{"id":8523,"date":"2016-07-01T15:11:47","date_gmt":"2016-07-01T15:11:47","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=8523"},"modified":"2016-07-01T15:11:47","modified_gmt":"2016-07-01T15:11:47","slug":"projeto-revela-visao-da-ditadura-sobre-filmes-nacionais-produzidos-antes-de-1964","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2016\/07\/01\/projeto-revela-visao-da-ditadura-sobre-filmes-nacionais-produzidos-antes-de-1964\/","title":{"rendered":"Projeto revela vis\u00e3o da ditadura sobre filmes nacionais produzidos antes de 1964"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">As avalia\u00e7\u00f5es podiam tratar tanto de qualidade quanto da relev\u00e2ncia de um filme para aquele Brasil do \u201came-o ou deixe-o\u201d. Num documento sobre \u201cO homem do Sputnik\u201d (1959), aparece: \u201cOscarito no ponto alto de sua carreira, se \u00e9 que a mesma tem ponto alto\u201d. Era uma afirma\u00e7\u00e3o s\u00e9ria, nada a ver com as piadas da produ\u00e7\u00e3o de Carlos Manga. Em outro texto, este sobre \u201cO cangaceiro\u201d (1953), de Lima Barreto, tachou-se de \u201crelativo\u201d o \u201cvalor educativo\u201d de um dos maiores sucessos do cinema brasileiro: \u201cpara p\u00fablico que tenha a capacidade de compreender o transviamento social e as san\u00e7\u00f5es subjetivas da criminalidade\u201d. J\u00e1 sobre \u201cMaior que o \u00f3dio\u201d, longa-metragem de 1951 de Jos\u00e9 Carlos Burle, com Anselmo Duarte e Ilka Soares, algu\u00e9m escreveu: \u201cfilme antigo e bastante mon\u00f3tono\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses s\u00e3o exemplos de produ\u00e7\u00f5es anteriores a 1964, realizadas pelos grandes est\u00fadios brasileiros de meados do s\u00e9culo XX, mas que tamb\u00e9m passaram pelo crivo da ditadura. Elas est\u00e3o entre os 283 filmes catalogados na terceira fase do projeto Mem\u00f3ria da Censura no Cinema Brasileiro, que ser\u00e1 lan\u00e7ada nesta quarta-feira, reunindo mais de 6 mil pareceres, certificados, reportagens na imprensa e outros documentos encontrados nas fichas dos filmes nacionais avaliados pelo regime militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Com a nova fase, n\u00f3s j\u00e1 temos mais de 20 mil documentos no total \u2014 afirma Leonor Souza Pinto, diretora do projeto. \u2014 Um dos nossos focos desta vez foram os filmes dos est\u00fadios. Para que um filme fosse exibido em algum lugar, de cineclube a televis\u00e3o, de mostra no Brasil a um festival internacional, ele precisava de um certificado de censura do governo militar. Inclusive os filmes feitos antes de 64.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo o que foi catalogado pelo Mem\u00f3ria da Censura no Cinema Brasileiro fica dispon\u00edvel em seu site (www.memoriacinebr.com.br, que ganhar\u00e1 um novo visual na quarta-feira). O projeto foi lan\u00e7ado em 2005, fruto do doutorado de Leonor, abrangendo primeiramente uma sele\u00e7\u00e3o de 175 filmes, de diretores como Cac\u00e1 Diegues, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Joaquim Pedro de Andrade. Depois, em 2007, veio a segunda fase, com 269 obras da pornochanchada, do cinema marginal e mais uma leva de t\u00edtulos de cineastas consagrados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, na terceira etapa, foram duas frentes: 129 filmes e 104 cinejornais produzidos pelos est\u00fadios Atl\u00e2ntida, Vera Cruz, Maristela e Pam Filmes; e 50 obras independentes n\u00e3o catalogadas nas edi\u00e7\u00f5es anteriores, de diretores como David Neves, Gustavo Dahl, Alex Viany, Domingos de Oliveira, Orlando Sena, Jorge Bodanzky, Paulo C\u00e9sar Saraceni, Vladimir Carvalho e Zelito Viana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre o material coletado, o que mais chama a aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o os pareceres dados pelos censores. Eram aprecia\u00e7\u00f5es que determinavam se um filme poderia ser exibido no cinema e para qual faixa et\u00e1ria de p\u00fablico ou se poderia passar na televis\u00e3o e em qual hor\u00e1rio. Nelas tamb\u00e9m eram indicadas as exig\u00eancias de cortes, por motivos morais ou pol\u00edticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Produzido pelo est\u00fadio Vera Cruz, \u201cTerra \u00e9 sempre terra\u201d (1951), de Tom Payne, recebeu em 1973 um parecer com a sugest\u00e3o de \u201ccortar cena em que jovem come\u00e7a a se despir at\u00e9 quando aparece montado a cavalo\u201d, para que ent\u00e3o fosse liberado a um p\u00fablico maior de 14 anos. Tamb\u00e9m da Vera Cruz, \u201cNoite vazia\u201d (1964), de Walter Hugo Khouri, teve menos sorte. Selecionado para o Festival de Cannes, o filme s\u00f3 foi liberado no Brasil em 1967, mas para maiores de 18 anos e desde que fossem realizados cinco cortes, todos de cenas sensuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os censores, contudo, n\u00e3o se entenderam muito bem com os nomes dos atores da obra de Khouri. Em agosto de 1967, um comunicado da Pol\u00edcia do Distrito Federal ordenava a apreens\u00e3o das c\u00f3pias de \u201cNoite vazia\u201d que n\u00e3o tivessem suprimidas algumas cenas, entre elas a \u201csequ\u00eancia l\u00e9sbica Gabriele com Norma no leito\u201d. Gabriele era Gabriele Tinti, um italiano \u2014 homem \u2014 que foi casado com Norma Bengell e com quem contracenou em \u201cNoite vazia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SELO DE \u2018BOA QUALIDADE\u2019<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Houve casos ainda mais duros. \u201cIracema \u2014 Uma transa amaz\u00f4nica\u201d, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, ficou pronto em 1975, mas s\u00f3 recebeu permiss\u00e3o para lan\u00e7amento no cinema em 1981. Como mostram os documentos da \u00e9poca, os censores apontaram em diferentes pareceres que o filme expunha \u201clinguagem chula, com repeti\u00e7\u00f5es de palavr\u00f5es\u201d, \u201cimagem negativa de empreendimentos de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos\u201d e \u201cnosso pa\u00eds em situa\u00e7\u00e3o vexat\u00f3ria no plano social, humano, especialmente se visto no estrangeiro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Para um filme ser exibido em outros pa\u00edses, n\u00e3o bastava ter sido liberado no Brasil. Ele precisava tamb\u00e9m dos selos de \u201cboa qualidade\u201d e \u201clivre para exporta\u00e7\u00e3o\u201d, dados conforme a qualidade t\u00e9cnica e os interesses do governo \u2014 explica Leonor. \u2014 Eles se preocupavam muito com o que era exibido no exterior. E tamb\u00e9m se preocupavam demais com o que ia para a TV. A censura era mais r\u00edgida com os filmes na TV do que no cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTodas as mulheres do mundo\u201d (1967), de Domingos de Oliveira, foi liberado para maiores de 18 anos no cinema \u2014 com a exig\u00eancia de se cortar \u201ca cena em que a seta acerta o sexo de v\u00eanus\u201d \u2014, mas s\u00f3 foi permitido para a TV em 1979, em hor\u00e1rio depois das 23h e com mais uma s\u00e9rie de cortes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O document\u00e1rio \u201cO pa\u00eds de S\u00e3o Saru\u00ea\u201d (1971), de Vladimir Carvalho, por sua vez, ficou proibido em qualquer meio at\u00e9 1979. Um censor escreveu que a exibi\u00e7\u00e3o do filme num festival internacional \u201cviria contribuir para estimular a campanha difamat\u00f3ria que se faz ao Brasil no exterior\u201d. Outro censor explicou o motivo: \u201cO produtor da obra deu \u00eanfase aos problemas negativos e ao profundo sofrimento do campon\u00eas, evitando filmar cenas destacadas do progresso e das facilidades econ\u00f4micas j\u00e1 encontradas na regi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, ainda, outras preciosidades coletadas pelo projeto. Nas pastas da censura, todas elas guardadas no pr\u00e9dio do Arquivo Nacional em Bras\u00edlia, estavam os roteiros dos cinejornais apresentados pela Atl\u00e2ntida e os cartazes originais de alguns dos filmes. Todos esses documentos foram escaneados para seu acesso gratuito na internet. Conclu\u00edda essa etapa do projeto, Leonor Souza Pinto j\u00e1 planeja os pr\u00f3ximos passos: um recorte reunindo obras dos prim\u00f3rdios do cinema brasileiro, de diretores como Adhemar Gonzaga, Humberto Mauro, Oduvaldo Vianna; outro recorte com cinema feito por mulheres; e seguir no mapeamento do cinema independente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Minha meta para o Mem\u00f3ria da Censura no Cinema Brasileiro \u00e9 chegar a 120 mil documentos, reunindo todos os longas-metragens brasileiros, uma sele\u00e7\u00e3o de curtas, document\u00e1rios e publicidade \u2014 diz Leonor.<\/p>\n<div id=\"pub-\" class=\"publicidade-materia\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"row navegacao\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; O Globo<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As avalia\u00e7\u00f5es podiam tratar tanto de qualidade quanto da relev\u00e2ncia de um filme para aquele Brasil do \u201came-o ou deixe-o\u201d. 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