{"id":13551,"date":"2020-11-21T16:37:36","date_gmt":"2020-11-21T16:37:36","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=13551"},"modified":"2020-11-21T17:16:38","modified_gmt":"2020-11-21T17:16:38","slug":"a-historia-do-brasil-nao-e-conhecida-lamenta-autora-de-livro-sobre-frei-tito-martir-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2020\/11\/21\/a-historia-do-brasil-nao-e-conhecida-lamenta-autora-de-livro-sobre-frei-tito-martir-da-ditadura\/","title":{"rendered":"&#8220;A Hist\u00f3ria do Brasil n\u00e3o \u00e9 conhecida&#8221; lamenta autora de livro sobre Frei Tito, &#8220;m\u00e1rtir da ditadura&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A escritora e jornalista Leneide Duarte-Plon acaba de lan\u00e7ar a vers\u00e3o francesa de &#8220;Um homem torturado, nos passos de Frei Tito de Alencar&#8221;, em coautoria de Clarisse Meireles. O livro resgata a trajet\u00f3ria do frei dominicano, torturado nos por\u00f5es da ditadura e que se suicidou em 1974 na Fran\u00e7a. Um documento minucioso sobre a luta armada contra o golpe militar no Brasil. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto de partida dessa biografia de Tito de Alencar \u00e9 mostrar como a tortura pode destruir um homem para sempre. &#8220;Tito morreu de fato na sala de tortura&#8221; diz Leneide em entrevista \u00e0 RFI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de contar a trajet\u00f3ria do frei dominicano surgiu quando a jornalista brasileira, residente em Paris, foi assistir uma palestra onde o psiquiatra Jean-Claude Rolland relatou sua primeira experi\u00eancia, nos anos 70, de tratamento de uma das v\u00edtimas da tortura da ditadura militar no Brasil. Ele se referia ao Frei Tito de Alencar, que nessa \u00e9poca vivia em um convento na Fran\u00e7a, onde sofria del\u00edrios e alucina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nesse dia o livro come\u00e7a&#8221; conta Leneide, que iniciou uma s\u00e9rie de entrevistas no Brasil e na Fran\u00e7a, com sua filha Clarisse Meirelles, tamb\u00e9m jornalista. Em 2014 o livro foi publicado pela editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira e indicado ao pr\u00eamio Jabuti um ano mais tarde. Recentemente, a obra foi traduzida para o franc\u00eas e lan\u00e7ada pela editora Karthala com o t\u00edtulo &#8220;Tito de Alencar (1945-1974) &#8211; Un dominicain br\u00e9silien martyr de la dictature (&#8220;Tito de Alencar, um dominicano m\u00e1rtir da ditadura brasileira&#8221;).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcas invis\u00edveis <\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1968, o cearense Tito, aos 23 anos, se engajou, como muitos religiosos da ordem dos dominicanos, nas a\u00e7\u00f5es de apoio log\u00edstico \u00e0 A\u00e7\u00e3o de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, liderada por Carlos Marighella. Detido um ano depois, o Frei foi violentamente torturado, primeiro pelo delegado S\u00e9rgio Fleury, de S\u00e3o Paulo, e depois por outros agentes do DEOPS, a pol\u00edcia pol\u00edtica do regime militar brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Junto com outros 69 prisioneiros pol\u00edticos, Frei Tito foi trocado pelo embaixador su\u00ed\u00e7o no Brasil, Giovanni Bucher, sequestrado em dezembro de 1970 pela guerrilha armada VPR (Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria). Libertado, mas banido do Brasil, em 1971, ele se exilou no Chile e depois na Fran\u00e7a. Mas a tortura o afetou de tal maneira que ele nunca mais conseguiu se reconstruir psicologicamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os torturadores vieram dentro dele para a Fran\u00e7a. Ele passou a sofrer alucina\u00e7\u00f5es, n\u00e3o conseguia mais dormir e revivia a tortura que sofreu dia e noite no Brasil. Realmente a tortura pode destruir uma pessoa. Foi o caso dele&#8221;, observa Leneide, lembrando que um de seus torturadores o havia prevenido durante os interrogat\u00f3rios: &#8220;Podemos destruir voc\u00ea sem deixar marcas vis\u00edveis&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A jornalista ressalta que Tito &#8220;come\u00e7ou a morrer de fato nas m\u00e3os do Delegado Fleury&#8221;. Em seus del\u00edrios de persegui\u00e7\u00e3o, ele o via amea\u00e7ando sua m\u00e3e, sua irm\u00e3 e os membros de sua fam\u00edlia. Acolhido no belo convento Sainte-Marie de La Tourette, perto de Lyon, constru\u00eddo por Le Corbusier, o Frei acabou internado em um hospital psiqui\u00e1trico, mas n\u00e3o conseguiu superar o tormento. Tito preferiu a morte ao &#8220;conv\u00edvio&#8221; com seus torturadores.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><strong>Crist\u00e3o e revolucion\u00e1rio <\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para escrever esse livro, Leneide fez uma pesquisa exaustiva e entrevistou dezenas de pessoas que participaram das organiza\u00e7\u00f5es armadas contra a ditadura. Muitas delas, como o Frei Betto, conheceram o jovem dominicano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Leneide, Tito vivia contradi\u00e7\u00f5es, mas achava imposs\u00edvel &#8220;ser crist\u00e3o sem ser revolucion\u00e1rio&#8221;. Ela cita um de seus textos em que ele resume a concep\u00e7\u00e3o dominicana do evangelho: &#8220;N\u00f3s n\u00e3o existimos para salvar as almas, mas para salvar as criaturas, os seres humanos vivos, concretos, no tempo e no espa\u00e7o bem definido. Temos uma compreens\u00e3o hist\u00f3rica profunda de Jesus&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O evangelho que os dominicanos pregavam \u00e9 o evangelho que liberta o homem aqui na terra, na vida real, que batalha pela justi\u00e7a social&#8221;, afirma ela, se referindo ao engajamento de uma parte da Igreja Cat\u00f3lica contra a ditadura militar e contra a viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por meio dos testemunhos que ouviu, a jornalista concluiu que as d\u00favidas que o Frei tinha n\u00e3o eram ligadas \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es entre marxismo e cristianismo. &#8220;Ele se questionava sobre a revolu\u00e7\u00e3o brasileira, sobre a imaturidade da revolu\u00e7\u00e3o e sobre a impossibilidade de ela ser bem-sucedida pelo fato de n\u00e3o ter o povo apoiando em massa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Tito, lembra Leneide, &#8220;o dif\u00edcil era acreditar que eles teriam algum sucesso e chegariam ao objetivo. Fracos como eles eram, face a uma ditadura terr\u00edvel e ao terrorismo de Estado, que acabou aniquilando completamente a resist\u00eancia armada&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marighella, o &#8220;Che brasileiro&#8221; <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos cap\u00edtulos do livro \u00e9 dedicado a Carlos Marighella, chefe da A\u00e7\u00e3o de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (ALN), cujo codinome na clandestinidade era Ernesto, homenagem evidente a Ernesto Che Guevara, l\u00edder da revolu\u00e7\u00e3o cubana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O baiano Marighella \u00e9 descrito pelos membros de v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es armadas, entrevistados por Leneide e Clarisse, como o grande l\u00edder revolucion\u00e1rio brasileiro. Ele j\u00e1 preconizava a revolu\u00e7\u00e3o e a luta armada nos anos 30, quando foi preso e torturado pela pol\u00edcia do ex-presidente Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo relatos dos entrevistados, Marighella pensava desde 1968 em uma uni\u00e3o das for\u00e7as revolucion\u00e1rias brasileiras, que n\u00e3o deveria se limitar ao Brasil, mas sim fazer parte de um plano global contra o imperialismo que dominava a Am\u00e9rica Latina. O l\u00edder da ALN foi morto pela policia em novembro de 1969 em uma emboscada, no mesmo dia da deten\u00e7\u00e3o de Frei Tito e de outros dominicanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Marighella era uma esp\u00e9cie de Che Guevara brasileiro. E teve um fim tr\u00e1gico, como todos os l\u00edderes revolucion\u00e1rios que sonham grande&#8221;, observa Leneide, lembrando que ele foi executado e que n\u00e3o estava armado quando caiu na emboscada da pol\u00edcia.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Narrativa da ditadura est\u00e1 de volta <\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da import\u00e2ncia de Marighella no cen\u00e1rio da resist\u00eancia armada contra o golpe militar de 1964, seu nome \u00e9 praticamente desconhecido dos jovens no Brasil, embora, segundo a jornalista, ele seja &#8220;um grande her\u00f3i da hist\u00f3ria brasileira&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 importante dizer que Marighella n\u00e3o \u00e9 muito conhecido das novas gera\u00e7\u00f5es como a Hist\u00f3ria da ditadura tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 conhecida. Houve um ocultamento desejado e trabalhado para que essa Hist\u00f3ria ficasse debaixo do tapete&#8221;, lamenta a jornalista, ressaltando que o Brasil n\u00e3o fez um trabalho de mem\u00f3ria at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;E n\u00e3o \u00e9 de espantar que a narrativa da ditadura volte em todo o seu esplendor. \u00c9 algo que interessa \u00e0 extrema direita que est\u00e1 no poder no Brasil. E o trabalho do livro \u00e9 o resgate da mem\u00f3ria&#8221;. Segundo ela, \u00e9 importante contar a hist\u00f3ria da ditadura e do terrorismo de Estado implantado nessa \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leneide Duarte-Plon espera que as novas gera\u00e7\u00f5es possam se informar sobre o que foi a ditadura militar para &#8220;impedir que os nost\u00e1lgicos dos torturadores e da tortura imponham o discurso deles&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte &#8211; <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/ultimas-noticias\/rfi\/2020\/11\/19\/a-historia-do-brasil-nao-e-conhecida-lamenta-autora-de-livro-sobre-frei-tito-martir-da-ditadura.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">UOL<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escritora e jornalista Leneide Duarte-Plon acaba de lan\u00e7ar a vers\u00e3o francesa de &#8220;Um homem torturado, nos passos de Frei Tito de Alencar&#8221;, em coautoria de Clarisse Meireles. 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