{"id":8694,"date":"2016-10-17T17:44:08","date_gmt":"2016-10-17T17:44:08","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=8694"},"modified":"2016-10-17T17:44:40","modified_gmt":"2016-10-17T17:44:40","slug":"como-ossos-de-desaparecidos-ajudam-a-recontar-a-historia-da-ditadura-argentina","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2016\/10\/17\/como-ossos-de-desaparecidos-ajudam-a-recontar-a-historia-da-ditadura-argentina\/","title":{"rendered":"Como ossos de desaparecidos ajudam a recontar a hist\u00f3ria da ditadura argentina"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Um cr\u00e2nio com dois orif\u00edcios na parte posterior jaz sobre um peda\u00e7o de papel\u00e3o, \u00e0 espera de per\u00edcia. Em meio \u00e0s crostas de terra em sua superf\u00edcie, pode-se ver o c\u00f3d\u00e3o E-34, escrito com hidrocor vermelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Essa marca esverdeada \u00e9 a impress\u00e3o deixada pelo proj\u00e9til&#8221;, explica a antrop\u00f3loga forense Patr\u00edcia Bernardi, junto \u00e0 maca met\u00e1lica coberta por fragmentos \u00f3sseos que ela deve observar, analisar e catalogar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sala, localizada em um bairro barulhento e quente no centro de Buenos Aires, h\u00e1 ossos por todas as partes: esqueletos inteiros, partes de bra\u00e7os e pernas, peda\u00e7os de cr\u00e2nios cobertos de terra.<\/p>\n<div class=\"story-body\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__inner\">\n<p>S\u00e3o os restos dos desaparecidos.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 a \u00faltima coisa que resta de uma pessoa, bem como a \u00faltima oportunidade para que o corpo fale e conte a verdade&#8221;, diz a antrop\u00f3loga.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15694\/production\/_91300778_gettyimages-497552140.jpg\" alt=\"Madres con pa\u00f1uelos blancos en la cabeza llevan carteles con las fotos de hombres y mujeres y mensajes que exigen el hallazgo de su paradero.\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Las madres de la Plaza de Mayo fue la primera organizaci\u00f3n civil que denunci\u00f3 la desaparici\u00f3n de j\u00f3venes durante el r\u00e9gimen militar en Argentina.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Ap\u00f3s o fim do governo militar na Argentina, em dezembro de 1983, teve in\u00edcio um processo de busca e identifica\u00e7\u00e3o das quase 10 mil pessoas que foram classificadas como desaparecidas pela Secretaria de Direitos Humanos, em meio a um desejo nacional por justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Atualmente, as organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos estimam que o n\u00famero de v\u00edtimas do regime que governou a Argentina com m\u00e3o de ferro entre 1976 e 1983 chegou a 30 mil.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, as &#8220;M\u00e3es da Pra\u00e7a de Maio&#8221; pedem informa\u00e7\u00f5es que lhes indiquem se filhas e filhos est\u00e3o mortos. Para isso, foi criada uma equipe dedicada a buscar e identificar os restos das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Algo que n\u00e3o existia no mundo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/83F6\/production\/_91628733_patricia1.jpg\" alt=\"Mulher mostra um osso\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Exame de ossos em laborat\u00f3rio leva em conta marcas nos ossos e, atualmente, exame de DNA<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;O osso mostra a qualidade de vida que algu\u00e9m teve&#8221;, explica Bernardi, enquanto alisa a superf\u00edcie de um f\u00eamur. &#8220;Temos que saber como os ler para saber tudo o que est\u00e1 dizendo.&#8221;<\/p>\n<p>A antrop\u00f3loga h\u00e1 32 anos trabalha no projeto e \u00e9 um dos membros fundadores da Equipe Argentina de Antropologia Forense (Eaaf). Mas, em 1984, tinha outros planos. Queria ser arque\u00f3loga e descobrir antiguidades, em vez de estar com o peso hist\u00f3rico dos desaparecidos argentinos no quarto ao lado de seu escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>&#8220;Sequer sabia o que era um antrop\u00f3logo forense.&#8221;<\/p>\n<p>Em junho de 1984, por\u00e9m, ela conheceu Clyde Snow, um antrop\u00f3logo forense americano que viera para Buenos Aires a pedido de v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os argentinos para decidir o que fazer com os restos mortais dos desaparecidos.<\/p>\n<p>Chegou com a fama de &#8220;Sherlock Holmes dos ossos&#8221;. Trabalhara na identifica\u00e7\u00e3o da ossada do criminoso nazista Joseph Mengele, que tinha se escondido no Brasil depois da guerra, e participara da aut\u00f3psia do presidente americano John Fitzgerald Kennedy.<\/p>\n<p>Mais tarde, trabalharia nas valas comuns de curdos mortos pelo regime de Saddam Hussein no Iraque e testemunhou contra o ditador no julgamento que levou Saddam \u00e0 forca em 2006.<\/p>\n<p>&#8220;Snow era a imagem do antiprofessor. Dava-nos aula em um bar, fazendo gr\u00e1ficos em guardanapos. Era muito humano e inteligente. Bebia e fumava muito. Conversamos muito, ainda que sempre em um ingl\u00eas b\u00e1sico, pois ele n\u00e3o falava uma palavra de espanhol&#8221;, lembra Bernardi.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15694\/production\/_91300778_gettyimages-497552140.jpg\" alt=\"Madres con pa\u00f1uelos blancos en la cabeza llevan carteles con las fotos de hombres y mujeres y mensajes que exigen el hallazgo de su paradero.\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Las madres de la Plaza de Mayo fue la primera organizaci\u00f3n civil que denunci\u00f3 la desaparici\u00f3n de j\u00f3venes durante el r\u00e9gimen militar en Argentina.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 burocracia militar, havia um registro pormenorizado de pris\u00f5es e enterros. Mas para tirar os ossos da terra, Snow queria m\u00e3os mais h\u00e1beis que as de coveiros, para n\u00e3o danificar ossos &#8211; as de arque\u00f3logos iniciantes, como Patr\u00edcia. Ela e dois colegas &#8211; Luis Fondebrider e Mercedes Doretti &#8211; foram convidados pelo americano para auxili\u00e1-lo no projeto.<\/p>\n<p>&#8220;Achamos estranho que um americano quisesse nossa ajuda para isso. N\u00f3s nunca t\u00ednhamos trabalhado com ossadas, e a press\u00e3o para encontrar os desaparecidos era enorme&#8221;, lembra a antrop\u00f3loga.<\/p>\n<p>Mas o trio aceitou e, dias depois, reuniu-se nos port\u00f5es do Cemit\u00e9rio de Avellaneda, na capital. Depois de sete horas de escava\u00e7\u00f5es, encontraram alguns ossos. &#8220;N\u00e3o sab\u00edamos muito bem onde est\u00e1vamos cavando, mas me lembro de olhar para cima de dentro do buraco e ver as botas dos militares que nos observavam. Pensei: &#8216;Meu Deus, onde fomos nos meter'&#8221;.<\/p>\n<p>Durante a escava\u00e7\u00e3o, Bernardi ouviu palavras duras de alguns militares. &#8220;Eles diziam que se tivessem feito o trabalho direito n\u00f3s n\u00e3o estar\u00edamos l\u00e1. O pa\u00eds estava muito inst\u00e1vel. E, se os militares voltassem ao poder, era bem capaz que n\u00f3s f\u00f4ssemos os pr\u00f3ximos desaparecidos.&#8221;<\/p>\n<p>As escava\u00e7\u00f5es prosseguiram e foram revelando novas e novas valas. Seguiram encontrando esqueletos e classificando o achado, buscando marcas de viol\u00eancia nos ossos.<\/p>\n<p>Dos cemit\u00e9rios, foram para os laborat\u00f3rios para analisar vest\u00edgios \u00f3sseos, sinais particulares, at\u00e9 chegarem ao primeiro caso positivo: em 1985, identificaram os restos de uma mulher &#8211; Liliana Carmen Pereyra, de 21 anos, que estava gr\u00e1vida de cinco meses quando desapareceu, em 15 de outubro de 1977.<\/p>\n<p>Em abril de 1985, Snow levou este e outros resultados positivos para o Julgamento da Junta Militar, um processo instaurado pelo presidente Ra\u00fal Alfonsin para apurar as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos cometidos pelos militares.<\/p>\n<p>Snow entregou as provas mais certeiras contra os militares. Bernardi conta que advogados de defesa deixaram a sala. O trabalho de escava\u00e7\u00e3o n\u00e3o resultara apenas em ossos mas na evid\u00eancia cient\u00edfica que contrariava a vers\u00e3o oficial de generais e almirantes de que jovens como Liliane tinham morrido em conflitos armados com as autoridades. Exames dos restos mortais da jovem revelaram que ela tinha sido executada.<\/p>\n<p>Na tribuna, o americano apresentou fotos de outros casos: cr\u00e2nios danificados por marcas de balas na regi\u00e3o da nunca, sugerindo disparo a 30 cm de dist\u00e2ncia, um sinal claro de tiros \u00e0 queima-roupa, n\u00e3o de um enfrentamento.<\/p>\n<p>Mas o caso de Lilian foi emblem\u00e1tico: ficou provado que ela dera \u00e0 luz o beb\u00ea enquanto estava presa.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0276\/production\/_91303600_gettyimages-57296013.jpg\" alt=\"Clyde Snow participa de julgamento em 1985\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Clyde Snow participou de julgamentos na Argentina mostrando provas de assassinatos<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Mas como os cientistas conseguiram provar isso?<\/h2>\n<p>A equipe do Efaf explica que h\u00e1 ossos cruciais para buscar informa\u00e7\u00f5es sobre seu dono. Um deles \u00e9 o f\u00eamur, que permite estimar a idade e a estatura. O cr\u00e2nio e o p\u00e9lvis ajudam a decifrar o sexo. J\u00e1 a arcada dent\u00e1ria pode ser comparada com a ficha odontol\u00f3gica da pessoa.<\/p>\n<p>Os detalhes revelados pelos ossos permitem o cruzamento de informa\u00e7\u00f5es que milhares de parentes de desaparecidos deixaram nos registros de uma comiss\u00e3o nacional. Dentes arrancados, defeitos f\u00edsicos, acidentes sofridos, profiss\u00e3o (esqueletos de motoristas, por exemplo, apresentam atrofias nos discos da coluna). Tudo poderia ajudar.<\/p>\n<p>&#8220;No caso de Liliana Pereyra, sua m\u00e3e disse que, dois meses antes da pris\u00e3o, ela tinha passado por uma cirurgia de extra\u00e7\u00e3o do dente canino superior direito. No cr\u00e2nio que achamos no cemit\u00e9rio, pod\u00edamos ver o espa\u00e7o em que faltava o dente e havia sinais de uma extra\u00e7\u00e3o recente.<\/p>\n<p>Os ossos tamb\u00e9m delatam feridas. Muitas se desintegram com a carne, mas ficam alguns rastros. Fraturas no bra\u00e7o causadas por torturas, colunas vertebrais avariadas por disparos, cr\u00e2nios perfurados.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17DFE\/production\/_91309779_cordoba.jpg\" alt=\"Especialistas trabalham em cova\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Abertura de covas onde estariam v\u00edtimas assassinadas foi feita com t\u00e9cnicas usadas na arqueologia para n\u00e3o danificar ossadas<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>A equipe at\u00e9 agora j\u00e1 conseguiu confirmar a identidade de 700 pessoas, mas h\u00e1 outras 600 caixas de ossos \u00e0 espera de um nome. Nelas, uma constante: feridas de tiros, muitos deles pelas costas, e \u00e0 queima-roupa.<\/p>\n<p>&#8220;Soube que Laura, minha filha, foi sequestrada e executada pelas costas, em vez de em um enfrentamento. Levaram-na da pris\u00e3o para ser morta nos arredores de Buenos Aires&#8221;, conta \u00e0 BBC Mundo (o servi\u00e7o em espanhol da BBC), a ativista Estela de Carlotto, que recebeu o corpo da filha em agosto de 1978, algo pouco usual sob o regime militar.<\/p>\n<p>Em 1985, ela pediu a exuma\u00e7\u00e3o do corpo da filha para saber mais sobre sua morte, ela teve uma surpresa que lhe deu uma nova causa para lutar: durante a escava\u00e7\u00e3o, Clyde Snow, chamou-lhe para conversar.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11D50\/production\/_91304037_gettyimages-72659958.jpg\" alt=\"Clyde Owen\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Clyde Snow atuou no julgamento de Saddam Hussein en 2006; ele morreu em maio de 2014<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;Ele me disse: &#8216;Estela, voc\u00ea \u00e9 av\u00f3&#8217;. Nos p\u00e9lvis h\u00e1 uma marca que mostra que mulheres deram \u00e0 luz&#8221;, conta a ativista, hoje presidente do grupo Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio, que luta para saber o paradeiro de filhos de desaparecidos nascidos em cativeiro.<\/p>\n<p>Estima-se que, na Argentina, haja pelo menos 500 crian\u00e7as nascidas nessas circunst\u00e2ncias e adotadas de forma clandestina, crescendo com outra identidade. Foi o caso do neto de Estela, que foi encontrado em 2014. E do filho de Liliane.<\/p>\n<p>O descobrimento das &#8220;pegadas de DNA&#8221; pelo brit\u00e2nico Alec Jeffreys, em 1985, fez com que, a partir da d\u00e9cada passada, fosse poss\u00edvel usar os ossos dos desaparecidos para determinar la\u00e7os familiares atrav\u00e9s da gen\u00e9tica, em vez da buscar de sinais como os relatados por parentes. Desde 2003, a t\u00e9cnica triplicou o n\u00famero de identifica\u00e7\u00f5es feitas pelo laborat\u00f3rio argentino.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4B28\/production\/_91304291_7w4a7764.jpg\" alt=\"Ossada em laborat\u00f3rio\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">At\u00e9 o momento foram recuperadas ossadas de 1,3 mil pessoas na Argentina<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>O DNA tamb\u00e9m ajudou no trabalho de identifica\u00e7\u00e3o de beb\u00eas e av\u00f3s biol\u00f3gicos: em 2008, Hil\u00e1rio Bacca, um comerciante que vivia no centro da capital argentina, foi submetido a uma s\u00e9rie de exames de sangue porque se suspeitava que ele era filho de desaparecidos.<\/p>\n<p>Os exames confirmaram a identidade de sua m\u00e3e: Liliana Pereyra. Hil\u00e1rio foi o 95\u00ba neto recuperado pelas Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio, mas ele n\u00e3o ficou muito satisfeito.<\/p>\n<p>&#8220;Conheci minha identidade biol\u00f3gica por meio de um exame compuls\u00f3rio e que n\u00e3o queria fazer. E agora preciso lidar com isso&#8221;, queixou-se ele \u00e0 BBC Mundo, em 2011.<\/p>\n<p>Seus pais &#8220;adotivos&#8221; foram a julgamento por apropria\u00e7\u00e3o de menores, mas Bacca insiste em defend\u00ea-los e cham\u00e1-los de &#8220;pais de cora\u00e7\u00e3o&#8221;. Ele at\u00e9 testemunhou a favor deles no julgamento e se recusou adotar seu sobrenome verdadeiro.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4614\/production\/_91304971_gettyimages-2802844.jpg\" alt=\"Torre con fotos de personas que desparecieron durante el r\u00e9gimen militar argentino.\" width=\"2464\" height=\"1648\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">El trabajo del EAAF ha permitido la devoluci\u00f3n de al menos 700 cuerpos a los familiares de los desparecidos.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;A essa altura da minha vida querem que eu desapare\u00e7a para fazer de mim um Pereyra ou um Cagnola (sobrenome do pai, Eduardo, tamb\u00e9m desparecido), que para mim n\u00e3o existem.&#8221;<\/p>\n<p>No entanto, Bacca passou a trabalhar com as Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio.<\/p>\n<p>&#8220;Nunca sabemos como os familiares v\u00e3o reagir diante de uma verdade assim. Vemos de tudo&#8221;, diz Patr\u00edcia Bernardi.<\/p>\n<p>Os ossos continuam chegando. V\u00eam de cemit\u00e9rios de outros recantos do pa\u00eds ou de valas clandestinas como o Pozo de Vargas, um po\u00e7o de 40 m de profundidade em Tucuman, no norte da Argentina, que os militares usavam para desovar corpos de desparecidos. Recentemente, o laborat\u00f3rio conseguiu confirmar a identidade de um estudante sequestrado em 1976. Quarenta anos depois de sua fam\u00edlia come\u00e7ar a busc\u00e1-lo.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"tags-container\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"tags-container\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte &#8211; BBC\u00a0<\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um cr\u00e2nio com dois orif\u00edcios na parte posterior jaz sobre um peda\u00e7o de papel\u00e3o, \u00e0 espera de per\u00edcia. Em meio \u00e0s crostas de terra em sua superf\u00edcie, pode-se ver o c\u00f3d\u00e3o E-34, escrito com hidrocor vermelho. &#8220;Essa marca esverdeada \u00e9 a impress\u00e3o deixada pelo proj\u00e9til&#8221;, explica a antrop\u00f3loga forense Patr\u00edcia Bernardi, junto \u00e0 maca met\u00e1lica [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8695,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8694"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8694"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8694\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8697,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8694\/revisions\/8697"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8695"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8694"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8694"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8694"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}