{"id":2101,"date":"2012-08-20T13:24:17","date_gmt":"2012-08-20T13:24:17","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/20\/guerrilha-do-araguaia-uma-guerra-interna-2\/"},"modified":"2012-08-20T13:24:17","modified_gmt":"2012-08-20T13:24:17","slug":"guerrilha-do-araguaia-uma-guerra-interna-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/20\/guerrilha-do-araguaia-uma-guerra-interna-2\/","title":{"rendered":"Guerrilha do Araguaia: uma guerra interna"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Entrevista especial com Leonencio Nossa\u00a0\u201cO exterm\u00ednio no Araguaia foi uma pol\u00edtica de Estado\u201d, aponta o jornalista.\u00a0Confira a entrevistas.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"> <br \/> <\/span>\u201cA guerrilha foi mais um momento da hist\u00f3ria de refluxo do pa\u00eds no tempo. \u00c9 a ilustra\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de um Estado que n\u00e3o aceita o di\u00e1logo e promove uma guerra interna\u201d. \u00c9 assim que o jornalista Leonencio Nossa resume a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/508374-lagopodecobrircorposdeguerrilheirosdoaraguaia\">Guerrilha do Araguaia<\/a>, tema de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/guerrilha-do-araguaia-uma-guerra-interna-entrevista-especial-com-leonencio-nossa\/511860-guerrilha-do-araguaia-uma-guerra-interna-entrevista-especial-com-leonencio-nossa\">seu<\/a> livro Mata! \u2013 O Major Curi\u00f3 e as guerrilhas no Araguaia (S\u00e3o Paulo: <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/guerrilha-do-araguaia-uma-guerra-interna-entrevista-especial-com-leonencio-nossa\/511860-guerrilha-do-araguaia-uma-guerra-interna-entrevista-especial-com-leonencio-nossa\">Companhia<\/a> das Letras, 2012). Ap\u00f3s pesquisar a hist\u00f3ria do movimento guerrilheiro na regi\u00e3o amaz\u00f4nica durante dez anos e ouvir mais de 150 fontes, entre familiares de guerrilheiros e militares, ele enfatiza que o \u201cmovimento armado do PCdoB pode ter sido motivado pelo clima da Guerra Fria, mas a repress\u00e3o \u00e0 guerrilha e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o do sul paraense tem suas ra\u00edzes na forma\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito e na forma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds\u201d. Na <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/guerrilha-do-araguaia-uma-guerra-interna-entrevista-especial-com-leonencio-nossa\/511860-guerrilha-do-araguaia-uma-guerra-interna-entrevista-especial-com-leonencio-nossa\">avalia\u00e7\u00e3o<\/a> dele, a Guerrilha demonstra que \u201ca hist\u00f3ria brasileira n\u00e3o tem ra\u00edzes em Moscou, Tirana ou algum centro de forma\u00e7\u00e3o militar mantido por Washington. A barb\u00e1rie na repress\u00e3o ao grupo armado e a forma\u00e7\u00e3o de v\u00edtimas e algozes podem ser entendidas a partir da an\u00e1lise de outros cap\u00edtulos dram\u00e1ticos da hist\u00f3ria nacional\u201d.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Ao investigar pontos pol\u00eamicos da hist\u00f3ria da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/508652-waimiri-atroari-desaparecidos-politicos-entrevista-especial-com-egydio-schwade\">Ditadura Militar<\/a> e da Guerrilha do Araguaia, Nossa assinala que a \u201cchegada ao poder a partir de um foco no campo, muito citado nos estudos do Araguaia, n\u00e3o \u00e9 preciso na defini\u00e7\u00e3o do que ocorreu na Amaz\u00f4nia\u201d. E dispara: \u201cO Araguaia n\u00e3o era apenas o in\u00edcio de uma marcha revolucion\u00e1ria. A regi\u00e3o era um campo de potencialidades econ\u00f4micas e uma \u00e1rea estrat\u00e9gica nacional, mais que um terreno para o come\u00e7o de uma caminhada rumo a um novo modelo pol\u00edtico para o pa\u00eds e o mundo\u201d.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Na entrevista a seguir, concedida por e-mail \u00e0 IHU On-Line, o jornalista esclarece que a <a href=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/noticias-anteriores\/8045-arquivos-da-guerrilha-do-araguaia-serao-abertos&#038;sa=U&#038;ei=Xo4RUJi7GOP76gHGzICwCQ&#038;ved=0CAcQFjAB&#038;client=internal-uds-cse&#038;usg=AFQjCNG4RFP-m8a6icDedpPnNiEySNDEhw\">Guerrilha do Araguaia<\/a> foi uma das atrocidades da Ditadura Militar brasileira, e, ao resgatar o hist\u00f3rico de militares como Curi\u00f3, demonstra as transforma\u00e7\u00f5es do Estado durante o per\u00edodo militar. \u201cCuri\u00f3 \u00e9 um personagem complexo, que vira homem de destaque n\u00e3o apenas no tempo da repress\u00e3o \u00e0 guerrilha, mas nos per\u00edodos de conflitos agr\u00e1rios, do surgimento do garimpo de Serra Pelada e, mais recentemente, de elei\u00e7\u00f5es diretas e de disputa democr\u00e1tica pelas prefeituras no Par\u00e1. A metamorfose do personagem \u00e9 a metamorfose tamb\u00e9m do Estado brasileiro\u201d. <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa (foto abaixo) \u00e9 graduado em Jornalismo pela Universidade <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/guerrilha-do-araguaia-uma-guerra-interna-entrevista-especial-com-leonencio-nossa\/511860-guerrilha-do-araguaia-uma-guerra-interna-entrevista-especial-com-leonencio-nossa\">Federal<\/a> do Esp\u00edrito Santo \u2013 UFES.\u00a0 Tamb\u00e9m \u00e9 autor de Viagens com o presidente (Rio de Janeiro: Record, 2006), escrito com Eduardo Scolese, e Homens invis\u00edveis (Rio de Janeiro: Record, 2007). Atualmente \u00e9 jornalista do jornal O Estado de S.Paulo.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>Confira a entrevista.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>IHU On-Line \u2013 Depois de pesquisar a Guerrilha do Araguaia durante dez anos, quais s\u00e3o suas impress\u00f5es do que foi esse momento da hist\u00f3ria brasileira? A partir do contraponto de diferentes fontes, \u00e9 poss\u00edvel compreender o que foi a Guerrilha?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa \u2013<\/strong> A guerrilha foi mais um momento da hist\u00f3ria de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/510266-um-mergulho-no-ultimo-suspiro-da-guerrilha\">refluxo do pa\u00eds<\/a> no tempo. \u00c9 a ilustra\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de um Estado que n\u00e3o aceita o di\u00e1logo e promove uma guerra interna. O contraponto de diferentes fontes \u00e9 fundamental para chegarmos pr\u00f3ximos do que foi a guerrilha. A compreens\u00e3o desse momento hist\u00f3rico, por\u00e9m, \u00e9 algo muito dif\u00edcil.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>IHU On-Line \u2013 Como o Araguaia nos ajuda a compreender melhor a hist\u00f3ria do Brasil e tamb\u00e9m da ditadura brasileira?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa &#8211;<\/strong> Quando voc\u00ea olha para o Araguaia passa a enxergar Canudos ou Balaiada num tempo de TV em cores. O movimento armado do PCdoB pode ter sido motivado pelo clima da Guerra Fria, mas a repress\u00e3o \u00e0 guerrilha e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o do sul paraense tem suas ra\u00edzes na forma\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito e na forma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Por isso procurei levantar hist\u00f3rias familiares de guerrilheiros e militares \u2013 ali\u00e1s, acredito que a busca das origens de um personagem nos salva do manique\u00edsmo. A hist\u00f3ria brasileira n\u00e3o tem ra\u00edzes em Moscou, Tirana ou algum centro de forma\u00e7\u00e3o militar mantido por Washington. A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/511265-imagens-de-horror-e-luta-em-fotos-da-ditadura-liberadas-ao-publico\">barb\u00e1rie na repress\u00e3o<\/a> ao grupo armado e a forma\u00e7\u00e3o de v\u00edtimas e algozes podem ser entendidas a partir da an\u00e1lise de outros cap\u00edtulos dram\u00e1ticos da hist\u00f3ria nacional.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>IHU On-Line \u2013 Como a esquerda brasileira viu a iniciativa da Guerrilha do<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Araguaia?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa \u2013<\/strong> Naquele momento, a esquerda e o movimento de combate \u00e0 ditadura estavam fragmentados. A guerrilha surge, ali\u00e1s, de um racha no PCB. Uma ala do partido n\u00e3o aceitava a luta armada. Outra decidiu optar pela guerrilha. Mas entre os que apostavam na luta armada, muitos n\u00e3o acreditavam que era vi\u00e1vel no Brasil a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/42997-governo-pratica-autoritarismo-sobre-o-araguaia\">implanta\u00e7\u00e3o de guerrilhas<\/a> no modelo cubano e chin\u00eas de tomada do poder. N\u00e3o houve um comando geral entre os que decidiram participar da luta armada. Houve, na verdade, uma sucess\u00e3o de dissid\u00eancias, de forma\u00e7\u00e3o de novos grupos. A repress\u00e3o, no entanto, sempre foi centralizada.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>IHU On-Line \u2013 Quais eram as influ\u00eancias ideol\u00f3gicas fundamentais da Guerrilha do<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Araguaia?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa \u2013<\/strong> Os organizadores da Guerrilha do Araguaia se diziam inspirar no modelo mao\u00edsta, at\u00e9 porque tiveram certo apoio de Pequim \u2013 cursos r\u00e1pidos para militantes brasileiros em escolas militares chinesas. Mas, quando se analisam o processo de desenvolvimento da guerrilha e a trajet\u00f3ria pessoal de cada um dos seus integrantes, percebe-se que n\u00e3o h\u00e1 a escolha de um modelo \u00fanico. O grupo era formado por mao\u00edstas, stalinistas, trotskistas, neopositivistas. Mesmo a ideia do foco, a chegada ao poder a partir de um foco no campo, muito citado nos estudos do Araguaia, n\u00e3o \u00e9 preciso na defini\u00e7\u00e3o do que ocorreu na Amaz\u00f4nia. O Araguaia n\u00e3o era apenas o in\u00edcio de uma marcha revolucion\u00e1ria. A regi\u00e3o era um campo de potencialidades econ\u00f4micas e uma \u00e1rea estrat\u00e9gica nacional, mais que um terreno para o come\u00e7o de uma caminhada rumo a um novo modelo pol\u00edtico para o pa\u00eds e o mundo.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>IHU On-Line \u2013 O que a Guerrilha do Araguaia demonstra sobre o presidente Emilio Garrastazu M\u00e9dici?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa \u2013<\/strong> No livro, n\u00e3o procurei demonizar personagens. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o reconhecer, por\u00e9m, que <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/505145-biografiademediciviralibeloparamilitares\">M\u00e9dici<\/a> e sua equipe de governo, naquele momento hist\u00f3rico, optaram pela barb\u00e1rie. O exterm\u00ednio no Araguaia foi uma pol\u00edtica de Estado. M\u00e9dici \u00e9 a figura que est\u00e1 no topo do organograma da repress\u00e3o, sendo substitu\u00eddo depois por Ernesto Geisel.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>IHU On-Line \u2013 Voc\u00ea teve acesso aos arquivos de Sebasti\u00e3o Rodrigues de Moura, o major Curi\u00f3. O que este material revela sobre a atua\u00e7\u00e3o de Curi\u00f3 na Ditadura Militar e na Guerrilha do Araguaia?\u00a0 De modo geral, o que os arquivos que voc\u00ea pesquisou demonstram sobre a trajet\u00f3ria pol\u00edtica e militar dele?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa \u2013<\/strong> O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/noticias-anteriores\/23360-o-major-curio-nao-e-%60%60uma-pessoa-comum%60%60\">Major Curi\u00f3<\/a> ilustra uma gera\u00e7\u00e3o que sucedeu os pracinhas, homens que estiveram na Segunda Guerra, ainda que na condi\u00e7\u00e3o de coadjuvantes, e estabeleceram um paradigma dif\u00edcil de se igualar. Os militares que sucederam os pracinhas v\u00e3o para o Araguaia com a miss\u00e3o de colocar em pr\u00e1tica a pol\u00edtica de M\u00e9dici e Geisel. Curi\u00f3 \u00e9 um personagem complexo, que vira homem de destaque n\u00e3o apenas no tempo da repress\u00e3o \u00e0 guerrilha, mas nos per\u00edodos de conflitos agr\u00e1rios, do surgimento do garimpo de Serra Pelada e, mais recentemente, de elei\u00e7\u00f5es diretas e de disputa democr\u00e1tica pelas prefeituras no Par\u00e1. A metamorfose do personagem \u00e9 a metamorfose tamb\u00e9m do Estado brasileiro. No mercado, h\u00e1 muitos livros que retratam apenas a guerrilha. Eu queria falar do Bico do Papagaio, de muitas guerrilhas, de uma hist\u00f3ria de viol\u00eancia que come\u00e7ou antes do movimento armado do PCdoB e continua at\u00e9 hoje. <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>IHU On-Line \u2013 Ao pesquisar o arquivo de Curi\u00f3, encontrou informa\u00e7\u00f5es sobre a participa\u00e7\u00e3o dele na Encruzilhada Natalina, no Rio Grande do Sul, quando ele acampou em frente a um acampamento de sem-terras, em Ronda Alta, para desarticular o movimento?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa \u2013 <\/strong>O movimento na Encruzilhada Natalino est\u00e1 bem documentado no arquivo. Mas, antes de ter acesso a esses pap\u00e9is, percorri o norte ga\u00facho para reconstituir esse momento importante na hist\u00f3ria do movimento social brasileiro. Natalino \u00e9 o nascimento do MST, o encontro de muitos conflitos reprimidos no Rio Grande do Sul desde o s\u00e9culo XIX. O teste de fogo dos sem-terra vai ocorrer longe de Ronda Alta, justamente no sul do Par\u00e1, com o massacre de Eldorado, em 1996.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>IHU On-Line \u2013 Al\u00e9m do testemunho de Curi\u00f3 e seus documentos, qual \u00e9 a outra vers\u00e3o da hist\u00f3ria? Quem s\u00e3o os demais personagens retratados?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa \u2013<\/strong> Ouvi 153 pessoas, muitas delas moradoras do Araguaia. Sei que \u00e9 dif\u00edcil para alguns entenderem que cidad\u00e3os an\u00f4nimos \u2013 ribeirinhos, mulheres de cabar\u00e9s, garimpeiros \u2013 podem ser fundamentais para uma hist\u00f3ria. N\u00e3o fa\u00e7o aqui uma defesa da hist\u00f3ria dos \u201coprimidos\u201d ou algo parecido. Procuro mostrar o homem simples do Araguaia com toda sua carga dram\u00e1tica, suas qualidades e seus defeitos. No caso de hist\u00f3rias que despertam muitas paix\u00f5es e pol\u00eamicas, o modelo que leva em conta o testemunho de apenas meia d\u00fazia de depoentes est\u00e1 saturado. \u00c9 preciso recorrer a dezenas e at\u00e9 centenas de testemunhas. Tamb\u00e9m me parece ultrapassado o jornalismo que determina que a hist\u00f3ria s\u00f3 pode ser contada por um presidente, um general, um artista. \u00c9 preciso fugir de mem\u00f3rias de hero\u00edsmo, manipuladas. O Araguaia \u00e9 um mosaico de mais de mil personagens. Eu poderia falar de um deles ou de todos. A modernidade nos d\u00e1 as duas op\u00e7\u00f5es. N\u00e3o cabe a um rep\u00f3rter, no entanto, a decis\u00e3o de escolher o n\u00famero de protagonistas de uma hist\u00f3ria. <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/511039-mata-revela-que-a-ditadura-militar-executou-41-guerrilheiros-no-araguaia\">\u201cMata!\u201d \u00e9\u00a0 um livro<\/a> de mais de mil protagonistas.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>IHU On-Line \u2013 Que aproxima\u00e7\u00f5es e diferen\u00e7as percebe entre a Guerrilha do Araguaia e as guerrilhas de Canudos e Cabanada?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa \u2013 <\/strong>A Guerrilha do Araguaia \u00e9 um movimento que \u00e9 idealizado fora da Amaz\u00f4nia, embora muitos homens da regi\u00e3o tenham aderido. J\u00e1 Canudos e a Cabanagem s\u00e3o conflitos de pessoas da terra, do Nordeste e do Norte, respectivamente. Nesse sentido, Canudos \u00e9 at\u00e9 mais da terra que a Cabanagem, que contou com lideran\u00e7as de Bel\u00e9m. Nesses dez anos de pesquisas, foi poss\u00edvel perceber que a popula\u00e7\u00e3o que sofreu as consequ\u00eancias do combate \u00e0 guerrilha no Par\u00e1 descendia de rebeldes ou v\u00edtimas de conflitos do tempo da Col\u00f4nia, do Imp\u00e9rio e do come\u00e7o da Rep\u00fablica. Agora, acredito que as semelhan\u00e7as entre o Araguaia e Canudos e Cabanagem, movimentos de per\u00edodos distintos, se acentuam na forma como foram reprimidos.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>IHU On-Line \u2013 Havia uma conex\u00e3o direta entre os movimentos guerrilheiros na Am\u00e9rica Latina? Existiu uma &#8220;linha mestra&#8221; de pensamento entre suas pr\u00e1ticas?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa \u2013<\/strong> Alguns grupos guerrilheiros no pa\u00eds tiveram conex\u00e3o com governos e movimentos revolucion\u00e1rios de pa\u00edses vizinhos, com menor ou maior intensidade. O Movimento de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, o Molipo, por exemplo, foi formado por exilados brasileiros em Cuba que tiveram apoio do regime de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/42571-fidel-castro-confirma-renuncia-a-direcao-do-partido-comunista\">Fidel Castro<\/a>. Na Am\u00e9rica Latina, h\u00e1 registros de liga\u00e7\u00f5es entre as esquerdas brasileira, chilena, argentina e uruguaia e uma rede de solidariedade entre exilados. No entanto, \u00e9 preciso observar que, no momento mais cruel da repress\u00e3o, essas liga\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram suficientes para fazer frente ao poderio dos governos militares.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>IHU On-Line \u2013 O grupo terrorista alem\u00e3o Baader-Meinhoff se dizia influenciado pelos<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Tupamaros, embora sua linha de a\u00e7\u00e3o fosse bastante diversa. Num contexto internacional, como podemos compreender a conex\u00e3o e inteligentsia entre a esquerda revolucion\u00e1ria?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa \u2013<\/strong> Os dramas sociais da Am\u00e9rica Latina alimentaram os discursos dos movimentos estudantis na Europa, que estavam entrela\u00e7ados com grupos guerrilheiros como o Baader-Meinhoff. Pelo lado dos movimentos guerrilheiros latino-americanos, em especial os brasileiros, o que ocorria na Europa indicava que a tend\u00eancia, o caminho, era a luta armada. Para quem se interessou apenas em revelar o humano na barb\u00e1rie dos anos de chumbo, n\u00e3o foi poss\u00edvel enxergar uma conex\u00e3o, uma inteligentsia, entre as esquerdas no momento mais crucial, ao menos para mim de toda essa hist\u00f3ria tr\u00e1gica, o momento em que jovens estavam sendo ca\u00e7ados na Amaz\u00f4nia e nas cidades brasileiras. As comunidades de latinos exilados na Europa e suas influ\u00eancias na imprensa e na opini\u00e3o p\u00fablica do velho continente n\u00e3o evitaram a barb\u00e1rie no Brasil. As conex\u00f5es externas da Guerrilha do Araguaia, movimento armado que \u00e9 o tema central do meu livro, t\u00e3o associado \u00e0 Alb\u00e2nia e \u00e0 China, eram bem fr\u00e1geis, praticamente inexistentes. Seus l\u00edderes criticavam Fidel e idolatravam os chineses. Mas, enquanto as lideran\u00e7as da guerrilha esperavam ajuda de Pequim, o governo chin\u00eas j\u00e1 negociava acordos comerciais com os militares brasileiros. <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>IHU On-Line \u2013 Qual \u00e9 a influ\u00eancia da obra &#8220;Guerra de guerrilhas&#8221;, de Che Guevara,<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>nos movimentos guerrilheiros dos anos 1960 em diante?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa \u2013<\/strong> \u00c9 um estudo que faz parte da bibliografia usada por guerrilheiros urbanos e rurais no Brasil. Mas vale observar que a<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/noticias-anteriores\/39302-corte-condena-brasil-por-62-mortes-no-araguaia\"> luta armada brasileira<\/a> adquire caracter\u00edsticas nacionais, uma cor brasileira. Procurei no meu livro deixar de lado a guerra fria para entender as ra\u00edzes nacionais da Guerrilha do Araguaia. \u00c9 poss\u00edvel enxergar nesse e em outros movimentos guerrilheiros conex\u00f5es com epis\u00f3dios mais antigos da hist\u00f3ria nacional. \u00c9 uma quest\u00e3o de gosto pessoal. Gosto de hist\u00f3ria do Brasil.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>IHU On-Line \u2013 Considerando sua pesquisa nos \u00faltimos dez anos para compreender parte da hist\u00f3ria da ditadura militar brasileira, como avalia a Comiss\u00e3o da Verdade? Quais os limites e desafios da comiss\u00e3o nesse processo de compreender o que aconteceu nesse per\u00edodo da hist\u00f3ria brasileira?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa \u2013 <\/strong>Meu objetivo era apenas contar uma hist\u00f3ria, elaborar uma narrativa que despertasse a aten\u00e7\u00e3o do leitor. Sempre tive a aten\u00e7\u00e3o voltada para a busca de hist\u00f3rias humanas. Por forma\u00e7\u00e3o, sempre procurei acreditar no <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/511711-comissao-da-verdade-investigara-crimes-cometidos-contra-indios-na-ditadura-militar\">conjunto da sociedade<\/a>. E s\u00f3 posso torcer para que as pessoas se interessem por uma hist\u00f3ria que sempre me fascinou. <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>IHU On-Line \u2013 Como percebe o di\u00e1logo entre as For\u00e7as Armadas e o Estado democr\u00e1tico? Por que os presidentes eleitos ap\u00f3s a democratiza\u00e7\u00e3o preferiram n\u00e3o \u201cmexer\u201d com os militares?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa \u2013<\/strong> A quest\u00e3o da mem\u00f3ria da ditadura n\u00e3o \u00e9 uma demanda da maioria da sociedade. O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso reconheceu a morte de advers\u00e1rios do regime e chegou a criar uma<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/25163-anistia-o-povo-tem-memoria-sim-entrevista-especial-com-oswaldo-munteal-filho\"> lei de repara\u00e7\u00e3o<\/a>, que foi desvirtuada de sua finalidade e virou uma farra com dinheiro p\u00fablico. A pol\u00edtica de repara\u00e7\u00e3o n\u00e3o atende, por exemplo, camadas mais humildes da popula\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m sofreram a viol\u00eancia do Estado. Por sua vez, o governo do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva deixou claro que manteria os arquivos fechados, como seus antecessores. A consolida\u00e7\u00e3o do regime democr\u00e1tico, a abertura dos arquivos, parece n\u00e3o interessar setores de correntes ideol\u00f3gicas diferentes.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>IHU On-Line \u2013 Deseja acrescentar algo? <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Leonencio Nossa \u2013 <\/strong>Muitos descrevem o Brasil a partir de S\u00e3o Paulo, do Rio ou de Bras\u00edlia. Eu respeito essa vis\u00e3o que pode ter origem na ideia de que os bandeirantes ultrapassaram a linha de Tordesilhas e foram os \u00fanicos a inventarem a na\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel, no entanto, fazer uma leitura de Brasil, por exemplo, que valoriza o boi como criatura fundamental na ocupa\u00e7\u00e3o do Nordeste e relembra o movimento fren\u00e9tico dos portos de S\u00e3o Lu\u00eds e de Bel\u00e9m, no tempo da coloniza\u00e7\u00e3o, de onde sa\u00edram as expedi\u00e7\u00f5es de portugueses, espanh\u00f3is, franceses e holandeses para desbravar os sert\u00f5es amaz\u00f4nicos. \u00c9 poss\u00edvel fazer uma leitura do Brasil a partir do homem do Araguaia, do homem de qualquer canto do pa\u00eds. \u00c9 preciso buscar novos caminhos jornal\u00edsticos, ir ao extremo da reportagem, usar todos seus recursos para evitar a vis\u00e3o tediosa e, algumas vezes, limitada de pa\u00eds.<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista especial com Leonencio Nossa\u00a0\u201cO exterm\u00ednio no Araguaia foi uma pol\u00edtica de Estado\u201d, aponta o jornalista.\u00a0Confira a entrevistas.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2101"}],"collection":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2101"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2101\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2101"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2101"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2101"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}