{"id":2180,"date":"2012-08-28T12:45:33","date_gmt":"2012-08-28T12:45:33","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/28\/eua-sabiam-o-que-ocorria-na-ditadura-argentina-diz-autor-de-documentario-2\/"},"modified":"2012-08-28T12:45:33","modified_gmt":"2012-08-28T12:45:33","slug":"eua-sabiam-o-que-ocorria-na-ditadura-argentina-diz-autor-de-documentario-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/28\/eua-sabiam-o-que-ocorria-na-ditadura-argentina-diz-autor-de-documentario-2\/","title":{"rendered":"EUA sabiam o que ocorria na ditadura argentina, diz autor de document\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Charlie Tuggle, professor da UNC, defende a abertura dos documentos da diplomacia norte-americana<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2040\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/abuelas.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"157\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address \/>A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, entrega \u00e0s Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio pr\u00eamio de direitos humanos, em dezembro de 2010  <!--more-->  <\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil pensar em algu\u00e9m que n\u00e3o conhe\u00e7a o movimento argentino das Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio. H\u00e1 35 anos, a organiza\u00e7\u00e3o investiga o paradeiro de cerca de 500 beb\u00eas que foram apropriados ilegalmente durante a ditadura militar no pa\u00eds. Pois as abuelas, que recentemente encontraram o 106\u00ba neto, passaram despercebidas entre muitas pessoas nos Estados Unidos. Pior: a pr\u00f3pria hist\u00f3ria dos abusos cometidos pelo regime militar argentino \u00e9 desconhecida entre os norte-americanos. \u00c9 o que relata Charlie Tuggle, professor de jornalismo da UNC (Universidade da Carolina do Norte &#8211; Chapel Hill) e produtor do document\u00e1rio \u201cLas abuelas de Plaza de Mayo \u2013 A busca por identidade\u201d, rec\u00e9m-lan\u00e7ado no pa\u00eds. Segundo Tuggle, a rea\u00e7\u00e3o ao filme pode ser resumida numa frase: as pessoas simplesmente n\u00e3o sabiam do ocorrido. \u201cOs norte-americanos t\u00eam uma ideia muito vaga sobre isso. Somos mal informados sobre o que aconteceu, como isso nos afetou e como est\u00e1vamos envolvidos\u201d, diz.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Produzido com a ajuda de tr\u00eas estudantes e das duas filhas de Tuggle \u2013 tamb\u00e9m jornalistas \u2013, o document\u00e1rio retoma as trajet\u00f3rias de jovens que tiveram suas identidades resgatadas e tamb\u00e9m conta o \u201clado norte-americano\u201d da hist\u00f3ria das abuelas. Em outras palavras, o jornalista ressalta o papel do diplomata Tex Harris para que o mundo soubesse o que acontecia na Argentina \u00e0 \u00e9poca dos Anos de Chumbo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em entrevista a seguir, Tuggle defende a libera\u00e7\u00e3o dos documentos secretos sobre as ditaduras na Am\u00e9rica Latina por parte do governo norte-americano. \u201cA \u00fanica raz\u00e3o pela qual voc\u00ea bloqueia a divulga\u00e7\u00e3o de documentos \u00e9 porque voc\u00ea n\u00e3o quer que as pessoas saibam o que eles revelam\u201d, afirma.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Opera Mundi: Como surgiu a ideia de produzir o document\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Charlie Tuggle:<\/strong> Em 2002, conheci dois estudantes na universidade que participavam da bolsa Morehead [Morehead Cain Scholars Program]. Eles ouviram falar nos Anos de Chumbo pela primeira vez aqui, na UNC &#8211; isso porque eles eram considerados alunos brilhantes. Decidiram viajar \u00e0 Argentina para fazer reportagens sobre o assunto e descobriram o grupo das Abuelas. Algum tempo depois, comecei a lecionar na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica Argentina e fiquei mais interessado no pa\u00eds \u2013 e particularmente nesse grupo de senhoras. Passei a viajar nas f\u00e9rias para l\u00e1. Em 2009, minhas filhas pediram para participar do projeto. A mais jovem chegou a ganhar um pr\u00eamio nacional com uma reportagem sobre as abuelas. J\u00e1 a filha mais velha achou que textos isolados n\u00e3o abordavam o assunto a fundo. Ela sugeriu: por que n\u00e3o fazemos um document\u00e1rio em fam\u00edlia sobre o assunto? E n\u00f3s fizemos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>OM: Qual das hist\u00f3rias te impactou mais?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CT: <\/strong>A hist\u00f3ria de Alejandro Sandoval, que viveu a vida toda como filho de uma fam\u00edlia que n\u00e3o era a dele, sem desconfiar disso. Porque para aqueles que sabiam que algo estava errado e j\u00e1 n\u00e3o gostavam dos pais adotivos, havia a sensa\u00e7\u00e3o de estranhamento. Mas Alejandro tinha uma vida boa. Ele era tratado como filho, mas descobriu que tudo era mentira. \u00c9 uma mudan\u00e7a monumental. Meu personagem favorito foi o pai que ficou exilado por cinco anos, passou a vida inteira procurando o filho e chegou a fingir que era um carteiro para v\u00ea-lo. No final, mesmo ap\u00f3s ter encontrado o filho, ele diz: \u201cn\u00e3o acho que \u00e9 poss\u00edvel resgatar o tempo perdido\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"p1\"><strong>OM: Na sua opini\u00e3o, por que na Argentina ocorreram movimentos t\u00e3o expressivos como os da madres e das abuelas, mas outros pa\u00edses ainda penam para lidar com as mem\u00f3rias da ditadura militar?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>CT:<\/strong> Quem explica isso s\u00e3o elas pr\u00f3prias, as madres e as abuelas. As madres ainda fazem passeatas semanais em frente \u00e0 Casa Rosada. Essas s\u00e3o pessoas que colocaram as suas pr\u00f3prias vidas em risco. Algumas madres foram capturadas, torturadas e mortas. Trata-se de um grupo de mulheres fortes, sem poder pol\u00edtico algum, e que decidiram n\u00e3o ficar caladas sobre o que estava acontecendo. \u00c9 uma hist\u00f3ria sobre a qual todos n\u00f3s podemos aprender.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>OM: O document\u00e1rio diz que os Anos de Chumbo come\u00e7aram por conta de atos terroristas de grupos organizados. Qual \u00e9 o conceito de terrorismo usado por voc\u00eas?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>CT: <\/strong>O document\u00e1rio nasceu a partir de uma extensa pesquisa sobre a hist\u00f3ria da Argentina. Estou convencido de que houve uma resist\u00eancia armada. Aproximadamente duas mil pessoas estavam envolvidas em todo o pa\u00eds em grupos como o dos Monteneros e o Ex\u00e9rcito Revolucion\u00e1rio Popular (ERP). Podemos cham\u00e1-los de terroristas porque eles estavam tentando depor o governo, estavam armados e organizados. A quest\u00e3o central, para mim, \u00e9 como voc\u00ea sai de dois mil terroristas armados para 30 mil pessoas capturadas, torturadas e assassinadas. Se houve terrorismo, e eu reconhe\u00e7o que houve, por que matar uma mosca com uma bigorna? Qual foi a resposta ao n\u00edvel de amea\u00e7a? Foi muito al\u00e9m do que deveria ter sido.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2049\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/tuggle%281%29.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Charlie Tuggle,\u00a0professor de jornalismo UNC e produtor de document\u00e1rio sobre as Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>OM: O filme tamb\u00e9m aborda a mudan\u00e7a de pol\u00edtica externa norte-americana com a entrada do ex-presidente Jimmy Carter. Como voc\u00ea v\u00ea a interfer\u00eancia dele na Argentina?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CT:<\/strong> Entre as d\u00e9cadas de 60 e 80, qualquer pa\u00eds considerado \u201canticomunista\u201d era aliado dos EUA. N\u00e3o importava muito o que era feito. Voc\u00ea podia sequestrar, torturar e assassinar seus pr\u00f3prios cidad\u00e3os, mas, se era anticomunista, era amigo dos EUA.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Era essa a pol\u00edtica, e n\u00e3o s\u00f3 na Argentina, mas em todo o Hemisf\u00e9rio Sul (e h\u00e1 quem n\u00e3o queira que essa hist\u00f3ria venha a ser contada). Minha opini\u00e3o \u00e9 que o momento em que o governo norte-americano mais deu suporte aos direitos humanos aconteceu na administra\u00e7\u00e3o de Jimmy Carter. O apoio nunca foi t\u00e3o pronunciado como naquela \u00e9poca. N\u00e3o me propus a fazer esse filme para transformar Carter em um her\u00f3i, n\u00e3o me importo com isso. Mas qualquer que seja sua opini\u00e3o sobre ele, \u00e9 preciso admirar o fato de que ele se pronunciou a respeito dos direitos humanos.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>OM: O que voc\u00ea quer dizer com a frase \u201ch\u00e1 quem n\u00e3o queira que essa hist\u00f3ria venha a ser contada\u201d?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>CT: <\/strong>H\u00e1 um movimento em Washington para que os documentos dessa \u00e9poca sejam liberados, mas ele sempre \u00e9 bloqueado. A \u00fanica raz\u00e3o pela qual voc\u00ea bloqueia a divulga\u00e7\u00e3o de documentos \u00e9 porque voc\u00ea n\u00e3o quer que as pessoas saibam o que eles revelam. Aqueles que foram abertos mostram que, no m\u00ednimo, sab\u00edamos o que estava acontecendo e n\u00e3o fizemos nada a respeito. Muitas pessoas na Argentina dizem: \u201cos EUA estavam por tr\u00e1s de tudo, treinaram os militares argentinos com t\u00e9cnicas de tortura\u201d. Talvez, ainda n\u00e3o temos os documentos para provar isso. Mas, no m\u00ednimo, sab\u00edamos que as pessoas estavam sendo torturadas e assassinadas, e n\u00e3o fizemos absolutamente nada.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>OM: Como tem sido a rea\u00e7\u00e3o dos norte-americanos ao document\u00e1rio?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>CT:<\/strong> A rea\u00e7\u00e3o tem sido: \u201cuau, n\u00e3o tinha a menor ideia de que isso aconteceu\u201d. As pessoas imaginam que isso poderia acontecer na \u00c1frica Subsaariana ou na Alemanha Nazista. Mas na Argentina, no Brasil, no Chile? As pessoas t\u00eam uma ideia muito vaga sobre isso. Somos mal informados sobre o que aconteceu, como isso nos afetou e como est\u00e1vamos envolvidos. Espero que o document\u00e1rio abra os olhos das pessoas para que elas pensem: \u201cse o nosso governo sabia que isso estava acontecendo e n\u00e3o fez nada, precisamos mudar as pessoas que est\u00e3o no governo\u201d. Outra coisa \u00e9 que temos uma cultura muito centrada no pr\u00f3prio pa\u00eds. Nossos cidad\u00e3os n\u00e3o est\u00e3o interessados o suficiente no que acontece no resto do mundo \u2013 \u00a0apesar de que isso est\u00e1 mudando. Precisamos mudar o olhar para o mundo como cidad\u00e3os.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>OM: Quais s\u00e3o os planos para o document\u00e1rio no futuro?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>CT:<\/strong> Acabamos de traduzir o roteiro para o chin\u00eas. Temos estudantes chineses na universidade e eles sugeriram a tradu\u00e7\u00e3o porque muitas pessoas na China sofreram e sofrem abusos de direitos humanos.<\/p>\n<p class=\"p2\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\">Fonte &#8211; Opera Mundi<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Charlie Tuggle, professor da UNC, defende a abertura dos documentos da diplomacia norte-americana A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, entrega \u00e0s Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio pr\u00eamio de direitos humanos, em dezembro de 2010<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2180"}],"collection":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2180"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2180\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2180"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2180"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2180"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}