{"id":2131,"date":"2012-08-21T13:05:51","date_gmt":"2012-08-21T13:05:51","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/21\/o-descanso-da-guerreira-2\/"},"modified":"2012-08-21T13:05:51","modified_gmt":"2012-08-21T13:05:51","slug":"o-descanso-da-guerreira-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/21\/o-descanso-da-guerreira-2\/","title":{"rendered":"O descanso da guerreira"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Aposentada. Mas n\u00e3o retirada, isolada, distante. Aos 82 anos, Maria da Concei\u00e7\u00e3o Tavares tem direito ao relaxamento, ocupar-se com outras coisas al\u00e9m dos gr\u00e1ficos, tabelas, estat\u00edsticas que povoaram sua vida e seu c\u00e9rebro desde a gradua\u00e7\u00e3o em matem\u00e1tica na Lisboa dos anos 50 do s\u00e9culo passado. &#8220;J\u00e1 n\u00e3o gosto de economia&#8221;, diz. Mas isso \u00e9 apenas a express\u00e3o de um desejo de tranquilidade, pois nos minutos seguintes est\u00e1 a falar do necess\u00e1rio impulso para o Brasil e o mundo voltarem a crescer: &#8220;Voc\u00ea paralisa uma economia com corte de investimento p\u00fablico e alta de juros. \u00c9 como fechar uma janela puxando um cord\u00e3o. Mas voc\u00ea n\u00e3o abre uma janela emperrada com um cord\u00e3o, talvez seja preciso um porrete. No sentido figurado, \u00e9 claro&#8221;.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E a primeira-dama da economia brasileira ri, com o arrebatamento de sempre: voz grave, racioc\u00ednio r\u00e1pido, palavras doces ou agressivas, a depender da paix\u00e3o que a inspira. Aposentou-se, mas n\u00e3o abandonou a franqueza e o rigor cr\u00edtico. &#8220;Leio o caderno de cultura de voc\u00eas na sexta-feira, \u00e9 um bom caderno. Leio tamb\u00e9m o &#8216;\u00c0 Mesa&#8217;. Mas depende do entrevistado. Se \u00e9 um chato, n\u00e3o leio&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando os rep\u00f3rteres lhe disseram que a inten\u00e7\u00e3o deste &#8220;\u00c0 Mesa com o Valor&#8221; era reatualizar seu perfil por muitos j\u00e1 tra\u00e7ado e &#8220;falar um pouco de tudo&#8221;, Concei\u00e7\u00e3o surpreendeu: &#8220;Se for para falar de tudo, prefiro futebol. Passei a gostar mais de futebol do que de economia. Felizmente, a imprensa do Rio parou de falar da crise no Flamengo. Antes da Olimp\u00edada s\u00f3 dava sa\u00edda do Ronaldinho Ga\u00facho, queda do Joel Santana, entrada do Dorival J\u00fanior&#8230;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; A senhora \u00e9 Flamengo?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o, sou Vasco. A imprensa tem esquecido que o Vasco est\u00e1 entre os l\u00edderes do Brasileir\u00e3o desde o in\u00edcio do campeonato. Foi uma pena perder para o Atl\u00e9tico Mineiro por um golzinho e empatar com aquele time paulista enjoado. Que o Lula n\u00e3o me ou\u00e7a, porque o Corinthians \u00e9 o time dele. Mas aqui no Rio Lula \u00e9 Vasco. Flamengo continua uma porcaria&#8230;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Concei\u00e7\u00e3o agora s\u00f3 d\u00e1 aulas de 15 em 15 dias no Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de onde se aposentou como professora em\u00e9rita. S\u00e3o aulas de economia internacional para turmas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Nos intervalos, deixa-se ficar em seu apartamento do Cosme Velho, no Rio, acompanha o futebol pela TV e ainda n\u00e3o se interessou pelo mensal\u00e3o. E l\u00ea: &#8220;Numa semana vazia, sem aulas, sem palestras, leio um livro por dia&#8221;. A leitura \u00e9 variada, de romances policiais a Virginia Woolf, de cl\u00e1ssicos a contempor\u00e2neos, entre os autores nacionais.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"p1\">&#8211; Para seus alunos, o que est\u00e1 dizendo sobre a atualidade?<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; Que est\u00e1 ruim. \u00c9 o resultado da perversa globaliza\u00e7\u00e3o financeira. Desregularam tudo e abriram as comportas para a especula\u00e7\u00e3o. Os bancos \u00e9 que aprontaram essa trapalhada geral. Veio a crise de 2008 e arrebentou todos. No Brasil, em 2008, a crise n\u00e3o bateu mais pesado porque nossos bancos n\u00e3o estavam metidos na agiotagem internacional. Espero que n\u00e3o estejam metidos agora.<\/p>\n<p class=\"p1\">O Emp\u00f3rio Santa F\u00e9, o restaurante que Concei\u00e7\u00e3o escolheu para este almo\u00e7o num meio-dia de sol no marco zero do encontro da ex-praia do Flamengo com a ex-praia do Russel, n\u00e3o \u00e9 foro apropriado para a reprise de suas aulas, mas a economista nos brinda com alguns &#8220;insights&#8221;. Diz que a &#8220;crise agora \u00e9 mais europeia&#8221;, pois os Estados Unidos voltam a crescer, embora lentamente. &#8220;O Estado americano socorreu os bancos, socorreu as empresas, socorreu as fam\u00edlias que n\u00e3o podiam pagar. O problema na Europa \u00e9 que seu Banco Central s\u00f3 socorre os bancos, em vez de socorrer os pa\u00edses. E a [Angela] Merkel n\u00e3o muda, n\u00e9? Os alem\u00e3es na verdade faturam com a crise. Quem est\u00e1 em crise \u00e9 o resto da Europa. A Alemanha \u00e9 uma esp\u00e9cie de xerife da Europa e, ao mesmo tempo, banqueiro rapinante. \u00c9 a pol\u00edtica ortodoxa.<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; Qual \u00e9 o resultado dessa pol\u00edtica?<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; O \u00f3bvio. Muitos pa\u00edses v\u00e3o quebrar. Tem sorte quem n\u00e3o entrou no euro: a Turquia, que n\u00e3o deixaram entrar, e a Pol\u00f4nia, que tinha moeda fraca, n\u00e3o entrou e est\u00e1 \u00f3tima.<\/p>\n<p class=\"p1\">Concei\u00e7\u00e3o dispensa a oferta de escolher o vinho. No ex\u00edlio do Chile, conheceu o Carmen\u00e8re e acrescentou-o ao Malbec argentino na lista de seus preferidos. Mas os chilenos j\u00e1 n\u00e3o a atraem como dantes &#8211; &#8220;copiaram os americanos e seu vinho ficou muito frutado&#8221;. E agora s\u00f3 bebe refrigerantes. Para os s\u00f3lidos, continua exigente. Pede &#8220;codornas com pinoli e seus ovos&#8221;. A rep\u00f3rter prefere &#8220;mignonnettes \u00e0 moda&#8221; e o rep\u00f3rter, &#8220;arroz com marreco \u00e0 portuguesa&#8221;. A fot\u00f3grafa Aline Massuca, o mesmo que a professora. Ao final, n\u00e3o sobra nada nos pratos e todos parecem felizes com suas escolhas.<\/p>\n<p class=\"p1\">Anadia, uma aldeia do concelho de Aveiro, no oeste de Portugal, a pouco mais de 50 quil\u00f4metros de Coimbra, regi\u00e3o famosa pela produ\u00e7\u00e3o caseira de ovos moles, \u00e9 o local de nascimento de Maria da Concei\u00e7\u00e3o de Almeida Tavares, filha de m\u00e3e cat\u00f3lica e pai anarquista. Em Lisboa, estudava matem\u00e1tica quando, aos 20 anos, se casou com Pedro Soares, aluno de engenharia hidr\u00e1ulica. Formaram-se e vieram em definitivo para o Brasil. &#8220;Portugal de Salazar era uma ditadura selvagem, irrespir\u00e1vel.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\">O casal chegou em fevereiro de 1954, \u00e0s v\u00e9speras de a democracia brasileira mergulhar na crise que levaria ao suic\u00eddio do presidente Get\u00falio Vargas, em agosto. Soares foi trabalhar numa empresa de engenharia que realizava obras na lagoa Rodrigo de Freitas, mas Concei\u00e7\u00e3o, aos 24 anos e gr\u00e1vida de Laura, hoje professora estadual no Rio, n\u00e3o encontrou empresa privada com necessidade ou disposi\u00e7\u00e3o de contratar uma matem\u00e1tica. Seu primeiro emprego foi como estat\u00edstica do Instituto Nacional de Imigra\u00e7\u00e3o e Coloniza\u00e7\u00e3o (Inic), hoje Incra. &#8220;Fiz as primeiras estat\u00edsticas da coloniza\u00e7\u00e3o brasileira&#8221;, diz. &#8220;Vinha de Portugal e j\u00e1 sabia do tamanho do Brasil. Uma coisa \u00e9 voc\u00ea saber que o pa\u00eds \u00e9 grande, outra \u00e9 conhecer os n\u00fameros e perceber quanto \u00e9 grande e desigual. Foi a desumana distribui\u00e7\u00e3o de renda que me levou a estudar economia.&#8221;<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1960\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto17cul-502-mesa-d10.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"400\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\n<address>Maria da Concei\u00e7\u00e3o: &#8220;Janela emperrada n\u00e3o se abre com um cord\u00e3o. Talvez precise um porrete&#8221;<\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"p1\">O ingresso na Faculdade de Economia da ent\u00e3o Universidade do Brasil foi f\u00e1cil. Havia um acordo entre os pa\u00edses lus\u00f3fonos que lhe permitia entrar na faculdade sem prestar vestibular. Estava para cursar o segundo ano quando o conselho da UNB decidiu que o problema era com o diploma do segundo grau. Abandonou a faculdade e teve de matricular-se num curso de madureza para fazer num s\u00f3 os tr\u00eas anos do ciclo colegial &#8211; o chamado &#8220;Artigo 99&#8221;. As disciplinas que tinha de repassar eram portugu\u00eas, hist\u00f3ria, geografia&#8230; e matem\u00e1tica. E, depois disso, submeter-se ao vestibular.<\/p>\n<p class=\"p1\">Tirou o primeiro lugar e voltou ao primeiro ano da faculdade. Em meio ao curso, o mais brilhante dos professores, Oct\u00e1vio Gouv\u00eaa de Bulh\u00f5es (1906-1990), a convidou para ser sua assistente. Inquieta, dedicada, inteligente, por essas virtudes \u00e9 que Concei\u00e7\u00e3o teria sido escolhida, segundo os contempor\u00e2neos. Ela prefere explica\u00e7\u00e3o mais simples: &#8220;Bulh\u00f5es sabia muito de finan\u00e7as e nada de matem\u00e1tica. Numa equa\u00e7\u00e3o simples se embaralhava. Como eu era boa nisso, me chamou como ajudante&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\">A jovem j\u00e1 seguia os passos de economistas de escolas diferentes das de Bulh\u00f5es: seu pensamento econ\u00f4mico em forma\u00e7\u00e3o continha um pouco de Karl Marx e John Maynard Keynes e bastante dos chamados &#8220;estruturalistas&#8221;, que buscavam solu\u00e7\u00f5es para o subdesenvolvimento da Am\u00e9rica Latina: os brasileiros Celso Furtado e Ign\u00e1cio Rangel e o argentino Ra\u00fal Prebisch, secret\u00e1rio-executivo da Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina das Na\u00e7\u00f5es Unidas (Cepal). Bulh\u00f5es, funcion\u00e1rio do Minist\u00e9rio da Fazenda desde 1926, integrou a delega\u00e7\u00e3o brasileira na confer\u00eancia de Bretton Woods (julho de 1944), que criou o Banco Mundial e o Fundo Monet\u00e1rio Internacional, e inspirava-se nos cl\u00e1ssicos do livre mercado, o escoc\u00eas Adam Smith, o austr\u00edaco Friedrich August von Hayek e o brasileiro Eug\u00eanio Gudin.<\/p>\n<p class=\"p1\">As diverg\u00eancias n\u00e3o prejudicaram as rela\u00e7\u00f5es do professor e sua assistente. &#8220;Bulh\u00f5es era liberal em pol\u00edtica e conservador em economia. Ele me dizia: &#8216;Pode falar de seus monop\u00f3lios, mas fale tamb\u00e9m das coisas que eu digo&#8217;. Eu respondia: &#8216;Claro, doutor Bulh\u00f5es&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\">Ainda na Faculdade de Economia, Concei\u00e7\u00e3o conseguiu uma vaga no BNDE &#8211; na \u00e9poca, sem &#8220;S&#8221; &#8211; para integrar, como matem\u00e1tica, a equipe que traduziria em financiamentos para a infraestrutura o Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek. No banco, conheceu Ign\u00e1cio Rangel (1914-1994), economista at\u00e9 hoje pouco louvado por sua contribui\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento do pa\u00eds e um dos concretizadores da utopia de JK de fazer o Brasil crescer 50 anos em 5. Rangel a estimulou a seguir com aten\u00e7\u00e3o as aulas de Bulh\u00f5es. &#8220;A esquerda&#8221;, dizia, &#8220;n\u00e3o estuda com seriedade coisas como moeda, finan\u00e7as, balan\u00e7o de bancos, infla\u00e7\u00e3o. E isso d\u00e1 muito mau resultado.&#8221; Concei\u00e7\u00e3o seguiu o conselho e aprendia pol\u00edtica monet\u00e1ria, de manh\u00e3, com Bulh\u00f5es na universidade, e, \u00e0 tarde, estruturalismo com Rangel no BNDE. Deu certo, como se veria pelos vindouros 55 anos.<\/p>\n<p class=\"p1\">Mais tarde, Bulh\u00f5es, ministro da Fazenda da ditadura, foi da banca examinadora do concurso de livre-doc\u00eancia de Concei\u00e7\u00e3o para a UFRJ, cuja tese, &#8220;Acumula\u00e7\u00e3o de Capital e Industrializa\u00e7\u00e3o no Brasil&#8221;, tinha um cap\u00edtulo de cr\u00edticas expl\u00edcitas \u00e0 pol\u00edtica do governo. &#8220;Ele me aprovou mesmo assim.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p2\">\n<p class=\"p1\">A essas alturas (1965), Concei\u00e7\u00e3o j\u00e1 se tinha separado de Soares e se casado com Ant\u00f4nio Carlos Macedo, um paleont\u00f3logo do Museu Nacional, hoje aposentado e vivendo em Bras\u00edlia. Macedo, de quem tamb\u00e9m se divorciaria mais tarde, \u00e9 pai de Bruno, estudante de cinema depois de ter feito dois outros cursos universit\u00e1rios: produ\u00e7\u00e3o cultural e economia. &#8220;Ele n\u00e3o queria nada com a profiss\u00e3o de economista. Para buscar o diploma, tive que obrig\u00e1-lo.&#8221; Artes audiovisuais parecem ser a verdadeira voca\u00e7\u00e3o de Bruno, j\u00e1 autor de document\u00e1rios sobre Parati e a escola de samba Mangueira. E isso deixa a m\u00e3e intelectual visivelmente orgulhosa: &#8220;S\u00e3o belas pe\u00e7as&#8221;, diz. Mas a protetora m\u00e3e portuguesa se manifesta quando pergunta \u00e0 rep\u00f3rter, que tem filha cineasta: &#8220;Tamb\u00e9m faz cinema a sua menina? Est\u00e1 conseguindo se virar, ganhar a vida?&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\">Concei\u00e7\u00e3o fala de Bulh\u00f5es com respeito e at\u00e9 carinho. Advers\u00e1ria feroz da ditadura, destaca da pol\u00edtica econ\u00f4mica daquela \u00e9poca um dado que, citado por ela, \u00e9 uma homenagem a Bulh\u00f5es, pois a corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria para enfrentar os problemas da d\u00edvida p\u00fablica foi cria\u00e7\u00e3o dele. &#8220;A moeda indexada nos defendeu mais tarde da dolariza\u00e7\u00e3o. Somos o \u00fanico pa\u00eds na Am\u00e9rica Latina que teve hiperinfla\u00e7\u00e3o sem dolarizar. Quando Milton Friedman veio ao Brasil, ficou espantad\u00edssimo: &#8216;\u00c9 o primeiro pa\u00eds que eu vejo que indexa a pr\u00f3pria moeda&#8217;, ele disse.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\">Professora na UFRJ e mais tarde na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Concei\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ficar conhecida por palestras e artigos em revistas especializadas ou nos jornais di\u00e1rios. Saiu do BNDE e foi ser chefe do escrit\u00f3rio da Cepal no Rio. Quando veio o golpe militar, j\u00e1 estava na Cepal. No in\u00edcio, n\u00e3o a molestaram na universidade, mas o fato de Celso Furtado ser o 10\u00ba na primeira lista de 102 brasileiros com seus mandatos cassados ou direitos pol\u00edticos suspensos pela ditadura &#8211; o 11\u00ba foi Josu\u00e9 de Castro, autor de &#8220;Geopol\u00edtica da Fome&#8221; &#8211; demonstraria que o golpe n\u00e3o pouparia os intelectuais.<\/p>\n<p class=\"p1\">Apesar do rarefeito clima para o livre exerc\u00edcio do pensamento &#8211; piorado depois do Ato Institucional n\u00ba 5, em dezembro de 1968 -, surgiu uma nova gera\u00e7\u00e3o de economistas, que influenciaria o debate macroecon\u00f4mico do pa\u00eds pelos 40 anos seguintes. &#8220;Era uma gera\u00e7\u00e3o de cinco brilhantes economistas&#8221;, afirma e, sem acanhamento, inclui-se entre eles. No lado do governo, destaca Ant\u00f4nio Delfim Netto e M\u00e1rio Henrique Simonsen. Na oposi\u00e7\u00e3o, ela pr\u00f3pria e seus colegas, sete e oito anos mais jovens, Carlos Lessa e Ant\u00f4nio Barros de Castro, autores de &#8220;Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Economia &#8211; Uma Abordagem Estruturalista&#8221;, best-seller entre estudantes de economia, j\u00e1 na 31\u00aa edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\">Concei\u00e7\u00e3o refere-se a esses tempos como de debate exaltado, mas pluralista &#8211; at\u00e9 a intromiss\u00e3o da pol\u00edcia, com as consequentes persegui\u00e7\u00f5es, tortura e morte de divergentes. Simonsen foi seu colega no Instituto Nacional de Matem\u00e1tica Pura e Aplicada (Impa) e a professora n\u00e3o esquece que, anos depois, saiu da pris\u00e3o por interfer\u00eancia do ministro da Fazenda do general Ernesto Geisel. Delfim era o mais velho, e hoje Concei\u00e7\u00e3o acha que, pela &#8220;lucidez, contund\u00eancia, ironia&#8221; com que escreve, at\u00e9 parece mais mo\u00e7o. E ri: &#8220;Acho que ele pinta o cabelo. Agora \u00e9 cr\u00edtico severo da globaliza\u00e7\u00e3o da agiotagem. \u00c9 um dos nossos&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; Apesar da ditadura, a senhora estava com frequ\u00eancia na televis\u00e3o. Mas n\u00e3o me lembro de t\u00ea-la visto num debate com o Delfim.<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; Acho que nunca estivemos frente \u00e0 frente. Lembro \u00e9 do que me disse um taxista em S\u00e3o Paulo, que tinha me visto na TV na noite anterior: &#8220;N\u00e3o discuta com o Delfim, porque ele vai sacanear a senhora&#8221;. O Delfim era r\u00e1pido no gatilho, muito sarc\u00e1stico, poderia mesmo ganhar de mim num debate, apesar de eu n\u00e3o ser das mais lentas. J\u00e1 o Campos, eu tirava de letra.<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; Roberto Campos foi seu professor?<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; Era um chato de galochas. Dava aula sobre moeda \u00e0s 7h30. Lia l\u00e1 o caderno, todo mundo ficava com sono. A\u00ed os colegas falavam pra mim: &#8220;Provoca ele&#8221;. Eu provocava, ele debatia e a turma ficava acordada. Naquela altura, era moda ser isento, ent\u00e3o ele me dava 10 mesmo se eu discordasse do que ele ensinava.<\/p>\n<p class=\"p1\">A moda de isen\u00e7\u00e3o acabaria pouco depois, em dezembro de 1968, com a decreta\u00e7\u00e3o do AI-5. A repress\u00e3o desabou sobre as universidades. Todos os professores acusados de esquerdistas perderam sua c\u00e1tedra, inclusive Fernando Henrique Cardoso, na Faculdade de Filosofia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Concei\u00e7\u00e3o se salvou porque estava em licen\u00e7a na UFRJ e na Unicamp e a caminho do Chile, para um autoex\u00edlio que duraria at\u00e9 1973. Em 1972, lan\u00e7ou seu livro de maior repercuss\u00e3o e influ\u00eancia: &#8220;Auge e Decl\u00ednio do Processo de Substitui\u00e7\u00e3o de Importa\u00e7\u00f5es no Brasil &#8211; Da Substitui\u00e7\u00e3o de Importa\u00e7\u00f5es ao Capitalismo Financeiro&#8221;. No Chile, trabalhou na Cepal e para o governo de Salvador Allende. E apareceu numa foto dan\u00e7ando com o guru Ra\u00fal Prebisch. &#8220;Eu dan\u00e7ava com todo mundo&#8221;, \u00e9 seu \u00fanico coment\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"p1\">A partir da\u00ed publicou mais cinco livros e uma centena de artigos, de cuja reuni\u00e3o em uma ou mais obras sempre descuidou. &#8220;N\u00e3o cuido disso, sou um pouco displicente&#8221;, reconhece. Quando fez 80 anos, numa grande festa no Rio que reuniu amigos e ex-alunos &#8211; entre eles os ent\u00e3o candidatos a presidente Dilma Roussef, que conheceu em suas aulas de doutorado em Campinas, e Jos\u00e9 Serra, com quem conviveu no ex\u00edlio do Chile &#8211; lhe prometeram fazer um livro em sua homenagem e uma colet\u00e2nea de tudo o que j\u00e1 escreveu.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Se os livros ainda n\u00e3o sa\u00edram, a Marinha a homenageou com o Pr\u00eamio \u00c1lvaro Alberto para Ci\u00eancia e Tecnologia, em cerim\u00f4nia realizada no Pal\u00e1cio do Planalto. Em seu discurso, Dilma disse que falava de &#8220;disc\u00edpula para mestra&#8221;. E Concei\u00e7\u00e3o, comovida, se despediu dizendo esperar morrer feliz por ser brasileira e triste por ser europeia, pois n\u00e3o acredita viver o suficiente para ver o fim da crise no velho continente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"p1\">No dia seguinte, almo\u00e7ou em Pal\u00e1cio com Dilma e o ministro Guido Mantega. N\u00e3o falaram de futebol, mas Concei\u00e7\u00e3o n\u00e3o diz sobre o que discutiram. Para provocar seu amigo ministro da Fazenda, faz uma s\u00f3 confid\u00eancia: &#8220;Dilma dizia: &#8216;Guido, presta aten\u00e7\u00e3o'&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; A senhora est\u00e1 bem de sa\u00fade?<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; Estou bem. H\u00e1 alguns anos, pensaram que eu tinha um c\u00e2ncer atr\u00e1s das costelas. Abriram &#8211; a opera\u00e7\u00e3o foi horr\u00edvel! &#8211; e era um tumor no tuberculino que devo ter trazido de Portugal, quase t\u00e3o velho quanto eu. Trataram, e ele desapareceu.<\/p>\n<p class=\"p1\">O caf\u00e9 \u00e9 servido e a professora sai para fumar um dos 40 cigarros que consome por dia. O rep\u00f3rter a acompanha e, cavalheiro, n\u00e3o a deixa fumar sozinha.<\/p>\n<p class=\"p1\">Ao contr\u00e1rio de muitos dos companheiros de vida acad\u00eamica, Concei\u00e7\u00e3o n\u00e3o pertenceu ao Partido Comunista Brasileiro na juventude &#8211; &#8220;era apenas pr\u00f3xima&#8221; &#8211; e depois da ditadura se filiou ao PMDB, passando para o PT quando houve o cisma no partido de Ulysses Guimar\u00e3es. Nunca foi, por\u00e9m, militante muito disciplinada. Quando o PMDB apoiou Moreira Franco para o governo do Rio &#8211; &#8220;lindo apelido Leonel Brizola lhe arranjou: gato angor\u00e1&#8221; -, Concei\u00e7\u00e3o se negou a votar nele. No PT, quando a dire\u00e7\u00e3o nacional resolveu apoiar &#8220;o cretino do [Anthony] Garotinho&#8221; para governador, foi direto a Lula para protestar. N\u00e3o votou e foi ao Rio Grande do Sul fazer a campanha do petista Ol\u00edvio Dutra.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em 1993, foi a segunda mais votada para deputada federal na legenda do PT &#8211; o primeiro foi Milton Temer, hoje no PSOL.<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; Por que n\u00e3o quis disputar a reelei\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p class=\"p2\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; &#8216;T\u00e1 maluco? Quase morri. \u00c9ramos s\u00f3 50, 10% da C\u00e2mara. Fomos levados de rold\u00e3o pelo rolo compressor do PSDB com o PFL. N\u00e3o dava para fazer nada. Nem a taxa\u00e7\u00e3o das grandes fortunas, um projeto do pr\u00f3prio Fernando Henrique de outros tempos, que emendei cuidadosamente, conseguimos levar adiante. Consegui aprovar na comiss\u00e3o de finan\u00e7as, mas para levar ao plen\u00e1rio precisava de n\u00e3o sei quantas assinaturas. Fui de deputado em deputado. O Delfim at\u00e9 assinou e disse a um colega dele: &#8216;Assina a\u00ed pra professora n\u00e3o perder seu tempo. Depois a gente derruba no plen\u00e1rio&#8217;. Minha coluna estourou l\u00e1 de tanto estresse. Fiz duas opera\u00e7\u00f5es de coluna. Ah n\u00e3o, foi horr\u00edvel!&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\">O gar\u00e7om vem oferecer o licor, delicado, perfumoso Moscatel de Set\u00fabal, cortesia da casa. \u00c9 por causa da professora portuguesa, com certeza.<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; Como foi essa hist\u00f3ria de o Simonsen t\u00ea-la tirado da cadeia?<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; O M\u00e1rio Henrique foi direto falar com o general Geisel.<\/p>\n<p class=\"p1\">A professora conta como foi sua pris\u00e3o. Voltara do Chile em 1973 e continuara fazendo trabalhos para a Cepal. Em 75, ia viajar para Santiago, quando a prenderam no aeroporto do Gale\u00e3o. Levaram-na num t\u00e1xi para a sede do Dops e de l\u00e1, encapuzada e obrigada a deitar-se no ch\u00e3o do carro, a transportaram para a Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito. Havia testemunhas de sua pris\u00e3o no Gale\u00e3o e &#8220;todo mundo se mexeu&#8221;. Sua filha j\u00e1 estava no Dops com advogado. Em Bras\u00edlia, o ent\u00e3o ministro de Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio, Severo Gomes, ligou para o Dops, para o I Ex\u00e9rcito, e lhe responderam que n\u00e3o havia ningu\u00e9m preso ou detido com o nome da economista. Severo Gomes ligou, ent\u00e3o, para Simonsen.<\/p>\n<p class=\"p1\">Concei\u00e7\u00e3o conta como foi o di\u00e1logo: &#8220;Severo Gomes: &#8216;Prenderam sua colega, a Maria&#8217;. Simonsen: &#8216;Ela \u00e9 maluca. N\u00e3o pode ser&#8217;. Severo Gomes: &#8216;Prenderam, sim, e ningu\u00e9m sabe para onde a levaram. Fale com o presidente&#8221;. Simonsen estava em Bras\u00edlia e foi ao Geisel. O general deu um murro na mesa: &#8220;N\u00e3o \u00e9 contra ela, \u00e9 contra mim&#8221;, segundo relato, mais tarde, do pr\u00f3prio ministro. Sem saber, a professora se vira envolvida nas disputas entre Geisel e os por\u00f5es. Ordens foram dadas e, em horas, Concei\u00e7\u00e3o estava livre. Da\u00ed foi a vez de Bulh\u00f5es, j\u00e1 n\u00e3o mais ministro, interferir. Ligou para Simonsen e explicou que Concei\u00e7\u00e3o poderia ser presa novamente se tentasse viajar. E Simonsen mandou que, em carro oficial e com escolta, Concei\u00e7\u00e3o fosse deixada na escada do avi\u00e3o &#8211; em outro voo, porque o primeiro fora perdido.<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; Agradeceu ao Simonsen mais tarde?<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; O Minist\u00e9rio da Fazenda ainda era no Rio. Entrei no gabinete dele e fui dizendo daquele meu jeito mal-educado. &#8220;Ol\u00e1, M\u00e1rio, tudo bem? Nem vou agradecer porque voc\u00ea n\u00e3o fez nada mais do que sua obriga\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\">S\u00e3o 3 da tarde, \u00faltima semana da Olimp\u00edada de Londres, e Concei\u00e7\u00e3o se retira. Declina da carona e toma um t\u00e1xi sozinha. Ela tem pressa: &#8220;Quero ver as meninas na final do v\u00f4lei de praia&#8221;.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Valor<\/p>\n<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aposentada. Mas n\u00e3o retirada, isolada, distante. Aos 82 anos, Maria da Concei\u00e7\u00e3o Tavares tem direito ao relaxamento, ocupar-se com outras coisas al\u00e9m dos gr\u00e1ficos, tabelas, estat\u00edsticas que povoaram sua vida e seu c\u00e9rebro desde a gradua\u00e7\u00e3o em matem\u00e1tica na Lisboa dos anos 50 do s\u00e9culo passado. &#8220;J\u00e1 n\u00e3o gosto de economia&#8221;, diz. 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