{"id":2022,"date":"2012-08-09T18:23:59","date_gmt":"2012-08-09T18:23:59","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/09\/memoria-viva-2\/"},"modified":"2012-08-09T18:23:59","modified_gmt":"2012-08-09T18:23:59","slug":"memoria-viva-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/09\/memoria-viva-2\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria viva"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Algu\u00e9m bate \u00e0 porta. \u201cEntre.\u201d Entra o jornalista Luis Weiss. Vem da outra margem do rio e o atravessou a montante, como boi de piranha. N\u00e3o \u00e9 um sonho, \u00e9 mem\u00f3ria viva. Estamos no come\u00e7o de outubro de 1975, eu dirijo a revista Veja e Weiss acaba de sair da equipe de jornalismo da TV Cultura, comandada por Vlado Herzog.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Arns-300x192.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"192\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>\n<address \/>Dom Paulo. Personagem admir\u00e1vel por bravura e compaix\u00e3o. Foto: Mabel Feres\/AE  <!--more-->  <\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A sa\u00edda, diz Weiss, resulta de uma decis\u00e3o do grupo, acusado de compor uma c\u00e9lula comunista e encarado com extrema, aterradora suspeita pelos jagun\u00e7os fardados da casa-grande, concentrados no DOI-Codi e prontos a agir. Trata-se de verificar o comportamento das piranhas, e a compara\u00e7\u00e3o parece-me perfeita. Weiss pede emprego, digo \u201ccome\u00e7a j\u00e1\u201d. Decido de pronto, a evitar consulta aos patr\u00f5es, mesmo porque tenho autonomia para tanto. Sei, por\u00e9m, que, se recorresse \u00e0s suas luzes, viriam de l\u00e2mpada Skuromatic e criariam trevas ao meio-dia.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Evoco o epis\u00f3dio daqueles dias pl\u00fambeos porque pouco mais de duas semanas ap\u00f3s Vlado seria assassinado pelos torturadores da ditadura civil-militar. Nesta edi\u00e7\u00e3o, entrevistado por Ana Ferraz, Aud\u00e1lio Dantas, ent\u00e3o presidente do Sindicato dos Jornalistas de S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m fala daqueles momentos e generosamente se refere a mim e ao meu envolvimento no doloroso enredo. De fato, na madrugada de 25 de outubro de 1975, ao saber que Vlado teria de se apresentar de manh\u00e3 \u00e0s cancelas do DOI-Codi e que tamb\u00e9m Weiss era procurado pelos jagun\u00e7os fardados, procurei em v\u00e3o pelo telefone o chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, e o governador Paulo Egydio, ambos ausentes dos seus paradeiros habituais e inalcan\u00e7\u00e1veis.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Atendeu-me o cardeal-arcebispo Dom Paulo Evaristo, e foi ele quem, horas ap\u00f3s, conseguiu falar pelo telefone com Paulo Egydio e dele recebeu a seguinte incumb\u00eancia: instruir-me para que eu fosse a Santos \u00e0 procura do coronel Erasmo Dias, secret\u00e1rio da Seguran\u00e7a do governo paulista, e o instasse a regressar \u00e0 capital de sorte \u201ca assumir o controle da situa\u00e7\u00e3o\u201d. Segundo o governador, eu daria com o coronel na Vila Belmiro, reduto do Santos Futebol Clube. Contive-me para n\u00e3o despencar miseravelmente na gargalhada. Disse apenas: \u201cPelo amor de Deus, Dom Paulo, no m\u00ednimo Erasmo Dias me prende no ato\u201d. Retrucou o cardeal: \u201cEsta \u00e9 a mensagem do governador, no mais eu entendo de Deus muito mais do que voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A observa\u00e7\u00e3o soou-me de toda justi\u00e7a, e fui atr\u00e1s do coronel, a partir do gramado que celebrizou Pel\u00e9. N\u00e3o o encontrei nem ali, nem em outro canto. Quando encerrei a busca, Vlado j\u00e1 estava morto, abatido na c\u00e9lebre imagem forjada para simular o suic\u00eddio, como t\u00edtere abandonado no bastidor.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No dia seguinte, enquanto Dom Paulo cogitava do culto ecum\u00eanico que reuniria na S\u00e9 8 mil pessoas na mira dos atiradores postados no alto dos pr\u00e9dios erguidos em torno da pra\u00e7a central de S\u00e3o Paulo, um comunicado do sindicato de Aud\u00e1lio negava com todas as letras a vers\u00e3o do suic\u00eddio. O mesmo Aud\u00e1lio que, com as devidas garantias de que tudo n\u00e3o passaria de um depoimento, juntou-se a mim para levar Luis Weiss, desde a madrugada de s\u00e1bado escondido no apartamento de Jos\u00e9 Roberto Guzzo, um dos dois redatores-chefes da Veja, \u00e0 presen\u00e7a de um certo, e soturno, coronel Paiva, substituto do coronel Brilhante Ustra na chefia do DOI-Codi. O compromisso foi cumprido, Weiss estava em liberdade tr\u00eas horas depois.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O sindicato, sob a batuta de Aud\u00e1lio, teve papel extraordin\u00e1rio na resist\u00eancia \u00e0 ditadura civil-militar, papel indispens\u00e1vel \u00e0 mem\u00f3ria daquele tempo tr\u00e1gico, e infamante para muitos brasileiros, fardados e paisanos. Ainda assim, estes e seus herdeiros pretendem releg\u00e1-lo ao esquecimento. A bem do Pa\u00eds? A bem da paz geral da Na\u00e7\u00e3o? Ora, ora, a bem deles mesmos. Nesta edi\u00e7\u00e3o, a reportagem de capa aponta para a possibilidade in\u00e9dita de que um torturador feroz, primeiro respons\u00e1vel por in\u00fameros assass\u00ednios cometidos nas masmorras do DOI-Codi, seja condenado. Seria um passo decisivo na derrubada da dita lei da anistia imposta pela ditadura civil-militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sim, a hist\u00f3ria costuma ser escrita pelos vencedores. At\u00e9 onde chegam a leni\u00eancia e a covardia que Argentina e Chile n\u00e3o tiveram, e muitos outros povos em ocasi\u00f5es recentes ou remotas? Ou ser\u00e1 que vencedores foram eles mesmos, ainda e sempre senhores da casa-grande?<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Carta Capital<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m bate \u00e0 porta. \u201cEntre.\u201d Entra o jornalista Luis Weiss. Vem da outra margem do rio e o atravessou a montante, como boi de piranha. N\u00e3o \u00e9 um sonho, \u00e9 mem\u00f3ria viva. 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