{"id":12393,"date":"2018-07-26T13:56:38","date_gmt":"2018-07-26T13:56:38","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=12393"},"modified":"2018-07-26T13:56:38","modified_gmt":"2018-07-26T13:56:38","slug":"eua-seguiam-jango-no-uruguai-repressao-preocupava-embaixador-americano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2018\/07\/26\/eua-seguiam-jango-no-uruguai-repressao-preocupava-embaixador-americano\/","title":{"rendered":"EUA seguiam Jango no Uruguai: repress\u00e3o preocupava embaixador americano"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nos idos de 1975 n\u00e3o era mais segredo para o mundo as inger\u00eancias americanas nos regimes de for\u00e7a implantados abaixo da linha do Equador. O americano m\u00e9dio j\u00e1 n\u00e3o estava interessado num discurso anticomunista. Antes, preocupava-se com suas garantias individuais. Talvez, percebendo que a realpolitik do secret\u00e1rio de estado Henry Kissinger estivesse mudando, o embaixador americano no Brasil, John Hugh Crimmins, tratava de alinhar-se aos princ\u00edpios ventilados na campanha de Jimmy Carter \u00e0 presid\u00eancia dos Estados Unidos, ao longo de 1976.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 19 de julho daquele ano, Crimmins encaminhou \u00e0 Secretaria de Estado de seu pa\u00eds o telegrama n\u00famero 526, questionando abusos no Cone Sul. A correspond\u00eancia seguiu com c\u00f3pia para os embaixadores de Lisboa, Oslo, Paris, Roma, Estocolmo e para o setor de Informa\u00e7\u00f5es. Nela, Crimmins comentava a fragilidade da seguran\u00e7a dos exilados na Argentina, principalmente, e nos pa\u00edses vizinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo no in\u00edcio do texto, o embaixador avisava: \u201cAtaques recentes \u00e0 esquerda s\u00e3o contra exilados na Argentina. Levantar quest\u00f5es sobre as pr\u00e1ticas de seguran\u00e7a dos movimentos do cone Sul: Argentina, Bol\u00edvia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai.\u201d Em seguida, questionava: \u201ca) Que grau de coopera\u00e7\u00e3o existe entre as for\u00e7as de seguran\u00e7a do Cone Sul? b) Essas for\u00e7as participam ou possivelmente consentem em um programa para executar exilados pol\u00edticos que se op\u00f5em a qualquer um dos governos. S\u00e3o todos regimes militares conservadores, nenhum dos quais t\u00eam atua\u00e7\u00e3o exemplar.\u201d<\/p>\n<h5 class=\"inline foto horizontal float-none\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" title=\"Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/www.jb.com.br\/media\/fotos\/2018\/07\/24\/627w\/em-telegrama-a-secretaria-de-estado-dos-eua-john-crimmins-fala-da-fragil.jpg\" alt=\"\" \/>Em telegrama \u00e0 Secretaria de Estado dos EUA, John Crimmins fala da fragilidade da seguran\u00e7a dos exilados, especialmente na Argentina<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">No item 12 do telegrama, Crimmins aponta: \u201cAs evid\u00eancias n\u00e3o determinam a exist\u00eancia de coordena\u00e7\u00e3o formal e de alto n\u00edvel entre as for\u00e7as de seguran\u00e7a do Cone Sul para o prop\u00f3sito expresso de expulsar os exilados. \u00c9 forte, no entanto, que a coopera\u00e7\u00e3o ocorre, pelo menos, em uma base localizada e oportunista, especialmente em \u00e1reas fronteiri\u00e7as, em inst\u00e2ncias que envolvem a captura de l\u00edderes terroristas.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O embaixador levanta quest\u00f5es verificadas posteriormente no acordo conhecido como \u201cOpera\u00e7\u00e3o Condor\u201d, que permitia a troca de informa\u00e7\u00f5es entre os governos dos pa\u00edses sob ditaduras, sobre militantes esquerdistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Tempos dif\u00edceis no Uruguai\u00a0\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntada se falaria sobre o telegrama que relatou a inten\u00e7\u00e3o de seu marido, o ex-presidente Jo\u00e3o Goulart, de voltar ao Brasil, Maria Thereza declinou. Alegou que n\u00e3o mais se pronunciar\u00e1 sobre o passado \u201cde muito sofrimento\u201d. A considerar pelo relato contido no livro de\u00a0autoria de Jorge Ferreira, \u00e9 mesmo dif\u00edcil para a ex-primeira-dama repassar momentos como aquele vivido sob a ditadura uruguaia, que teve in\u00edcio com o golpe de 1973.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma crise econ\u00f4mica corro\u00eda o Uruguai, afetando o campo pol\u00edtico no pa\u00eds desde 1955. O pr\u00f3ximo passo foi um processo de decl\u00ednio social, ao longo da d\u00e9cada de 1960. Houve um not\u00e1vel aumento dos conflitos, que incluiu a luta armada atrav\u00e9s da \u201cguerra de guerrilhas\u201d, protagonizada por grupos extremistas, entre os quais se destacou o \u201cMovimento de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional -Tupamaros\u201d e a dissemina\u00e7\u00e3o de ideias por outras organiza\u00e7\u00f5es, como a \u201cConven\u00e7\u00e3o Nacional de Trabalhadores\u201d.<b><\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m grupos de extrema-direita, a exemplo do \u201cEsquadr\u00e3o da Morte\u201d e a \u201cJuventud Uruguaya de Pie\u201d, contribu\u00edram para embaralhar a cena pol\u00edtica no pa\u00eds. Aos poucos, as For\u00e7as Armadas foram assumindo influ\u00eancia, at\u00e9 que finalmente, com o apoio do ent\u00e3o presidente uruguaio, Juan Mar\u00eda Bordaberry, deram um golpe de Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando os militares uruguaios deram o golpe e implantaram a ditadura, as coisas ficaram muito dif\u00edceis para n\u00f3s. A melhor fase do ex\u00edlio encerrou-se. A ditadura uruguaia era barra-pesada. Nas ruas, n\u00e3o se podia rir. Se algum policial visse uma pessoa rindo perguntava logo se estava rindo dele. Antes mesmo de responder a pessoa j\u00e1 recebia voz de pris\u00e3o. Era algo que amedrontava\u201d, contou Maria Thereza, ao autor da biografia de Jango.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Stroessner presenteou Jango com passaporte no Paraguai<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Paraguai, a ditadura de Alfredo Stroessner foi a primeira e a mais duradoura da Am\u00e9rica do Sul. A motiva\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi diferente das demais que nos anos subsequentes se instalaram nos pa\u00edses vizinhos. Atraso econ\u00f4mico, fome, mis\u00e9ria, instabilidade pol\u00edtica e a inger\u00eancia americana, que olhava c\u00e1 para baixo como se fosse o seu quintal.<b><\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Stroessner esteve no poder de 1954 a 1989. Foi por iniciativa dele, no entanto, que Jo\u00e3o Goulart viveu no ex\u00edlio uma de suas maiores alegrias. Era um grande desejo do ex-presidente ir \u00e0 \u00c1frica do Sul, se consultar com o cardiologista Christian Basnard, em voga por ter realizado o primeiro transplante de cora\u00e7\u00e3o (03\/12\/1967). O relato foi feito pelo jornalista, j\u00e1 falecido, Geneton Moraes Neto, e est\u00e1 reproduzido na biografia escrita pelo historiador Jorge Ferreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jango recebeu um convite do general Stroessner para visit\u00e1-lo. Sem entender o motivo, desembarcou com Maria Thereza em 16 de outubro no aeroporto de Assun\u00e7\u00e3o, tendo feito reserva no hotel Guarani, no centro da capital. Na chegada, o casal\u00a0foi recepcionado com flores e conduzido \u00e0 su\u00edte mais luxuosa do hotel, onde havia ficado ningu\u00e9m menos que De Gaulle. Em seguida, foram convocados \u00e0 resid\u00eancia oficial do presidente da Rep\u00fablica. L\u00e1, Jango recebeu o t\u00e3o sonhado passaporte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No aviso impresso do documento, o governo paraguaio pedia \u201ca todas as autoridades civis e militares dos Estados estrangeiros\u201d que deixassem Jo\u00e3o Goulart \u201cpassar livremente\u201d. A profiss\u00e3o: \u201cEx-presidente da Rep\u00fablica Federativa do Brasil\u201d. A data de nascimento estava em branco, bem como o endere\u00e7o \u2013 afinal, ele nunca morou no Paraguai. Profundamente emocionado, Jango n\u00e3o sabia como agradecer. Stroessner, enquanto abria uma garrafa de Champagne, respondeu que, se soubesse anteriormente do problema, j\u00e1 o teria resolvido. Para Maria Thereza, \u201cera um dos sonhos de Jango: ter um passaporte para poder viajar. Jango teve poucos momentos de felicidade no ex\u00edlio. Aquele foi um deles. Quando recebeu o passaporte, parecia uma crian\u00e7a ganhando um brinquedo\u201d. (FERREIRA Jorge. \u201cJo\u00e3o Goulart \u2013 Uma biografia\u201d. 5\u00aa ed. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte &#8211; Jornal do Brasil<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos idos de 1975 n\u00e3o era mais segredo para o mundo as inger\u00eancias americanas nos regimes de for\u00e7a implantados abaixo da linha do Equador. O americano m\u00e9dio j\u00e1 n\u00e3o estava interessado num discurso anticomunista. 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