{"id":8537,"date":"2016-07-11T13:58:25","date_gmt":"2016-07-11T13:58:25","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=8537"},"modified":"2016-07-11T13:58:25","modified_gmt":"2016-07-11T13:58:25","slug":"fichario-dos-artistas-tem-429-pessoas-investigadas-pelo-dops-em-pernambuco","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2016\/07\/11\/fichario-dos-artistas-tem-429-pessoas-investigadas-pelo-dops-em-pernambuco\/","title":{"rendered":"Fich\u00e1rio dos Artistas tem 429 pessoas investigadas pelo Dops em Pernambuco"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Dos registros policiais \u00e0s p\u00e1ginas da hist\u00f3ria brasileira. Por meio do projeto Obscuro Fich\u00e1rio dos Artistas Mundanos, a investiga\u00e7\u00e3o feita pelo Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), durante os anos de 1934 a 1958 em Pernambuco, se transformou em um invent\u00e1rio cultural e hist\u00f3rico de 429 artistas que moraram ou passaram pelo estado na \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ado na semana passada no Recife, o Obscuro Fich\u00e1rio est\u00e1 dispon\u00edvel na internet e cont\u00e9m vasta documenta\u00e7\u00e3o das pessoas do meio art\u00edstico que foram selecionadas pelo Dops, durante a presid\u00eancia de Get\u00falio Vargas, para serem apenas registradas, seguidas e investigadas pelo departamento de vigil\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os arquivos, armazenados pelo Arquivo P\u00fablico Estadual Jord\u00e3o Emerenciano (Apeje), s\u00e3o considerados pela idealizadora e coordenadora do projeto, a jornalista Clarice Hoffmann, como ind\u00edcios de uma \u00e9poca de grandes transforma\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, pol\u00edticas e culturais ocorridas no Brasil e especialmente na cidade do Recife nas d\u00e9cadas de 1930, 40 e 50. \u201cA gente usa como ponto de partida a documenta\u00e7\u00e3o para contar uma hist\u00f3ria, ou para contar a hist\u00f3ria do pa\u00eds de uma maneira contundente e po\u00e9tica\u201d, avalia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A equipe do projeto catalogou 403 pessoas fichadas pelo Dops, entre pernambucanos, brasileiros, estrangeiros, homens e mulheres, atores, m\u00fasicos, escritores, circenses e ainda uma variedade de trabalhadores considerados fora das atividades \u201cnormais\u201d remuneradas. A partir desses registros policiais, os pesquisadores levantaram informa\u00e7\u00f5es em jornais, institui\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e outros meios de informa\u00e7\u00e3o para tentar reconstruir um pouco da hist\u00f3ria de cada uma das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria de Clarice com o Obscuro Fich\u00e1rio come\u00e7a em 2004, quando ela foi contratada para fazer uma pesquisa iconogr\u00e1fica para um livro. Sua miss\u00e3o era acessar os arquivos do Dops para tentar encontrar vest\u00edgios de uma personagem. Mas, \u00e0 \u00e9poca, o arquivo ainda estava em organiza\u00e7\u00e3o, e os prontu\u00e1rios individuais s\u00f3 poderiam ser consultados pelos pr\u00f3prios prontuariados, por familiares ou pessoas autorizadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMas eu comentei com a pessoa que estava \u00e0 frente desse fundo que minha av\u00f3 havia sido fichada &#8211; cresci ouvindo falar nisso &#8211; na ditadura de Get\u00falio Vargas porque era atriz. Ela falou: &#8216;ah, ser\u00e1 que ela n\u00e3o passou por aqui?&#8217; A\u00ed falei que n\u00e3o, que ela era mais do Rio-S\u00e3o Paulo. A\u00ed ela disse: &#8216;deixa eu trazer uma coisa para voc\u00ea&#8217;. E trouxe para mim um pequeno arquivo com duas gavetas e foi a primeira vez que eu fiz a ficha dos artistas\u201d, lembra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O projeto nasce, assim, como uma \u201chomenagem\u201d \u00e0 av\u00f3 da jornalista, nas suas palavras. Ela diz tamb\u00e9m que ficou impressionada com o material, principalmente as imagens dos artistas. Todas as fichas tinham fotos 3&#215;4. \u201cMas a ideia ficou guardada at\u00e9 2014, quando finalmente iniciou o trabalho. \u201cEu precisei esperar quase 10 anos para fazer o projeto, porque precisei que a legisla\u00e7\u00e3o permitisse isso\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os nomes encontrados no fich\u00e1rio v\u00e3o das letras M \u00e0 Z. A outra parte, de A a L, foram perdidas em algum momento que Clarice n\u00e3o conseguiu identificar, mas a estimativa \u00e9 que o fich\u00e1rio era composto originalmente por 1.100 verbetes. Para saber mais sobre os artistas \u201cperdidos\u201d, os pesquisadores tamb\u00e9m estudaram cerca de 12 mil prontu\u00e1rios individuais produzidos pelo departamento pernambucano entre no per\u00edodo do fich\u00e1rio. O que resultou, junto com os j\u00e1 conhecidos nas fichas, em 429 personagens de artes as mais diversas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao fim da pesquisa, em muitos casos foi poss\u00edvel reunir exemplos da arte dessas pessoas, recortes de jornais, relatos da vida do artista,<em> links<\/em> para registros hist\u00f3ricos de outras institui\u00e7\u00f5es. Em outros, restou apenas a ficha policial e a foto 3&#215;4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>Um Recife extra-oficial<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nOutro resultado do projeto foi a cataloga\u00e7\u00e3o de locais e eventos espionados pela delegacia. Um mapa com 150 endere\u00e7os frequentados pelos artistas investigados foi disponibilizado no <em>site<\/em>. Os tr\u00eas artigos de acad\u00eamicos publicados na p\u00e1gina do projeto tamb\u00e9m contribuem para entender o que essas pessoas significavam em meio ao contexto pol\u00edtico, cultural e social de Pernambuco \u00e0 \u00e9poca. Possuidor de um importante porto, Recife recebia visitantes de v\u00e1rias partes do mundo, e ganhava r\u00e1pidos ares de modernidade e ideias de diferentes nacionalidade, tamb\u00e9m no contexto da Segunda Guerra Mundial que gerou migra\u00e7\u00f5es extensas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos artigos \u00e9 do historiador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRG) Durval Muniz de Albuquerque J\u00fanior. Autor de sete livros e estudioso da identidade e transforma\u00e7\u00f5es do Nordeste, o acad\u00eamico fala sobre as diversas possibilidades criadas com a descoberta e investiga\u00e7\u00e3o feita pelo projeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre elas, a descoberta de um Recife e de uma hist\u00f3ria escondidos da narrativa oficial, de pessoas eternizadas nas fichas mas quase ou totalmente invizibilizadas no decorrer do tempo. \u201cEsses breves relatos sobre o que chamamos de artistas \u2018mundanos\u2019, mantidos na obscuridade de um fich\u00e1rio, e os espa\u00e7os da cidade que neles s\u00e3o descritos, constituem a possibilidade de se desenhar outras geografias, outros mapas, outras cartografias poss\u00edveis para essa cidade\u201d, escreve o historiador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para descobrir essa nova cidade, foi lan\u00e7ada tamb\u00e9m uma cartografia de locais e eventos frequentados por esses artistas, e que foram alvo, tamb\u00e9m, da investiga\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia pol\u00edtica de Get\u00falio Vargas. O historiador chama a aten\u00e7\u00e3o para espa\u00e7os destinados a espet\u00e1culo, cassinos, cabar\u00e9, circos e cinemas, al\u00e9m de caf\u00e9s, restaurantes e hoteis onde se desenrolava a vida bo\u00eamia da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Institui\u00e7\u00f5es que produziam ou fomentavam a arte e que tiveram import\u00e2ncia no per\u00edodo registrado podem ser encontradas na cartografia. Desde companhias cinematogr\u00e1ficas a jornais, esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio e associa\u00e7\u00f5es de artistas que tiveram algum significado no processo hist\u00f3rico efervecente do Recife da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi poss\u00edvel observar ainda, segundo Durval, quais eram as ideias consideradas amea\u00e7adoras para o estado brasileiro e a elite pol\u00edtica, econ\u00f4mica e intelecutal desses tempos. Mulheres que n\u00e3o eram devotadas ao trabalho dom\u00e9stico ou ao papel de m\u00e3es e esposas, por exemplo. O que era considerado \u201canormal\u201d, fora dos padr\u00f5es sociais, tamb\u00e9m tinha espa\u00e7o nas fichas policiais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO mundo art\u00edstico estava povoado de corpos e seres estranhos: corpos de ra\u00e7as e grupos \u00e9tnicos considerados inferiores, minorit\u00e1rios ou degenerativos, de personalidades bizarras e estranhas fazendo atividades ligadas aos mundos obscuros e suspeitos da magia, do curandeirismo, das artes divinat\u00f3rias, da cartomancia, da quiromancia, das religi\u00f5es e cultos populares e n\u00e3o obedientes a ortodoxia da Igreja Cat\u00f3lica\u201d, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a jornalista Clarice Hoffmann, revelar essas hist\u00f3rias \u00e9 construir outra mem\u00f3ria , diferente da estebelecida por, segundo ela, \u201cgrupos pol\u00edticos que se mantiveram e se mant\u00e9m por anos\u201d. A hist\u00f3ria de gente que deu alegria, prazer e questinou a realidade. \u201cA hist\u00f3ria do povo, da resist\u00eancia do povo, dos resistentes\u201d, resume.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; EBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dos registros policiais \u00e0s p\u00e1ginas da hist\u00f3ria brasileira. Por meio do projeto Obscuro Fich\u00e1rio dos Artistas Mundanos, a investiga\u00e7\u00e3o feita pelo Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), durante os anos de 1934 a 1958 em Pernambuco, se transformou em um invent\u00e1rio cultural e hist\u00f3rico de 429 artistas que moraram ou passaram pelo estado na [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8538,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8537"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8537"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8537\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8539,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8537\/revisions\/8539"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8538"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8537"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8537"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8537"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}