{"id":8658,"date":"2016-09-01T19:20:06","date_gmt":"2016-09-01T19:20:06","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=8658"},"modified":"2016-09-01T19:23:38","modified_gmt":"2016-09-01T19:23:38","slug":"digitacao-de-registros-no-dops-paulista-vai-facilitar-pesquisas-sobre-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2016\/09\/01\/digitacao-de-registros-no-dops-paulista-vai-facilitar-pesquisas-sobre-ditadura\/","title":{"rendered":"Digita\u00e7\u00e3o de registros no Dops paulista vai facilitar pesquisas sobre ditadura"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Documentos encontrados em 2013 no Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo e que registravam a entrada e sa\u00edda de pessoas no extinto Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), em S\u00e3o Paulo, um dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o da ditadura militar, est\u00e3o sendo digitados para facilitar futuras pesquisas sobre o tema.\u00a0O trabalho est\u00e1 sendo desenvolvido desde o ano passado pelas pesquisadoras Joana Monteleone e Maria Carolina Bissoto e deve ser conclu\u00eddo at\u00e9 o fim deste ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em audi\u00eancia p\u00fablica realizada na tarde do dia 22 na C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo pela Comiss\u00e3o da Mem\u00f3ria e Verdade da prefeitura paulistana, as pesquisadoras informaram que os documentos consistem em seis livros, compreendendo o per\u00edodo entre 30 de mar\u00e7o de 1971 e 8 de janeiro de 1979. Os seis livros registram, manualmente, o nome de funcion\u00e1rios e visitantes do Dops \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Joana, esses livros somam mais de dez mil p\u00e1ginas e mostram, por exemplo, que as pessoas que mais entraram no Dops durante o per\u00edodo eram policiais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c(Eram) delegados, investigadores e delegados do interior. Eles entravam e sa\u00edam da mesma forma. A lista n\u00e3o funcionava nos fins de semana e nem nos feriados. Os presos n\u00e3o passavam pela lista. Apenas os oficiais\u201d, acrescentou a pesquisadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho de digita\u00e7\u00e3o e padroniza\u00e7\u00e3o dos nomes dos visitantes do Dops \u2013 que j\u00e1 somam mais de 16 mil, segundo Maria Carolina &#8211; apresenta algumas dificuldades. Muitas vezes as pesquisadoras se deparam com registros de apelidos ou sobrenomes, como doutor Paix\u00e3o, sem saber o nome verdadeiro ou inteiro da pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O doutor Paix\u00e3o aparece nos livros indicado como uma pessoa do \u201cgabinete do prefeito\u201d e foi mencionado em 20 oportunidades. As pesquisadoras ainda n\u00e3o conseguiram identificar quem era o doutor Paix\u00e3o e que cargo ele ocupava na prefeitura de S\u00e3o Paulo naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTinha um guardinha na frente [no Dops] que anotava o nome da pessoa. Esse guardinha mudava dependendo do turno. Ent\u00e3o, nem sempre o que era anotado correspondia ao nome da pessoa. \u00c0s vezes, ele entendia um nome e o nome era outro. A letra dos guardas nem sempre eram a mesma. Por isso, a digita\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o desses nomes em um padr\u00e3o \u00e9 super importante porque voc\u00ea estabelece quem realmente esteve l\u00e1\u201d, explicou a historiadora Joana Monteleone, que coordena o trabalho de digita\u00e7\u00e3o dos livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os nomes encontrados s\u00e3o, em grande parte, verificados em di\u00e1rios oficiais da \u00e9poca para verifica\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Tamb\u00e9m \u00e9 feita pesquisa na internet e jornais do per\u00edodo para verificar quem eram aqueles visitantes e quais eram suas profiss\u00f5es.<\/p>\n<figure class=\"default\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"Image img__fid__80126 img__view_mode__default attr__format__default\" title=\"\" src=\"http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/_agenciabrasil2013\/files\/styles\/interna_pequena\/public\/fotos\/1039691-22082016-dsc_5681_1.jpg?itok=gtLzl45i\" alt=\"S\u00e3o Paulo - Adriano Diogo, integrante da Comiss\u00e3o da Verdade do Estado de S\u00e3o Paulo, participa da audi\u00eancia p\u00fablica da Comiss\u00e3o da Mem\u00f3ria e Verdade da Prefeitura de SP na C\u00e2mara Municipal (Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil)\" width=\"277\" height=\"160\" \/><figcaption>\u00a0Adriano Diogo, integrante da Comiss\u00e3o da Verdade do Estado de S\u00e3o Paulo, participa da audi\u00eancia p\u00fablica\u00a0<span class=\"author\">Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil<\/span> <\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cComo esses livros est\u00e3o em formato digital, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer cruzamento de dados. Digitando no Excel \u00e9 poss\u00edvel fazer uma tabela e verificar quantas vezes algu\u00e9m entrou ou saiu ou quem era. Al\u00e9m de digitar o nome das pessoas, tento buscar o nome completo das pessoas\u201d, informou Maria Carolina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a digita\u00e7\u00e3o dos nomes, as pesquisadoras pretendem indicar listas de pesquisas. \u201cUm dos caminhos de pesquisa \u00e9 voc\u00ea ver quem era a pol\u00edcia de S\u00e3o Paulo na \u00e9poca, quem eram os delegados ou os investigadores. D\u00e1 tamb\u00e9m para cruzar informa\u00e7\u00f5es interessantes como quando ca\u00eda [termo usado quando algum militante era preso] algu\u00e9m que ia para o Dops e quem estava no Dops naquele dia ou naquela noite?\u201d, destacou Joana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o advogado e ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, que defendeu lideran\u00e7as sindicais e pol\u00edticas perseguidas pela ditadura militar no pa\u00eds, esses livros \u201crevelam parte da verdade, mas n\u00e3o toda a verdade\u201d do que ocorreu no per\u00edodo. \u201cOs livros de ingresso mostram quem entrou, que horas entrou e em que dia entrou. Se voc\u00ea pegar isso e rebater para o que aconteceu naquele dia em termos de repress\u00e3o, tem a liga\u00e7\u00e3o de que, naquele epis\u00f3dio de repress\u00e3o, possam ter participado as pessoas que estavam no Dops naquele dia. \u00c9 uma presun\u00e7\u00e3o, uma dedu\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme o advogado, h\u00e1 muitas visitas que n\u00e3o foram registradas nos livros pelos funcion\u00e1rios do Dops. \u201cTem ingressos que n\u00e3o foram anotados, entre eles os de agentes do DOI-Codi (Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es do Centro de Opera\u00e7\u00e3o de Defesa Interna). O Dops era tratado pelo DOI-Codi com desprezo e como uma extens\u00e3o, um servi\u00e7o burocr\u00e1tico, de cart\u00f3rio, embora ali tamb\u00e9m ocorressem torturas e mortes. Os agentes do DOI-Codi, quando iam ao Dops, n\u00e3o eram fichados. O livro n\u00e3o registrava ingresso ou sa\u00edda. Ent\u00e3o, essas partes est\u00e3o perdidas\u201d, afirmou Greenhalgh.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outras coisas sobre esse per\u00edodo e que podem ter ficado perdidas ou que nunca foram encontradas, segundo o advogado, dizem respeito \u00e0s doa\u00e7\u00f5es privadas \u00e0 ditadura militar. \u201cOutras partes que podem estar perdidas dizem respeito a financiamento. Tanto o DOI-Codi quanto o Dops &#8211; embora o Dops seja um servi\u00e7o p\u00fablico estadual e o DOI-Codi uma depend\u00eancia do Ex\u00e9rcito, e, portanto, federal &#8211; contavam com investimentos, doa\u00e7\u00e3o ou aplica\u00e7\u00e3o de recursos de grandes empresas, em especial das multinacionais. Acho que isso tamb\u00e9m n\u00e3o vai aparecer.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fiesp<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos livros foram encontrados registros das entradas de Geraldo Resende de Matos, cujo cargo no livro \u00e9 identificado como \u201cFiesp\u201d [a Fiesp \u00e9 a Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo, entidade que representa hoje mais de 130 mil ind\u00fastrias, de diversos setores].<\/p>\n<figure class=\"default\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"Image img__fid__80128 img__view_mode__default attr__format__default\" title=\"\" src=\"http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/_agenciabrasil2013\/files\/styles\/interna_pequena\/public\/fotos\/1039693-22082016-dsc_5690_1.jpg?itok=h5X0upBS\" alt=\"S\u00e3o Paulo - Livros de portaria do DOPS s\u00e3o mostrados durante audi\u00eancia p\u00fablica da Comiss\u00e3o da Mem\u00f3ria e Verdade da Prefeitura de S\u00e3o Paulo na C\u00e2mara Municipal (Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil)\" width=\"277\" height=\"160\" \/><figcaption>Livros da portaria do DOPS s\u00e3o mostrados durante audi\u00eancia p\u00fablica da Comiss\u00e3o da Mem\u00f3ria e Verdade<span class=\"author\">Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Maria Carolina Bissoto, que est\u00e1 concluindo o trabalho de digita\u00e7\u00e3o dos nomes que aparecem nos livros [ela contou que ainda faltam ser digitados um livro e metade de um outro], at\u00e9 o momento foram encontrados 193 registros da entrada de Geraldo Resende de Matos no Dops.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO que mais se repete at\u00e9 agora, em 1975 [livro que ela est\u00e1 digitando no momento], \u00e9 o Geraldo Resende de Matos, que diz ser ligado \u00e0 Fiesp. Muitas vezes, nos registros de entrada n\u00e3o tem o de sa\u00edda. Ele entra geralmente \u00e0 noite e n\u00e3o tem hor\u00e1rio de sa\u00edda. \u00c0s vezes tem os turnos dos porteiros, geralmente das 7h as 20h, e, depois desse hor\u00e1rio, n\u00e3o tem porteiro. Pode ser que ele [Geraldo] tenha sa\u00eddo no dia seguinte, ou tenha ficado a noite inteira. Em uma das vezes que ele entrou sabemos que um militante do MRT [Movimento Revolucion\u00e1rio Tiradentes] estava sendo torturado. Ele entra e n\u00e3o h\u00e1 o hor\u00e1rio de sa\u00edda.\u201d As raz\u00f5es para que Matos frequentasse o Dops s\u00e3o ignoradas. Segundo Mara Carolina, os motivos n\u00e3o aparecem nos livros de registro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> procurou a Fiesp, que informou, por meio de nota, que o nome de Geraldo Resende de Matos n\u00e3o consta dos registros como membro da diretoria ou funcion\u00e1rio da entidade. Essa informa\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia sido dada pela Fiesp em 2013, quando os documentos de registro de entrada no Dops foram encontrados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 importante lembrar que a atua\u00e7\u00e3o da Fiesp tem se pautado pela defesa da democracia e do Estado de Direito e pelo desenvolvimento do Brasil. Eventos do passado que contrariem esses princ\u00edpios podem e devem ser apurados\u201d, finalizou a nota da entidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte &#8211; EBC<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Documentos encontrados em 2013 no Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo e que registravam a entrada e sa\u00edda de pessoas no extinto Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), em S\u00e3o Paulo, um dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o da ditadura militar, est\u00e3o sendo digitados para facilitar futuras pesquisas sobre o tema.\u00a0O trabalho est\u00e1 sendo desenvolvido [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8660,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8658"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8658"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8658\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8661,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8658\/revisions\/8661"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8660"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8658"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8658"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8658"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}