse sentido. N\u00e3o tinham direito a visitas, n\u00e3o tinham nada a n\u00e3o ser as roupas do corpo. Por isso, estavam sempre com elas do avesso, para trocar pelo lado direito, mesmo que imundas, no dia em que sa\u00edssem. No pres\u00eddio, os presos correcionais eram chamados de corr\u00f3s. Sim, havia homens tamb\u00e9m, em n\u00famero muito maior, no pavilh\u00e3o masculino que, como no feminino, abrigavam tr\u00eas tipos de presos: os corr\u00f3s, os condenados pela justi\u00e7a comum e n\u00f3s, os pol\u00edticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamais esqueci essas mulheres que n\u00e3o conheci, apenas vi quando passei pelo corredor, ouvindo delas, agarradas \u00e0s grades: \u201cO que \u00e9 que voc\u00ea t\u00e1 fazendo aqui? Hei, \u2018pol\u00edtica\u2019, olha pra mim, me d\u00e1 um beijo&#8230;\u201d. Esse era o caminho at\u00e9 chegar a um pequeno p\u00e1tio e, finalmente, \u00e0 Torre. As paredes grossas, a escada que se abria em duas, o teto muito alto e pouca ilumina\u00e7\u00e3o natural davam um aspecto de quase medo, que s\u00f3 n\u00e3o era maior porque, para quem vinha do Dops, qualquer lugar longe de l\u00e1 era melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mezanino, do lado esquerdo, uma porta grossa com uma janela pequena, onde apareceram dois rostos, numa cena que n\u00e3o me sai da mem\u00f3ria at\u00e9 hoje. Dulce Maia e Madre Maurina.<\/p>\n<div id=\"attachment_8316\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8316\" class=\"wp-image-8316 size-full\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/dulceemadre.png\" alt=\"dulceemadre\" width=\"650\" height=\"690\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/dulceemadre.png 650w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/dulceemadre-283x300.png 283w\" sizes=\"(max-width: 650px) 100vw, 650px\" \/><p id=\"caption-attachment-8316\" class=\"wp-caption-text\">Imagem do site Torre das Donzelas<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dulce perguntou meu nome e Madre Maurina foi direta: \u201c\u00c9 voc\u00ea que tem um beb\u00ea?\u201d Sim, era eu, que fui presa quando meu filho tinha apenas um m\u00eas. \u201cFa\u00e7a massagem no seio\u201d, foi s\u00f3 o que deu tempo de ela falar. Nem pude lhe contar que havia tomado uma inje\u00e7\u00e3o \u00e0 for\u00e7a, no Dops, para \u201ccortar o leite\u201d. De tudo, sempre penso que foi uma das piores dores que j\u00e1 senti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A carcereira me levou para a cela da direita e, quando entrei, pela minha lembran\u00e7a, havia luz, mais luz ainda que veio dos abra\u00e7os, das l\u00e1grimas, das perguntas de quem estava presa sem saber nada do \u201cmund\u00e3o\u201d h\u00e1 mais tempo do que eu e queria not\u00edcias.<\/p>\n<div id=\"attachment_8320\" style=\"width: 647px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8320\" class=\"wp-image-8320 size-full\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Captura-de-Tela-2016-03-07-a\u0300s-22.26.08.png\" alt=\"Captura de Tela 2016-03-07 a\u0300s 22.26.08\" width=\"637\" height=\"361\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Captura-de-Tela-2016-03-07-a\u0300s-22.26.08.png 637w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Captura-de-Tela-2016-03-07-a\u0300s-22.26.08-300x170.png 300w\" sizes=\"(max-width: 637px) 100vw, 637px\" \/><p id=\"caption-attachment-8320\" class=\"wp-caption-text\">Rose Nogueira\/ Imagem do site Torre das Donzelas<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Companheiras. Eram as minhas companheiras, mulheres que conheci ali e que tinham, como eu, uma enorme vontade de viver e mudar o mundo. Cada uma com sua hist\u00f3ria, sua origem, casadas, solteiras, trabalhavam, estudavam, amavam. Em comum, a luta contra a ditadura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegamos a ser 50, ou mais, ocupando as cinco celas da Torre, quando sa\u00ed de l\u00e1 sete meses depois para ficar por mais dois anos e meio em liberdade vigiada, at\u00e9 o julgamento no tribunal militar.<\/p>\n<div style=\"width: 449px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/blog.planalto.gov.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Rose_Araujo_presa_politica_ditadura_filho_Caca.jpg\" alt=\"\" width=\"439\" height=\"600\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Rose com o filho em 74, na praia de Ipanema (RJ)<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos ocup\u00e1vamos de tudo umas com as outras. Escut\u00e1vamos todos os relatos, l\u00edamos coletivamente uma p\u00e1gina ou outra de jornal trazida pelas carcereiras, l\u00edamos os livros que o juiz permitia que entrassem, faz\u00edamos caf\u00e9 e uma ou outra comida no fogareiro el\u00e9trico de uma boca; curt\u00edamos os relatos familiares depois de cada visita; faz\u00edamos bordados, tric\u00f4 e croch\u00ea para ocupar as m\u00e3os; faz\u00edamos gin\u00e1stica seguindo um livrinho canadense; discut\u00edamos o setor de cada uma, fosse Educa\u00e7\u00e3o, Sa\u00fade, imprensa, ou mesmo o papel important\u00edssimo das m\u00e3es e donas-de-casa, militantes da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ouv\u00edamos, emocionadas, os terr\u00edveis relatos das torturas sofridas por cada uma no Doi-Codi e no Dops antes de chegar \u00e0 Torre do pres\u00eddio Tiradentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu, que como muitas fui trabalhar muito cedo, vinha da reportagem da Folha da Tarde, onde pude escrever sobre a revolucion\u00e1ria Betty Friedan e seu ativismo feminista, e Gloria Steinem, que promoveu o que ficou conhecido como a queima de suti\u00e3s (que n\u00e3o aconteceu, mas ficou sendo) contra um concurso de beleza em Atlantic City, via ali, na minha frente, a melhor representa\u00e7\u00e3o da mulher brasileira.<\/p>\n<div style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/jornais\/bebedouro\/desaparecida-desde-1971-paradeiro-de-heleny-guariba-continua-desconhecido\/heleny_arquivo_pessoal_arte_jba_600.jpg\/image_preview\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"240\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Heleny Guariba (Foto: Arquivo Pessoal\/Arte Jornal Brasil Atual)<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas, sem exce\u00e7\u00e3o, t\u00eam e tiveram uma vida de colabora\u00e7\u00e3o humana onde quer que estivessem. As que ficaram presas por v\u00e1rios anos, as que depois morreram na tortura e est\u00e3o desaparecidas at\u00e9 hoje, como Heleny Guariba, as que foram expulsas da universidade pelo decreto 477, as que foram para o ex\u00edlio, as que perderam seus empregos por persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e n\u00e3o puderam voltar, as que voltaram para a fam\u00edlia, as que escolheram uma vida independente, as que seguiram a voca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Todas no caminho da alma generosa, do esp\u00edrito p\u00fablico, na busca da justi\u00e7a e de um mundo mais democr\u00e1tico e melhor para todos. Cada uma \u00e0 sua maneira participando &#8211; seja no cotidiano de m\u00e3es e av\u00f3s, nas a\u00e7\u00f5es mais simples e no pensamento, seja dentro ou fora dos partidos pol\u00edticos &#8211; do dia-a-dia brasileiro, travando o bom combate pela vida. Uma delas, uma de n\u00f3s, \u00e9 presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<div style=\"width: 619px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/uolpolitica.blog.uol.com.br\/images\/Dilma-1970.jpg\" alt=\"\" width=\"609\" height=\"838\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Dilma Rousseff durante a ditadura<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali, nas celas da Torre do pres\u00eddio Tiradentes, conheci as pessoas mais extraordin\u00e1rias da minha vida. Mulheres. Companheiras.<\/p>\n<div id=\"attachment_8313\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8313\" class=\"wp-image-8313\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/mi_1127125802019875.jpg\" alt=\"mi_1127125802019875\" width=\"600\" height=\"410\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/mi_1127125802019875.jpg 550w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/mi_1127125802019875-300x205.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><p id=\"caption-attachment-8313\" class=\"wp-caption-text\">COMPANHEIRAS DE CADEIA Dilma, Eleonora, Guiomar, Rose e Cida na \u00e9poca em que foram presa<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>*Rosemeire Nogueira<\/strong> \u00e9 jornalista, militante e presidenta do <a href=\"http:\/\/www.torturanuncamais-sp.org\/site\/index.php\/quem-somos\">Grupo Tortura Nunca Mais<\/a>\u00a0de S\u00e3o Paulo. Foi presa pela ditadura militar em 4 de novembro de 1969, mesmo dia da morte de Carlos Marighella. Na \u00e9poca, militava na A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN) e trabalhava no jornal <em>Folha da Tarde<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Rose Nogueira, especial para o site da ABAP Quando cheguei ao Pres\u00eddio Tiradentes, nas v\u00e9speras do Natal de 1969, s\u00f3 encontrei mulheres desde a carceragem. Uma diretora, as carcereiras \u2013 chamadas de \u201ctias\u201d \u2013 e as policiais femininas, que me fizeram passar por uma \u201crevista\u201d completa. 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