{"id":2051,"date":"2012-08-16T20:00:45","date_gmt":"2012-08-16T20:00:45","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/16\/por-unanimidade-justica-condena-o-coronel-ustra-como-torturador-da-ditadura-2\/"},"modified":"2012-08-16T20:00:45","modified_gmt":"2012-08-16T20:00:45","slug":"por-unanimidade-justica-condena-o-coronel-ustra-como-torturador-da-ditadura-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/16\/por-unanimidade-justica-condena-o-coronel-ustra-como-torturador-da-ditadura-2\/","title":{"rendered":"Por unanimidade, Justi\u00e7a condena o coronel Ustra como torturador da ditadura"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/ustra26x22-e1344954844292.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"250\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\" \/>O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o mais not\u00f3rio torturador da ditadura militar, segundo o professor F\u00e1bio Konder Comparato  <!--more-->  <\/address>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/fam%C3%ADlia-Teles-e1344954768947.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"402\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<address>O juiz Gustavo Teodoro considerou procedente a a\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Teles e declarou oficialmente Ustra torturador. Os Teles: Jana\u00edna, Edson, Amelinha e C\u00e9sar<\/address>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Amelinha Teles: \u201c\u00c9 preciso botar um fim na impunidade dos torturadores da ditadura militar\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Por unanimidade (3 x 0), o Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo condenou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra como torturador. A informa\u00e7\u00e3o nos foi passada, em primeira m\u00e3o, por Antonio Carlos Fon, jornalista e ex-preso pol\u00edtico, que acompanhava o julgamento.<\/p>\n<p class=\"p1\">Fim da impunidade para o mais not\u00f3rio torturador da ditadura militar. Vit\u00f3ria hist\u00f3rica.<\/p>\n<p class=\"p1\">Abaixo a mat\u00e9ria que postamos antes do julgamento. Uma entrevista com a ex-presa pol\u00edtica Amelinha Teles, torturada pessoalmente por Ustra, assim como o seu companheiro C\u00e9sar Teles e a irm\u00e3 Crim\u00e9ia de Almeida. Ustra levou ainda os dois filhos de Amelinha \u2014 na \u00e9poca, Jana\u00edna tinha 5 anos de idade e Edson, 4 \u2013\u00a0 ao DOI-Codi\/SP, de cambur\u00e3o, para pressionar psicologicamente os pais. Eles viram a m\u00e3e na cadeira do drag\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">Nesta ter\u00e7a-feira 14, o Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo julga o recurso do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex- comandante do DOI-Codi\/SP, contra a senten\u00e7a que o condenou como torturador.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em outubro de 2008, o juiz Gustavo Teodoro, da 23\u00aa Vara C\u00edvel do F\u00f3rum Jo\u00e3o Mendes, reconheceu-o oficialmente como respons\u00e1vel pelas torturas sofridas por Maria Am\u00e9lia de Almeida Teles, C\u00e9sar Augusto Teles e Crim\u00e9ia de Almeida, em 1972, naquele \u00f3rg\u00e3o de repress\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\">Considerado pelo professor e jusrista F\u00e1bio Konder Comparato como \u201co mais not\u00f3rio torturador do regime militar\u201d, Brilhante Ustra tentou transferir toda a culpa de seus atos hediondos\u00a0 para o Ex\u00e9rcito, mas n\u00e3o teve sucesso. Em sua senten\u00e7a, o juiz Gustavo Teodoro afirmou que o DOI-Codi era \u201cuma casa dos horrores, raz\u00e3o pela qual o r\u00e9u n\u00e3o poderia ignorar o que ali se passava\u201d. E concluiu:<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201dN\u00e3o \u00e9 cr\u00edvel que os presos ouvissem os gritos dos torturados, mas n\u00e3o o r\u00e9u. Se n\u00e3o o dolo, por condescend\u00eancia criminosa, ficou caracterizada pelo menos a culpa, por omiss\u00e3o quanto \u00e0 grave viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos fundamentais dos autores\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cO Ustra, na \u00e9poca major, me torturou, torturou o meu companheiro C\u00e9sar e minha irm\u00e3 Crimeia, gr\u00e1vida de 7 meses\u201d, relembra Amelinha Teles, como \u00e9 conhecida Maria Am\u00e9lia. \u201cMeus filhos \u2013 Jana\u00edna tinha 5 anos de idade e o Edson, 4 \u2013 foram seq\u00fcestrados e levados de cambur\u00e3o at\u00e9 o DOI-Codi, como forma de press\u00e3o psicol\u00f3gica contra n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cDe modo que a decis\u00e3o do doutor Teodoro foi hist\u00f3rica. Pela primeira vez na Justi\u00e7a brasileira se falou em imprescritibilidade dos crimes por viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos\u201d, salienta Amelinha. \u201cEsperamos que a segunda inst\u00e2ncia ratifique a decis\u00e3o da primeira inst\u00e2ncia, porque tem de se fazer justi\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">A audi\u00eancia come\u00e7a \u00e0s 13h.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em frente ao pr\u00e9dio do TJ-SP, na Pra\u00e7a da S\u00e9, haver\u00e1 nesse hor\u00e1rio um ato com a participa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios grupos e entidades: Coletivo Merlino, Comiss\u00e3o de Familiares de Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos, Cooperativa Paulista de Teatro, Cord\u00e3o da Mentira, Est\u00e1vel \u2013 Companhia de Teatro, Frente do Esculacho Popular, Grupo Quem, Kiwi \u2013 Companhia de Teatro, Levante Popular da Juventude, Sindicato dos Banc\u00e1rios, Sindicato dos Qu\u00edmicos.<\/p>\n<p class=\"p1\">Haver\u00e1 tamb\u00e9m um debate com:<\/p>\n<p class=\"p1\">Expedito Solaney \u2013 secret\u00e1rio nacional de Pol\u00edticas Sociais da CUT<\/p>\n<p class=\"p1\">Jos\u00e9 Augusto Camargo \u2013 presidente Sindicato dos Jornalistas<\/p>\n<p class=\"p1\">L\u00facio Fran\u00e7a \u2013 Comiss\u00e3o de Direitos Humanos OAB-SP<\/p>\n<p class=\"p1\">M\u00e1rcio Sotelo Felippe \u2013 Comit\u00ea Paulista pela Mem\u00f3ria, Verdade e Justi\u00e7a<\/p>\n<p class=\"p1\">Osvaldo Bezerra \u2013 coordena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica Sindicato dos Qu\u00edmicos<\/p>\n<p class=\"p1\">Pedro Estevam Serrano \u2013 professor de Direito Constitucional \u2013 PUC-SP<\/p>\n<p class=\"p1\">Para os mais jovens entenderem melhor o significado deste julgamento de hoje, segue a \u00edntegra da entrevista que fizemos com Amelinha Teles, torturada pessoalmente por Ustra.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Viomundo \u2013 Quem \u00e9 o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Amelinha Teles \u2013 <\/strong>\u00c9 um oficial do Ex\u00e9rcito, atualmente reformado. Em 1972, quando minha fam\u00edlia e eu fomos presos, ele era major do Ex\u00e9rcito e comandante do DOI-Codi de S\u00e3o Paulo, que era um centro de tortura.<\/p>\n<p class=\"p1\">O Ustra, como comandante do DOI-Codi, fez parte das estrat\u00e9gias pol\u00edticas da ditadura para sequestrar mulheres, homens, crian\u00e7as, torturar, assassinar, ocultar cad\u00e1veres.<\/p>\n<p class=\"p1\">Quem passa hoje pela 36\u00aa Delegacia de Pol\u00edcia de S\u00e3o Paulo, na rua Tut\u00f3ia, acha que \u00e9 uma delegacia qualquer. S\u00f3 que nos fundos, na \u00e9poca da ditadura, funcionou o primeiro \u00f3rg\u00e3o de repress\u00e3o ligado ao Ex\u00e9rcito. Foi chamado inicialmente de Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante \u2013 a Oban \u2013 e depois se transformou em Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es do Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna \u2013 o DOI-Codi\/SP \u2013, que da\u00ed se estendeu por v\u00e1rios estados brasileiros.<\/p>\n<p class=\"p1\">Muitos dos integrantes da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante, entre os quais o Ustra, come\u00e7aram a fazer parte n\u00e3o s\u00f3 do DOI -Codi, mas tamb\u00e9m de um esquema de eliminar os opositores pol\u00edticos na regi\u00e3o do Cone Sul: Chile, Bol\u00edvia, Paraguai, Argentina, Uruguai. O pr\u00f3prio Ustra foi a outros pa\u00edses para fazer este tipo de a\u00e7\u00e3o, de elimina\u00e7\u00e3o, mesmo.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Viomundo \u2013 No seu caso, como \u00e9 que foi?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Amelinha Teles \u2013<\/strong> Eu e meu marido est\u00e1vamos acompanhando um dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), o Carlos Nicolau Danielli, e fomos presos juntos em 28 de dezembro de 1972. N\u00f3s fomos testemunhas oculares do assassinato do Danielli. Torturam-no tanto que ele morreu tr\u00eas dias depois, em 30 de dezembro, nas depend\u00eancias do D\u00d3I-Codi, sob o comando do ent\u00e3o major Ustra.<\/p>\n<p class=\"p1\">Eu fui torturada pelo Ustra praticamente no primeiro minuto que cheguei ao p\u00e1tio da Oban. Vendo o Danielli sendo espancado, levando chutes, j\u00e1 ali no p\u00e1tio, o C\u00e9sar sendo torturado, eu falei alguma coisa no sentido de fazer um apelo, que n\u00e3o era poss\u00edvel tratar um ser humano daquela forma. Ele, com as costas da m\u00e3o, me deu um safan\u00e3o no rosto, me jogando no ch\u00e3o, gritando: foda-se!<\/p>\n<p class=\"p1\">Foi a senha para que os demais torturadores me arrastassem pelos corredores, me levassem at\u00e9 a sala de tortura e come\u00e7assem tamb\u00e9m a me torturar.\u00a0 Me colocaram no pau de arara e na cadeira do drag\u00e3o, fui submetida a afogamento, choque el\u00e9trico por todo o corpo, inclusive nos \u00f3rg\u00e3os genitais, palmat\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"p1\">O Ustra foi buscar ent\u00e3o os meus filhos e a minha irm\u00e3 na nossa casa. As crian\u00e7as foram levadas para a sala onde eu estava sendo torturada na cadeira do drag\u00e3o, toda urinada, com fezes, v\u00f4mito, sangue pelo corpo.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Viomundo \u2013 Quantos anos tinham os seus filhos?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Amelinha Teles \u2013<\/strong> A Jana\u00edna tinha 5 anos de idade e o Edson, 4. Eles foram sequestrados da minha casa e levados para DOI-Codi, para nos pressionar psicologicamente. Al\u00e9m de mim, ele torturou fisicamente o meu companheiro \u00a0C\u00e9sar Augusto Teles, minha irm\u00e3 Crim\u00e9ia de Almeida, que estava gr\u00e1vida de 7 meses, e psicologicamente os meus filhos.<\/p>\n<p class=\"p1\">Meu filho Edson ficou em estado de choque, um dia disse: \u201cM\u00e3e, o que aconteceu aqui? Por que voc\u00ea est\u00e1 verde e o meu pai ficou azul?\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">Teve uma hora que eu falei para o Ustra: \u201cPor que o senhor faz isso [tortura] com meu marido? Ele est\u00e1 diab\u00e9tico e tuberculoso!\u201d Ele respondeu: \u201cN\u00f3s vamos continuar. \u00c9 bom para ele tenha agora um c\u00e2ncer\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">O Ustra era o homem da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante. Ali, foi uma escola de tortura, que mandou torturadores para v\u00e1rios estados brasileiros e pa\u00edses, para perseguir militantes pol\u00edticos de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura. Naquela \u00e9poca, ele tinha uma influ\u00eancia muito grande. Ele estava sempre gritando, dando ordens, criando um clima de verdadeiro terror naquele inferno. Eles mesmos diziam: \u201cAqui, voc\u00ea est\u00e1 na\u00a0 Oban, aqui voc\u00ea est\u00e1 no inferno\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Viomundo \u2013 O que o Ustra queria saber de voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Amelinha Teles \u2013 <\/strong>Ele queria saber se eu tinha contato com o Jo\u00e3o Amazonas, que era presidente do PCdoB. Ele queria tamb\u00e9m que eu entregasse oito militantes do PCdoB. \u00a0Essas, segundo ele, eram a raz\u00e3o de eu estar sendo torturada. Acho que eles te torturam muito para te fazer perder a esperan\u00e7a de que o mundo pode ser transformado num mundo de justi\u00e7a, de igualdade. \u00a0Eles querem te desmoralizar, ofender a tua dignidade.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Viomundo \u2013 E a tua irm\u00e3?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Amelinha Teles \u2013<\/strong> A Crim\u00e9ia entrou na Oban como se fosse a bab\u00e1 das minhas crian\u00e7as. Ela tinha um nome falso. Na verdade, ela n\u00e3o era bab\u00e1.\u00a0 Foi um artif\u00edcio que encontrou ali na hora.\u00a0 Eles procuravam a minha irm\u00e3 que era guerrilheira. Mas foram t\u00e3o incompetentes que nos primeiros dez dias n\u00e3o identificaram que a minha irm\u00e3 estava ali. Quando descobriram, quem foi me torturar foi o general Humberto Souza Neto, que era o comandante do II Ex\u00e9rcito. Com aquele bast\u00e3o de comando, bateu em mim, na Crim\u00e9ia e no torturador que estava junto, chamando-o de idiota, incompetente.\u00a0 \u201cAfinal de contas\u201d, diz ele, \u00a0\u201ca cara de uma \u00e9 focinho da outra.\u00a0 Onde j\u00e1 se viu que comunista ter bab\u00e1. S\u00f3 na cabe\u00e7a de voc\u00eas para acreditar numa hist\u00f3ria dessas.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Viomundo \u2013 O general bateu no torturador na frente de voc\u00eas?!<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Amelinha Teles \u2013<\/strong> Bateu. Me lembro muito bem: era velho e barrigudo. Ele bateu com o bast\u00e3o. E o torturador n\u00e3o levantou um dedo. Aquilo me chamou aten\u00e7\u00e3o, porque torturadores espancavam a gente com tanta for\u00e7a, tanta viol\u00eancia, e aquele apanhou. Ele poderia bater no velho, mas n\u00e3o o fez. \u00c9 a hierarquia. Ele s\u00f3 olhava para baixo. Claro que quando o general saiu, pegaram a gente.\u00a0 Fomos torturadas durante dias.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Viomundo \u2013 Voc\u00ea viu o Danielli ser assassinado. Como foi? <\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Amelinha Teles \u2014<\/strong> O Danieli foi muito, muito torturado. No terceiro dia da pris\u00e3o, ele morreu numa sala de tortura. Estava nu, com uma barriga inchada, enorme, eele era uma cara magro, sangrava pela boca, nariz, ouvido.<\/p>\n<p class=\"p1\">Alguns dias depois \u201ccapit\u00e3o\u201d Ubirajara, cujo nome verdadeiro \u00e9 o Aparecido Laertes Calandra, na \u00e9poca investigador da Pol\u00edcia Civil, me chamou numa sala de tortura e disse \u201cleia aqui\u201d, me mostrando um jornal. Estava escrito: Terrorista morto em tiroteio. E tinha a foto do Danielli.<\/p>\n<p class=\"p1\">Eu falei: \u201cIsso \u00e9 mentira. O Danielli morreu aqui nesta sala\u201d. Ele respondeu: \u201c\u00c9 pra voc\u00ea ver como s\u00e3o as coisas. Amanh\u00e3 voc\u00ea tamb\u00e9m pode ser uma manchete de jornal\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Isso que eu e o C\u00e9sar assistimos no caso do Danielli se repetiu com v\u00e1rios outros casos \u00a0na Oban. Era esse o esquema usado.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em 7 de julho de 1973, n\u00f3s denunciamos isso na Justi\u00e7a Militar, ali na avenida Brigadeiro Luis Antonio. O juiz n\u00e3o queria ouvir. Ele gritava e dizia que n\u00f3s \u00e9ramos terroristas.<\/p>\n<p class=\"p1\">Eles criavam a figura do terrorista, para justificar todas as atrocidades contra n\u00f3s.\u00a0 Lembro que foi muito dif\u00edcil, mas eu e o C\u00e9sar denunciamos o assassinato do Danielli, a tortura da Crim\u00e9ia, gr\u00e1vida de 7 meses. Ela tamb\u00e9m foi torturada pessoalmente pelo \u00a0Ustra. N\u00f3s denunciamos tamb\u00e9m, j\u00e1 na \u00e9poca, o seq\u00fcestro dos nossos filhos Edson e Jana\u00edna.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Viomundo \u2013 Exatamente quando voc\u00ea entrou na Justi\u00e7a contra o Ustra, denunciando as torturas praticadas por ele?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong> Amelinha Teles \u2013<\/strong> A fam\u00edlia Teles, da qual fa\u00e7o parte, entrou com uma representa\u00e7\u00e3o na Justi\u00e7a aqui em SP na \u00e1rea c\u00edvel em 2005. \u00a0Pela primeira vez na Justi\u00e7a brasileira se falou imprescritibilidade dos crimes praticados por viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos. O juiz aceitou o nosso pedido. Al\u00e9m de mim, assinam a representa\u00e7\u00e3o o meu companheiro, a minha irm\u00e3 e os meus dois filhos.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Viomundo \u2013 O que voc\u00eas pleiteiam?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Amelinha \u2013<\/strong> A nossa representa\u00e7\u00e3o tem o nome de A\u00e7\u00e3o Declarat\u00f3ria, porque n\u00f3s queremos que o Estado brasileiro declare o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra\u00a0 torturador. Ele \u00e9 um torturador.<\/p>\n<p class=\"p1\">N\u00f3s entramos com a\u00e7\u00e3o em 2005, como eu j\u00e1 disse, e ela foi tramitando at\u00e9 que em 2008 houve a decis\u00e3o, que \u00e9 uma senten\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p1\">Quem perde a a\u00e7\u00e3o, pode entrar com recurso na 2\u00aa inst\u00e2ncia, caso n\u00e3o concorde com a decis\u00e3o. Ainda em outubro de 2008, o Ustra entrou com recurso para n\u00e3o ser condenado como torturador. A\u00ed, come\u00e7aram a ser marcadas as audi\u00eancias para o julgamento.<\/p>\n<p class=\"p1\">A primeira data foi maio de 2012, portanto deste ano. A sess\u00e3o de julgamento chegou a come\u00e7ar, mas quando chegou a vez do advogado da nossa fam\u00edlia se pronunciar, o dr. F\u00e1bio Konder Comparato disse que a decis\u00e3o era hist\u00f3rica, a sua import\u00e2ncia extrapolava o territ\u00f3rio brasileiro, porque era uma decis\u00e3o que dizia respeito a conven\u00e7\u00f5es internacionais de direitos humanos. De maneira que o Brasil estava sendo olhado pelo mundo inteiro para ver como o Brasil ia tratar o seu passado. Afinal, tinha acabado de ser criada aqui a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade.<\/p>\n<p class=\"p1\">O professor F\u00e1bio insistiu junto aos desembargadores que a decis\u00e3o que tomassem seria repercutida no mundo inteiro. A\u00ed, eles pediram vista do processo, para poderem reanalis\u00e1-lo.<\/p>\n<p class=\"p1\">O julgamento foi marcado ent\u00e3o para o dia 7 de agosto, semana passada. Houve novo \u00a0cancelamento,\u00a0 porque dois desembargadores n\u00e3o poderiam participar. E foi remarcado para esta ter\u00e7a-feira, 14 de agosto.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Viomundo \u2013 Qual a tua expectativa?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Amelinha Teles \u2013 <\/strong>Entre desaparecidos e assassinados daquela \u00e9poca, h\u00e1 cerca de 40 pessoas que passaram pelas m\u00e3os do Ustra de alguma forma, porque ele \u00e9 quem comandava, ele \u00e9 quem dava as ordens. Eu fui torturada na mesma sala em que o Merlino estava sendo torturado pelo Ustra.<\/p>\n<p class=\"p1\">Logo, \u00e9 importante que o Tribunal de Justi\u00e7a ratifique a decis\u00e3o de primeira inst\u00e2ncia porque tem de se fazer Justi\u00e7a. O Tribunal de Justi\u00e7a tem de estar de acordo com as leis internacionais de direitos humanos, pois a Constitui\u00e7\u00e3o brasileira ap\u00f3ia todos eles. \u00a0Ent\u00e3o a import\u00e2ncia disto\u00a0 est\u00e1 em se fortalecer a democracia no pa\u00eds, para se construir um estado de fato democr\u00e1tico.<\/p>\n<p class=\"p1\">E junto com isso \u00e9 preciso uma transforma\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es das for\u00e7as armadas. A matan\u00e7a, a tortura e o exterm\u00ednio ainda est\u00e3o acontecendo nos dias de hoje. Todos os dias n\u00f3s estamos nos deparando\u00a0 com casos de atrocidades com inocentes que s\u00e3o assassinados, exterminados nas ruas de S\u00e3o Paulo por policiais.<\/p>\n<p class=\"p1\">Um pa\u00eds que n\u00e3o resolve um problema do passado recente, n\u00e3o vai para \u00a0a frente.\u00a0 N\u00e3o se pode construir uma democracia com uma pol\u00edcia t\u00e3o truculenta, que age como se estivesse numa guerra civil.<\/p>\n<p class=\"p1\">A Policia Militar foi criada na \u00e9poca da ditadura militar por iniciativa das For\u00e7as Armadas. Na \u00e9poca da ditadura, se considerava que o comunista estava dentro do povo. Ent\u00e3o, se dizia que o inimigo estava dentro do povo e poderia ser qualquer um.<\/p>\n<p class=\"p1\">Agora, em vez do comunista, \u00e9 jovem que est\u00e1 na rua. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds onde at\u00e9 hoje n\u00f3s convivemos com presos pol\u00edticos que n\u00e3o foram encontrados, que n\u00e3o foram sepultados. Enquanto na Argentina, torturador vai para a cadeia, como o ex-presidente Jorge Videla, e volta e meia mais uma av\u00f3 da Pra\u00e7a de Maio consegue localizar o neto, n\u00f3s, aqui, n\u00e3o. Precisamos botar um fim na impunidade.<\/p>\n<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Merlino_Arquivo-Pessoal-001-e1344957257459.jpg\" border=\"0\" width=\"315\" height=\"250\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Danielli.jpg\" border=\"0\" width=\"200\" height=\"220\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p><address>Luis Merlino e Carlos Nicolau Danielli foram torturados pessoalmente por Ustra; ambos morreram no DOI-Codi\/SP<\/address>\n<address><\/address>\n<address><\/address>\n<p>Fonte &#8211; Viomundo<\/p>\n<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o mais not\u00f3rio torturador da ditadura militar, segundo o professor F\u00e1bio Konder Comparato<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2051"}],"collection":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2051"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2051\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2051"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2051"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2051"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}