{"id":8615,"date":"2016-08-18T01:35:43","date_gmt":"2016-08-18T01:35:43","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=8615"},"modified":"2016-08-18T01:35:43","modified_gmt":"2016-08-18T01:35:43","slug":"trabalhadores-sao-negligenciados-como-vitimas-da-ditadura-diz-pesquisador-da-fgv","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2016\/08\/18\/trabalhadores-sao-negligenciados-como-vitimas-da-ditadura-diz-pesquisador-da-fgv\/","title":{"rendered":"&#8216;Trabalhadores s\u00e3o negligenciados como v\u00edtimas da ditadura&#8217;, diz pesquisador da FGV"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Autor de livros sobre o tema, Paulo Fontes falou \u00e0 Comiss\u00e3o da Mem\u00f3ria e Verdade da Prefeitura de S\u00e3o Paulo sobre as lutas dos oper\u00e1rios da Nitro Qu\u00edmica e as persegui\u00e7\u00f5es durante o regime<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o assunto \u00e9 o golpe de Estado de 1964 e a instaura\u00e7\u00e3o do regime ditatorial civil-militar que durou at\u00e9 1985, fala-se muito sobre o movimento estudantil, censura, luta armada, mudan\u00e7as econ\u00f4micas e ataques aos direitos civis. Os trabalhadores e os impactos diretos \u00e0 vida pessoal e ao mundo do trabalho, no entanto, n\u00e3o s\u00e3o estudados como deveriam. \u201cEmbora a maioria dos mortos e desaparecidos seja de trabalhadores ou pessoas com origem nas classes populares, eles sempre foram negligenciados entre as v\u00edtimas da ditadura.\u00a0\u00c9 preciso trazer \u00e0 tona essa discuss\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre sindicalistas e ativistas que s\u00e3o esquecidos na hist\u00f3ria\u201d, afirmou o pesquisador Paulo Fontes a integrantes da Comiss\u00e3o da Mem\u00f3ria e Verdade da Prefeitura de S\u00e3o Paulo, na tarde de segunda-feira (15), na C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coordenador do Laborat\u00f3rio de Estudos do Mundo do Trabalho e dos Movimentos Sociais (LEMT) do Centro de Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea do Brasil (CPDoc\/FGV-RJ), ele \u00e9 autor de artigos e livros nas \u00e1reas de hist\u00f3ria social do trabalho, sindicalismo, migra\u00e7\u00f5es e cultura popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2012, seu livro <em>Um Nordeste em S\u00e3o Paulo. Trabalhadores Migrantes em S\u00e3o Miguel Paulista: 1945-66<\/em>foi vencedor do Pr\u00eamio Thomas Skidmore, promovido pelo Arquivo Nacional e pela <i>Brazilian Studies Association<\/i>, como a melhor obra recente sobre a hist\u00f3ria brasileira no per\u00edodo 1945-1964. A obra aborda a saga dos trabalhadores que deixaram o Nordeste para serem oper\u00e1rios da Companhia Nitro Qu\u00edmica Brasileira, criada em 1935 pelo empres\u00e1rio Jos\u00e9 Erm\u00edrio de Moraes, pai de Ant\u00f4nio Erm\u00edrio, dono do Grupo Votorantim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o pesquisador, as rela\u00e7\u00f5es entre o aparato repressivo e os empres\u00e1rios, que s\u00e3o bem anteriores a 1964, est\u00e3o muito presentes no caso da Nitro Qu\u00edmica. Criada com apoio de Get\u00falio Vargas, em sua pol\u00edtica de incentivo \u00e0s ind\u00fastrias de base, a empresa nunca chegou a ser a &#8220;CSN do setor qu\u00edmico&#8221;, como sonhava Erm\u00edrio, mas foi muito lucrativa. Produzia desde o fio rayon \u2013 uma esp\u00e9cie de seda sint\u00e9tica, que antecedeu o nylon, e seria o carro-chefe da produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 os anos 1960 \u2013 at\u00e9 soda c\u00e1ustica e \u00e1cidos, passando por insumos para explosivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerado por muitos um empreendimento social, que moldou grande parte da zona leste, com seu paternalismo empresarial que oferecia clubes e um ambiente de sociabilidade entre as fam\u00edlias dos trabalhadores \u2013 que hoje em dia causam nostalgia entre as pessoas mais velhas \u2013, nunca chegou a ser uma f\u00e1brica moderna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Provedora e sugadora, sempre foi perigosa, insalubre, sucateada, que consumia a sa\u00fade do bairro. O tempo dos moradores do bairro era marcado pelos apitos da f\u00e1brica, mas eles temiam ouvir o apito pr\u00f3prio de acidentes, como explos\u00f5es, que chegaram a matar muitos oper\u00e1rios. O trabalho intensivo, baixos sal\u00e1rios, com muitas mulheres na produ\u00e7\u00e3o, alta rotatividade e sem investimentos em capacita\u00e7\u00e3o visavam ao lucro&#8221;, relata Fontes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Nitro Qu\u00edmica era famosa tamb\u00e9m pelo autoritarismo nas rela\u00e7\u00f5es entre as chefias intermedi\u00e1rias e os oper\u00e1rios, com forte presen\u00e7a de integralistas ligados ao Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Deops), como estrat\u00e9gia de maior controle sobre os trabalhadores apoiada no aparato repressivo. Nas d\u00e9cadas de 1940 e 1950, a empresa fortaleceu alian\u00e7a com o Estado para afastar qualquer ativismo do ch\u00e3o de f\u00e1brica, e agress\u00f5es e torturas j\u00e1 eram comuns.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Liderado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), o operariado exercia milit\u00e2ncia que extrapolava os muros da f\u00e1brica. A maior c\u00e9lula do partido estava em S\u00e3o Miguel, que teve papel importante na elei\u00e7\u00e3o do escritor baiano Jorge Amado, por S\u00e3o Paulo, a uma cadeira na Assembleia Nacional Constituinte em 1945. Essa milit\u00e2ncia contribuiu para o movimento emancipacionista, que pretendia tornar S\u00e3o Miguel um munic\u00edpio independente, assim como Osasco conseguiu. A f\u00e1brica, segundo o pesquisador, atuou contra o processo de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A partir dessa \u00e9poca surgiram as primeiras greves, que fizeram da Nitro Qu\u00edmica a f\u00e1brica mais militante de S\u00e3o Paulo. Gra\u00e7as \u00e0 lideran\u00e7a de Adel\u00e7o de Almeida, que conquistou o Sindicato dos Qu\u00edmicos, que havia sofrido interven\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio do Trabalho, aumentou o n\u00famero de sindicalizados e de a\u00e7\u00f5es trabalhistas na Justi\u00e7a, aumentando a repress\u00e3o&#8221;, conta o pesquisador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1957, Adel\u00e7o liderou os trabalhadores qu\u00edmicos \u00e0 frente da greve que reuniu milhares de trabalhadores, a partir da Nitro Qu\u00edmica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Em 1963 houve greve pelo 13\u00ba sal\u00e1rio e a Nitro Qu\u00edmica foi a primeira a parar. Se a gente tem hoje 13\u00ba, \u00e9 por causa de gente como Adel\u00e7o, que nem d\u00e3o nome a rua. Essas pessoas foram perseguidas e presas pelo regime&#8221;, disse Paulo Fontes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o golpe, a diretoria do Sindicato dos Qu\u00edmicos foi cassada. Militantes do PCB, Floriano Dezem e Adel\u00e7o de Almeida, al\u00e9m de outros colegas do sindicato, passaram a ser procurados pela pol\u00edcia. Foi aberto inqu\u00e9rito policial para investigar os supostos &#8220;atos subversivos&#8221; dos sindicalistas, entre eles Fidelcino Queir\u00f3z dos Santos, Gabriel Alves Viana, Jos\u00e9 Ferreira da Silva, Manoel Mantonhani e Virg\u00edlio Gomes da Silva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos deles se mantiveram na clandestinidade. Adel\u00e7o contou depois ter participado da dissid\u00eancia do PCB liderada por Carlos Marighella.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1966, a Nitro Qu\u00edmica, que havia mergulhado em crise, passou por uma reestrutura\u00e7\u00e3o e demitiu mais de 1.500 trabalhadores, sendo 400 com mais de dez anos de empresa e muitos deles militantes. &#8220;Aproveitaram para fazer a limpa no ativismo ao mesmo tempo em que chegava ao fim o paternalismo empresarial.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2011, a f\u00e1brica deixou de fazer parte do Grupo Votorantim por dar menos lucro que as demais, do ramo cimenteiro e de metais. Foi vendida para um\u00a0fundo de investimentos.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Recomenda\u00e7\u00f5es<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Instalada em setembro de 2014, a Comiss\u00e3o da Mem\u00f3ria e Verdade da Prefeitura de S\u00e3o Paulo est\u00e1 finalizando relat\u00f3rio com recomenda\u00e7\u00f5es. No entanto, at\u00e9 o final do ano, quando encerrar\u00e1 suas atividades, ainda ser\u00e3o feitas novas audi\u00eancias.\u00a0&#8220;Enquanto durar a comiss\u00e3o, vamos tentar fazer uma audi\u00eancia por semana para contar a hist\u00f3ria da cidade, dos trabalhadores e da repress\u00e3o no munic\u00edpio, ou seja, sobre o que a prefeitura teve a ver com isso&#8221;, disse o ex-deputado Adriano Diogo, integrante da comiss\u00e3o. &#8220;Ainda n\u00e3o fizemos audi\u00eancia sobre a greve da CMTC, a greve dos lixeiros, que s\u00e3o coisas da prefeitura. Tem muita coisa para se fazer. Enquanto tiver a luz acesa, n\u00f3s estamos trabalhando.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte &#8211; Rede Brasil Atual<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor de livros sobre o tema, Paulo Fontes falou \u00e0 Comiss\u00e3o da Mem\u00f3ria e Verdade da Prefeitura de S\u00e3o Paulo sobre as lutas dos oper\u00e1rios da Nitro Qu\u00edmica e as persegui\u00e7\u00f5es durante o regime Quando o assunto \u00e9 o golpe de Estado de 1964 e a instaura\u00e7\u00e3o do regime ditatorial civil-militar que durou at\u00e9 1985, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8616,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8615"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8615"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8615\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8617,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8615\/revisions\/8617"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8616"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8615"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8615"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8615"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}