{"id":13539,"date":"2020-11-04T12:48:05","date_gmt":"2020-11-04T12:48:05","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=13539"},"modified":"2020-11-04T12:48:05","modified_gmt":"2020-11-04T12:48:05","slug":"os-grandes-segredos-do-servico-secreto-do-dops","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2020\/11\/04\/os-grandes-segredos-do-servico-secreto-do-dops\/","title":{"rendered":"Os grandes segredos do servi\u00e7o secreto do DOPS"},"content":{"rendered":"<pre><strong>Publicado originalmente em <time datetime=\"2020-11-03T12:05:32-03:00\">03\/11\/2020 - 12h05 <\/time>ARQUIVO VIVO por <\/strong>Percival de Souza, da Record TV<\/pre>\n<p><i class=\"fa fa-clock-o\" aria-hidden=\"true\"><a href=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-04-a\u0300s-09.42.24.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-13541\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-04-a\u0300s-09.42.24.png\" alt=\"\" width=\"753\" height=\"123\" srcset=\"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-04-a\u0300s-09.42.24.png 753w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-04-a\u0300s-09.42.24-300x49.png 300w\" sizes=\"(max-width: 753px) 100vw, 753px\" \/><\/a><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Pol\u00edcia que controlava o pensamento \u2013 DOPS, Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social \u2013 tinha um comando, cabe\u00e7as pensantes, executores macabros e figuras fundamentais, por\u00e9m discret\u00edssimas, das quais pouco ou nunca se ouviu falar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma delas, a discri\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia, era Francisco Guimar\u00e3es do Nascimento, muito conhecido como \u201cCharutinho\u201d. O apelido vinha do fato de estar com um charuto permanentemente entre os dedos, ou dando baforadas, e seu papel no DOPS era de viga mestra: chefe do Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00f5es. O DOPS n\u00e3o assumia a palavra \u201csecreto\u201d. Ele tinha condi\u00e7\u00f5es intelectuais para ser analista de fatos e fazer proje\u00e7\u00e3o sequencial de dados descobertos, dando sentido pr\u00e1tico \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o de \u201cinformes\u201d, ou seja, meras conjecturas, em \u201cinforma\u00e7\u00f5es\u201d, isto \u00e9, os fatos depurados e comprovados. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o Dipol, Departamento de Intelig\u00eancia da Pol\u00edcia Civil de S\u00e3o Paulo, leva \u2013 in memoriam &#8211; o seu nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da sua vida foi singular: antes de policial, foi jornalista. Trabalhou no antigo \u201cCorreio Paulistano\u201d, onde exerceu a fun\u00e7\u00e3o de rep\u00f3rter e chegou a secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o. Na Pol\u00edcia, teve gest\u00f5es marcantes. Ao assumir a diretoria do Instituto de Identifica\u00e7\u00e3o, deu a ele o nome de Ricardo Gumbleton Daunt, o cientista das impress\u00f5es digitais indispens\u00e1veis para a Pol\u00edcia. L\u00edder de classe, presidiu a Associa\u00e7\u00e3o dos Delegados de Pol\u00edcia e nela criou a Academia de Letras da categoria, destacando colegas com talento liter\u00e1rio. Morreu em 2001, em circunst\u00e2ncia que jamais irei esquecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCharutinho\u201d era inteligente, perspicaz, corret\u00edssimo, e a parte suja dos por\u00f5es nada tinha a ver com ele. Lidar com informa\u00e7\u00f5es era a sua arte. Todos os dias, bem cedo, o secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica recebia em casa um resumo detalhado das an\u00e1lises do dia: as que haviam sido descobertas, aquelas em curso, as atitudes e comportamentos de pessoas envolvidas de alguma forma com pol\u00edtica. O secret\u00e1rio, assim, sabia com anteced\u00eancia quais s\u00e3o ou seriam seus interlocutores, e exatamente o que os motivava. Essa atividade, desenvolvida at\u00e9 hoje, \u00e9 encoberta pelo eufemismo \u201cseguran\u00e7a institucional\u201d e pejorativamente de \u201carapongagem\u201d, a bisbilhotagem celebrizada por uma antiga novela de televis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D\u00ea-se o nome que quiser, os devaneios ut\u00f3picos que se pretender, a caracteriza\u00e7\u00e3o de uma milit\u00e2ncia conforme se desejar. Teorias abstratas, realidades humanas, o mundo gira com governantes e governados. Tudo isso passava, com outros nomes, pelas m\u00e3os anal\u00edticas de \u201cCharutinho\u201d, quer no meio estudantil, como no sindical, e tudo o que se possa imaginar em termos de atividades clandestinas ou mascaradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando tudo isso adquiria forma, o DOPS entrava em a\u00e7\u00e3o. A princ\u00edpio, era um \u00f3rg\u00e3o que acompanhava sonhos ideol\u00f3gicos para mat\u00e1-los. Depois, pela circunst\u00e2ncia de atos violentos, como sequestros, atentados, explos\u00f5es de bombas e roubos a bancos, reestruturou-se, incorporando em seus quadros gente da Pol\u00edcia que apenas lidava com criminosos comuns. Seus m\u00e9todos, nada ortodoxos, foram incorporados \u00e0 repress\u00e3o pol\u00edtica, virulenta e feroz, eficaz a sangue frio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as ideias transformadas em planos, \u201cCharutinho\u201d incrementou a era dos \u201carrependidos\u201d, ou seja, os militantes em a\u00e7\u00f5es violentas selecionados para fazer declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas \u2013pela TV, inclusive \u2013 renegando fatos passados, atacando parceiros do presente e se assumindo como uma esp\u00e9cie de iludidos pelo mal e convertidos para o bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O arrependimento jur\u00eddico \u00e9 uma pr\u00e1tica que pode se tornar atenuante para a concess\u00e3o de eventuais benef\u00edcios. Por essa raz\u00e3o, sempre se pergunta se h\u00e1 arrependimento para um autor de crime, v\u00edcio adotado pela imprensa em geral, sempre querendo saber se o bandido, mesmo calculista, est\u00e1 arrependido. N\u00e3o se leva em conta o que realmente interessa: o arrependimento tem de ser eficaz, diz a lei. Exatamente: o arrependimento precisa mostrar efic\u00e1cia para ter sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso dos arrependidos selecionados por \u201cCharutinho\u201d, os personagens haviam, primeiro, revelado os segredos log\u00edsticos de suas respectivas organiza\u00e7\u00f5es. Depois, responsabilizados em inqu\u00e9ritos, foram convencidos a buscar uma atenuante. Fora desse contexto factual, qualquer outro tipo de narrativa \u00e9 lero-lero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A consequ\u00eancia foi que os ex-militantes tornaram-se malditos para seus respectivos grupos, sendo apelidados de \u201ccachorros\u201d, sem que se explicasse o porqu\u00ea da refer\u00eancia canina para ofend\u00ea-los. No quinto andar do DOPS, onde funcionava o Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00f5es, as teorias pol\u00edticas eram administradas de forma diferente, \u201cCharutinho\u201d agia como um mago buscando tirar surpreendentes coelhos da cartola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dia, na Associa\u00e7\u00e3o dos Delegados de Pol\u00edcia, ele me disse que se n\u00e3o fosse esse tipo de estrat\u00e9gia, \u201ca Hist\u00f3ria do Brasil seria bem outra\u201d. Quis decifrar a frase, mas ele falou que aprofundar esse assunto somente em lugar neutro, sem testemunhas. Por isso, convidei-o para comer uma feijoada em minha casa, num s\u00e1bado, \u201cde jornalista para ex-jornalista\u201d, top secret, e ele aceitou sem titubeios. Foi encontro proveitoso para mim, mas s\u00f3 poderia escrever sobre essas coisas, em livro, bem mais para a frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que antes dos \u201carrependidos\u201d aconteceram as infiltra\u00e7\u00f5es, e entre elas estavam organiza\u00e7\u00f5es que tinham conex\u00f5es diretas, por exemplo, com Carlos Lamarca e seu sucessor, Onofre Pinto (delatados), Carlos Marighela (atrai\u00e7oado) e Joaquim C\u00e2mara Ferreira (seguido do Par\u00e1 at\u00e9 S\u00e3o Paulo, onde foi morto), entre outros expoentes. Essas hist\u00f3rias, inc\u00f4modas e desagrad\u00e1veis at\u00e9 hoje, causam embara\u00e7os nas narrativas engajadas. \u00c9 chocante, mexe em feridas que nunca cicatrizam. Na guerra revolucion\u00e1ria, conta a Hist\u00f3ria quem venceu; no Brasil, \u00e9 contada de maneira mais enf\u00e1tica por quem perdeu. E quando se fecha a porta para tudo, a verdade, sufocada pelo \u00f3dio, fica trancada pelo lado de fora. A verdade, sabemos, \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9. Assemelha-se aos diamantes: quando falsos, exibem bolhas malignas e brilhos amarelados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 \u00e9poca de \u201cCharutinho\u201d, predominava a teoria revolucion\u00e1ria do \u201cfoquismo\u201d, isto \u00e9, a cria\u00e7\u00e3o de um foco desencadeador de a\u00e7\u00f5es populares contra o sistema dominante. Mas nunca aconteceu essa teorizada ades\u00e3o popular. O pai da teoria foquista foi R\u00e9gis Debray, o guru franc\u00eas incensado por militantes ardentes, o mesmo que levou Ernesto Che Guevara para um encontro, que seria fatal, nas matas bolivianas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco Guimar\u00e3es do Nascimento aposentou-se. Quando elaborava meu livro \u201cAut\u00f3psia do Medo\u201d, que percorre os sangrentos anos de chumbo, fui em entrevist\u00e1-lo. Levei um caderno, e ao v\u00ea-lo \u201cCharutinho\u201d brincou que eu estava \u201cmal-intencionado\u201d. Contou-me bastidores, segredos, coisas que nunca ningu\u00e9m soube e nem poderia imaginar. Foi pe\u00e7a fundamental para desvendar segredos dos por\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro foi publicado no final do ano 2.000. Em janeiro seguinte, um m\u00eas depois, levo um choque: \u201cCharutinho\u201d enfiou o cano de rev\u00f3lver no c\u00e9u da boca e apertou o gatilho.<\/p>\n<div id=\"attachment_13540\" style=\"width: 670px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/ABAP.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13540\" class=\"size-full wp-image-13540\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/ABAP.jpeg\" alt=\"\" width=\"660\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/ABAP.jpeg 660w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/ABAP-300x164.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-13540\" class=\"wp-caption-text\">Imagem do antigo pr\u00e9dio do Dops (Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social) durante a ditadura militar, localizado no Bom Retiro, na capital paulista, antes de passar por reforma para se transformar em centro cultural, a Esta\u00e7\u00e3o Pinacoteca<br \/>Luiz Prado\/19.abr.1989\/AE<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fiquei a me perguntar: seria por algo que contei no livro? Ou de algum fato que ele se arrependeu de ter me contado? Acho que n\u00e3o, respeitei todas as regras do combinado, mas demorei para sepultar o suic\u00eddio na vala comum do esquecimento. Mas tenho certeza absoluta de que ele sabia muito bem o que estava fazendo, premido pelas vozes insond\u00e1veis da consci\u00eancia ao situar-se no subterr\u00e2neo do epicentro de uma guerra suja. Hora de colocar os pesos na balan\u00e7a e julgar-se devedor? Teria valido a pena? Teria ele mesmo se arrependido de tudo o que fez, al\u00e9m de induzir tantos a se arrependerem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei. E ningu\u00e9m saber\u00e1 jamais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte &#8211; <a href=\"https:\/\/noticias.r7.com\/prisma\/arquivo-vivo\/os-grandes-segredos-do-servico-secreto-do-dops-03112020\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">R7<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente em 03\/11\/2020 &#8211; 12h05 ARQUIVO VIVO por Percival de Souza, da Record TV A Pol\u00edcia que controlava o pensamento \u2013 DOPS, Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social \u2013 tinha um comando, cabe\u00e7as pensantes, executores macabros e figuras fundamentais, por\u00e9m discret\u00edssimas, das quais pouco ou nunca se ouviu falar. 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