{"id":933,"date":"2012-06-04T19:30:39","date_gmt":"2012-06-04T19:30:39","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/04\/o-tempo-do-extremo-2\/"},"modified":"2012-06-04T19:30:39","modified_gmt":"2012-06-04T19:30:39","slug":"o-tempo-do-extremo-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/04\/o-tempo-do-extremo-2\/","title":{"rendered":"O tempo do extremo"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>O embaixador come\u00e7ou a responder e parou. Ficou em sil\u00eancio, domando a emo\u00e7\u00e3o. Quase desistiu da resposta: \u201cEu acho que vou&#8230;\u201d, disse. No trabalho, o subsecret\u00e1rio-geral da ONU, Heraldo Mu\u00f1oz, n\u00e3o \u00e9 conhecido como homem emotivo nem explosivo. \u00c9 controlado, objetivo. No dia do golpe no Chile, em 1973, ele saiu \u00e0s ruas com bananas de dinamite. Os 32 segundos de sil\u00eancio, na entrevista que fiz com Mu\u00f1oz na Globonews, foram reveladores.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Alguns jovens da gera\u00e7\u00e3o dos anos 1960 e 1970 pensaram no impens\u00e1vel e fizeram o que em outras circunst\u00e2ncias n\u00e3o fariam. Ele come\u00e7a seu livro \u201cA Sombra do Ditador\u201d com uma frase espantosa: \u201cNa manh\u00e3 em que o golpe come\u00e7ou quase me tornei o primeiro terrorista suicida do mundo.\u201d Era sobre isso que eu tinha perguntado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mu\u00f1oz, al\u00e9m de subsecret\u00e1rio-geral da ONU, \u00e9 diretor do Pnud para a Am\u00e9rica Latina e Caribe. Na \u00e9poca do golpe, era um militante do Partido Socialista. Anos depois, em 1990, estava no governo Patricio Aylwin quando foi instalada a Comiss\u00e3o da Verdade que apurou os crimes da ditadura chilena. Foi embaixador no Brasil e nas Na\u00e7\u00f5es Unidas. Na ONU, trabalhou por uma resolu\u00e7\u00e3o que recomendou em 2009 a instala\u00e7\u00e3o de comiss\u00f5es da verdade em pa\u00edses que sa\u00edram de per\u00edodos ditatoriais:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Elas sempre tiveram o efeito positivo de buscar as informa\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso saber quem matou, quem sequestrou, onde est\u00e1 o corpo, para fechar as feridas. N\u00e3o pode haver reconcilia\u00e7\u00e3o sem saber o que aconteceu. Tem gente que diz: vamos virar a p\u00e1gina, porque tudo isso \u00e9 muito pol\u00eamico. Mas \u00e9 preciso saber, ter arquivos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ele contou que as comiss\u00f5es da verdade em v\u00e1rios pa\u00edses, como Chile, Argentina, Guatemala, El Salvador, Peru, \u00c1frica do Sul, Col\u00f4mbia, tiveram formatos diferentes. Na Am\u00e9rica Central, algumas foram conduzidas pela ONU. Na \u00c1frica do Sul, foi precedida de um per\u00edodo em que se a pessoa prestasse informa\u00e7\u00f5es receberia uma anistia. Isso levantou dados importantes. No Chile, acha que isso n\u00e3o seria poss\u00edvel porque no per\u00edodo em que o trabalho come\u00e7ou, Pinochet ainda era o comandante do Ex\u00e9rcito. Na Argentina, os militares concederam uma anistia a eles mesmos. Depois do trabalho da Comiss\u00e3o, houve processos judiciais. No Chile, nasceu a interpreta\u00e7\u00e3o de que crimes de desaparecimento n\u00e3o podem prescrever at\u00e9 que apare\u00e7a o corpo ou a pessoa sequestrada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mu\u00f1oz explicou que h\u00e1 elementos comuns entre as comiss\u00f5es: a busca dos fatos, a ajuda \u00e0 Justi\u00e7a, montar arquivos. As comiss\u00f5es sempre ocorreram em \u00e9poca mais pr\u00f3xima dos eventos. No Brasil, s\u00f3 agora foi instalada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Os processos de transi\u00e7\u00e3o t\u00eam seus tempos e os tempos s\u00e3o ditados pela realidade local \u2014 disse ele.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No Chile, os integrantes da comiss\u00e3o eram de lados diferentes do campo pol\u00edtico e havia at\u00e9 um ex-ministro da Educa\u00e7\u00e3o de Pinochet. Durante dois anos, trabalharam com a ajuda de uma equipe de advogados e especialistas. No final, foi divulgado o \u201cRelat\u00f3rio Rettig\u201d, que informa que 2.115 pessoas foram assassinadas no Chile. Pode ter sido mais de 3.000. O Ex\u00e9rcito n\u00e3o aceitou o relat\u00f3rio, mas as outras For\u00e7as, sim. Pinochet disse que era uma vers\u00e3o unilateral.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No livro, Mu\u00f1oz relata os dois enterros de Salvador Allende. O primeiro, apressado, quase \u00e0s escondidas. Sob amea\u00e7a de armas, Hortensia Allende, a vi\u00fava, corajosamente diz: \u201cQue saibam todos que aqui jaz o presidente constitucional do Chile.\u201d No segundo, na democracia, ele recebeu honras de chefe de Estado. \u201cMuitos outros estavam fadados a morrer entre os dois sepultamentos de Salvador Allende\u201d, diz ele, no livro lan\u00e7ado no Brasil pela Zahar. Nos primeiros meses morreram em m\u00e9dia 119 pessoas por semana.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Apresentei a ele as d\u00favidas levantadas no Brasil nos \u00faltimos meses: de que a verdade \u00e9 relativa, de que n\u00e3o vale a pena reviver conflitos passados, e de que a oposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m cometeu crimes:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Esses argumentos n\u00e3o me surpreendem; apareceram em todos os pa\u00edses, principalmente levantados por quem se sente vulner\u00e1vel pelas revela\u00e7\u00f5es. Sobre os crimes cometidos pela resist\u00eancia \u00e0 ditadura, vamos lembrar que todas as pessoas foram julgadas, condenadas a penas bem al\u00e9m da responsabilidade que tiveram e foram torturadas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Perguntei ao embaixador Mu\u00f1oz como explicar para os mais jovens por que pessoas como ele tinham tomado decis\u00f5es t\u00e3o extremadas? As bananas de dinamite que ele carregou no 11 de setembro pelas ruas de Santiago estavam inst\u00e1veis. Poderiam ter explodido. Ele come\u00e7ou: \u201cForam sonhos de mudan\u00e7a e de justi\u00e7a.\u201d E ent\u00e3o ficou em sil\u00eancio por 32 segundos. Depois, concluiu:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o faria isso novamente. Naquele momento defendia um governo de mudan\u00e7as, eleito democraticamente. Hoje, as novas gera\u00e7\u00f5es tomam a democracia como um dado inquestion\u00e1vel. Para a nossa gera\u00e7\u00e3o foi mais dif\u00edcil. No ano passado, houve seis elei\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica Latina sem nenhum incidente. \u00c9 o per\u00edodo mais longo de democracia, mas o custo foi grande. Aprendemos com os nossos erros, mas o outro lado talvez tenha aprendido que \u2014 apesar das diferen\u00e7as do passado \u2014 temos um futuro comum.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na sa\u00edda da entrevista, ele me disse que integrantes da repress\u00e3o brasileira foram ao Chile ensinar t\u00e9cnicas de tortura aos militares chilenos. E que isso deveria ser objeto de investiga\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; O Globo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O embaixador come\u00e7ou a responder e parou. Ficou em sil\u00eancio, domando a emo\u00e7\u00e3o. Quase desistiu da resposta: \u201cEu acho que vou&#8230;\u201d, disse. 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