{"id":12097,"date":"2017-11-21T20:01:42","date_gmt":"2017-11-21T20:01:42","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=12097"},"modified":"2017-11-21T20:01:42","modified_gmt":"2017-11-21T20:01:42","slug":"conheca-a-historia-do-arvore-das-palavras-um-jornal-negro-contra-a-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2017\/11\/21\/conheca-a-historia-do-arvore-das-palavras-um-jornal-negro-contra-a-ditadura\/","title":{"rendered":"Conhe\u00e7a a hist\u00f3ria do \u2018\u00c1rvore das Palavras\u2019: um jornal negro contra a ditadura"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_12098\" style=\"width: 763px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-7.jpg\" rel=\"attachment wp-att-12098\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-12098\" class=\"wp-image-12098 size-full\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-7.jpg\" alt=\"000000\" width=\"753\" height=\"568\" srcset=\"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-7.jpg 753w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/000000-7-300x226.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 753px) 100vw, 753px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12098\" class=\"wp-caption-text\">O projeto foi idealizado pelo jornalista e escritor Jamu Minka, que queria criar um canal que ultrapassasse os muros da universidade | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/OperaMundi<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O site\u00a0<strong>Opera Mundi<\/strong>\u00a0inaugura neste domingo (19\/11) uma s\u00e9rie de reportagens, com v\u00eddeos, sobre a imprensa alternativa no Brasil durante a ditadura militar. A mat\u00e9ria sobre o jornal \u201c\u00c1rvore das Palavras\u201d, ligado ao movimento negro e republicada abaixo, abre a s\u00e9rie.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Paulo, meados da d\u00e9cada de 70. As universidades brasileiras borbulhavam com jornais \u201cnanicos\u201d assinados por estudantes que faziam resist\u00eancia \u00e0 ditadura civil-militar. Nelas, o movimento negro tentava ganhar for\u00e7a em um ambiente que tinha portas fechadas aos que n\u00e3o pertencessem \u00e0s elites do pa\u00eds. A cria\u00e7\u00e3o de jornais independentes foi um dos sinais dessa luta \u2013 e, neste contexto, surgiu o \u201c\u00c1rvore das Palavras\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201c\u00c1rvore\u201d foi idealizado pelo jornalista e escritor Jamu Minka, que queria criar um canal que ultrapassasse os muros da universidade, atingindo diretamente o povo negro, em uma proposta unificadora. A ideia era inspirada em experi\u00eancias ocorridas em Angola e Mo\u00e7ambique, onde havia a proposta de uma discuss\u00e3o pol\u00edtica levada a cabo em uma linguagem mais simples. O nome alude \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o africana de se reunir sob as \u00e1rvores de baob\u00e1 para ouvir a palavra dos mais velhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imprensa ligada ao movimento negro, de luta por direitos e de combate ao racismo, tem longa tradi\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria brasileira. Entre os t\u00edtulos, destacaram-se na primeira metade do s\u00e9culo XX \u201cO Clarim d\u2019 Alvorada\u201d, que circulou de 1924 a 1932, e \u201cQuilombo\u201d, fundado em 1948 for Abdias do Nascimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUma das coisas que sempre ficou como disposi\u00e7\u00e3o nossa foi de retomar a imprensa negra. Ent\u00e3o o Jamu veio com essa proposta. N\u00f3s come\u00e7amos a fazer esse jornal, como era pr\u00e1tica do movimento estudantil na \u00e9poca. Num primeiro momento, em um mime\u00f3grafo; depois, com aquelas impressoras que permitiam fazer textos em A4\u201d, afirma Rafael Pinto, entao estudante de ci\u00eancias sociais na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e membro da N\u00facleo Negro Socialista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele conta que, antes de o \u201c\u00c1rvore\u201d surgir, a milit\u00e2ncia j\u00e1 havia come\u00e7ado a distribuir materiais. \u201cInicialmente, n\u00f3s fizemos textos de negro para negro e n\u00f3s peg\u00e1vamos temas que ach\u00e1vamos relevantes, rod\u00e1vamos e distribu\u00edamos onde n\u00f3s encontr\u00e1vamos o povo negro\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro membro que estava presente na cria\u00e7\u00e3o do jornal e que permaneceu at\u00e9 o fim de sua circula\u00e7\u00e3o foi o ent\u00e3o estudante de economia Milton Barbosa. Para ele, a elabora\u00e7\u00e3o do jornal se deu por conta da \u201cnecessidade de ter um meio de comunica\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cN\u00f3s discut\u00edamos a necessidade de criar alguma coisa que levasse nossa mensagem\u201d, diz. O objetivo era o de fazer \u201cdiscuss\u00f5es com os setores de esquerda no Brasil, fal\u00e1vamos com eles da necessidade de falar [dessas] pautas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2018Clandestino da d\u00e9cada de 70\u2019<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201cclandestino da d\u00e9cada de 1970\u201d, como tamb\u00e9m ficou conhecido o jornal, era impresso sob segredo no Centro Acad\u00eamico de Economia da USP, em um per\u00edodo no qual a quest\u00e3o racial era uma pauta censurada pela ditadura. Os fundos para a impress\u00e3o do peri\u00f3dico eram angariados coletivamente entre os membros, que participavam de todo o processo de cria\u00e7\u00e3o do peri\u00f3dico, da diagrama\u00e7\u00e3o \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os autores do jornal n\u00e3o recordam exatamente o ano de lan\u00e7amento do primeiro n\u00famero, mas h\u00e1 registros de edi\u00e7\u00f5es a partir de 1974. Tamb\u00e9m n\u00e3o se sabe quantas foram lan\u00e7adas. O jornal n\u00e3o tinha uma periodicidade definida, j\u00e1 que, segundo Pinto, os exemplares iam \u00e0s ruas quando os membros sentiam necessidade para tal. O \u201c\u00c1rvore das Palavras\u201d circulava no viaduto do Ch\u00e1, na pra\u00e7a da Liberdade (ambos na regi\u00e3o central da capital paulista) e nos bailes negros que tamb\u00e9m come\u00e7avam a ser organizados em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suas pautas trataram de temas relacionados ao encarceramento, trabalho dom\u00e9stico, quest\u00f5es femininas, cotas e outras. As discuss\u00f5es trazidas pelo \u201c\u00c1rvore\u201d ajudaram a marcar o 20 de novembro \u2013 data da morte de Zumbi dos Palmares \u2013 como Dia da Consci\u00eancia Negra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, \u00e9 claro, a censura ficava de olho. Segundo o livro Hist\u00f3rias do movimento negro no Brasil: Depoimentos ao CPDOC, organizado por Verena Alberti e Almicar Araujo Pereira, toda a imprensa negra estava sendo observada pelas institui\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o da ditadura. Al\u00e9m do \u201c\u00c1rvore\u201d, outras iniciativas semelhantes tamb\u00e9m eram acompanhadas de perto pelo Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI), \u00f3rg\u00e3o repressivo do governo militar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"720\" height=\"405\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/nWqP0o2HnnQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cultura independente<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Barbosa relata que o jornal come\u00e7ou um trabalho \u201cpara discutir essa quest\u00e3o do racismo, da viol\u00eancia policial, a necessidade de ter uma cultura independente, que evitasse comercializa\u00e7\u00e3o, porque j\u00e1 tinha gente querendo ganhar dinheiro com aquela cultura, aquele samba, a dan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo ele, o \u201c\u00c1rvore das Palavras\u201d tamb\u00e9m trabalhava \u201carrebanhando pessoas pro processo de luta e de enfrentamento \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cEnt\u00e3o, \u00e0s vezes, cham\u00e1vamos pra lugares que estavam tendo atividades, reuni\u00f5es\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Barbosa, os anos de exist\u00eancia do jornal marcam o in\u00edcio de uma luta que j\u00e1 dura mais de 40 anos, muito por conta do di\u00e1logo que o \u201c\u00c1rvore\u201d desenvolveu com outros peri\u00f3dicos e entidades de forte concentra\u00e7\u00e3o negra. \u201cN\u00f3s desenvolvemos isso em escolas de samba, nos terreiros de candombl\u00e9 e umbanda, nos grupos culturais da periferia, grupos de capoeira\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Junto com per\u00edodicos de mesma tem\u00e1tica, como o \u201cJornegro\u201d e \u201cTi\u00e7\u00e3o\u201d, o \u201c\u00c1rvore das Palavras\u201d foi respons\u00e1vel pela inaugura\u00e7\u00e3o de debates que geraram unidade ao movimento negro no Brasil e que culminaram na cria\u00e7\u00e3o do Movimento Negro Unificado, em 1978, onde Pinto e Barbosa tiveram tamb\u00e9m um papel de destaque. A cria\u00e7\u00e3o do MNU consolidou de vez a for\u00e7a da milit\u00e2ncia negra no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O momento que o jornal parou de circular n\u00e3o \u00e9 preciso. Ocorreu entre o final de 1978 e o come\u00e7o de 1979, quando o movimento negro passou se organizar dentro de grupos mais fortes e com mais autonomia. \u201cComo o \u2018\u00c1rvore\u2019 foi uma ferramente coletiva, n\u00e3o teve um \u2018porque ele acabou\u2019. Surgiram outros instrumentos, outras ferramentas, e ele foi deixado de lado. Aquela forma de fazer j\u00e1 n\u00e3o cabia mais, principalmente com o surgimento do MNU, que quer\u00edamos que fosse uma organiza\u00e7\u00e3o que unificasse todos os movimentos negros\u201d, diz Rafael Pinto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte &#8211; Opera Mundi<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O site\u00a0Opera Mundi\u00a0inaugura neste domingo (19\/11) uma s\u00e9rie de reportagens, com v\u00eddeos, sobre a imprensa alternativa no Brasil durante a ditadura militar. A mat\u00e9ria sobre o jornal \u201c\u00c1rvore das Palavras\u201d, ligado ao movimento negro e republicada abaixo, abre a s\u00e9rie.\u00a0 S\u00e3o Paulo, meados da d\u00e9cada de 70. 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