{"id":2156,"date":"2012-08-27T16:55:25","date_gmt":"2012-08-27T16:55:25","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/27\/as-altivas-flechas-amordacadas-2\/"},"modified":"2012-08-27T16:55:25","modified_gmt":"2012-08-27T16:55:25","slug":"as-altivas-flechas-amordacadas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/27\/as-altivas-flechas-amordacadas-2\/","title":{"rendered":"As altivas flechas amorda\u00e7adas"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Em fins de julho fui convidado para a comemora\u00e7\u00e3o do centen\u00e1rio do paj\u00e9 Awa\u00e7ai, velho \u00edndio Aikewara, na aldeia Soror\u00f3 entre S\u00e3o Domingos e S\u00e3o Geraldo do Araguaia. Dirigi-me at\u00e9 a aldeia, distante uns 100 km de Marab\u00e1, em companhia do pesquisador Rodrigo Peixoto do Museu Paraense Emilio Goeldi.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 havia estado ali em 2009 procurando estabelecer contato e coletar informa\u00e7\u00f5es acerca de sepultamentos de desaparecidos pol\u00edticos durante a Guerrilha do Araguaia. \u00c0 \u00e9poca tomei conhecimento mais amiudado das press\u00f5es, constrangimentos, intimida\u00e7\u00f5es e viol\u00eancias praticadas pelas for\u00e7as armadas contra aquela na\u00e7\u00e3o ind\u00edgena na tentativa de sufocar o movimento insurgente araguaiano.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista da hist\u00f3ria da repress\u00e3o militar no pa\u00eds h\u00e1 pouca sistematiza\u00e7\u00e3o de como o regime se comportou diante da quest\u00e3o ind\u00edgena. Sabe-se, em geral, que as pol\u00edticas indigenistas praticadas pelo extinto Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios (SPI) e pela Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), nos tempos de generais no poder, eram todas militarizadas e estavam no famigerado organograma do estado de exce\u00e7\u00e3o inaugurado em 1964.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Muito j\u00e1 se disse sobre os grupos que lutaram contra o regime. H\u00e1 livros sobre tudo relacionado ao tema, at\u00e9 torturadores j\u00e1 escreveram sobre o assunto. Jornalistas e escritores avulsos j\u00e1 se debru\u00e7aram sobre a quest\u00e3o. O hero\u00edsmo e as viol\u00eancias saltam dos livros, das mem\u00f3rias em luta e dos document\u00e1rios. H\u00e1 um enorme esfor\u00e7o em curso para a localiza\u00e7\u00e3o dos que lutaram, muitas vezes em armas, para libertar o pa\u00eds do jugo dos que promoveram a mais lancinante das ditaduras vividas no pa\u00eds tupiniquim.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Todos j\u00e1 foram citados, menos os \u00edndios. A n\u00e3o ser pelos trabalhos acad\u00eamicos da antrop\u00f3loga Iara Ferraz, pelas publica\u00e7\u00f5es do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi) e na revista \u201cHist\u00f3ria Imediata\u201d, organizada por um grupo de jornalistas que em fins dos anos de 1970 apresentaram, em tempos bem dif\u00edceis, a epop\u00e9ia das matas e sert\u00f5es do Araguaia. Naquela publica\u00e7\u00e3o os Aikewaras, como se reconhecem, s\u00e3o registrados nas p\u00e1ginas daquela publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A bem da verdade o termo Suru\u00ed foi um batismo de Frei Gil, religioso que em certa medida \u201cdescobriu\u201d aqueles silv\u00edcolas. Segundo Tiwacu, borboleta azul em tupi, um ca\u00e7ador que morava no p\u00e9 da serra das Andorinhas\/Mart\u00edrios, chamado Zecr\u00f3 foi quem informou ao religioso da presen\u00e7a daqueles homens e mulheres, parte das nossas gentes originarias, naquelas paragens araguaianas.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que Frei Gil estabeleceu profunda rela\u00e7\u00e3o com os Aikewaras na d\u00e9cada de 1950. O termo tupi-guarani constitui uma vis\u00e3o de povo e de humanidade. Anos depois, j\u00e1 na d\u00e9cada de 1960 foi que Roque Laraia, um dos principais antrop\u00f3logos brasileiros estabeleceu contato com os Suru\u00eds. E tudo isso com a colabora\u00e7\u00e3o do franciscano que vivia pelas matas e corrutelas fazendo as desobrigas, ou seja, realizando casamentos e rezando missas em lugares distantes ou in\u00f3spitos.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Eram tempos em que Moroneiko era cacique. As tarefas do cacique est\u00e3o sempre ligadas \u00e0 condu\u00e7\u00e3o dos destinos de seus iguais, como, tamb\u00e9m, na defesa da preserva\u00e7\u00e3o de sua identidade cultural. Ambas as quest\u00f5es est\u00e3o intrinsecamente ligadas formando uma unidade org\u00e2nica. N\u00e3o haver\u00e1 horizonte para a dignidade de nossos primeiros habitantes, mais antigos que o Brasil se a sua cultura, ancestral, n\u00e3o for preservada e difundida na atualidade.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Sabe-se que os Suru\u00ed, em tempos em que ningu\u00e9m mais se lembra, travavam eventuais guerras com os \u00edndios Gavi\u00f5es, na\u00e7\u00e3o do tronco macro-j\u00ea, mas isso \u00e9 coisa de um passado bem distante. Seguramente que as lutas travadas pelos Aikewaras no s\u00e9culo passado estavam sempre ligadas \u00e0 sobreviv\u00eancia enquanto povo, enquanto na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Acontece que a regi\u00e3o do Araguaia conheceu na metade do s\u00e9culo 20 um surto de garimpo em busca de metais precisos, particularmente os cristais e diamantes. Cidades como Xambio\u00e1 e S\u00e3o Geraldo surgiram a essa esteira.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A extra\u00e7\u00e3o de pedras preciosas j\u00e1 \u00e9 bastante antiga na regi\u00e3o ao ponto dos portugueses constru\u00edrem em S\u00e3o Jo\u00e3o, em 1795, uma fortifica\u00e7\u00e3o para fazer o combate aos traficantes de minerais de alto valor. Os bandeirantes &#8211; dentre eles Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera &#8211; j\u00e1 haviam relatado nos idos dos s\u00e9culos XVI e XVII sobre as montanhas de ouro dos Mart\u00edrios.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A migra\u00e7\u00e3o das gentes do nordeste e do centro-oeste para o garimpo fez crescer as press\u00f5es sobre os Suru\u00ed. Ao lado disso outro surto econ\u00f4mico, o da castanha, fez aumentar exponencialmente as dificuldades dos silv\u00edcolas a um n\u00edvel, inclusive, de aliena\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios e grave diminui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960 as entranhas do Araguaia e do Tocantins v\u00e3o conhecer a figura de Coriolano, jagun\u00e7o que fez hist\u00f3ria por matar \u00edndios sempre no sentido de limpar os castanhais para seus novos \u201cdonos\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Os Suru\u00ed quase desaparecem. Havia em torno de mil \u00edndios na d\u00e9cada de 1940. A press\u00e3o seja dos donos de garimpos como tamb\u00e9m da grande propriedade rural reduziu-os, na d\u00e9cada de 1960, a pouco mais de trinta ind\u00edgenas como nos ensina a antrop\u00f3loga Iara Ferraz, que viveu e estudou-os na d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O fato de quase terem chegado \u00e0 extin\u00e7\u00e3o lhes empresta um orgulho latente. S\u00f3 n\u00e3o desapareceram porque foram fortes, mais fortes que os que atuaram para dizim\u00e1-los. O orgulho dos Aikewara emociona.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Os Suru\u00ed foram logo procurados quando as tropas oficiais invadiram o Araguaia em abril de 1972. <\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A mem\u00f3ria de Tiwacu denuncia que dois helic\u00f3pteros baixaram na aldeia e um sargento, valent\u00e3o &#8211; apenas para com aqueles que estavam sob sua cust\u00f3dia, em geral agrilhoados &#8211; disse-lhe que os \u00edndios deveriam ca\u00e7ar \u201cterroristas\u201d, jarg\u00e3o utilizado pela repress\u00e3o pol\u00edtica para desqualificar aqueles que ousavam lutar pelas liberdades p\u00fablicas. O ex-cacique al\u00e9m de ter levado coronhadas, de ter levado um tiro num encontro com a guerrilha nas matas, teve que &#8211; sob a mira dos fuzis &#8211; torturar a pr\u00f3pria m\u00e3e de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Muitas \u00edndias sofreram estupros e mais de uma dezena de Aikewaras foram obrigados a servir de rastejadores. <\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Recentemente o jornal \u201cBrasil de Fato\u201d exp\u00f4s as contundentes declara\u00e7\u00f5es de Egydio Schwade, indigenista das antigas que, dentre outras declara\u00e7\u00f5es, afirma que pelo menos dois mil ind\u00edgenas dos Waimiri-Atroari est\u00e3o desaparecidos. Aldeias inteiras desapareceram \u00e0 esteira da constru\u00e7\u00e3o da BR 174 que liga Manaus \u00e0 Boa Vista entre 1967 a 1977. Armas qu\u00edmicas e de fogo foram utilizadas contra os nossos primeiros habitantes.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A den\u00fancia de Schwade \u00e9 aterradora: \u201cS\u00e3o diversas hist\u00f3rias e a mais chocante fala sobre morte em massa.Uma aldeia estava em festa e nessas ocasi\u00f5es praticamente todo o povo se movimenta. Tudo indica que foi no final de setembro de 1974, quando de repente, um pouco mais do meio dia, um helic\u00f3ptero do Ex\u00e9rcito jogou um p\u00f3 sobre as pessoas que as deixaram todas mortas. S\u00f3 uma pessoa n\u00e3o morreu. E foi como se n\u00e3o tivesse acontecido nada no Brasil\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade t\u00eam a tarefa de p\u00f4r a nu tais atrocidades.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Naquele dia do centen\u00e1rio do paj\u00e9 Awa\u00e7ai pude encontrar Mass\u00fa, que j\u00e1 conhecia de nome atrav\u00e9s da figura emblem\u00e1tica de Sinvaldo Gomes e de relatos que ele me fazia nas imensas noites na beira do Fortaleza, igarap\u00e9 dos insurgentes, nos anos de 1990. Sinvaldo sempre falava de Mass\u00fa. Ao v\u00ea-lo lembrei-me do amigo que, em certa medida, me reapresentou as gentes e os sert\u00f5es araguaianos.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Mesmo em tempo de festa os Suru\u00ed n\u00e3o deixaram de falar de suas preocupa\u00e7\u00f5es e, em particular, da necessidade de expans\u00e3o de seu territ\u00f3rio. Em certa medida a amplia\u00e7\u00e3o de suas terras corresponde \u00e0 sobreviv\u00eancia das futuras gera\u00e7\u00f5es. Ocorre que ao longo dos anos o Incra assentou nas terras reivindicadas pelos Aikewaras mais de 120 fam\u00edlias de pequenos propriet\u00e1rios de terras, jogando uns contra os outros.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Naquele dia perdido de fins de julho Akarapytan pintou-me, com jenipapo, a flor da castanha, no rosto e bra\u00e7os. Falou-me do petymahow, festa espiritual que envolve a fartura da terra. Ensinou-me que menino \u00e9 iwsa, e. Que kuso \u00e9 mulher e que akuma, e \u00e9 homem. E que nunca devo me comportar como um camar\u00e1-punura, ou seja, branco ruim. Aprendi, tamb\u00e9m, que sahi quer dizer lua, que ara \u00e9 sol e que isa \u00e9 terra. A cosmologia dos nossos primeiros habitantes impressiona.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ren\u00ea Suru\u00ed que escuta a conversa nos d\u00e1 a no\u00e7\u00e3o da dial\u00e9tica quando, em meio ao nosso aprendizado afirma que \u201co feio e o bonito est\u00e1 junto\u201d. O jovem Ren\u00ea deve estar falando da trajet\u00f3ria ancestral daquela na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Arekass\u00fa, sentado meio distante faz um cigarro com mat\u00e1-mat\u00e1, casca de pau que se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria se chama mamae. J\u00e1 n\u00e3o quero mais meus cari\u00fas, cigarro de branco. O velho \u00edndio que n\u00e3o sabe a idade me fala do mito de tu\u00e3pekwakaw-kwera, nome da \u00edndia que morreu com uma espinha de peixe entalada na garganta.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Mesmo com todas as dificuldades e press\u00f5es os Suru\u00ed j\u00e1 s\u00e3o mais de 400, divididos em dois aldeamentos, Itahy e Soror\u00f3. Cerca de 20 estudam na Universidade do Estado do Par\u00e1 (UEPa), s\u00e3o bem politizados e fazem um esfor\u00e7o necess\u00e1rio para reaprenderem sua l\u00edngua e cultivarem suas tradi\u00e7\u00f5es. N\u00e3o haver\u00e1 dia em que me esquecerei do orgulho Aikewara.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><span class=\"s2\">Por Paulo Fonteles Filho &#8211; <\/span> membro da Associa\u00e7\u00e3o dos Torturados da Guerrilha do Araguaia e colaborador do Vermelho<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em fins de julho fui convidado para a comemora\u00e7\u00e3o do centen\u00e1rio do paj\u00e9 Awa\u00e7ai, velho \u00edndio Aikewara, na aldeia Soror\u00f3 entre S\u00e3o Domingos e S\u00e3o Geraldo do Araguaia. 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