{"id":12363,"date":"2018-06-30T00:46:24","date_gmt":"2018-06-30T00:46:24","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=12363"},"modified":"2021-06-11T20:22:07","modified_gmt":"2021-06-11T20:22:07","slug":"chile-comeca-a-investigar-milhares-de-adocoes-irregulares-na-ditadura-de-pinochet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2018\/06\/30\/chile-comeca-a-investigar-milhares-de-adocoes-irregulares-na-ditadura-de-pinochet\/","title":{"rendered":"Chile come\u00e7a a investigar milhares de ado\u00e7\u00f5es irregulares na ditadura de Pinochet"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: justify;\">Atrav\u00e9s de teste de DNA, grupos independentes j\u00e1 conseguiram quase 90 reencontros de fam\u00edlias separadas<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Justi\u00e7a chilena come\u00e7ou a abrir um dos cap\u00edtulos mais obscuros da ditadura de Augusto Pinochet: a ado\u00e7\u00e3o irregular de milhares de crian\u00e7as enviadas para o exterior. Hoje, essas m\u00e3es procuram por seus filhos com a ajuda das redes sociais. O juiz especial de causas de direitos humanos Mario Carroza faz, desde janeiro, uma extensa investiga\u00e7\u00e3o sobre o roubo de menores concentrado nos anos da ditadura, embora, diante das novas den\u00fancias, a pr\u00e1tica tenha sido estendida at\u00e9 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora se tenha descartado o sequestro de crian\u00e7as como m\u00e9todo repressivo, como aconteceu na Argentina, acredita-se que as condi\u00e7\u00f5es dessa \u00e9poca facilitaram a atua\u00e7\u00e3o de grupos dedicados a &#8220;captar&#8221; menores para envi\u00e1-los para o exterior com fins econ\u00f4micos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A modalidade se assemelha\u00a0\u00e0 registrada na Espanha, onde acaba de ser aberto o primeiro julgamento por um caso de beb\u00eas roubados de suas m\u00e3es para serem entregues a fam\u00edlias adotivas, uma pr\u00e1tica que come\u00e7ou sob a ditadura de Francisco Franco (1939-1975).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o estabelecemos um padr\u00e3o que diga (que h\u00e1) rela\u00e7\u00e3o com alguma pol\u00edtica estatal de repress\u00e3o. Parece mais uma esp\u00e9cie de associa\u00e7\u00e3o il\u00edcita, uma organiza\u00e7\u00e3o com fins lucrativos a respeito da ado\u00e7\u00e3o de pessoas, de maneira irregular \u2014 explica o advogado do Instituto Nacional de Direitos Humanos Pablo Rivera, que apresentou den\u00fancias em nome das m\u00e3es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considera-se que um papel fundamental tenha sido de assistentes sociais, religiosos, m\u00e9dicos, ou funcion\u00e1rios municipais, ou de hospitais, que detectavam m\u00e3es vulner\u00e1veis e depois levavam seus filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Em geral, os casos t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com m\u00e3es de escassos recursos que deram \u00e0 luz seus filhos, ou filhas, e depois foram enganadas por funcion\u00e1rios dos hospitais, dizendo-lhes que estavam mortos, ou doentes, ou que morreram depois, e nunca mais souberam de seus filhos \u2014 acrescenta Rivera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>INTERNA\u00c7\u00d5ES SEM REGISTROS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 9 de julho de 1977, durante os anos mais duros da ditadura (1973-1990), Margarita Escobar teve sua filha roubada no hospital Paula Jaraquemada, de Santiago. Chegou a ver a beb\u00ea por alguns instantes, at\u00e9 que a levaram. Quatro d\u00e9cadas depois, ela contou que durante horas ningu\u00e9m lhe deu qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre sua filha e, de tempos em tempos, injetavam nela alguma medica\u00e7\u00e3o para mant\u00ea-la adormecida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sempre que eu acordava, voltava a perguntar por ela, at\u00e9 que uma enfermeira me disse: sua filha nasceu morta \u2014 relembra, acrescentando que negaram seu pedido para v\u00ea-la e beij\u00e1-la mesmo assim. \u2014 Ningu\u00e9m me deu um \u00fanico documento, me mandaram para casa. N\u00e3o sei como cheguei. Estava totalmente dopada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mesmo hospital, em fevereiro de 1985, Mar\u00eda Orellana deu \u00e0 luz um menino, que chamou de Cristi\u00e1n. Durante dias, ela pediu para ver seu filho, mas ningu\u00e9m a respondia, at\u00e9 que, enfim, disseram-lhe que ele havia morrido. Tamb\u00e9m n\u00e3o a deixaram ver o beb\u00ea:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Consegui ouvir que era um menino. Depois, me aplicaram uma inje\u00e7\u00e3o e n\u00e3o soube de mais nada \u2014 conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela recorda de ter ouvido algu\u00e9m falando para ela no hospital &#8220;Voc\u00ea vai ficar com a lembran\u00e7a do bebezinho. Vai ser muito cruel v\u00ea-lo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como aconteceu com Margarita, Mar\u00eda tamb\u00e9m n\u00e3o recebeu qualquer documento, nem lhe entregaram o corpo do filho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o tem nada. \u00c9 como se eu n\u00e3o tivesse passado por esse hospital \u2014 desabafa ela, tamb\u00e9m empenhada em encontrar seu filho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O CAMINHO DA JUSTI\u00c7A<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vig\u00eancia, at\u00e9 1988, de uma lei que permitia apagar as origens das fam\u00edlias biol\u00f3gicas contribuiu para fomentar a pr\u00e1tica, em um pa\u00eds mergulhado h\u00e1 anos no sil\u00eancio e no temor, explica a historiadora Karen Alfaro, da Universidade Austral. Para Alfaro, a pr\u00e1tica se &#8220;inscreve tamb\u00e9m dentro de uma luta ideol\u00f3gica da ditadura de Pinochet, um tipo de viol\u00eancia social sobre os setores mais pobres&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 registros da quantidade de crian\u00e7as enviadas para o exterior. Segundo dados oficiais, entre 1973 e 1987, foram registradas 26.611 ado\u00e7\u00f5es no Chile, mas n\u00e3o se sabe quantas crian\u00e7as foram levadas para o exterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O juiz Carroza conseguiu determinar que pelo menos 2.021 crian\u00e7as foram adotadas na Su\u00e9cia entre 1971 e 1992. Outras milhares chegaram \u00e0 Alemanha, Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Espanha, Holanda, Su\u00ed\u00e7a, Estados Unidos, Uruguai e Peru. O valor pago por cada uma equivaleria, em valores atuais, a algo entre 3.000 e 5.000 d\u00f3lares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A BUSCA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem pap\u00e9is que apoiem sua hist\u00f3ria, muitas m\u00e3es guardaram sua dor por anos. \u00c0 medida que os primeiros casos foram se tornando p\u00fablicos e formaram-se grupos de busca em redes sociais, muitas se deram conta de que milhares compartilhavam sua experi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um desses grupos \u00e9 o &#8220;Hijos y madres del silencio&#8221;, que re\u00fane cerca de 3 mil pessoas no Facebook: filhos que buscam sua origem biol\u00f3gica e m\u00e3es que querem se reencontrar com os filhos que lhe foram tomados.<\/p>\n<div id=\"pub-retangulo-3\" class=\"arroba publicidade clearfix\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CI3JmveS-tsCFcSQhwodlJMIpQ\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O que n\u00f3s precisamos \u00e9 que se abram os arquivos, as fichas dos hospitais, que se torne isso p\u00fablico para que as pessoas que est\u00e3o fora do Chile se deem conta de que pode ser uma ado\u00e7\u00e3o ilegal \u2014 defende a respons\u00e1vel pelo grupo, Marisol Rodr\u00edguez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tr\u00eas anos, o grupo conseguiu quase 90 reencontros. Os testes de DNA s\u00e3o hoje sua maior ajuda. Com dificuldade, devido aos custos, muitas m\u00e3es est\u00e3o realizando os testes r\u00e1pidos para poder ingressar em bancos gen\u00e9ticos internacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O que eu quero \u00e9 saber o que aconteceu com minha filha, e se minha filha anda me procurando \u2014 disse Josefina Sandoval, ap\u00f3s se submeter a uma teste. \u2014 Estamos procurando por ela e, com isso, vamos encontr\u00e1-la \u2014 acrescenta, ao falar da filha que ela deu \u00e0 luz e que foi dada como morta em 24 de junho de 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte &#8211; O Globo<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atrav\u00e9s de teste de DNA, grupos independentes j\u00e1 conseguiram quase 90 reencontros de fam\u00edlias separadas A Justi\u00e7a chilena come\u00e7ou a abrir um dos cap\u00edtulos mais obscuros da ditadura de Augusto Pinochet: a ado\u00e7\u00e3o irregular de milhares de crian\u00e7as enviadas para o exterior. Hoje, essas m\u00e3es procuram por seus filhos com a ajuda das redes sociais. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12363"}],"collection":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12363"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12363\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13684,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12363\/revisions\/13684"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12363"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12363"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12363"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}