{"id":8487,"date":"2016-06-09T16:43:40","date_gmt":"2016-06-09T16:43:40","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=8487"},"modified":"2016-06-09T16:46:37","modified_gmt":"2016-06-09T16:46:37","slug":"novo-livro-de-elio-gaspari-mostra-a-falta-que-faz-um-lider","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2016\/06\/09\/novo-livro-de-elio-gaspari-mostra-a-falta-que-faz-um-lider\/","title":{"rendered":"Novo livro de Elio Gaspari mostra a falta que faz um l\u00edder"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"chamada\" style=\"text-align: justify;\">A ditadura acabada, hist\u00f3ria do governo Jo\u00e3o Figueiredo, o \u00faltimo do regime militar, \u00e9 um rico retrato de como as personalidades influenciam os ciclos da pol\u00edtica \u2013 reflex\u00e3o, de novo, atual nos tempos de Dilma<\/h3>\n<div class=\"corpo-materia ideias\">\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-300\" style=\"text-align: justify;\">\n<div style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Figueiredo,posando de esportista atl\u00e9tico (Foto: Folhapress)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/FH_NDTP6fbRQntbZilqglrOyePo=\/300x550\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2016\/06\/03\/figueiredo-joao-307.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"550\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Figueiredo, posando de esportista atl\u00e9tico (Foto: Folhapress)<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma das grava\u00e7\u00f5es feitas pelo ex-presidente da Transpetro <strong>S\u00e9rgio Machado<\/strong>, que est\u00e3o abalando o governo <strong>Michel Temer<\/strong>, o ex-presidente <strong>Jos\u00e9 Sarney<\/strong> revelou uma confiss\u00e3o que lhe fora feita pelo ex-presidente<strong> Luiz In\u00e1cio Lula Silva<\/strong>. \u201cEle <em>(Lula)<\/em> me disse que o \u00fanico arrependimento que ele tem \u00e9 ter eleito a Dilma\u201d, afirmou Sarney. \u201cO \u00fanico erro que ele cometeu. Foi o mais grave de todos.\u201d No livro <em>A ditadura acabada <\/em>(Intr\u00ednseca, 448 p\u00e1ginas, R$ 59,90), o quinto (e \u00faltimo) volume da monumental hist\u00f3ria da ditadura que, sob o comando de militares, governou o Brasil entre 1964 e 1985, o jornalista <strong>Elio Gaspari<\/strong> conta como <strong>Ernesto Geise<\/strong>l, o pen\u00faltimo general-presidente, passou a nutrir sentimento semelhante em rela\u00e7\u00e3o a <strong>Jo\u00e3o Baptista Figueiredo<\/strong>, o general grosseir\u00e3o que lhe sucedera na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica entre 1979 e 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 a \u00fanica coincid\u00eancia que, a partir da leitura de <em>A ditadura acabada<\/em>, emerge das hist\u00f3rias do presidente do \u00faltimo ciclo autorit\u00e1rio da hist\u00f3ria brasileira e da presidente que pode encerrar um ciclo de mais de 13 anos do <strong>Partido dos Trabalhadores<\/strong> \u00e0 frente do governo federal \u2013 ressalvadas as \u00f3bvias diferen\u00e7as de que<strong>Figueiredo<\/strong> comandou o pa\u00eds com poderes discricion\u00e1rios e Dilma Rousseff governou com as restri\u00e7\u00f5es de um regime democr\u00e1tico. Assim como Dilma foi inventada como candidata presidencial no apogeu da popularidade de <strong>Lula<\/strong>, Figueiredo foi praticamente imposto como presidente por um Geisel supervitorioso. \u201cGeisel venceu todas\u201d \u00e9 o t\u00edtulo da primeira parte do livro, cuja narrativa se inicia no dia seguinte \u00e0 demiss\u00e3o, em 12 de outubro de 1977, do ministro do Ex\u00e9rcito, o general <strong>Sylvio Frota<\/strong>, representante da linha dura das For\u00e7as Armadas que pretendia ocupar a cadeira de Geisel no Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cGeisel foi para os \u00faltimos meses do seu mandato com uma in\u00e9dita cole\u00e7\u00e3o de \u00eaxitos pol\u00edticos. Como M\u00e9dici, escolhera o sucessor. Impusera um general <em>(Figueiredo)<\/em> a quem inicialmente faltava a quarta estrela. Superara a hostilidade do ministro do Ex\u00e9rcito e o surgimento de um advers\u00e1rio militar. Prevalecera numa elei\u00e7\u00e3o realizada num ano <em>(1978)<\/em> que, com o movimento sindical ressurreto, tivera as maiores greves oper\u00e1rias desde 1964\u201d, escreve Gaspari. Figueiredo fora ungido como presidente porque ele conhecia como ningu\u00e9m o regime militar por dentro. Chefiara o <strong>Gabinete Militar da Presid\u00eancia<\/strong> durante o governo M\u00e9dici e o poderoso <strong>Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI)<\/strong> na gest\u00e3o Geisel. Geisel, o \u201csacerdote\u201d do regime militar, e seu lugar-tenente, o general <strong>Golbery do Couto e Silva<\/strong>, o \u201cfeiticeiro\u201d, que haviam sido chefes de Figueiredo, imaginaram que ele seria o nome perfeito para comandar a transi\u00e7\u00e3o \u201clenta, gradual e segura\u201d para um regime sob o comando de um presidente civil \u2013 que, nos planos deles, s\u00f3 ocorreria em 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a \u201cm\u00e3e do PAC\u201d, Figueiredo, antes de assumir o poder, tamb\u00e9m passou por uma roupagem publicit\u00e1ria para polir sua imagem p\u00fablica e aproxim\u00e1-lo do pov\u00e3o. O general dur\u00e3o virara \u201cJo\u00e3o\u201d, um homem de h\u00e1bitos simples e atl\u00e9ticos, que montava cavalos para saltos e se exibia, de sunga, fazendo exerc\u00edcios com pesos. Na verdade, Figueiredo era um sexagen\u00e1rio cardiopata, cuja coluna vertebral fora arruinada pela montaria. Assim como um infarto, em 1981, revelou a fragilidade da sa\u00fade de Figueiredo, suas limita\u00e7\u00f5es para o exerc\u00edcio do poder foram aparecendo uma a uma \u00e0 medida que as crises batiam \u00e0s portas do <strong>Pal\u00e1cio do Planalto<\/strong> e desfaziam o grupo de assessores e ministros legados por Geisel para Figueiredo (outra semelhan\u00e7a, j\u00e1 que Lula tamb\u00e9m deixou para Dilma uma pl\u00eaiade de assessores, como Antonio Palocci, na Casa Civil, e Gilberto Carvalho, na Secretaria-Geral da Presid\u00eancia, que tamb\u00e9m foram se s demitindo ou sendo colocados de escanteio no governo de Dilma).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira crise foi a da economia. O ent\u00e3o ministro do Planejamento, <strong>M\u00e1rio Henrique Simonsen<\/strong>, imaginava que seria um superministro, mas teve de conviver num governo ecl\u00e9tico e descoordenado com a sombra de <strong>Delfim Netto<\/strong> na Pasta da Agricultura. Simonsen, assim como <strong>Joaquim Levy<\/strong>, o breve ministro do segundo mandato de Dilma, defendia que o governo apertasse as contas p\u00fablicas para conter a infla\u00e7\u00e3o, ainda que a pre\u00e7o de recess\u00e3o. Para n\u00e3o ser o ministro que \u201cvai apresentar a infla\u00e7\u00e3o de 50% ao presidente\u201d, pediu demiss\u00e3o, depois de travar o seguinte di\u00e1logo: \u201cM\u00e1rio, voc\u00ea acha que o meu governo est\u00e1 uma m&#8230;, n\u00e3o?\u201d, perguntou Figueiredo. \u201cPresidente, eu estou indo embora&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Golbery saiu da <strong>Casa Civil<\/strong> depois que Figueiredo medrou e patrocinou uma \u201copera\u00e7\u00e3o abafa\u201d para ocultar, nas investiga\u00e7\u00f5es de um atabalhoado ataque a bomba durante um show no Riocentro, no Rio de Janeiro, em 1981, a participa\u00e7\u00e3o no atentado terrorista da \u201ctigrada\u201d \u2013 os militares dos servi\u00e7os de repress\u00e3o descontentes com a abertura democr\u00e1tica. O general dur\u00e3o era s\u00f3 uma baz\u00f3fia. A partir do <strong>caso Riocentro<\/strong>, o governo Figueiredo foi se desmilinguindo at\u00e9 terminar num desastre. Deixou a maior infla\u00e7\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o registrada na hist\u00f3ria nacional (224%) e a maior d\u00edvida externa do mundo (US$ 100,2 bilh\u00f5es). Ao final de seu governo, a renda <em>per capita<\/em> dos brasileiros ca\u00edra de US$ 2 mil para US$ 1.680.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A ditadura acabada<\/em> n\u00e3o estava nos planos iniciais de Gaspari .Ele pretendia terminar seu ciclo com <em>A ditadura encurralada<\/em>, que se encerra com o pen\u00faltimo ano de Geisel no Pal\u00e1cio do Planalto, 1978. Ele se animou a escrever o livro com o relato do \u00faltimo ano de Geisel e a continua\u00e7\u00e3o do governo Figueiredo depois de ver como o jornalista americano <strong>Robert Caro<\/strong> conseguiu produzir um livro de 752 p\u00e1ginas sobre os primeiros meses do governo de<strong> Lyndon Johnson<\/strong>nos Estados Unidos. Escrito com o mesmo estilo minucioso, por\u00e9m leve e \u00e1gil, dos primeiros volumes, o livro acaba por se transformar num rico retrato de como as personalidades individuais (pela lideran\u00e7a ou falta delas) acabam por ditar o rumo dos ciclos hist\u00f3ricos, retardando ou acelerando seus desfechos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como Dilma, Figueiredo era de maus bofes. Quando recebeu um telegrama dos docentes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que protestavam contra a expuls\u00e3o de um professor, limitou-se a mand\u00e1-los \u00e0 \u201cm&#8230;\u201d. Seu temperamento, mostra Gaspari, contribuiu para a ru\u00edna de seu governo. A cena final de seu governo foi pat\u00e9tica. Ressentido com <strong>Aureliano Chaves<\/strong>, seu vice, e com <strong>Jos\u00e9 Sarney<\/strong>, presidente do PDS, que se aliaram \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o, recusou-se a transmitir a faixa presidencial tanto a um como a outro e deixou o Pal\u00e1cio do Planalto, por uma porta lateral, pedindo que o esquecessem. Com esse gesto de\u00a0 \u201ccavalariano estourado\u201d, conseguiu emba\u00e7ar at\u00e9 o que seu governo fizera de bom: a anistia pol\u00edtica de 1979, as primeiras elei\u00e7\u00f5es diretas para governadores de Estados em 1982 e a passagem do poder para um civil.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-560\" style=\"text-align: justify;\">\n<div style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Tancredo Neves (Foto: Gilberto Alves\/CB\/D.A Press)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/Lu9mPlavtE4D2YBJpTm1OtfrT8Q=\/560x430\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2016\/06\/03\/cbpfot130320050090.jpg\" alt=\"\" width=\"560\" height=\"430\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Tancredo Neves (Foto: Gilberto Alves\/CB\/D.A Press)<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-560\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-560\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-560\" style=\"text-align: justify;\">O comportamento err\u00e1tico de Figueiredo \u00e9 real\u00e7ado pelo contraste com <strong>Tancredo Neves<\/strong>. Culto, preparado (fora secret\u00e1rio de Finan\u00e7as de Minas Gerais, diretor do Banco do Brasil, ministro da Justi\u00e7a de Get\u00falio Vargas, primeiro-ministro da experi\u00eancia parlamentarista de Jo\u00e3o Goulart, deputado federal e governador de Minas Gerais), Tancredo era \u201co pol\u00edtico oposicionista com maior experi\u00eancia administrativa\u201d. Era o homem certo, no lugar certo, na hora certa para conduzir uma transi\u00e7\u00e3o suave da ditadura para a democracia. Para isso, precisava manter a oposi\u00e7\u00e3o unida, enquanto as for\u00e7as governistas se esfacelavam. Conseguiu isso, contando com os erros de Figueiredo. Como diz Gaspari, Tancredo jogou parado \u2013 como o grande meia-direita Didi, craque do Botafogo, que dizia que \u201cquem tem de correr \u00e9 a bola\u201d. Tornou-se o comandante da mais bem-sucedida transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da hist\u00f3ria brasileira. Foi a \u00fanica a ser comandada por um oposicionista, num lance de genialidade pol\u00edtica de que s\u00f3 os grandes l\u00edderes s\u00e3o capazes \u2013 e de que o Brasil, mais uma vez em crise e em um momento de transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, est\u00e1 novamente a precisar.<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-560\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-560\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; \u00c9poca<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ditadura acabada, hist\u00f3ria do governo Jo\u00e3o Figueiredo, o \u00faltimo do regime militar, \u00e9 um rico retrato de como as personalidades influenciam os ciclos da pol\u00edtica \u2013 reflex\u00e3o, de novo, atual nos tempos de Dilma Em uma das grava\u00e7\u00f5es feitas pelo ex-presidente da Transpetro S\u00e9rgio Machado, que est\u00e3o abalando o governo Michel Temer, o ex-presidente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8489,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8487"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8487"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8487\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8491,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8487\/revisions\/8491"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8489"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8487"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8487"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8487"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}