{"id":12078,"date":"2017-11-21T19:12:18","date_gmt":"2017-11-21T19:12:18","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=12078"},"modified":"2017-11-21T19:14:58","modified_gmt":"2017-11-21T19:14:58","slug":"como-a-arte-contemporanea-brasileira-esta-acessando-os-arquivos-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2017\/11\/21\/como-a-arte-contemporanea-brasileira-esta-acessando-os-arquivos-da-ditadura\/","title":{"rendered":"Como a arte contempor\u00e2nea brasileira est\u00e1 acessando os arquivos da ditadura"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Resgate da mem\u00f3ria do per\u00edodo ditatorial no Brasil tem aparecido na produ\u00e7\u00e3o de artistas de diferentes gera\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2011, o governo da ex-presidente Dilma Rousseff criou a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. Sua finalidade foi a de apurar as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos cometidas no Brasil sob regimes de exce\u00e7\u00e3o entre 1946 e 1988, com foco especial para os crimes da Ditadura Civil-Militar que teve in\u00edcio em 1964.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo da investiga\u00e7\u00e3o, foram ouvidas v\u00edtimas, testemunhas e agentes da repress\u00e3o. O relat\u00f3rio final da comiss\u00e3o foi entregue em 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As discuss\u00f5es levantadas no per\u00edodo, assim como o clima pol\u00edtico deflagrado pelas Jornadas de junho de 2013, intensificaram a valoriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria da ditadura, na an\u00e1lise do pesquisador e\u00a0 professor da Unicamp, M\u00e1rcio Seligmann-Silva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ele, logo ap\u00f3s o per\u00edodo do regime, no qual artistas brasileiros resistiram com obras importantes, houve uma \u201cressaca\u201d que fez com que a produ\u00e7\u00e3o se voltasse para outras agendas tem\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais recentemente, no entanto, alguns artistas brasileiros t\u00eam se debru\u00e7ado novamente sobre o passado ditatorial, fazendo dele tema e, de seus arquivos, mat\u00e9ria-prima. A mem\u00f3ria da ditadura voltou a aflorar nas obras contempor\u00e2neas, entre 2013 e 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso se reflete na curadoria de Seligmann-Silva para a exposi\u00e7\u00e3o \u201cHiatus: A mem\u00f3ria da viol\u00eancia ditatorial da Am\u00e9rica Latina\u201d, em cartaz at\u00e9 mar\u00e7o de 2018 no Memorial da Resist\u00eancia, em S\u00e3o Paulo. Dela participam oito artistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m na 20\u00aa edi\u00e7\u00e3o do festival de arte contempor\u00e2nea Sesc Videobrasil, em 2017, tr\u00eas obras se prop\u00f5em a pensar a ditadura: duas do artista Rafael Pagatini e uma de Jaime Lauriano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abaixo a lista, a partir das duas exposi\u00e7\u00f5es, cinco artistas que lidam com o tema e descreve uma obra de cada, constru\u00edda a partir de arquivos da ditadura.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Clara Ianni<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascida em 1987, em S\u00e3o Paulo. Sua obra \u201cDetalhes observados\u201d, de 2017, \u00e9 uma instala\u00e7\u00e3o composta a partir da pesquisa dos arquivos que ficavam armazenados no pr\u00e9dio do antigo DOPS, o Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social, durante o regime militar. Atualmente, o pr\u00e9dio abriga o Memorial da Resist\u00eancia, onde a obra est\u00e1 exposta.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FOTO: RICARDO FERREIRA\/DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/h6>\n<div id=\"attachment_12079\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000.jpg\" rel=\"attachment wp-att-12079\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-12079\" class=\"size-full wp-image-12079\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000.jpg\" alt=\"'DETALHES OBSERVADOS', DA ARTISTA CLARA IANNI, NA EXPOSI\u00c7\u00c3O 'HIATUS' Link para mat\u00e9ria: https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2017\/11\/20\/Como-a-arte-contempor%C3%A2nea-brasileira-est%C3%A1-acessando-os-arquivos-da-ditadura \u00a9 2017 | Todos os direitos deste material s\u00e3o reservados ao NEXO JORNAL LTDA., conforme a Lei n\u00ba 9.610\/98. A sua publica\u00e7\u00e3o, redistribui\u00e7\u00e3o, transmiss\u00e3o e reescrita sem autoriza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via \u00e9 proibida.\" width=\"640\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000.jpg 640w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-300x187.jpg 300w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-436x272.jpg 436w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12079\" class=\"wp-caption-text\">&#8216;DETALHES OBSERVADOS&#8217;, DA ARTISTA CLARA IANNI, NA EXPOSI\u00c7\u00c3O &#8216;HIATUS&#8217;<\/p>\n<p><\/p><\/div>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Fulvia Molina<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Molina nasceu em 1945 em Jeriquara, interior de S\u00e3o Paulo. Foi estudante de Biologia da USP na d\u00e9cada de 1960, onde vivenciou o movimento estudantil, a resist\u00eancia \u00e0 ditadura e perdeu amigos, v\u00edtimas da repress\u00e3o. Molina trabalha h\u00e1 anos com o tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra <strong>\u201cMem\u00f3ria do Esquecimento: As 434 v\u00edtimas\u201d<\/strong>, de 2017, consiste em um conjunto de 6 cilindros-t\u00f3tens em tamanho humano, com retratos de cada uma das 434 v\u00edtimas relacionadas no Relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. Praticamente toda a s\u00e9rie \u201cMem\u00f3ria do Esquecimento\u201d gira em torno de fotografias de desaparecidos.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FOTO: RICARDO FERREIRA\/DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/h6>\n<div id=\"attachment_12080\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-1.jpg\" rel=\"attachment wp-att-12080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-12080\" class=\"size-full wp-image-12080\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-1.jpg\" alt=\"T\u00d3TENS DA OBRA 'MEM\u00d3RIA DO ESQUECIMENTO: AS 434 V\u00cdTIMAS', DE FULVIA MOLINA, EXPOSTA NA EXPOSI\u00c7\u00c3O 'HIATUS'\" width=\"640\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-1.jpg 640w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-1-300x187.jpg 300w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-1-436x272.jpg 436w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12080\" class=\"wp-caption-text\">T\u00d3TENS DA OBRA &#8216;MEM\u00d3RIA DO ESQUECIMENTO: AS 434 V\u00cdTIMAS&#8217;, DE FULVIA MOLINA, EXPOSTA NA EXPOSI\u00c7\u00c3O &#8216;HIATUS&#8217;<\/p><\/div>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Leila Danziger<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do Rio de Janeiro, nascida em 1962, \u00e9 autora da S\u00e9rie \u201cPerigosos, subversivos, sediciosos [cadernos do povo brasileiro]\u201d, de 2017.\u00a0 A obra foi realizada a partir dos livros censurados sob a ditadura. Danziger pregou em uma parede os livros censurados e, em outra, reprodu\u00e7\u00f5es de rostos de desaparecidos &#8211; durante a ditadura e hoje, como Amarildo Dias de Souza. Trata, para al\u00e9m da viol\u00eancia institucional do regime militar, da continuidade dessa viol\u00eancia no presente.<\/p>\n<div id=\"attachment_12081\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-2.jpg\" rel=\"attachment wp-att-12081\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-12081\" class=\"size-full wp-image-12081\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-2.jpg\" alt=\"'PERIGOSOS, SUBVERSIVOS, SEDICIOSOS [CADERNOS DO POVO BRASILEIRO]' TRABALHA COM A CENSURA E COM OS DESAPARECIDOS DO PASSADO E DO PRESENTE\" width=\"640\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-2.jpg 640w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-2-300x140.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12081\" class=\"wp-caption-text\">&#8216;PERIGOSOS, SUBVERSIVOS, SEDICIOSOS [CADERNOS DO POVO BRASILEIRO]&#8217; TRABALHA COM A CENSURA E COM OS DESAPARECIDOS DO PASSADO E DO PRESENTE<\/p><\/div>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Jaime Lauriano<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lauriano nasceu em 1985, em S\u00e3o Paulo. Desde 2012, usa o passado brasileiro em suas obras, definindo o per\u00edodo colonial e a ditadura militar como dois momentos-chave para compreender a viol\u00eancia institucional no presente, por exemplo o genoc\u00eddio de jovens negros pelo Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua obra <strong>\u201cO Brasil\u201d<\/strong>, de 2014, \u00e9 um v\u00eddeo realizado a partir de mat\u00e9rias de jornais entre 1964 e 1968 com propagandas oficiais dos governos federais durante o per\u00edodo militar. O Brasil from Jaime Lauriano on Vimeo. \u00a0 Rafael Pagatini De Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, tamb\u00e9m nascido em 1985, Pagatini \u00e9 autor de \u201cBem-vindo, presidente!\u201d, obra da s\u00e9rie Fissuras, de 2016. A instala\u00e7\u00e3o parte da cataloga\u00e7\u00e3o de an\u00fancios de empresas publicados no jornal A Gazeta, de Vit\u00f3ria, entre as d\u00e9cadas de 1960 e 1980. Trata do v\u00ednculo entre a ditadura militar brasileira e a iniciativa privada e do projeto de modernidade do regime, frustrado pela desigualdade social e por desastres ambientais.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/226375821\" width=\"720\" height=\"480\" frameborder=\"0\" title=\"O Brasil\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Rafael Pagatini<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, tamb\u00e9m nascido em 1985, Pagatini \u00e9 autor de \u201cBem-vindo, presidente!\u201d, obra da s\u00e9rie Fissuras, de 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A instala\u00e7\u00e3o parte da cataloga\u00e7\u00e3o de an\u00fancios de empresas publicados no jornal A Gazeta, de Vit\u00f3ria, entre as d\u00e9cadas de 1960 e 1980. Trata do v\u00ednculo entre a ditadura militar brasileira e a iniciativa privada e do projeto de modernidade do regime, frustrado pela desigualdade social e por desastres ambientais.<\/p>\n<div id=\"attachment_12082\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-3.jpg\" rel=\"attachment wp-att-12082\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-12082\" class=\"size-full wp-image-12082\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-3.jpg\" alt=\"AN\u00daNCIOS DE EMPRESAS PUBLICADOS DURANTE A DITADURA NO JORNAL A GAZETA, DE VIT\u00d3RIA, COLETADOS PELO ARTISTA RAFAEL PAGATINI\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-3.jpg 640w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-3-300x200.jpg 300w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-3-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12082\" class=\"wp-caption-text\">AN\u00daNCIOS DE EMPRESAS PUBLICADOS DURANTE A DITADURA NO JORNAL A GAZETA, DE VIT\u00d3RIA, COLETADOS PELO ARTISTA RAFAEL PAGATINI<\/p><\/div>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Manipula\u00e7\u00e3o do arquivo<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para elaborar suas obras sobre a ditadura, Jaime Lauriano se lan\u00e7ou aos arquivos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Foi a partir da Lei da Transpar\u00eancia, sancionada em 2009 pelo ex-presidente Lula (PT), segundo o artista, que o trabalho se tornou poss\u00edvel: \u201cfoi s\u00f3 a partir disso que consegui ter acesso aos arquivos, pude comprar direitos, digitalizar e utilizar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O apelo do arquivo, para Lauriano, \u00e9 em parte desnudar sua fic\u00e7\u00e3o, a narrativa que constr\u00f3i. \u201cDo mesmo jeito que manipulo esses arquivos, essas informa\u00e7\u00f5es, dados e imagens foram manipulados para constru\u00ed-los\u201d, disse ao Nexo. \u201cN\u00e3o existe essa no\u00e7\u00e3o de realidade quando estamos falando da hist\u00f3ria, porque a hist\u00f3ria \u00e9 constru\u00edda a partir de um rearranjo de informa\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMeu interesse, que perpassa todos os meus trabalhos, era pensar como o Estado [no passado e no presente], em suas mais diferentes formas de ordenamento, utiliza s\u00edmbolos nacionais para criar um ide\u00e1rio de identidade nacional, e com isso cria tamb\u00e9m uma identifica\u00e7\u00e3o entre sociedade e regime para esconder as viol\u00eancias perpetradas pelo pr\u00f3prio regime contra a popula\u00e7\u00e3o\u201d Jaime Lauriano Em entrevista ao Nexo<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Diferen\u00e7as geracionais <\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A produ\u00e7\u00e3o de artistas de gera\u00e7\u00f5es distintas, para o curador da \u201cHiatus\u201d, traduz rela\u00e7\u00f5es diferentes com o tema. Artistas que viveram o per\u00edodo, como Fulvia Molina, estariam mais propensos a representar o trauma, enquanto quem nasceu no per\u00edodo de redemocratiza\u00e7\u00e3o, como Jaime Lauriano, se preocupa tamb\u00e9m com a perman\u00eancia, hoje, de tra\u00e7os do regime de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 muito interessante como a Fulvia [Molina] tem um respeito gigantesco, e evidentemente justific\u00e1vel, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s imagens fotogr\u00e1ficas dos desaparecidos. Ela tem um relacionamento muito forte com essas imagens. N\u00e3o por acaso ela constr\u00f3i t\u00f3tens\u201d, diz Seligmann-Silva. \u201cJ\u00e1 a Leila, que \u00e9 de uma gera\u00e7\u00e3o posterior, tampa essas imagens, j\u00e1 se distanciando, faz um jogo de ocultamento que tem todo um simbolismo.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Elabora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O atual contexto de valoriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria ditatorial por uma nova gera\u00e7\u00e3o brasileira se contrap\u00f5e a uma lacuna que se seguiu \u00e0 redemocratiza\u00e7\u00e3o. \u201cNo Brasil, a [Lei da] Anistia de 1979, foi, por assim dizer, respeitada e nunca superada, diferentemente dos outros pa\u00edses [da Am\u00e9rica Latina]. \u00c9 um consenso do direito internacional que n\u00e3o se pode anistiar crimes como tortura, s\u00e3o inafian\u00e7\u00e1veis e imprescrit\u00edveis. Manter essa anistia \u00e9 uma coisa muito conservadora e bloqueia o trabalho simb\u00f3lico\u201d, disse Seligmann-Silva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201ctrabalho simb\u00f3lico\u201d, realizado pelos artistas que processam essa mem\u00f3ria em sua obra, tamb\u00e9m estaria conectado \u00e0 repara\u00e7\u00e3o jur\u00eddica que n\u00e3o houve.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o seria este o lugar da arte, que visaria n\u00e3o apenas a resgatar uma mem\u00f3ria, mas sobretudo atualiz\u00e1-la em um ato est\u00e9tica e politicamente presente, recolocando-a, por assim dizer, em movimento? As manifesta\u00e7\u00f5es de arte da mem\u00f3ria no mundo v\u00eam atualizando os fatos dolorosos que marcaram o s\u00e9culo 20 e ainda marcam o nosso s\u00e9culo 21\u201d Fulvia Molina No artigo \u201cArte, mem\u00f3ria e direitos humanos\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAs pessoas despertaram para a import\u00e2ncia desse passado, de como a aus\u00eancia dessa inscri\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem consequ\u00eancias graves. No \u00faltimo ano isso ficou ainda mais evidente, com essa onda de grupos que v\u00e3o \u00e0s ruas pedindo ditadura, interven\u00e7\u00e3o militar. H\u00e1 um enorme desconhecimento que permite a manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d, disse o professor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse \u201cdespertar\u201d, para Jaime Lauriano, n\u00e3o tem a ver somente com a realiza\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. Para ele em particular, o impacto da comiss\u00e3o se deu \u201cmais pelo que ela n\u00e3o mostrou do que pelo que mostrou\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o que n\u00e3o tenha servido para nada, mas, como a comiss\u00e3o n\u00e3o foi deliberativa, foi consultiva, n\u00e3o conseguiu levar a cabo as pot\u00eancias que ela tinha &#8211; de condena\u00e7\u00e3o, de repara\u00e7\u00e3o a partir de indeniza\u00e7\u00f5es\u201d, disse. \u201cEla me motivou a trabalhar para mostrar como at\u00e9 a implementa\u00e7\u00e3o de uma comiss\u00e3o vem para dar cabo a um apagamento. Assim como a Lei da Anistia, como a Lei \u00c1urea, vem como uma benesse do Estado, mais para poder mant\u00ea-lo como aparato violento e repressor do que para reparar essas viol\u00eancias\u201d.<\/p>\n<p><strong>Fonte &#8211; \u00a0NEXO JORNAL<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resgate da mem\u00f3ria do per\u00edodo ditatorial no Brasil tem aparecido na produ\u00e7\u00e3o de artistas de diferentes gera\u00e7\u00f5es Em 2011, o governo da ex-presidente Dilma Rousseff criou a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. 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