{"id":8544,"date":"2016-07-21T18:07:33","date_gmt":"2016-07-21T18:07:33","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=8544"},"modified":"2016-07-21T18:07:33","modified_gmt":"2016-07-21T18:07:33","slug":"pesquisadora-clarice-hoffman-revirou-o-dops-do-recife","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2016\/07\/21\/pesquisadora-clarice-hoffman-revirou-o-dops-do-recife\/","title":{"rendered":"Pesquisadora Clarice Hoffman revirou o Dops do Recife"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Ao pesquisar sobre a vida de mulheres negras em Pernambuco, Estado onde mora h\u00e1 35 anos, a pesquisadora carioca Clarice Hoffman topou com uma informa\u00e7\u00e3o que dizia respeito a um membro de sua fam\u00edlia entre os prontu\u00e1rios pesquisados no Dops\/PE \u2013 o temido Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social, extinto em 1983. Clarice ficou sabendo que sua av\u00f3, a atriz Gusta Gamer, fora fichada pela pol\u00edcia durante a ditadura Vargas, uma entre as 403 fichas que analisou de artistas de diversas nacionalidades \u2013 homens e mulheres \u2013 perseguidos por terem pisado no Recife, entre 1934 e 1958, na condi\u00e7\u00e3o de artistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O levantamento de Clarice Hoffman sobre o Recife da era Vargas acabou virando um cat\u00e1logo, lan\u00e7ado em junho pelo Ita\u00fa Cultural, e j\u00e1 est\u00e1 dispon\u00edvel no site http:\/\/obscurofichario.com.br. Como indica o nome do projeto, o Obscuro Fich\u00e1rio dos Artistas Mundanos revela muito sobre os mecanismos de uma sociedade como a brasileira, que rejeita o diferente, mas flerta com a alteridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi uma sorte ter uma av\u00f3 fichada no Dops, pois, de outro modo, lembra a pesquisadora, ela n\u00e3o teria acesso aos prontu\u00e1rios dos feios, mundanos e desajustados artistas que bateram perna no Recife nas d\u00e9cadas de 1930 e 1950, entre eles artistas de circo, bailarinas de sal\u00e3o, transformistas, dan\u00e7arinos russos, ilusionistas e cantores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu era produtora cultural quando iniciei a pesquisa, em 2004\u201d, conta Clarice. \u201cN\u00e3o tinha, ent\u00e3o, experi\u00eancia como pesquisadora, mas aquilo ficou na minha cabe\u00e7a e, quando a Comiss\u00e3o da Verdade come\u00e7ou a atuar, em 2011, ficou mais f\u00e1cil vasculhar esses arquivos.\u201d Ela passou tr\u00eas meses tentando entender o significado daquela montanha de fotos, prontu\u00e1rios e cartazes promocionais que inclu\u00edam desde uma apresenta\u00e7\u00e3o de Aurora Lincheta \u2013 o \u201cTurbilh\u00e3o Cubano que Canta\u201d \u2013 aos truques do faquir hipnotizador Tahra Bey, visto pela pol\u00edcia com um charlat\u00e3o, capaz de esconder algum segredo pol\u00edtico ao induzir populares ao sono let\u00e1rgico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Obscuro Fich\u00e1rio dos Artistas Mundanos \u00e9 um projeto cultural que vai al\u00e9m de um levantamento curioso sobre a cena underground do Recife e o projeto paranoico do Dops pernambucano, que desconfiava de tudo o que n\u00e3o era espelho, de trapezistas de circo a an\u00f5es vestidos com ternos dois n\u00fameros maiores. Foi lendo o ensaio A Inven\u00e7\u00e3o do Nordeste, do historiador Durval Muniz de Albuquerque Junior (tamb\u00e9m dispon\u00edvel no site obscurofichario), que a pesquisadora Clarice Hoffmann descobriu uma nova cartografia recifense capaz de criar novas narrativas urbanas e desmontar o imagin\u00e1rio de um Nordeste rural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelo levantamento da pesquisadora no arquivo de fichas e prontu\u00e1rios, que agregam desde documentos pol\u00edticos apreendidos a atas de reuni\u00e3o, passando por panfletos, Recife era a cidade das conspira\u00e7\u00f5es, de comunistas perigosos. \u201cQuando li o livro de Durval, me dei conta de que essa cartografia underground era uma \u2018cena omitida\u2019 que precisava resgatar, o que me levou a inscrever o projeto no Ita\u00fa Cultural.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse projeto cresceu. De novembro do ano passado a este m\u00eas, Clarice convocou artistas, coletivos e grupos interessados em retrabalhar essas informa\u00e7\u00f5es. Sa\u00edram dessa sele\u00e7\u00e3o tr\u00eas projetos, sendo o primeiro um v\u00eddeo, Vaga de Irma Brown, de Francisco Baccaro e Moacyr Campelo (de Pernambuco), que explora o mapeamento dos espa\u00e7os recifenses fichados pelo Dops (que tamb\u00e9m fiscalizava bares suspeitos). Um segundo projeto, da carioca Juliana Borzino, examina a rela\u00e7\u00e3o da livraria de seu bisav\u00f4, em Recife, com os intelectuais frequentadores fichados pelo Dops. O terceiro, da pernambucana Marie Carangi, \u00e9 uma performance\/v\u00eddeo que evoca o corpo dos artistas perseguidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De todos os personagens que circularam pela Recife antiga, a pesquisadora Clarice Hoffmann destaca a do faquir Tahra Bey, ou Krikor Tahra Kalfayan. \u201cV\u00e1rias pessoas se fizeram passar por ele, que ficou popular e virou tema de um bloco de carnaval.\u201d Sua identidade verdadeira: s\u00f3 o Dops sabia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211;\u00a0O Estado de S. Paulo\/Isto \u00c9<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao pesquisar sobre a vida de mulheres negras em Pernambuco, Estado onde mora h\u00e1 35 anos, a pesquisadora carioca Clarice Hoffman topou com uma informa\u00e7\u00e3o que dizia respeito a um membro de sua fam\u00edlia entre os prontu\u00e1rios pesquisados no Dops\/PE \u2013 o temido Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social, extinto em 1983. Clarice ficou sabendo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8545,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8544"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8544"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8544\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8546,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8544\/revisions\/8546"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8545"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8544"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8544"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8544"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}