{"id":901,"date":"2012-05-31T13:16:22","date_gmt":"2012-05-31T13:16:22","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/31\/ivan-ivanovitch-em-abril-de-1964-2\/"},"modified":"2012-05-31T13:16:22","modified_gmt":"2012-05-31T13:16:22","slug":"ivan-ivanovitch-em-abril-de-1964-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/31\/ivan-ivanovitch-em-abril-de-1964-2\/","title":{"rendered":"Ivan Ivanovitch em abril de 1964"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Para ser exato, Ivan, Ivanovitch Correia da Silva n\u00e3o morreu em 31 de mar\u00e7o de 1964. Foi no dia seguinte, foi no 1<span class=\"s1\">\u00ba<\/span> de abril de 1964 que ele abandonou o seu esp\u00edrito. Para ser mais exato, ele n\u00e3o o abandonou. Ele foi abandonado, porque j\u00e1 antes Ivan perdera a vontade, e perder a vontade, parece, \u00e9 o an\u00fancio primeiro da morte. Digo, corrigindo: j\u00e1 antes de deixar de existir, Ivan j\u00e1 n\u00e3o mais existia.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quero ser exato, preciso, claro, mas o reino de que me acerco repele tais exatid\u00f5es. O que vi naquela tarde n\u00e3o se pega como um c\u00e3o que se agarra e se pega, como uma ave que seguramos entre os dedos, como uma pedra de gelo\u00a0 que sentimos e pegamos. Talvez o melhor seja organizar Ivan \u00e0 maneira do que organiza a mem\u00f3ria, o sentimento, enfim, no que organiza o esp\u00edrito.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ivan era grande, largo, testa ampla \u2013 estranho, agora eu sei, s\u00f3 agora compreendo, ao escrever estas linhas agora compreendo: Ivan era largo e grande como a minha m\u00e3e. Ele foi, ou ele era, o melhor amigo que pode ter um adolescente de 13 anos. Escrevo essa generaliza\u00e7\u00e3o e estaco. Estaco porque essa tentativa de ser objetivo e imparcial s\u00f3 me faz escrever burras generalidades. Quero dizer, portanto, e n\u00e3o serei mais falso: Ivan foi o melhor amigo que tive na altura dos meus 13 anos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ivan, que s\u00f3 agora compreendo, n\u00e3o era um daqueles \u201cmeu tipo inesquec\u00edvel\u201d da t\u00f3xica revista Sele\u00e7\u00f5es. Ele era o amigo mais velho, e isso quer dizer: ele est\u00e1 sobre a cama, no 1<span class=\"s1\">\u00ba<\/span> de abril de 1964, agitado, movendo-se de um lado para outro de seu leito de capim seco. E me diz, e geme:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 Tem umas cobrinhas subindo pelas minhas costas.\u00a0\u2013\u00a0E\u00a0 bate com as m\u00e3os, para retir\u00e1-las. E mais se agita: \u2013\u00a0Eles v\u00eam me pegar. Eles v\u00e3o me levar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0Eles quem, Ivan?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0Eles, eles \u2013\u00a0e eles se confundem \u00e0s cobrinhas, que lhe sobem pelas costas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Este Ivan n\u00e3o \u00e9 Ivanovitch Correia da Silva. O Ivan de antes era um jovem de 19 anos, estudante de Qu\u00edmica. Passava o dia todo a estudar, todos os dias. Com um m\u00e9todo sui generis, como gostava de dizer. Entre uma f\u00f3rmula e outra me recebia na \u00fanica mesa da sua casa. E se punha a contar anedotas, a contar casos de meninos suburbanos, espertos, an\u00e1rquicos, galhofeiros. E sorria, e ria, e gargalhava, porque ao contar ele era p\u00fablico e personagem, e de tanto narrar hist\u00f3rias de meninos moleques deixava na gente a impress\u00e3o de ser um deles. Como um Chaplin que fosse Carlito. Se na vida da gente houver algo que nos perca, que mergulhe no abismo a natureza que j\u00e1 se acha perdida, ele contava, e contava a rir, a soltar alt\u00edssimas gargalhadas o caso que foi a sua perdi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 Na greve dos estudantes de Direito, eu fui l\u00e1 para prestar solidariedade aos colegas. Eu estava s\u00f3 no meio da massa, assistindo \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o. A\u00ed chegou o fot\u00f3grafo da revista O Cruzeiro. Quando ele apontou o flash, eu me joguei na frente dos estudantes. Olha aqui a foto.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E mostrava uma p\u00e1gina em que ele aparecia de bra\u00e7os abertos, destacado, em queda, como um jogador de futebol em um brilhante jogada, em voo sobre as palavras de ordem, viva Cuba, yankees go home, reforma agr\u00e1ria na lei ou na marra. Sorrindo em queda livre o meu amigo, na p\u00e1gina da revista O Cruzeiro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por isso ele gargalha, por sair em edi\u00e7\u00e3o nacional, por for\u00e7a do seu esp\u00edrito moleque. Por isso ele se diz, esta \u00e9 a l\u00f3gica, dias depois:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0Tem umas cobrinhas\u2026 Eles v\u00eam me pegar!<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O meu amigo da foto \u00e9 quem me resolve problemas de matem\u00e1tica que n\u00e3o consigo resolver. Num deles, um de fra\u00e7\u00e3o, ele, esperto, me esclarece o que a ambiguidade do problema n\u00e3o deixava ver: existe uma fra\u00e7\u00e3o de vara enterrada no leito do rio, o corpo dela n\u00e3o vai s\u00f3 at\u00e9 a parte submersa, o todo vai at\u00e9 abaixo da areia depositada sob a \u00e1gua. Bandidos, n\u00e3o deixaram claro, assim \u00e9 f\u00e1cil, eu lhe digo. E a minha revolta para ele \u00e9 um justo motivo de gargalhada. Mas me consola:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0Na sua idade, eu tamb\u00e9m n\u00e3o resolvi esse problema.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei se sou idealista, naquele mau sentido dos manuais simplificadores do marxismo, mas agora \u00e0 dist\u00e2ncia eu percebo a dignifica\u00e7\u00e3o que o esp\u00edrito d\u00e1. O respeito que rela\u00e7\u00f5es assim constru\u00eddas funda. De passagem, lembro que fui amigo de indiv\u00edduos valent\u00f5es, r\u00e1pidos nos socos e de for\u00e7a, com quem jamais briguei. Ainda bem, considero. Mas o que eu destaco agora \u00e9 que n\u00e3o havia espa\u00e7o entre n\u00f3s para a troca de insultos. Havia um respeito fundado nos objetivos a alcan\u00e7ar, ou melhor, a natureza das nossas rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o comportava um enfrentamento f\u00edsico. Assim tamb\u00e9m com Ivan. Agora compreendo que em nossas rela\u00e7\u00f5es ideais, ou idealizadas, ele me via como um menino precoce, como um menino de futuro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Neste passo cabe dizer o que era o futuro em nossa condi\u00e7\u00e3o. Ele era um dos seis filhos de seu Joaquim-da-carne-de-porco. Seu Joaquim, para se dignificar, dizia-se marchante, mas apenas vendia carne de porco no mercado p\u00fablico de \u00c1gua Fria. Simpatizante do velho Partid\u00e3o, pusera nos quatro primeiros filhos nomes russos, porque \u00e0 \u00e9poca a R\u00fassia era a p\u00e1tria da revolu\u00e7\u00e3o. Eles se chamavam Pedro, Ivanovitch, Serguei, Andrei, Abrah\u00e3o e Isaac. Os dois \u00faltimos coincidiam com o decl\u00ednio das convic\u00e7\u00f5es do velho comunista \u2013 ele passara da revolu\u00e7\u00e3o na terra para a salva\u00e7\u00e3o da alma, embora continuasse a sobreviver da venda da carne de porco. Lembro que da sua casa, feia, sem janelas, com fachada de pobre ponto comercial, vinha um permanente cheiro de torresmo. Lembro do cheiro abusivo, enjoado, repugnante que dava aquela coisa gordurosa, fartura de uma coisa s\u00f3. Entre as fuma\u00e7as da casa e o box no mercado, seu Joaquim conservara do antigo ardor revolucion\u00e1rio a f\u00e9, a paix\u00e3o da cren\u00e7a no livro, a cren\u00e7a na educa\u00e7\u00e3o. O estudo que levantaria as massas passou a salvar pessoas. Da\u00ed que seus filhos teriam que ser gente, n\u00e3o simplesmente carne de porco e torresmo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Naqueles anos de 64, um menino de futuro, naquele cheiro ativo de toucinho torrado, era um menino que gostava de ler, de perguntar, de argumentar, apesar de a sua imagem f\u00edsica n\u00e3o se assemelhar a qualquer futuro. Assim ele era porque o futuro eram os livros, e nos livros, era inquestion\u00e1vel, estava a for\u00e7a que erguera um povo das trevas, do feudalismo. Havia ent\u00e3o um respeito m\u00edtico, m\u00edstico, pelos livros. De futuro, at\u00e9 antes do golpe do 1<span class=\"s1\">\u00ba<\/span> de abril, era tamb\u00e9m Ivanovitch. Dos seis filhos de seu Joaquim ele era o mais brilhante, porque, enquanto os demais eram \u201cespecialistas\u201d, Ivanovitch era um universalista \u2013 gostava de matem\u00e1tica, de qu\u00edmica, de f\u00edsica, de pol\u00edtica, de filosofia, de romance, lia como um animal que tem fome de letras, e possu\u00eda um bom humor que era uma cr\u00edtica ao mundo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por que as pessoas n\u00e3o s\u00e3o lineares? Por que os indiv\u00edduos que levam a vida a gargalhar tendem a termin\u00e1-la com amargura ou viol\u00eancia? Por que os indiv\u00edduos soturnos, sombrios, n\u00e3o s\u00e3o os que enfiam o cano na boca e estouram os pr\u00f3prios miolos? N\u00e3o, o tr\u00e1gico quer os plet\u00f3ricos, os plenos de verve e cora\u00e7\u00e3o. Pois assim como o c\u00e2ncer, que dizem se alimentar da sa\u00fade vigorosa, o golpe de 1<span class=\"s1\">\u00ba<\/span> de abril comeu o c\u00e9rebro do meu amigo. E ele que era diurno, solar, tornou-se febril e noturno, naquele fim de tarde.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0Cad\u00ea Ivan? \u2013 perguntei, na volta da padaria. \u2013 Cad\u00ea Ivan? \u2013 perguntei, porque eu queria com ele conversar os \u00faltimos acontecimentos, queria que ele me explicasse os tanques na rua, se Arraes ainda era governo, se os comunistas haviam perdido a batalha. \u2013 Cad\u00ea Ivan?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0Vem ver o teu amigo. Veja como ele est\u00e1. \u2013 E sua m\u00e3e me conduziu at\u00e9 o quarto, que era uma divis\u00f3ria de tabique sem porta, como um quarto de est\u00fadio de cinema. E ela se p\u00f4s a cham\u00e1-lo, a dizer-lhe que eu estava ali, como se eu tivesse o dom de faz\u00ea-lo voltar \u00e0 realidade, realidade que ela n\u00e3o sabia ser o pesadelo a se inaugurar. Chamava-o, \u201cIvan\u201d,\u00a0 para torn\u00e1-lo ao Ivan de 31 de mar\u00e7o, ao rapaz que era a esperan\u00e7a daquela fam\u00edlia de seu Joaquim-da-carne-de-porco.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ele ouviu, hoje sei, ele ouviu porque respondeu, para explicar o seu tormento:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0As cobrinhas est\u00e3o subindo em mim. M\u00e3e, me tira essas cobrinhas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sei agora que naquele del\u00edrio Ivan n\u00e3o perdeu de todo a l\u00f3gica, a raz\u00e3o. Ser\u00e1 que enlouquecemos assim, num di\u00e1logo entre a desraz\u00e3o e a raz\u00e3o? Vejam, e nesta manh\u00e3 em que escrevo me chega a voz de Nat King Cole cantando como naqueles anos, na tela do Cine Ol\u00edmpia, do Cinema Imp\u00e9rio, ou\u00e7o Nat arremedando o espanhol \u201cadios, mariquita linda\u201d, vejam, agora percebo: ele diminu\u00eda o tamanho das serpentes, para ter mir\u00edades delas a subir-lhe pelas costas. Vejam, havia uma incompatibilidade de \u00e1reas f\u00edsicas de suas costas para as serpentes normais, em grande n\u00famero. E por isso ele as diminu\u00eda ao tamanho de se verem de microsc\u00f3pio, que l\u00f3gica infernal, como eram micros s\u00f3 ele as via! Meu amigo delirava e, para ele, para mim, \u00faltimo consolo, perdia a raz\u00e3o, mas n\u00e3o perdia a intelig\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Muitos anos depois eu o revi. Estava mais largo, obeso, imenso, com os gestos lentos de um drogado. A face, sem acusar rea\u00e7\u00e3o, s\u00f3 olhos morti\u00e7os, distantes, que n\u00e3o me reconheceram. Ele passou ao largo de mim como um hipop\u00f3tamo sem sombra, como um elefante sem orelhas, sem tromba, sem dentes passaria, s\u00f3 a grande massa de carne\u2026.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 16 de outubro de 2010, fiz a \u00faltima atualiza\u00e7\u00e3o desta mem\u00f3ria sobre meu amigo Ivan Ivanovitch:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cA realidade sempre \u00e9 infinitamente mais cruel que o narrado. Recebi hoje na fila do supermercado a not\u00edcia de que Ivan falecera h\u00e1 um ano. Sem a consci\u00eancia.\u201d<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para ser exato, Ivan, Ivanovitch Correia da Silva n\u00e3o morreu em 31 de mar\u00e7o de 1964. Foi no dia seguinte, foi no 1\u00ba de abril de 1964 que ele abandonou o seu esp\u00edrito. Para ser mais exato, ele n\u00e3o o abandonou. 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