{"id":11992,"date":"2017-09-26T21:43:15","date_gmt":"2017-09-26T21:43:15","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=11992"},"modified":"2017-09-26T21:43:15","modified_gmt":"2017-09-26T21:43:15","slug":"dyrce-drach-1930-2017nosso-papel-era-evitar-que-presos-politicos-desaparecessem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2017\/09\/26\/dyrce-drach-1930-2017nosso-papel-era-evitar-que-presos-politicos-desaparecessem\/","title":{"rendered":"Dyrce Drach (1930\u20132017):\u201cNosso papel era evitar que presos pol\u00edticos desaparecessem&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"description\" style=\"text-align: justify;\">Advogada e militante dos direitos humanos, que faleceu neste s\u00e1bado (23), deixou li\u00e7\u00f5es de igualdade e justi\u00e7a<\/h2>\n<div class=\"details-bar\">\n<div class=\"author-time\">\n<address class=\"author\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Dyrce Drach faleceu neste s\u00e1bado (23), enquanto dormia, aos 86 anos, no Rio de Janeiro. Carioca nascida em 1930, atuou como advogada na defesa de perseguidos pol\u00edticos e como servidora p\u00fablica ao lado de Darcy Ribeiro, Jorge Amado, entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja qual fosse o regime pol\u00edtico e o tratamento do Estado em rela\u00e7\u00e3o a quem defendia, estabelecia rela\u00e7\u00e3o afetuosa com perseguidos pol\u00edticos, trabalhadores rurais, crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista \u00e0 Revista da OAB-RJ, em 2012, ela recordou como era ser advogada na Ditadura: \u201cEra meio um jogo de carta marcada. A gente podia buscar as teorias dos Direitos alem\u00e3o, franc\u00eas, italiano\u2026 mas n\u00e3o adiantava, aqueles presos estavam marcados\u201d. E acrescentou: \u201cOs que estavam marcados para morrer morreram, e os outros seriam quase todos condenados. O nosso papel era duplo: primeiro, juridicamente tentar reduzir a pena, mas fundamentalmente cuidar para que eles n\u00e3o desaparecessem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste per\u00edodo, testemunhou in\u00fameras arbitrariedades, como a de que os torturadores n\u00e3o tinham vergonha de disfar\u00e7ar mortes e viol\u00eancias. Certa vez, ao perguntar sobre o paradeiro de uma cliente no DOPS-SP, um policial respondeu: \u201cPode ficar tranquila. Essa se a gente pegar, a gente mata\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como defensora de direitos humanos teve diversas outras fun\u00e7\u00f5es, como assessora da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT-RJ), do Instituto Apoio Jur\u00eddico Popular (AJUP-RJ), da Associa\u00e7\u00e3o Beneficente S\u00e3o Martinho (RJ) e do Centro de Defesa dos Direitos da Crian\u00e7a e do Adolescente (CEDECA-RJ). Atuou ainda como advogada no escrit\u00f3rio modelo e como integrante da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da OAB-RJ. Recebeu as medalhas \u201cChico Mendes\u201d, do Grupo Tortura Nunca Mais, e \u201cSobral Pinto\u201d, da OAB-RJ. Coordenou a edi\u00e7\u00e3o da obra \u201cArgumentos perdidos: reflex\u00f5es cr\u00edticas sobre as pr\u00e1ticas jur\u00eddicas dos centros de defesa das crian\u00e7as e dos adolescentes\u201d, publicada pela Associa\u00e7\u00e3o Beneficente S\u00e3o Martinho, em 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas redes sociais, v\u00e1rias pessoas comentaram e lamentaram a morte de Dyrce Drach, como a cunhada e advogada Margarida Pressburguer, o advogado Pedro Pereira e a jornalista Miriam Leit\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Confira trechos da entrevista com Dyrce Drach, no dia 22 de maio de 2015, realizada por Luiz Ot\u00e1vio Ribas para compor a tese \u201cDireito insurgente na assessoria jur\u00eddica popular\u201d defendida na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em 2015. A entrevista na \u00edntegra com pode ser acessada neste\u00a0link.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conte um pouco sobre voc\u00ea e sua escolha pela advocacia de direitos humanos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dyrce Drash:\u00a0<\/strong>Bom, nasci aqui no Rio de Janeiro, tive dois filhos, depois me separei, depois casei outra vez, tive uma filha. Casei com um colega de turma, com quem fui casada trinta e cinco anos. Com ele eu tive muita inser\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica. Ele era do partid\u00e3o. Eu tinha sido do partid\u00e3o, mas n\u00e3o era mais nada. Quando eu me formei, acho que foi 1959, n\u00f3s fomos para Bras\u00edlia, eu fui para o Pal\u00e1cio do Planalto, fui assessora de uns quatro chefes de gabinete civil. Terminei de volta aqui no Rio de Janeiro com Darcy Ribeiro, que era meu velho conhecido. Vim para c\u00e1 depois que meu marido foi para Juiz de Fora (MG), como preso pol\u00edtico, 1964 j\u00e1 tinha passado, ele foi preso em 1969.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o voc\u00ea come\u00e7ou a advogar neste per\u00edodo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu comecei a advogar para os presos pol\u00edticos j\u00e1 em Bras\u00edlia, quando meu marido foi preso. Mas trabalhava ainda para quem n\u00e3o tinha advogado ou quem n\u00e3o podia pagar. Tenho at\u00e9 hoje grandes amigos ex-presos pol\u00edticos. At\u00e9 a anistia em 1979, eu trabalhei num escrit\u00f3rio que tinha muitos processos, chegou a ter 112 processos de presos pol\u00edticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais foram as arbitrariedades do regime militar que voc\u00ea testemunhou?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo,\u00a0quem foi reconhecer a\u00a0Aurora Maria Nascimento Furtado\u00a0[militante da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional] no necrot\u00e9rio fui eu e a irm\u00e3 dela. N\u00f3s vimos como ela estava violentada, n\u00e3o tinha o bico do seio, a cabe\u00e7a na parte da testa era toda mole, uma coisa terr\u00edvel. Outro caso foi da\u00a0Ana Maria Nacinovic\u00a0[militante da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional], que tamb\u00e9m foi morta. Eu mandei v\u00e1rios recados pra ela sair do pa\u00eds, que eu n\u00e3o sei se chegaram. Certa vez fui no DOPS de S\u00e3o Paulo, tentar conversar com outra cliente. Os militares me disseram: \u201cela est\u00e1 sendo interrogada, a senhora espera\u201d. Ent\u00e3o eu sentei e fiquei esperando. Para puxar conversa, tinha aquele cartaz de procura-se, eu comentei: \u201cIh, mas este cartaz aqui t\u00e1 j\u00e1 defasado, porque eu tenho clientes aqui que j\u00e1 est\u00e3o presos, tem outros que eu estou procurando e n\u00e3o sei deles\u201d. Eu mostrei a Ana Maria Nacinovic. Ent\u00e3o ele falou: \u201colha doutora, esta a senhora n\u00e3o precisa procurar n\u00e3o, porque a hora que a gente encontrar mata!\u201d. E mataram mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com que tipo de tarefas voc\u00ea se envolvia? At\u00e9 onde voc\u00ea ia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu ia at\u00e9 bastante longe, viu.\u00a0Tinha um preso, o Jos\u00e9 Roberto Gon\u00e7alves Rezende, que eu dizia que era meu preso predileto. E ele era. Acabava que era um envolvimento emocional tamb\u00e9m, n\u00e3o era s\u00f3 profissional. O Z\u00e9 Roberto era uma das pessoas mais corajosas que eu j\u00e1 vi na minha vida, de melhor car\u00e1ter.\u00a0Ele sofria muito nas pris\u00f5es pelo que ele fez, ele tinha dois processos de envolvimento nos sequestros de embaixadores, ele tinha duas pris\u00f5es perp\u00e9tuas. O Z\u00e9 Roberto n\u00e3o se queixava de nada, s\u00f3 queria saber dos outros e ele n\u00e3o me contava nada. Um preso que estava defronte dele, um dia me contou a seguinte hist\u00f3ria. Ele estava com uma alergia, mas ele n\u00e3o pedia nada, apenas exigia os direitos dele de ser atendido por um m\u00e9dico. Ent\u00e3o ningu\u00e9m gostava dele no quartel. Quer dizer, os milicos n\u00e3o gostavam. Ele estava com uma alergia e pedia m\u00e9dico. Pedia, pedia m\u00e9dico\u2026 n\u00e3o vinha o m\u00e9dico. Este outro rapaz me contou, porque o Z\u00e9 Roberto jamais me contaria uma coisa destas, que entrou o Tenente com uma metralhadora, enfiou a metralhadora na barriga dele e falou \u201cvoc\u00ea fica quieto porque sen\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o sabe o que vai te acontecer\u201d. Ele ent\u00e3o teria pego o cano da metralhadora, empurrado para o lado, e falado assim: \u201cenfia esta metralhadora no \u2026 porque se eu tivesse medo de metralhadora eu n\u00e3o estava aqui!\u201d. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Depois da anistia em 1979, voc\u00ea continuou advogando com direitos humanos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olha, eu trabalhava setorialmente na Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT). Eu n\u00e3o sou religiosa, nem nada. Mas de toda forma eu tinha um tr\u00e2nsito muito bom com os padres. Eram, em geral, padres que tinham vindo de Uganda (\u00c1frica), daqui e dali, do estrangeiro. Ent\u00e3o eu fiquei mais setorizada em Itagua\u00ed e Paraty. Em Paraty eu trabalhei muito, n\u00f3s tivemos 16 a\u00e7\u00f5es de usucapi\u00e3o, trabalhamos tamb\u00e9m com um quilombo. Como eles era quase analfabetos, chegava um cidad\u00e3o l\u00e1 de gravata, mostrava um papel a eles e eles saiam, entende? Uma vez mostraram uma certid\u00e3o de casamento e eles sa\u00edram. Eles diziam: \u201cn\u00e3o doutora, tinha uma faixa verde e amarela\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois fui advogar ainda na regi\u00e3o de Itagua\u00ed, Volta Redonda, Nova Igua\u00e7u. Ali era muito complicado, porque os padres eram muito ing\u00eanuos, europeus. Eles chegavam l\u00e1 e compravam um lote, porque eles iam guardar aquele lote pra fazer n\u00e3o sei o que que eles estavam na cabe\u00e7a. \u00c9 claro que o lote era invadido! E eu ficava num beco sem sa\u00edda. Quem que eu defendo: o padre, a Diocese ou os sem terra? Ent\u00e3o tive muitas coisas dessas\u2026 Depois quando eu sai da pastoral fui para Associa\u00e7\u00e3o Beneficente S\u00e3o Martinho. Da S\u00e3o Martinho eu vim pra Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da OAB. Como voc\u00ea v\u00ea eu devo estar rica, n\u00e9? (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais eram as diferen\u00e7as de trabalhar com os meninos de rua?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu nunca atendi um menino numa mesa.\u00a0Nunca. Eu sentava num sof\u00e1 todo caqu\u00e9tico, que\u00a0tinha trazido da pastoral cat\u00f3lica, e conversava com eles. Assim eles se sentiam mais a vontade. Tinha uns fant\u00e1sticos, outros p\u00e9ssimos. Uma vez, um chegou l\u00e1\u00a0e eu falei \u201co que houve com voc\u00ea?\u201d. \u201cAh, eu &#8216;robei&#8217;\u201d. \u201cMas voc\u00ea &#8216;roba&#8217;?\u201d \u2013 eu falei. \u201cRobo, robo\u2026\u201d- ele respondeu e contou a seguinte est\u00f3ria: \u201cVinha saindo uma dona do mercado, n\u00e3o sei de onde, e eu pedi para ela um dinheiro, e a\u00ed ela disse me chamou de trombadinha. Eu fiquei com raiva, peguei a bolsa dela e sa\u00ed correndo. A\u00ed corri, corri, corri. Dobrando a esquina vi um policial. Falei pra ele assim: eu te dou metade do que est\u00e1 aqui se voc\u00ea segurar o policial que vem a\u00ed atr\u00e1s de mim. Ele falou assim: s\u00f3 seguro se voc\u00ea me der tudo\u201d. Era nessa base.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00ea considera que seja insurg\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Insurg\u00eancia? Eu fui fundadora, junto com meu marido, do Instituto Apoio Jur\u00eddico Popular (AJUP-RJ), que era um movimento insurgente. Quer dizer, naquela \u00e9poca, logo depois da anistia, eram chamados movimentos novos no Direito, que era a insurg\u00eancia. E que eu sou inteiramente a favor. O direito insurgente \u00e9 aquele que nasce do grito da rua, ou das invas\u00f5es, ou dos despejos, este \u00e9 mais um direito insurgente. Agora este que foi trabalhado para virar lei eu n\u00e3o chamaria tanto de direito insurgente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Refer\u00eancias<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DRACH, Dyrce (Coord). Argumentos perdidos : reflex\u00f5es cr\u00edticas sobre as pr\u00e1ticas jur\u00eddicas dos centros de defesa das crian\u00e7as e dos adolescentes Rio de Janeiro: S\u00e3o Martinho, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DRASCH, Dyrce. Mem\u00f3ria da advocacia, Revista OABRJ, v. 28, n. 1, Ordem dos Advogados do Brasil, Rio de Janeiro, p. 429-442, jan.-jun. 2012.<\/p>\n<\/address>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"place-and-time\">\n<div class=\"place\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Brasil de Fato | 25\/09\/2017<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Advogada e militante dos direitos humanos, que faleceu neste s\u00e1bado (23), deixou li\u00e7\u00f5es de igualdade e justi\u00e7a Dyrce Drach faleceu neste s\u00e1bado (23), enquanto dormia, aos 86 anos, no Rio de Janeiro. 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