{"id":13790,"date":"2022-02-11T19:48:26","date_gmt":"2022-02-11T19:48:26","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=13790"},"modified":"2022-02-11T19:52:27","modified_gmt":"2022-02-11T19:52:27","slug":"historia-em-revisao-apaga-a-memoria-dos-crimes-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2022\/02\/11\/historia-em-revisao-apaga-a-memoria-dos-crimes-da-ditadura\/","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIA EM REVIS\u00c3O APAGA A MEM\u00d3RIA DOS CRIMES DA DITADURA"},"content":{"rendered":"<pre>Publicado originalmente em 10\/fev\/2022 por \u00c1lvaro Caldas<\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"has-text-color\" style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Uma opera\u00e7\u00e3o articulada que constitui verdadeira afronta \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o vigente, \u00e0 democracia e \u00e0 mem\u00f3ria dos filhos, netos e demais familiares dos mortos e desaparecidos na ditadura. Um atentado que reproduz na sociedade o impacto semelhante ao de um golpe de Estado, porque muda o transcurso da Hist\u00f3ria, apresentada em vers\u00e3o adulterada pelos negacionistas<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo pa\u00eds desmemoriado que anistiou seus torturadores, deixando-os livres de responder na Justi\u00e7a por seus crimes, garantindo-lhes um futuro risonho e tranquilo junto a seus familiares, inicia um espantoso processo de revis\u00e3o hist\u00f3rica, que consiste em censurar e alterar trechos de documentos oficiais da CNV arquivados. Nomes de pessoas s\u00e3o ocultados e par\u00e1grafos inteiros suprimidos, numa opera\u00e7\u00e3o que se assenta sobre a nega\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica da tortura e a mistifica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria recente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa decis\u00e3o sem precedentes, a Justi\u00e7a Federal determinou ao Arquivo Nacional, \u00f3rg\u00e3o do Estado, que partes do relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade fossem cobertas com tarjas pretas, ocultando os nomes dos \u201csantos\u201d dos choques el\u00e9tricos e do pau de arara denunciados. O processo correu sigiloso. Encarregada de defender a integridade do relat\u00f3rio, a AGU omitiu-se, e o Arquivo Nacional cumpriu rapidamente a decis\u00e3o, que j\u00e1 transitou em julgado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma opera\u00e7\u00e3o articulada que constitui verdadeira afronta \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o vigente, \u00e0 democracia e \u00e0 mem\u00f3ria dos filhos, netos e demais familiares dos mortos e desaparecidos na ditadura. Um atentado que reproduz na sociedade o impacto semelhante ao de um golpe de Estado, porque muda o transcurso da Hist\u00f3ria, apresentada em vers\u00e3o adulterada pelos negacionistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Processos de revisionismo hist\u00f3rico ocorreram em outros pa\u00edses e em outros tempos, geralmente em pa\u00edses que passaram por guerras ou ditaduras. E n\u00e3o apenas na Europa e no Leste Europeu sob Stalin, mas aqui mesmo em nossa Am\u00e9rica de tantas ditaduras patrocinadas por interven\u00e7\u00f5es americanas no Cone Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o dois casos de revis\u00e3o hist\u00f3rica denunciados pela imprensa, em reportagens bem documentadas das jornalistas Fernanda Mena, da\u00a0<em>Folha<\/em>, e Juliana dal Piva, colunista do UOL. No primeiro, o juiz H\u00e9lio Campos, da 6\u00aa Vara Federal de Pernambuco, determinou que as men\u00e7\u00f5es ao ex-coronel da Pol\u00edcia Militar Olinto de Sousa Ferraz fossem retiradas do relat\u00f3rio. Rigoroso, o magistrado orientou para a \u201ccobertura do nome e de qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0 tortura com sua participa\u00e7\u00e3o direta ou indireta, por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o, para preservar a imagem honrada do militar e de sua fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Honra esta que o juiz n\u00e3o reivindica para si. A a\u00e7\u00e3o foi movida por tr\u00eas filhos do militar, que dirigiu a Casa de Deten\u00e7\u00e3o do Recife quando o preso Amaro Luiz de Carvalho, militante do PCR, foi morto no c\u00e1rcere, em agosto de 1971. A pol\u00edcia divulgou que o preso havia sido envenenado por seus pr\u00f3prios companheiros de cela. Vers\u00e3o contestada por per\u00edcia posterior. O atestado de \u00f3bito do militante assassinado registra que sua morte se deu \u201cpor hemorragia pulmonar decorrente de traumatismo de t\u00f3rax por instrumento cortante.\u201d<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-64566\" src=\"https:\/\/www.ultrajano.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/lossy-page1-1200px-Nei_Amintas_de_Barros_Braga_Ministro_da_Educacao_e_Cultura..tif-701x1024.jpg\" sizes=\"(max-width: 241px) 100vw, 241px\" srcset=\"https:\/\/www.ultrajano.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/lossy-page1-1200px-Nei_Amintas_de_Barros_Braga_Ministro_da_Educacao_e_Cultura..tif-701x1024.jpg 701w, https:\/\/www.ultrajano.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/lossy-page1-1200px-Nei_Amintas_de_Barros_Braga_Ministro_da_Educacao_e_Cultura..tif-208x304.jpg 208w, https:\/\/www.ultrajano.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/lossy-page1-1200px-Nei_Amintas_de_Barros_Braga_Ministro_da_Educacao_e_Cultura..tif-768x1121.jpg 768w, https:\/\/www.ultrajano.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/lossy-page1-1200px-Nei_Amintas_de_Barros_Braga_Ministro_da_Educacao_e_Cultura..tif-1052x1536.jpg 1052w, https:\/\/www.ultrajano.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/lossy-page1-1200px-Nei_Amintas_de_Barros_Braga_Ministro_da_Educacao_e_Cultura..tif.jpg 1200w\" alt=\"\" width=\"241\" height=\"352\" \/><figcaption>Coronel Nei Braga<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O juiz usou o termo \u201canonimiza\u00e7\u00e3o\u201d de partes do relat\u00f3rio para censurar o documento da CNV, depositado em arquivo p\u00fablico protegido por lei. Sua insolente parcialidade n\u00e3o apenas afronta a legisla\u00e7\u00e3o como abre um precedente perigoso para o acesso a informa\u00e7\u00f5es e conhecimento hist\u00f3rico do pa\u00eds. O judici\u00e1rio se arroga um poder que n\u00e3o tem, o de conspurcar a mem\u00f3ria e a verdade sobre os crimes da ditadura. Ao mesmo tempo, avaliza a dissemina\u00e7\u00e3o da censura sobre documentos oficiais custodiados nos arquivos p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Nadine Borges, advogada da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da OAB, que integrou as comiss\u00f5es Nacional e Estadual da Verdade, a interfer\u00eancia do judici\u00e1rio para reescrever o passado \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e uma agress\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria. Para o soci\u00f3logo Edival Nunes, o Caj\u00e1, ele mesmo preso na casa de deten\u00e7\u00e3o e horror, ex-integrante da Comiss\u00e3o da Verdade, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grave por alterar acontecimentos que integram a hist\u00f3ria dos 21 anos de ditatura, cujos crimes continuam impunes at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meio a um sil\u00eancio suspeito, torna-se angustiante, segundo Nadine, que a hist\u00f3ria seja reescrita com o pa\u00eds em ru\u00ednas, sob ataques fascistas. Servidores do Arquivo Nacional denunciaram que seis p\u00e1ginas foram removidas do relat\u00f3rio para que o nome do coronel Olinto n\u00e3o fosse citado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo caso foi denunciado por funcion\u00e1rios da Comiss\u00e3o da Verdade do Paran\u00e1, envolvendo o ex-governador e ministro da ditadura Nei Braga. Um par\u00e1grafo inteiro do relat\u00f3rio foi suprimido. E um total de 15 anexos, inclusive recortes de jornais, foram enxertados no documento oficial depositado no AN por determina\u00e7\u00e3o do judici\u00e1rio, algo totalmente in\u00e9dito na hist\u00f3ria arquiv\u00edstica brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 hora de partir para uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade civil para garantir no futuro aos nossos netos e bisnetos que os livros de Hist\u00f3ria adotados nas escolas contem a verdade hist\u00f3rica e respeitem a mem\u00f3ria do pa\u00eds. E n\u00e3o a vers\u00e3o censurada em que o juiz federal H\u00e9lio Campos encobre a realidade para transformar o coronel Olinto num \u201chonrado oficial\u201d e a ditadura num conto de fadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fonte &#8211; <a href=\"https:\/\/www.ultrajano.com.br\/historia-em-revisao-apaga-a-memoria-dos-crimes-da-ditadura\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ultrajano.com.br<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente em 10\/fev\/2022 por \u00c1lvaro Caldas &nbsp; Uma opera\u00e7\u00e3o articulada que constitui verdadeira afronta \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o vigente, \u00e0 democracia e \u00e0 mem\u00f3ria dos filhos, netos e demais familiares dos mortos e desaparecidos na ditadura. 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