{"id":12259,"date":"2018-04-13T11:40:23","date_gmt":"2018-04-13T11:40:23","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=12259"},"modified":"2018-04-13T11:43:38","modified_gmt":"2018-04-13T11:43:38","slug":"depoimentos-de-mulheres-torturadas-no-doi-codi-sao-tema-de-peca-na-tijuca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2018\/04\/13\/depoimentos-de-mulheres-torturadas-no-doi-codi-sao-tema-de-peca-na-tijuca\/","title":{"rendered":"Depoimentos de mulheres torturadas no DOI-Codi s\u00e3o tema de pe\u00e7a na Tijuca"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Es\u00e9t\u00e1culo fica em cartza no Teatro II do Sesc-Tijuca<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Seguindo aqui pela Rua Bar\u00e3o de Mesquita, ando cinco minutos e paro em frente ao n\u00famero 425. \u00c9 um pr\u00e9dio grande, extenso, branco, de dois andares, bonito, bem cuidado. H\u00e1 uma placa que identifica a sua fun\u00e7\u00e3o: 1\u00ba Batalh\u00e3o de Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito. Ali, foi sede do DOI-Codi, \u00f3rg\u00e3o criado para combater os inimigos internos que amea\u00e7avam a seguran\u00e7a nacional. Quarenta e tr\u00eas anos se passaram e restaram pequenas cicatrizes no meu corpo. \u00c9 essa hist\u00f3ria que compartilho com voc\u00eas\u201d. A introdu\u00e7\u00e3o do texto do espet\u00e1culo \u201cSolit\u00e1rias\u201d, em cartaz\u00a0 no Teatro II do Sesc-Tijuca, ajuda a compreender a trama da pe\u00e7a. Com dura\u00e7\u00e3o de cerca de 50 minutos, o mon\u00f3logo interpretado pela atriz Carolina Caju foi criado a partir de relatos, colhidos pela Comiss\u00e3o da Verdade do Rio, de mulheres que foram presas e torturadas no estado durante o per\u00edodo da ditadura militar (1964-1985).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O 1\u00ba Batalh\u00e3o de Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito Marechal Zen\u00f3bio da Costa, onde funcionava o DOI-Codi, era uma uma esp\u00e9cie de quartel-general de boa parte dessas atrocidades. Nada mais simb\u00f3lico do que a escolha do Sesc, a poucos metros do batalh\u00e3o, como palco para a montagem da trama in\u00e9dita, que tem uma encena\u00e7\u00e3o ainda mais emblem\u00e1tica no ano em que o Ato Institucional N\u00famero 5 (AI-5), que tornou a censura e a persegui\u00e7\u00e3o aos opositores do regime ainda mais duras, completa cinco d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de criar a montagem, no entanto, surgiu ainda em 2015, quando a atriz Carolina Caju participou de um evento do meti\u00ea teatral em Campinas, interior de S\u00e3o Paulo, onde encontrou artistas de pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina que j\u00e1 tinham participado de produ\u00e7\u00f5es e debates sobre assuntos relacionados a ditaduras militares e a viol\u00eancia contra a mulher nos anos 1960\/1970, como Chile e Argentina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voltei para o Rio com aquilo em mente. Pensando sobre como tamb\u00e9m se encaixava perfeitamente no caso do Brasil. No come\u00e7o de 2016, encontramos o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o da Verdade do Rio, que tinha sido rec\u00e9m-publicado em dezembro de 2015, e ent\u00e3o come\u00e7amos a pensar de fato em produzir o espet\u00e1culo. E isso casou perfeitamente com a quest\u00e3o da luta feminina na pol\u00edtica e com a forma com que a Hist\u00f3ria apaga as vozes, principalmente das mulheres. N\u00e3o somos uma companhia teatral formada, mas j\u00e1 conhe\u00e7o o diretor e a autora h\u00e1 um tempo e trabalhamos juntos algumas vezes \u2014 afirma Carol.<\/p>\n<div class=\"foto\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/22581666-529-5dc\/FT1086A\/420\/xINFOCHPDPICT000076088620.jpg.pagespeed.ic.ri-G-0ncOU.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"420\" \/><figcaption>Antigo DOI-Codi. A atriz faz performance em frente ao port\u00e3o do 1\u00ba BPE, na Rua Bar\u00e3o de Mesquita<b>\u00a0&#8211; Rodrigo Menezes \/ rodrigo menezes<\/b><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre 2013 e 2015, a Comiss\u00e3o da Verdade do Rio dedicou-se ao esclarecimento de casos de pris\u00f5es ilegais, torturas e mortes ocorridas no Rio a partir do golpe de 1964. Parte desse relat\u00f3rio, com cerca de 400 p\u00e1ginas, \u00e9 reservada especialmente aos depoimentos de mulheres presas e torturadas que revelaram as atrocidades sofridas ap\u00f3s d\u00e9cadas de sil\u00eancio. Esse \u00e9 exatamente o ponto sobre o qual a pe\u00e7a se debru\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Nunca foi nosso objetivo adaptar todo o relat\u00f3rio. S\u00e3o muitos recortes, assuntos e direcionamentos. Buscamos, ali\u00e1s, refer\u00eancias em filmes, document\u00e1rios e em textos de mulheres artistas da \u00e9poca. A Carol tamb\u00e9m me dava dicas sobre assuntos do relat\u00f3rio que mexiam mais com ela e eu fazia propostas \u2014 diz a autora da pe\u00e7a, Clarisse Zarvos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O regime militar no Brasil foi um per\u00edodo que teve como marca, al\u00e9m da viola\u00e7\u00e3o extrema dos direitos humanos, o ocultamento de muitos dos seus crimes. O relat\u00f3rio da comiss\u00e3o teve pouca visibilidade, apesar de constituir-se um material fundamental para a an\u00e1lise daquele per\u00edodo da Hist\u00f3ria brasileira e de suas reverbera\u00e7\u00f5es na atualidade. A pe\u00e7a revisita depoimentos in\u00e9ditos, atrav\u00e9s de uma perspectiva art\u00edstica contempor\u00e2nea, promovendo um di\u00e1logo entre ontem e hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Queremos apresentar poeticamente todo esse cen\u00e1rio e fazer conex\u00f5es com fatos do cotidiano. Tal como a viol\u00eancia contra a mulher. Trazemos, por exemplo, uma fala do Darcy Ribeiro que \u00e9 muito semelhante ao que est\u00e1 acontecendo atualmente no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro, na qual ele diz: \u201cUm regime militar que entra no governo com o discurso de acabar com a corrup\u00e7\u00e3o e salvar a popula\u00e7\u00e3o e fica no poder durante 21 anos est\u00e1, na verdade, governando em nome dos militares e propondo uma agenda de diminui\u00e7\u00e3o de direitos, que s\u00f3 seria poss\u00edvel com um estado totalit\u00e1rio e abusivo\u201d. Estamos vivendo atualmente algo perigosamente parecido \u2014 afirma Douglas Resende, que assina a dire\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resende acrescenta que a pe\u00e7a ajuda a desmistificar dados como a atua\u00e7\u00e3o exclusiva de militares nos processos de tortura, e que as sess\u00f5es n\u00e3o eram realizadas somente \u00e0s escondidas, em \u201cpor\u00f5es\u201d.<\/p>\n<div class=\"foto\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/22581667-0be-4d9\/FT1086A\/420\/xINFOCHPDPICT000076011058.jpg.pagespeed.ic.zYHumyBXMM.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"420\" \/><figcaption>Making of. Carol com o pessoal da produ\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo<b>\u00a0&#8211; Pedro_Teixeira \/ Pedro Teixeira<\/b><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9 dito pelas torturadas que muitos civis, apoiadores dos militares, participavam dos processos. E que nunca existiu um \u201cpor\u00e3o da ditadura\u201d. As pessoas eram presas e torturadas \u00e0 luz do dia nos quart\u00e9is. Era sabido por muitos e uma pr\u00e1tica de Estado. Um depoimento da historiadora Dulce Pandolfi diz isso: ela foi presa no DOI-Codi e a sala de tortura ficava no primeiro andar, na frente do p\u00e1tio, mesmo p\u00e1tio onde os soldados juravam a bandeira todos os dias. E elas eram obrigadas a varrer o ch\u00e3o nuas enquanto homens ficavam ao lado, zombando, entre outros abusos e atrocidades \u2014 conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A montagem tamb\u00e9m procura desfazer ideias propagadas na ocasi\u00e3o que perduram at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9 aquela velha hist\u00f3ria de um comunismo bicho-pap\u00e3o que quer tomar conta do pa\u00eds e instaurar uma ditadura do proletariado. Qualquer discurso que se assemelhe ou alie \u00e0 igualdade de direitos ou distribui\u00e7\u00e3o de renda nos dias atuais, as pessoas j\u00e1 associam a essa hist\u00f3ria e mandam voc\u00ea \u201cir para Cuba\u201d. Sem d\u00favida, esse foi um dos principais argumentos para a instaura\u00e7\u00e3o do regime militar na \u00e9poca \u2014 explica Resende. \u2014 As mulheres que tinham esse discurso eram, sim, de partidos com vi\u00e9s esquerdista, mas estavam lutando por reformas e maior participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es pol\u00edticas. Ent\u00e3o, decidimos falar, com humor ir\u00f4nico e sarcasmo, sobre essa lenda do \u201ccomunista bicho-pap\u00e3o\u201d. Nosso objetivo \u00e9 debater e tentar ajudar a formar um pa\u00eds melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte &#8211; O Globo<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Es\u00e9t\u00e1culo fica em cartza no Teatro II do Sesc-Tijuca \u2018Seguindo aqui pela Rua Bar\u00e3o de Mesquita, ando cinco minutos e paro em frente ao n\u00famero 425. \u00c9 um pr\u00e9dio grande, extenso, branco, de dois andares, bonito, bem cuidado. 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