{"id":2190,"date":"2012-09-01T21:03:42","date_gmt":"2012-09-01T21:03:42","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/09\/01\/primeira-prisao-de-carlos-marighella-aconteceu-ha-80-anos-no-terreiro-de-jesus-2\/"},"modified":"2012-09-01T21:03:42","modified_gmt":"2012-09-01T21:03:42","slug":"primeira-prisao-de-carlos-marighella-aconteceu-ha-80-anos-no-terreiro-de-jesus-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/09\/01\/primeira-prisao-de-carlos-marighella-aconteceu-ha-80-anos-no-terreiro-de-jesus-2\/","title":{"rendered":"Primeira pris\u00e3o de Carlos Marighella aconteceu h\u00e1 80 anos no Terreiro de Jesus"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Logo mais, quando a noite cair sobre o Terreiro de Jesus, completar\u00e1 80 anos a primeira pris\u00e3o de Carlos Marighella (1911-1969), um dos baianos mais conhecidos do planeta. Foi ali, no pr\u00e9dio da Faculdade de Medicina, que o ent\u00e3o estudante de Engenharia Civil da Escola Polit\u00e9cnica da Bahia e outros 513 universit\u00e1rios se renderam \u00e0s tropas de Juracy Magalh\u00e3es, o interventor despachado para o estado pelo presidente Getulio Vargas.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 22 de agosto de 1932, nasceu uma hist\u00f3ria pol\u00edtica que s\u00f3 terminaria \u00e0 bala, com o assassinato de Marighella. Ou melhor, pareceu terminar: nunca ele foi t\u00e3o falado e comentado como hoje.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A internet e a MTV exibem clipe com dire\u00e7\u00e3o de Daniel Grinspum e m\u00fasica dos Racionais MC\u2019s, dedicada ao revolucion\u00e1rio carimbado pela ditadura militar (1964-1985) como seu inimigo n\u00famero um. Por todo o Brasil, tamb\u00e9m em Salvador, os cinemas passam Marighella, document\u00e1rio de sua sobrinha Isa Grinspum Ferraz.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A revista Piau\u00ed de agosto narra a pris\u00e3o, em 1964, do antigo deputado federal comunista (1946-1948). \u00c9 a \u00edntegra do primeiro cap\u00edtulo do meu livro Marighella \u2013 o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo. A biografia consumiu nove anos de trabalho. Sai em outubro, pela editora Companhia das Letras.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Primeiras batalhas<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Exatas oito d\u00e9cadas atr\u00e1s, Marighella era um dos acad\u00eamicos do ensino superior que reivindicavam a elabora\u00e7\u00e3o de uma Constituinte democr\u00e1tica no pa\u00eds. Aqui em Salvador, eles se uniram aos garotos do legend\u00e1rio Gin\u00e1sio da Bahia, que se mobilizavam pelo adiamento das provas. Ocuparam a Faculdade de Medicina, gritaram slogans contra o autoritarismo, proclamaram \u201c\u00c0s armas, baianos!\u201d e empunharam velhos fuzis de Canudos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um homem foi morto na refrega com militares e policiais. O bacharel Nelson Carneiro, um dos l\u00edderes da ocupa\u00e7\u00e3o e futuro senador da lei do div\u00f3rcio, foi detido e tomou uma tunda dos tiras. Encarcerado por dois dias, Marighella comp\u00f4s na penitenci\u00e1ria um poema atacando Juracy, que n\u00e3o o perdoou. Os originais do inqu\u00e9rito, em papel alma\u00e7o intacto, foram uma das minhas fontes para reconstituir o epis\u00f3dio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Internacional<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Muito tempo mais tarde, no finalzinho dos anos 1960, Marighella e sua organiza\u00e7\u00e3o armada, a A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), viriam a receber apoio de celebridades como o pintor Joan Mir\u00f3, o fil\u00f3sofo Jean-Paul Sartre e os cineastas Jean-Luc Godard e Luchino Visconti.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No Brasil, colaboraram com a ALN artistas como Augusto Boal, Norma Bengell e Glauber Rocha &#8211; como Marighella, ex-aluno do Gin\u00e1sio da Bahia, col\u00e9gio depois denominado Central. Os escritos de Marighella viajaram mundo afora. As buscas no Google estampam seu nome como autor de textos reproduzidos em idiomas, para n\u00f3s, ex\u00f3ticos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por mais que tenha se tornado uma personalidade internacional, Marighella jamais diluiu sua identidade -\u201cSou um mulato baiano\u201d, definiu-se \u00e0 poeta Ana Montenegro (entrevistei-a para o livro).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No Gin\u00e1sio da Bahia, ele se beneficiou da reforma implementada pelo educador An\u00edsio Teixeira. Teve aulas com a primeira mulher a lecionar na institui\u00e7\u00e3o, Heddy Peltier Cajueiro (outra entrevistada). Sua prova de f\u00edsica respondida em versos jamais foi esquecida, testemunhou um aluno bem mais novo, o futuro governador Antonio Carlos Magalh\u00e3es (tamb\u00e9m entrevistado).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Conex\u00f5es baianas<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Candidato vitorioso a deputado em 1945, Marighella apoiou na campanha a constru\u00e7\u00e3o de um est\u00e1dio na Fonte Nova &#8211; por coincid\u00eancia, nascera ali pertinho, como revela sua certid\u00e3o. Pelejou de novo contra Juracy Magalh\u00e3es, seu colega na Constituinte de 1946. Subiu no palanque do candidato a governador Ot\u00e1vio Mangabeira, em 1947, e n\u00e3o tardou a romper com ele.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Teve como motorista o camarada Jo\u00e3o Falc\u00e3o (com quem conversei), depois um dos empres\u00e1rios mais bem-sucedidos do estado. Foi amigo de Jorge Amado e Zelia Gattai. Caetano Veloso e Gilberto Gil (este me deu depoimento em Bras\u00edlia) simpatizavam com sua luta.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O trio el\u00e9trico passa pela fam\u00edlia Marighella: Osmar Macedo, um dos seus criadores, foi aprendiz na oficina mec\u00e2nica do italiano Augusto, o pai de Marighella, na Baixa dos Sapateiros. A m\u00e3e, Maria Rita, era uma descendente de escravos africanos vinda ao mundo em maio de 1888, o m\u00eas da Aboli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Memorial <\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><br \/> <\/span>A pris\u00e3o em 1932 e a persegui\u00e7\u00e3o desencadeada pelo poema escrito na cadeia o impediram de se formar engenheiro. Em 1934, ele ingressou no Partido Comunista, como lembrou em detalhes numa autobiografia manuscrita em Moscou e \u00e0 qual tive acesso. Marighella foi dos poucos brasileiros espionados pela CIA, ag\u00eancia dos Estados Unidos, e ao mesmo tempo monitorado pelo KGB, sua cong\u00eanere da ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Suas batalhas ecoaram longe, mas Marighella teve uma hist\u00f3ria entrela\u00e7ada como poucas \u00e0 da Bahia e seu povo. Quando lan\u00e7ar o livro em Salvador, entregarei ao seu filho, o advogado Carlos Augusto Marighella, preciosidades documentais que acumulei na garimpagem de informa\u00e7\u00f5es por quase uma d\u00e9cada. Ser\u00e1 o meu tijolinho para a constru\u00e7\u00e3o de um memorial Marighella em sua terra.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Por M\u00e1rio Magalh\u00e3es \u00e9 jornalista &#8211; escritor<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Logo mais, quando a noite cair sobre o Terreiro de Jesus, completar\u00e1 80 anos a primeira pris\u00e3o de Carlos Marighella (1911-1969), um dos baianos mais conhecidos do planeta. 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