{"id":2194,"date":"2012-09-01T21:32:24","date_gmt":"2012-09-01T21:32:24","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/09\/01\/lamarca-a-marca-de-um-traidor-do-exercito-e-da-patria-2\/"},"modified":"2012-09-01T21:32:24","modified_gmt":"2012-09-01T21:32:24","slug":"lamarca-a-marca-de-um-traidor-do-exercito-e-da-patria-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/09\/01\/lamarca-a-marca-de-um-traidor-do-exercito-e-da-patria-2\/","title":{"rendered":"Lamarca: A \u201cmarca\u201d de um traidor do Ex\u00e9rcito e da P\u00e1tria."},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">LAMARCA: A TRAJET\u00d3RIA DE UM DESERTOR\u00a0por F. Dumont<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><strong>1.O FIM E O COME\u00c7O.  <!--more-->  <\/strong><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"> <span class=\"s2\">No meio da tarde de uma sexta-feira, sob o ardente calor de 40 graus da caatinga do sert\u00e3o baiano, uma equipe de agentes, aproximando-se passo a passo, vislumbrou os dois homens que descansavam \u00e0 sombra de uma bara\u00fana, no lugarejo de Pintada, munic\u00edpio de Oliveira dos Brejinhos.<\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span><span class=\"s2\">\u00c0 voz de pris\u00e3o, tentaram sacar suas armas. Duas rajadas curtas mataram os dois homens.<\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span><span class=\"s2\">Um deles era Jos\u00e9 Campos Barreto, o Zequinha, morador da regi\u00e3o.<\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span><span class=\"s2\">O outro, tamb\u00e9m conhecido por &#8220;Renato&#8221;, &#8220;C\u00e9lio&#8221;, &#8220;Sylas&#8221;, &#8220;Jo\u00e3o&#8221;, &#8220;C\u00e9sar&#8221;, &#8220;Paulista&#8221;, &#8220;Cl\u00e1udio&#8221;, <\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span><span class=\"s2\">&#8220;Cid&#8221; e &#8220;Cirilo&#8221;, era Carlos Lamarca, ex-Capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito, ex-dirigente da Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR) e da Vanguarda Armada Revolucion\u00e1ria &#8211; Palmares (VAR-P), naqueles tempos j\u00e1 militante do Movimento Revolucion\u00e1rio Oito de Outubro (MR-8) e escondido no interior da Bahia.<\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span><span class=\"s2\">Foi o fim tr\u00e1gico de um desertor.<\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span><span class=\"s2\">Filho de pais pobres, Lamarca nasceu em 27 de outubro de 1937 e viveu, at\u00e9 os 17 anos, no Morro de S\u00e3o Carlos, no Rio de Janeiro, com seus irm\u00e3os e uma irm\u00e3 de cria\u00e7\u00e3o, Maria Pavan, que viria a ser sua esposa.<\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span><span class=\"s2\">Em meados da d\u00e9cada de 50, como muitos, entusiasmou-se com a campanha do &#8220;O Petr\u00f3leo \u00e9 Nosso&#8221;, politizando-se com as id\u00e9ias nacionalistas que o influenciaram a procurar a carreira militar.<\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span><span class=\"s2\">Depois de reprovado por duas vezes nos exames, ingressou, em 1955, como aluno na Escola Preparat\u00f3ria de Cadetes de Porto Alegre. Tr\u00eas anos depois, estava matriculado na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN).<\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span>J\u00e1 como cadete, Lamarca &#8212; clandestinamente e fora dos limites da AMAN &#8212; participou de grupos de estudo do marxismo-leninismo, tornando-se um simpatizante do Partido Comunista Brasileiro (PCB).<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Declarado, em dezembro de 1960, aspirante-a-oficial da Arma de Infantaria, foi designado para servir no quartel do 4\u00ba Regimento de Infantaria (4\u00baRI), em Quita\u00fana\/SP.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Como tenente, iniciou estudos sobre guerrilha e, em junho de 1962, vislumbrando a possibilidade de integrar a For\u00e7a Brasileira, em Suez, conseguiu ser transferido para o 2\u00ba Regimento de Infantaria, na Vila Militar\/RJ, e participou, durante 13 meses, da For\u00e7a de Emerg\u00eancia da ONU, no Oriente M\u00e9dio.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Retornando ao Brasil, foi designado, em outubro de 1963, para a ent\u00e3o 6\u00aa Companhia de Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito (6\u00aa Cia PE), em Porto Alegre\/RS.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>A Revolu\u00e7\u00e3o de 31 de mar\u00e7o de 1964 veio encontrar o Tenente Lamarca na 6\u00aa Cia PE, admirando a tentativa de resist\u00eancia de Brizola e condenando a atitude de Jango, por ele tachada como uma &#8220;fuga covarde&#8221;.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Nesse ano, j\u00e1 transitando com desenvoltura pelas esquerdas, chegou a pedir o seu ingresso no PCB, somente desistindo quando alguns companheiros afirmaram que esse partido, &#8220;reformista e traidor, o entregaria \u00e0 pol\u00edcia&#8221;.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Na noite de um s\u00e1bado de dezembro de 1964, quando escalado de oficial-de-dia, Lamarca, deliberadamente, facilitou a fuga do Capit\u00e3o da Aeron\u00e1utica Alfredo Ribeiro Daudt, que estava preso por subvers\u00e3o.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>O inqu\u00e9rito, aberto para apurar o seu primeiro ato de trai\u00e7\u00e3o ao Ex\u00e9rcito Brasileiro, n\u00e3o chegou a conclus\u00f5es definitivas.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Entretanto, essa fuga inexplic\u00e1vel tornou o ambiente demasiadamente tenso para ele, na PE. Novamente movimentado, apresentou-se, em dezembro de 1965, no seu antigo quartel do 4\u00ba RI, em Quita\u00fana.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Nesse quartel paulista, reencontrou-se com seu amigo, o Sargento Darcy Rodrigues, com quem, novamente, passou a ter longas conversas sobre a situa\u00e7\u00e3o brasileira e a realizar um estudo sistem\u00e1tico sobre o marxismo-leninismo.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Em 1968, v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es clandestinas, de linha foquista e militarista, sob o pretexto de livrar o Brasil da ditadura militar, ensang\u00fcentavam-no, desencadeando as a\u00e7\u00f5s armadas e terroristas preconizadas por Cuba. Uma delas era a Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR), criada, em mar\u00e7o desse ano, pela fus\u00e3o do grupo foquista dissidente da Pol\u00edtica Oper\u00e1ria (POLOP) com os remanescentes do n\u00facleo de S\u00e3o Paulo do Movimento Nacionalista Revolucion\u00e1rio (MNR), de Brizola. Paradoxalmente, uniram-se os &#8220;pol\u00edticos&#8221; te\u00f3ricos com os &#8220;militares&#8221; pr\u00e1ticos.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Depois de estabelecer conversa\u00e7\u00f5es com a A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN) e com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Lamarca decidiu ingressar na VPR, seduzido pela facilidade com que poderia galgar os postos de comando, fazendo valer sua natural ascend\u00eancia hier\u00e1rquica sobre os in\u00fameros sargentos que integravam a organiza\u00e7\u00e3o.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Assim, em junho de 1968, ingressou na base militar da VPR, levado pelos irm\u00e3os de um de seus dirigentes, o ex-sargento Onofre Pinto. De imediato, criou uma c\u00e9lula clandestina da VPR no seu quartel, o 4\u00ba RI, composta pelo Sargento Darcy Rodrigues, pelo Cabo Jos\u00e9 Mariano Ferreira e pelo Soldado Carlos Roberto Zanirato.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Muito &#8220;convenientemente&#8221;, Lamarca era, na \u00e9poca, o instrutor de tiro da Unidade.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Com essa facilidade, cometeu a segunda trai\u00e7\u00e3o ao Ex\u00e9rcito, conseguindo desviar 2 mil tiros para municiar os 9 FAL que haviam sido roubados pela VPR, em 22 de junho de 1968, no assalto ao Hospital Geral de S\u00e3o Paulo, no Cambuci.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Em dezembro desse ano, explodiu a crise latente na VPR, provocada pela contradi\u00e7\u00e3o entre a pr\u00e1tica e a teoria, entre os &#8220;militaristas&#8221;, oriundos do MNR, e os &#8220;pol\u00edticos&#8221; ou &#8220;leninistas&#8221;, oriundos da POLOP. Numa conturbada reuni\u00e3o realizada no litoral paulista, que ficou conhecida como a &#8220;praianada&#8221;, os &#8220;militaristas&#8221;, agora fortalecidos pela ades\u00e3o do Capit\u00e3o Lamarca, assumiram a dire\u00e7\u00e3o da VPR.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Nesse \u00ednterim, Lamarca vinha ministrando instru\u00e7\u00e3o de tiro a funcion\u00e1rias do Banco Bradesco, ironicamente, para que elas pudessem enfrentar os assaltos a bancos.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Na sua cabe\u00e7a, entretanto, fervilhavam as id\u00e9ias sobre futuras a\u00e7\u00f5es armadas, dentre as quais o assalto ao seu pr\u00f3prio quartel, ato que marcaria, publicamente, o seu ingresso na luta armada terrorista e a sua terceira trai\u00e7\u00e3o ao Ex\u00e9rcito.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Apesar do comando militar da \u00e1rea j\u00e1 ter tido conhecimento, desde outubro de 1968, da exist\u00eancia de uma c\u00e9lula comunista no 4\u00ba RI e, inclusive, da participa\u00e7\u00e3o do Capit\u00e3o Lamarca, as medidas ent\u00e3o tomadas &#8212; fruto do despreparo em combater a\u00e7\u00f5es desse tipo &#8212; revelaram-se in\u00f3cuas e n\u00e3o impediram o assalto.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Foi intenso e meticuloso o planejamento da a\u00e7\u00e3o, prevista para ser realizada nos dias 25 e 26 de janeiro de 1969, um final de semana, inclusive com a especifica\u00e7\u00e3o detalhada de quem deveria matar quem. Entretanto, a pris\u00e3o de quatro militantes da VPR, na quinta-feira, e a descoberta, em Itapecerica da Serra, do caminh\u00e3o que estava sendo pintado com as cores do Ex\u00e9rcito, a fim de facilitar o roubo do armamento, determinaram a antecipa\u00e7\u00e3o do assalto.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Assim, no final da tarde de sexta-feira, 24 de janeiro de 1969, Lamarca entrou no 4\u00ba RI com sua pr\u00f3pria Kombi e, no paiol, carregou-a com 63 FAL, 3 metralhadoras INA, uma pistola .45 e farta muni\u00e7\u00e3o.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Dali, dirigiu-se para a casa de Onofre Pinto, a fim de despedir-se de sua esposa, Maria Pavan, e do casal de filhos que, naquela mesma noite, embarcariam para Cuba, via Roma, junto com a fam\u00edlia de Darcy Rodrigues.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Com 31 anos, Carlos Lamarca desertava do Ex\u00e9rcito e ingressava na clandestinidade, com seu nome j\u00e1 aureolado pelo ato audacioso. Com a fam\u00edlia em seguran\u00e7a, p\u00f4de livremente desfrutar da companhia de sua amante Iara Iavelberg, psic\u00f3loga casada com um m\u00e9dico, tamb\u00e9m militante da VPR, e que, desde sua antiga milit\u00e2ncia na POLOP, colecionava os codinomes de &#8220;Leila&#8217;, &#8220;Norma&#8221;, &#8220;Rita&#8221;, &#8220;Leda&#8221;, &#8220;Cl\u00e1udia&#8221;, &#8220;C\u00e9lia&#8221;, &#8220;M\u00e1rcia&#8221; e &#8220;Mara&#8221;.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Alimentado pelo desejo de logo iniciar as a\u00e7\u00f5es violentas, foi planej\u00e1-las nos locais secretos da organiza\u00e7\u00e3o, os &#8220;aparelhos&#8221;. Em pouco tempo, cometeria o seu primeiro assassinato.<span class=\"s4\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>2. O 1\u00ba ASSASSINATO<\/strong> <span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span>Depois de um Congresso realizado em abril de 1969, numa casa em Mongagu\u00e1, cidade do litoral paulista, entre Praia Grande e Itanha\u00e9m, no qual Lamarca foi eleito um dos cinco membros do Comando Nacional (CN), a VPR reiniciou as a\u00e7\u00f5es armadas.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Na tarde de 09 de maio, Lamarca comandou o assalto simult\u00e2neo aos bancos Federal Ita\u00fa Sul-Americano e Mercantil de S\u00e3o Paulo, na Rua Piratininga, bairro da Mo\u00f3ca, cujo gerente, Norberto Draconetti, foi esfaqueado e\u00a0o guarda-civil, Orlando Pinto Saraiva, morto com dois tiros, um na nuca e outro na testa, disparados por Lamarca, que se encontrava escondido atr\u00e1s de uma banca de jornais.\u00a0No final da a\u00e7\u00e3o, disparou uma rajada de metralhadora para o ar, como a marcar, ruidosa e pomposamente, o seu primeiro assalto a banco e o seu primeiro assassinato.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Os primeiros meses de 1969, entretanto, foram marcados pelas pris\u00f5es de dezenas de militantes da VPR e do Comando de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (COLINA), organiza\u00e7\u00e3o criada em junho do ano anterior por dissidentes da Pol\u00edtica Oper\u00e1ria (POLOP) em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Debilitadas, ambas buscaram, na fus\u00e3o, um modo de rearticularem-se, formando uma \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o, mais poderosa e de \u00e2mbito quase nacional. Dessa forma, no in\u00edcio de julho de 1969, surgiu a Vanguarda Armada Revolucion\u00e1ria Palmares (VAR-P), com Lamarca integrando, com mais cinco membros, o seu Comando Nacional (CN).<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Nessa \u00e9poca, Lamarca j\u00e1 era um dos comunistas mais procurados. O roubo das armas, a deser\u00e7\u00e3o e o primeiro assassinato levaram os \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a a efetuarem esfor\u00e7os especiais para a sua captura. O Ex\u00e9rcito, particularmente, sentindo-se tra\u00eddo, colocara como ponto de honra o fim dos seus atos terroristas. No entanto, ele n\u00e3o era mais um subversivo desconhecido, que necessitava ser identificado. Sua fama e sua origem o qualificavam como extremamente perigoso e sua fotografia atualizada era guardada no bolso de muitos agentes. Sua apar\u00eancia f\u00edsica e, principalmente, seu rosto cadav\u00e9rico, tornavam-no um alvo f\u00e1cil de ser reconhecido. Lamarca sabia disso e resolveu mudar.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Em julho de 1969, dois m\u00e9dicos militantes da Base M\u00e9dica da VPR, Almir Dutton Ferreira (&#8220;Augusto&#8221;, &#8220;Cesar&#8221;, &#8220;Ivo&#8221;, &#8220;Jo\u00e3o&#8221;) e Germana Figueiredo (&#8220;J\u00falia&#8221;), incumbiram-se da tarefa.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Almir convocou seu amigo de inf\u00e2ncia, o dentista Rog\u00e9rio I\u00f3rio, que, em quatro consultas em seu consult\u00f3rio na Avenida Nelson Cardoso, em Jacarepagu\u00e1, trocou todos os dentes superiores de Lamarca.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Quinze dias depois, j\u00e1 em agosto, Almir procurou um outro amigo, o m\u00e9dico Milton Nahon, que conseguiu os servi\u00e7os do tamb\u00e9m militante comunista Afr\u00e2nio Marciliano Freitas Azevedo, cirurgi\u00e3o mineiro do Hospital Gaffr\u00e9e Guinle, que, com o aux\u00edlio do m\u00e9dico cearense Amauri Luzardo Santiago de Almeida e do anestesista Luiz Alves, realizou a opera\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica na Cl\u00ednica S\u00e3o Jo\u00e3o de Deus, na Rua Almirante Alexandrino, em Santa Tereza.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Lamarca foi internado com o nome de &#8220;Paulo Cesar de Castro&#8221; e chegou na cl\u00ednica estranhamente vestido de mulher, com trejeitos para se passar por cabelereiro e homossexual. Durante as 24 horas da cirurgia, dois militantes da VPR, Sonia Eliane Lafoz e Wellington Moreira Diniz &#8211; este escondido no arm\u00e1rio, permaneceram no seu quarto, como seguran\u00e7as armados.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Logo depois, j\u00e1 com o nariz reduzido e sem os marcantes sulcos da testa e da face, Lamarca tirou fotografias para a nova identidade e viajou para S\u00e3o Paulo, numa caravana composta por seguran\u00e7as e pelo m\u00e9dico da VPR Luiz Roberto Ten\u00f3rio, que a capitaneava num Gordini.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Entretanto, se a cirurgia deu certo e t\u00ednhamos um novo Lamarca, o mesmo n\u00e3o ocorria com a fus\u00e3o que dera origem \u00e0 VAR-PALMARES. Se, por um lado, os &#8220;marxistas&#8221; oriundos do COLINA, melhor preparados politicamente, criticavam os &#8220;militaristas&#8221; da VPR pelo &#8220;imediatismo revolucion\u00e1rio&#8221;, por outro, os oriundos da VPR sentiam-se moralmente fortalecidos pelo que levavam para a nova organiza\u00e7\u00e3o: 55 milh\u00f5es de cruzeiros e um grande arsenal de armas, muni\u00e7\u00f5es e explosivos.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Nem a &#8220;Grande A\u00e7\u00e3o&#8221; &#8212; assalto ao cofre de Anna Benchimol Capriglione, amante de Adhemar de Barros, ex-Governador de S\u00e3o Paulo, e que proporcionou \u00e0 VAR-P cerca de 2 milh\u00f5es e 800 mil d\u00f3lares &#8212; conseguiu acalmar os conflitos entre os dirigentes.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Entre agosto e setembro de 1969, uma casa em Teres\u00f3polis abrigou 33 militantes que, depois de 20 dias, transformaram aquilo que seria o I Congresso Nacional da VAR-P num festival de bebedeiras, drogas e sexo, recheado por acirradas discuss\u00f5es pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas que, por pouco, n\u00e3o degringolaram em agress\u00f5es f\u00edsicas e tiros.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Ao final, concretizou-se um &#8220;racha&#8221; na VAR-P, surgindo o &#8220;Grupo dos 7&#8221; &#8212; dentre os quais, Lamarca &#8212; que foi reestruturar a VPR.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>No in\u00edcio de outubro, no bar do Hotel das Paineiras, na Floresta da Tijuca, representou a VPR num encontro com dirigentes da VAR-P para a partilha dos bens das duas organiza\u00e7\u00f5es.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Apesar de ser membro do CN, ele delegou aos demais a burocr\u00e1tica tarefa de organizar o Congresso da nova VPR, realizada na Barra da Tijuca, e foi orientar seus militantes que se exercitavam no tiro e em marchas tipo guerrilha, num s\u00edtio em Jacupiranga, pr\u00f3ximo ao Km 234 da BR-116. Observou, no entanto, que esse local, demasiado pr\u00f3ximo de uma rodovia e de regi\u00f5es urbanas, n\u00e3o oferecia boas condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Assim, j\u00e1 como Comandante-em-Chefe da VPR, Lamarca determinou a desmobiliza\u00e7\u00e3o dessa \u00e1rea e a ativa\u00e7\u00e3o de uma outra, em Registro, no Vale do Ribeira\/SP.<span class=\"s4\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>3. A \u00c1REA DE REGISTRO <\/strong><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span>No feriado da Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, Lamarca e Iara Iavelberg foram apanhados de carro por Joaquim dos Santos, num &#8220;ponto&#8221; junto ao Forte de Copacabana, na ent\u00e3o Guanabara, e levados para S\u00e3o Paulo. No dia seguinte, chegavam na nova \u00e1rea de treinamento, localizada no S\u00edtio Palmital, com 40 alqueires de terra, na regi\u00e3o de Barra do Azeite, na altura do Km 254 da BR-116, antiga BR-2, rodovia que liga S\u00e3o Paulo a Curitiba, 30 Km ao Sul do munic\u00edpio de Jacupiranga.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>O ex-Capit\u00e3o &#8211; agora utilizando o codinome de &#8220;Cid&#8221; &#8211; e mais quatro militantes permaneceram no s\u00edtio, realizando exerc\u00edcios de tiro, marchas e reconhecimento das \u00e1reas adjacentes. Observaram que a \u00e1rea tamb\u00e9m n\u00e3o era a ideal: al\u00e9m de ser pequena, a excessiva proximidade da rodovia e a constante presen\u00e7a de ca\u00e7adores aumentavam a sua vulnerabilidade, inviabilizando-a como \u00e1rea de treinamento apta a receber mais &#8220;guerrilheiros&#8221;.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>No in\u00edcio de dezembro, a VPR adquiriu um outro s\u00edtio, de 80 alqueires, situado um pouco mais ao Norte, distante 4 quil\u00f4metros da BR-116. A primeira \u00e1rea foi desmobilizada e seu material transferido para a nova, denominada de \u00c1rea 2, considerada pronta antes do Natal.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>A partir de janeiro de 1970, os militantes foram chegando para o treinamento e, em mar\u00e7o, a \u00c1rea 2 contava com um total de 18 &#8220;guerrilheiros&#8221;, dentre os quais Lamarca e duas mulheres, uma delas, sua companheira Iara.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Mas as coisas come\u00e7aram a se complicar.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Em 27 de fevereiro, foi preso Chizuo Ozawa, o &#8220;M\u00e1rio Japa&#8221;, que sabia a localiza\u00e7\u00e3o da \u00e1rea. Se falasse, tudo estaria perdido. Preocupado em libert\u00e1-lo, Lamarca exigiu, em car\u00e1ter de urg\u00eancia, o seq\u00fcestro de um diplomata.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Em 11 de mar\u00e7o de 1970, foi seq\u00fcestrado o C\u00f4nsul do Jap\u00e3o, Nobuo Okuchi, posteriormente trocado por cinco presos, dentre os quais &#8220;M\u00e1rio Japa&#8221;. A localiza\u00e7\u00e3o da \u00c1rea 2 permanecia secreta.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Mas as dezenas de pris\u00f5es de dirigentes e militantes da VPR, ocorridas no in\u00edcio de abril, viriam, novamente, comprometer a seguran\u00e7a da \u00e1rea de treinamento. Os depoimentos dos presos confirmaram que Lamarca havia feito, no ano anterior, uma opera\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica e Maria do Carmo Brito, membro do CN, presa no Rio de Janeiro, apontara a localiza\u00e7\u00e3o da \u00e1rea.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Em meados de abril de 1970, sentindo-se seguro, Lamarca convocou uma reuni\u00e3o ampliada do CN\/VPR, numa casa da Rua Est\u00e2ncia, em Peru\u00edbe, cidade do litoral sul paulista. Aventurou-se a deixar a \u00e1rea de treinamento &#8211; relativamente pr\u00f3xima ao local &#8211; e encontrou-se com Ladislas Dowbor, membro do CN e Cmt da Unidade de Combate (UC) de S\u00e3o Paulo, e com Maria do Carmo Brito, membro do CN, al\u00e9m dos dois Cmt\/UC da Guanabara, Juarez Guimar\u00e3es de Brito e Jos\u00e9 Ronaldo Tavares de Lira e Silva. O Cmt da UC\/RS, Felix Silveira Rosa Neto, tamb\u00e9m previsto para comparecer \u00e0 reuni\u00e3o, n\u00e3o foi encontrado por Joaquim dos Santos, que o fora buscar de carro em Porto Alegre (ningu\u00e9m sabia que F\u00e9lix j\u00e1 havia sido preso em 12 de abril). Ainda na casa, estavam presentes Iara Iavelberg, Maria Barreto Leite Valdez, que iria cumprir miss\u00e3o no Sul, e Tercina Dias de Oliveira, a &#8220;Tia&#8221;, retirada da \u00e1rea de treinamento no in\u00edcio de mar\u00e7o. As informa\u00e7\u00f5es ainda obscuras sobre as quedas dos militantes da VPR n\u00e3o permitiram que essa reuni\u00e3o do CN decidisse a\u00e7\u00f5es de import\u00e2ncia.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Entretanto, na noite de 18 de abril de 1970, j\u00e1 alertado sobre as pris\u00f5es, Lamarca decidiu desmobilizar a \u00e1rea e evacuar os militantes em tr\u00eas grupos. Dois dias depois, quando chegaram as primeiras tropas da &#8220;Opera\u00e7\u00e3o Registro&#8221;, 8 militantes j\u00e1 haviam fugido.<span class=\"s4\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>4. O ASSASSINATO DO TENENTE MENDES <\/strong><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span>Na noite do Dia das M\u00e3es, 08 de maio, depois de mais de duas semanas ainda cercados na \u00e1rea,\u00a0Lamarca e mais 6 militantes emboscaram cerca de 20 homens da Pol\u00edcia Militar de S\u00e3o Paulo, chefiados pelo Tenente Alberto Mendes J\u00fanior &#8211; o &#8220;Berto&#8221;, como era chamado por sua fam\u00edlia, que decidiu se entregar como ref\u00e9m, desde que seus subordinados, feridos, pudessem receber aux\u00edlio m\u00e9dico.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Na noite seguinte, os 7 guerrilheiros ficaram reduzidos a 5, pois 2 haviam se extraviado na refrega da noite anterior.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Conduzindo o Ten Mendes como ref\u00e9m, prosseguiram na rota de fuga.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Depois de andarem um dia e meio, os 5 guerrilheiros pararam para um descanso, no in\u00edcio da tarde de 10 de maio de 1970.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Lamarca disse que o Ten Mendes os havia tra\u00eddo, causando a morte de dois companheiros (n\u00e3o sabia que eles estavam, apenas, desgarrados) e, por isso, teria que ser executado.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Nesse momento, enquanto Ariston Oliveira Lucena e Gilberto Faria Lima vigiavam o prisioneiro, Carlos Lamarca, Yoshitane Fujimore e Di\u00f3genes Sobrosa de Souza afastaram-se e, articulando-se em um &#8220;tribunal revolucion\u00e1rio&#8221;, condenaram o Ten Mendes \u00e0 morte.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Poucos minutos depois, Yoshitane Fujimore, acercando-se por tr\u00e1s do Tenente, desferiu-lhe, com a coronha do fuzil, violentos golpes na cabe\u00e7a. Ca\u00eddo e com a base do cr\u00e2nio partida, o Ten Mendes gemia e contorcia-se em dores. Di\u00f3genes Sobrosa de Souza desferiu-lhe outros golpes na cabe\u00e7a, esfacelando-a.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Lamarca, perante os 4 terroristas, responsabilizou-se pelo assassinato.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Ali mesmo, numa pequena vala e com seus coturnos ao lado da cabe\u00e7a ensang\u00fcentada, o Ten Mendes foi enterrado.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Alguns meses mais tarde, em 08 de setembro de 1970, Ariston Oliveira Lucena, que havia sido preso, apontou o local onde o Tenente Mendes estava enterrado. As fotografias tiradas de seu cr\u00e2nio atestam o horrendo crime cometido. Sua m\u00e3e entrou em estado de choque e ficou paral\u00edtica por quase tr\u00eas anos.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Ainda nesse m\u00eas de setembro, descoberto o crime, a VPR emitiu um comunicado &#8220;Ao Povo Brasileiro&#8221;, onde tenta justificar o frio assassinato, no qual aparece o seguinte trecho:<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>&#8220;A senten\u00e7a de morte de um Tribunal Revolucion\u00e1rio deve ser cumprida por fuzilamento. No entanto, nos encontr\u00e1vamos pr\u00f3ximos ao inimigo, dentro de um cerco que p\u00f4de ser executado em virtude da exist\u00eancia de muitas estradas na regi\u00e3o. O Tenente Mendes foi condenado e morreu a coronhadas de fuzil, e assim o foi, sendo depois enterrado.&#8221;<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Os dirigentes da VPR n\u00e3o s\u00f3 eram os donos da verdade, como arvoravam-se em senhores da vida e da morte!<span class=\"s3\"><br \/> <\/span>Na tarde de 31 de maio de 1970, Lamarca e os 4 militantes seq\u00fcestram uma viatura do 2\u00ba Regimento de Obuses 105 e conseguem romper o cerco, largando o ve\u00edculo j\u00e1 na cidade de S\u00e3o Paulo, na marginal do rio Tiet\u00ea, perto do bairro da Vila Maria, com os militares amarrados \u00e0 carroceria, sem roupas.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>O segundo assassinato cometido por Lamarca e a fuga bem sucedida, ludibriando e humilhando os militares, serviu para aumentar a lenda e o mito.<span class=\"s4\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>5. O SEQ\u00dcESTRO DO EMBAIXADOR DA SU\u00cd\u00c7A<\/strong> <span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span>Lamarca encontrou a VPR em situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica, em face das numerosas &#8220;quedas&#8221; de abril e de maio de 1970. Em 03 de junho, cobriu um ponto com Ariston Oliveira Lucena na Avenida Ipiranga e reassumiu a sua fun\u00e7\u00e3o de Comandante-em-Chefe, rearticulando o Comando Nacional (CN) com In\u00eas Etienne Romeu e com o homossexual ainda n\u00e3o assumido Herbert Eust\u00e1quio de Carvalho, o &#8220;Daniel&#8221;, que com ele estivera na \u00e1rea de Registro. Ao mesmo tempo, foi morar com Iara num &#8220;aparelho&#8221; do Movimento Revolucion\u00e1rio Tiradentes (MRT).<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Em meados de junho, Lamarca, em reuni\u00e3o com Joaquim C\u00e2mara Ferreira (&#8220;Toledo&#8221;), da ALN, e Devanir Jos\u00e9 de Carvalho (&#8220;Henrique&#8221;), do MRT, estabeleceu a lista dos 40 prisioneiros que seriam trocados pelo Embaixador alem\u00e3o, seq\u00fcestrado em 11 de junho de 1970.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Reestruturada e com o moral fortalecido pelo sucesso alcan\u00e7ado no seq\u00fcestro, a VPR ingressou no 2\u00ba semestre de 1970 disposta a incrementar as a\u00e7\u00f5es violentas.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Contudo, o seu Comandante-em-Chefe continuava enclausurado em &#8220;aparelhos&#8221; de outra organiza\u00e7\u00e3o, o diminuto mas violento MRT, por falta de uma conveniente infra-estrutura em S\u00e3o Paulo, at\u00e9 que, no in\u00edcio de outubro, os tr\u00eas membros do CN foram transferidos para o Rio de Janeiro, sendo que o casal Lamarca e Iara foi descansar, durante dois meses, numa casa alugada pelo militante Walter Ribeiro Novaes &#8211; nomeado &#8220;infra&#8221; do Comando &#8211; em Rio D&#8217;Ouro, pequeno lugarejo situado entre Piabet\u00e1 e Santo Aleixo, na entrada de Imbari\u00ea, estrada Rio-Teres\u00f3polis.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Com tranq\u00fcilidade, Lamarca p\u00f4de, nesses dias, escrever v\u00e1rios documentos te\u00f3ricos de orienta\u00e7\u00e3o \u00e0 VPR e, \u00e0 revelia da &#8220;frente&#8221; composta com a ALN, o PCBR, o MR-8 e o MRT, decidiu executar o seq\u00fcestro do Embaixador su\u00ed\u00e7o Giovanni Enrico Bucher.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>A a\u00e7\u00e3o desencadeou-se na manh\u00e3 de 07 de dezembro de 1970, na Rua Conde de Baependi, uma rua estreita, de m\u00e3o \u00fanica, que liga o bairro de Laranjeiras ao Flamengo.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Depois de bloqueado o Buick azul do Embaixador, Lamarca, de cavanhaque, terno e gravata, bateu no vidro da janela onde estava o seguran\u00e7a, o Agente da Pol\u00edcia Federal H\u00e9lio Carvalho de Ara\u00fajo. Abriu a porta e disparou dois tiros com um rev\u00f3lver &#8220;Smith &amp; Wesson&#8221; calibre .38, cano longo, a uma dist\u00e2ncia de um metro: o 1\u00ba tiro atingiu o teto do carro e o 2\u00ba, as costas do Agente que, por instinto, se virara. Com a medula totalmente seccionada pelo projetil, o Agente viria a falecer tr\u00eas dias depois, no Hospital Miguel Couto.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Consumado o seq\u00fcestro e o seu 3\u00ba assassinato, Lamarca levou o Embaixador para uma casa da Rua Tacaratu, uma ladeira que come\u00e7ava em Rocha Miranda e terminava em Hon\u00f3rio Gurgel.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Nessa casa, durante os 40 dias de cativeiro, junto com quatro outros militantes, Herbert Eust\u00e1quio de Carvalho, Gerson Theodoro de Oliveira, Tereza \u00c2ngelo e Alfredo H\u00e9lio Sirkis, Lamarca viu, por diversas vezes, amea\u00e7ada a sua autoridade, na pol\u00eamica sobre se matavam ou n\u00e3o o su\u00ed\u00e7o.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Num rompante de democracia, Lamarca determinou que os militantes da VPR enviassem, por escrito, as respectivas posi\u00e7\u00f5es.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>No documento de Adair Gon\u00e7alves Reis, datado de 24 de dezembro, aparece:<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>&#8220;Propomos a marca\u00e7\u00e3o imediata da data e hor\u00e1rio para o justi\u00e7amento, com comunicado \u00e0 ditadura. Prazo m\u00ednimo de 48 horas e m\u00e1ximo de 72 horas, tomando as 18 horas da tarde como hor\u00e1rio b\u00e1sico.&#8221;<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Dois dias depois, Zenaide Machado afirma:<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>&#8220;A sa\u00edda \u00e9 pagar o pre\u00e7o alto e carregar um defunto que ir\u00e1 muito nos incomodar.&#8221;<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Ubajara Silveira Roriz (&#8220;Ot\u00e1vio&#8221;, &#8220;Nando&#8221;, &#8220;Paulo&#8221;, &#8220;Salom\u00e3o&#8221;), militante que j\u00e1 defendera a id\u00e9ia de sabotar as ind\u00fastrias sider\u00fargicas soltando milhares de ratos nas cidades pr\u00f3ximas, propugnava:<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>&#8220;&#8230; fazer a ditadura levar o cad\u00e1ver do embaixador atravessado na garganta, nas suas andan\u00e7as pelo mundo.&#8221;<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Nas respostas, somente Alfredo H\u00e9lio Sirkis e Jos\u00e9 Roberto Gon\u00e7alves de Rezende n\u00e3o viram dividendos pol\u00edticos na morte do Embaixador. Dentre os 5 militantes confinados no &#8220;aparelho&#8221; da Tacaratu, inicialmente, Sirkis ficou isolado, numa posi\u00e7\u00e3o absolutamente minorit\u00e1ria.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Com as respostas e o passar dos dias, Lamarca mudou a sua posi\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, eram cerca de 15 votos contra 3, esmagadora maioria a favor da execu\u00e7\u00e3o. Lamarca, como comandante-em-chefe da VPR, exerceu o seu poder de veto e a sustou.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Sem o saber, Bucher nunca estivera t\u00e3o perto da morte como naqueles dias de Natal.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>\u00c0 meia-noite de 13 de janeiro de 1971, 70 presos, escoltados por 3 agentes da Pol\u00edcia Federal, decolavam do Gale\u00e3o num Boeing da Varig, com destino a Santiago do Chile.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>No dia 15, um dia antes do Embaixador ser libertado, Lamarca abandonou o &#8220;aparelho&#8221; e foi matar as saudades de Iara, que viera de S\u00e3o Paulo.<span class=\"s4\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>6. A SA\u00cdDA DA VPR E O INGRESSO NO MR-8<\/strong><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span>Se o seq\u00fcestro do Embaixador su\u00ed\u00e7o proporcionou, por um lado, a liberta\u00e7\u00e3o de 70 militantes, por outro, demonstrou ser uma &#8220;vit\u00f3ria de Pirro&#8221;, abalando a lideran\u00e7a de Lamarca e iniciando o que viria a ser a desestrutura\u00e7\u00e3o da VPR.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Em 10 de janeiro de 1971, ainda no &#8220;aparelho&#8221; da Tacaratu, Lamarca redigiu o documento &#8220;Os Mesmos Problemas da Propaganda Armada&#8221;, no qual, num desabafo, revela as incertezas que lhe corro\u00edam o esp\u00edrito:<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>&#8220;Estamos nos esvaziando, n\u00e3o conseguimos recuperar o terreno perdido, os companheiros no exterior est\u00e3o sendo transformados em t\u00e1buas de salva\u00e7\u00e3o enquanto aqui n\u00e3o conseguimos criar condi\u00e7\u00f5es para receb\u00ea-los, n\u00e3o admitimos fazer trabalho pol\u00edtico e ficamos impossibilitados de penetrar no campo, aprofundamos o nosso isolamento pol\u00edtico, afundando cada vez mais na marginalidade, ignoramos a hist\u00f3ria, preocupamo-nos mais com o que o MR-8 vai dizer do que significam as nossas a\u00e7\u00f5es, transformamos as nossas discuss\u00f5es em afirma\u00e7\u00e3o pessoal (encena\u00e7\u00f5es de marxismo), deturpamos tudo para demonstrar que a nossa linha \u00e9 a correta quando estamos num impasse hist\u00f3rico, esquecemos as discuss\u00f5es, a maioria silencia aguardando n\u00e3o sabemos o que, desgastamo-nos no cri-cri-cra-cra da pol\u00edtica burguesa, n\u00e3o criamos nada. A discuss\u00e3o \u00e9 decisiva.&#8221;<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Dez dias depois de escrever uma &#8220;Carta Aberta a Toda a ORG&#8221;, Zenaide Machado escreveu em 25 de janeiro, em parceria com Adair Gon\u00e7alves Reis, um documento no qual analisa os fen\u00f4menos existentes na esquerda, dentre os quais o voluntarismo, o espontane\u00edsmo, o individualismo, o personalismo e a autoafirma\u00e7\u00e3o, concluindo:<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>&#8220;Toda a esquerda sofre na carne a presen\u00e7a destes fen\u00f4menos que t\u00eam atravancado o seu desenvolvimento. Se n\u00e3o vencermos o desafio que esta realidade nos imp\u00f5e, se n\u00e3o tivermos a combatividade necess\u00e1ria para fazermos uma profunda autocr\u00edtica e revolu\u00e7\u00e3o interna n\u00e3o passaremos do que somos hoje: um tumor dentro da realidade pol\u00edtica brasileira.&#8221;<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>O ponto alto das discuss\u00f5es, entretanto, pelo caricato que se revestiu, foi a pol\u00eamica entre Lamarca e o estranho militante de codinome &#8220;Ot\u00e1vio&#8221;, Ubajara Silveira Roriz, o mesmo dos &#8220;ratos&#8221; e do cad\u00e1ver &#8220;atravessado na garganta&#8221;. Depois de escrever, em 27 de outubro de 1970, um documento sobre a moral revolucion\u00e1ria, Ubajara, em 19 de dezembro, redigiu o &#8220;Libelo contra os Ap\u00f3stolos do Laissez-Faire ou Abaixo o Positivismo Anti-Revolucion\u00e1rio&#8221;, usando termos nunca sonhados no herm\u00e9tico discurso marxista-leninista, tais como &#8220;pitecantropus erectus&#8221;, &#8220;primatas&#8221;, &#8220;portugu\u00eas do bar da esquina&#8221;, etc.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Foi, no entanto, a cr\u00edtica aos que estavam no Comando que provocou a irrita\u00e7\u00e3o em seus companheiros, agravada por dois novos documentos datados de 02 e 05 de janeiro, respectivamente, uma &#8220;Carta Aberta ao Comando Nacional&#8221; e um &#8220;Balan\u00e7o da Situa\u00e7\u00e3o&#8221;, nos quais reputa o seq\u00fcestro do embaixador su\u00ed\u00e7o como uma derrota pol\u00edtica e disserta sobre a &#8220;vol\u00fapia do poder&#8221; e a &#8220;completa aus\u00eancia de companheirismo revolucion\u00e1rio&#8221; que havia, no seu entender, na VPR.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>At\u00e9 aquele momento, o ex-Capit\u00e3o n\u00e3o havia recebido nenhum desses documentos, pois os comandantes das Unidades de Combate (UC) e das bases estavam considerando que era melhor preservar o comandante-em-chefe da leitura das diatribes de Ubajara. O \u00faltimo documento, entretanto, foi recebido por Lamarca em 14 de janeiro e, dois dias depois, enviava uma &#8220;Resposta Sint\u00e9tica ao Companheiro Ot\u00e1vio&#8221;, afirmando que seu balan\u00e7o havia sido superficial e incompleto, caindo num &#8220;desvio ideol\u00f3gico&#8221;. Ao final, uma advert\u00eancia: &#8220;N\u00f3s devemos \u00e9 ser mais s\u00e9rios em nossas an\u00e1lises.&#8221;<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Em 23 de janeiro, Ubajara responde com o documento que mexeu com toda a organiza\u00e7\u00e3o, o &#8220;Quem \u00e9 Carlos Lamarca ?&#8221;, no qual levanta d\u00favidas sobre a lealdade revolucion\u00e1ria do &#8220;ex-capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito&#8221; e afirma estranhar o mito que se havia criado em torno do seu nome.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Quase uma dezena de documentos sobre a pol\u00eamica Lamarca x &#8220;Ot\u00e1vio&#8221; circularam entre os militantes da VPR nesses dois primeiros meses de 1971, demonstrando a fragilidade do Comando, tendo em vista, particularmente, que tudo acabou em nada.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>O m\u00eas de mar\u00e7o de 1971 ficou marcado pelas \u00e1speras discuss\u00f5es travadas entre Lamarca e In\u00eas Etienne Romeu, que redundaram no desligamento desses dois membros do triunvirato que compunha o Comando Nacional da VPR.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Em 22 de mar\u00e7o de 1971, Lamarca, atrav\u00e9s do documento &#8220;Ao Comando da VPR&#8221;, apresentou o seu &#8220;pedido de desligamento em car\u00e1ter irrevog\u00e1vel&#8221;, fundamentado por:<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>&#8220;1) divergir da linha pol\u00edtica da VPR, conforme coloquei em diversos documentos internos;<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>2) ter constatado os desvios ideol\u00f3gicos da VPR e a deforma\u00e7\u00e3o que acarreta em muitos dos seus quadros;<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>3) n\u00e3o ter conseguido levar a luta interna que iniciei h\u00e1 um ano com a devida serenidade;<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>4) n\u00e3o conseguir romper com o culto ao sectarismo existente na VPR;<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>5) discordar do m\u00e9todo de dire\u00e7\u00e3o (apesar de ser Cmt-em-Chefe); a Org impede a libera\u00e7\u00e3o de potencial, n\u00e3o forma quadros, aliena militantes, deforma dirigentes, elimina a criatividade, impede a pr\u00e1tica leninista &#8212; tudo como j\u00e1 coloquei em documentos internos.&#8221;<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Em 27 de mar\u00e7o, logo depois de escrever o documento &#8220;Congresso: Salva\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica e N\u00e3o de Honra&#8221;, Lamarca, conduzido por Alex Polari de Alverga num Volks bege, foi passado para o MR-8 num &#8220;ponto&#8221; na Rua Vilela Tavares, no M\u00e9ier, onde o aguardavam Carlos Alberto Vieira Muniz e Stuart Edgard Angel Jones, num Volks vermelho. Ao mesmo tempo, Iara era trazida a esse ponto por Alfredo H\u00e9lio Sirkis. Nesse final de mar\u00e7o, Lamarca e Iara iniciavam a trajet\u00f3ria que os levaria \u00e0 morte na Bahia.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>No dia 11 de abril, um rec\u00e9m-formado Comando Nacional Provis\u00f3rio (CNP) emitiu o documento &#8220;Sobre o Problema do Desligamento do Companheiro Cl\u00e1udio&#8221;, no qual o tachava de &#8220;personalismo&#8221;, &#8220;oportunismo&#8221; e possuidor de um &#8220;idealismo ing\u00eanuo&#8221; e afirmava que essa atitude havia sido de &#8220;fuga \u00e0 responsabilidade&#8221;, &#8220;a partir de um profundo emocionalismo&#8221;, denotando uma &#8220;fraqueza ideol\u00f3gica&#8221;. A prop\u00f3sito dos numerosos documentos escritos por Lamarca, o CNP n\u00e3o esqueceu-se de critic\u00e1-los, afirmando que eram &#8220;somente algumas frases feitas (e ainda por cima mal feitas)&#8221; e n\u00e3o passavam de &#8220;mero exerc\u00edcio de caligrafia&#8221;, referindo-se \u00e0 sua escrita perfeita, redondinha, estranhamente feminina.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Ao final, o CNP conclu\u00eda que n\u00e3o aceitava o seu desligamento enquanto que n\u00e3o ficassem claras as diverg\u00eancias e que ele n\u00e3o poderia &#8220;assumir milit\u00e2ncia em outra organiza\u00e7\u00e3o at\u00e9 a decis\u00e3o final da quest\u00e3o&#8221;.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Mero exerc\u00edcio de ret\u00f3rica. Lamarca j\u00e1 estava no MR-8.<span class=\"s4\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>07. A MORTE NO SERT\u00c3O DA BAHIA <\/strong><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span>\u00c0 primeira vista, parecia que o MR-8 se fortalecia com a vinda do &#8220;Cid&#8221; ou &#8220;Cl\u00e1udio&#8221;, aumentando o seu prest\u00edgio junto \u00e0s esquerdas. Na realidade, a organiza\u00e7\u00e3o recebia, mais do que um militante, um verdadeiro &#8220;elefante branco&#8221; e a responsabilidade de mant\u00ea-lo na absoluta clandestinidade. Para Lamarca, o ingresso no MR-8 representou, nada menos, que o in\u00edcio do seu fim.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Carlos Lamarca e Iara Iavelberg passaram os meses de abril, maio e junho de 1971 escondidos de &#8220;aparelho&#8221; em &#8220;aparelho&#8221;, dentre os quais o de Renato Perrault de Laforet (&#8220;Z\u00e9&#8221;), em Botafogo, e o de Jos\u00e9 Gomes Teixeira (&#8220;P1&#8221;).<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>A pris\u00e3o deste \u00faltimo, em 11 de junho, que veio a se somar a uma s\u00e9rie de pris\u00f5es de militantes e dirigentes do MR-8, precipitou a decis\u00e3o de levar o casal para o sert\u00e3o da Bahia, junto ao trabalho de campo na regi\u00e3o do M\u00e9dio S\u00e3o Francisco. Para o transporte, conseguiu-se um Volks e uma Kombi, cujos propriet\u00e1rios e tamb\u00e9m motoristas eram, respectivamente, Rui Berford Dias (&#8220;Aguiar&#8221;) e Waldir Fiock da Silva (&#8220;Dirceu&#8221;, &#8220;Pantera&#8221;, &#8220;Gota Serena&#8221;, &#8220;Roberto&#8221;).<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>No in\u00edcio da noite de 25 de junho, os quatro encontraram-se, junto ao BOB&#8217;S da Avenida Brasil, com Jos\u00e9 Carlos de Souza, que viera especialmente para busc\u00e1-los. No Volks, seguiram Lamarca, Iara e Jos\u00e9 Carlos. Um pouco mais \u00e0 frente, para verificar as barreiras policiais, a Kombi com Waldir e Rui.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>No dia seguinte, ao chegarem em Vit\u00f3ria da Conquista, Rui retornou com seu Volks e os outros quatro seguiram com a Kombi at\u00e9 Jequi\u00e9. Depois de pernoitarem, o casal se separou: Iara e Waldir foram de \u00f4nibus para Salvador, enquanto Lamarca e Jos\u00e9 Carlos dirigiram-se para Itaberaba e Ibotirama. Ao chegarem na ponte da BR-242 sobre o Rio Paramirim, encontraram-se, no fim da tarde de 27, com Jos\u00e9 Campos Barreto, o &#8220;Zequinha&#8221;. Depois de dormirem numa pens\u00e3o no in\u00edcio da estrada que demanda a Brotas de Maca\u00fabas, chegaram nessa cidade na tarde de 28 e, no dia seguinte, Lamarca e Zequinha foram a Buriti Cristalino, enquanto Jos\u00e9 Carlos seguia com a Kombi para Salvador, a fim de encontrar-se com Iara e Waldir. Sem o saber, Lamarca, acobertando-se como o &#8220;ge\u00f3logo Cirilo&#8221;, chegara em sua pen\u00faltima morada.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Na tarde de 06 de agosto, encontraram-se, no centro de Salvador, C\u00e9sar de Queiroz Benjamin (&#8220;Menininho&#8221;) e Jos\u00e9 Carlos de Souza. Como assunto principal, estabeleceram que Iara seguiria para Feira de Santana, onde havia melhores condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a, e ele, Jos\u00e9 Carlos, incorporar-se-ia ao trabalho de campo, em Brotas. H\u00e1 algum tempo na vigil\u00e2ncia, policiais deram voz de pris\u00e3o aos dois militantes. O &#8220;Menininho&#8221; atracou-se com os agentes, chegou a atirar e conseguiu fugir (pela 2\u00aa vez) ao cerco, dirigindo-se para a ent\u00e3o Guanabara. Menos feliz, Jos\u00e9 Carlos foi preso e come\u00e7ou a denunciar diversos companheiros.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>A partir de 17 de agosto, Iara Iavelberg, agora com os novos codinomes de &#8220;Gil&#8221;, &#8220;Liana&#8221; e &#8220;Leila&#8221;, passou a residir no apartamento 201, do Edif\u00edcio Santa Terezinha, na Rua Minas Gerais, 125, na Pituba, com Jaileno Sampaio da Silva e sua companheira Nilda Carvalho Cunha, al\u00e9m da irm\u00e3 desta, L\u00facia Bernardeth Cunha.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>No dia 20 de agosto de 1971, atrav\u00e9s das declara\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Carlos, a pol\u00edcia cercou o Edif\u00edcio Santa Terezinha e exigiu a rendi\u00e7\u00e3o dos ocupantes do apartamento 201. Ap\u00f3s terem sido presos L\u00facia, Jaileno e Nilda, Iara Iavelberg foi encontrada no apartamento vizinho, o 202, onde se escondera no in\u00edcio do cerco. N\u00e3o vendo possibilidades de fuga e assolada por bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eanio, a amante de Lamarca suicidou-se com um tiro no cora\u00e7\u00e3o.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>No dia seguinte, um s\u00e1bado, \u00e0s 19:00 horas, logo depois de passar um telegrama do Rio de Janeiro para Iara (sem saber que ela j\u00e1 estava morta), o &#8220;Menininho&#8221;, num Volks com Ney Roitman, Alberto Jak Schprejer (&#8220;Souza&#8221;, &#8220;Beto&#8221;) e sua amante Teresa Cristina de Moura Peixoto (&#8220;Tet\u00ea&#8221;), \u00e9 detido por uma &#8220;Opera\u00e7\u00e3o P\u00e1ra-Pedro&#8221;, na Avenida Vieira Souto, na altura do Jardim de Al\u00e1. Ao serem solicitados os documentos, o &#8220;Menininho&#8221; saiu rapidamente do carro, fugindo correndo entre os transeuntes. Pela 3\u00aa vez, conseguia escapar de um cerco policial. No ve\u00edculo, ficaram o di\u00e1rio de Lamarca e cartas para Iara, escritas de 29 de junho a 16 de agosto, que forneceram, aos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a, a certeza de onde deveriam procurar e concentrar esfor\u00e7os a fim de captur\u00e1-lo.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Enquanto isso, as declara\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Carlos de Souza ajudavam a colocar mais dirigentes do MR-8 na cadeia. Em 27 de agosto, foi a vez de Diogo Assun\u00e7\u00e3o de Santana e Milton Mendes Filho.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>No dia seguinte, a pol\u00edcia chegou em Buriti Cristalino, dando voz de pris\u00e3o aos ocupantes da casa dos irm\u00e3os Campos Barreto, que reagiram com intenso tiroteio. Ao final, Olderico foi preso, ferido no rosto e na m\u00e3o direita, enquanto Otoniel foi morto, quando tentava a fuga. Dentro da casa, o cad\u00e1ver de Luiz Ant\u00f4nio Santa B\u00e1rbara, que se matara com um tiro na cabe\u00e7a. Era o 3\u00ba suic\u00eddio de militantes do MR-8 para n\u00e3o denunciarem Lamarca que, acampado a poucos quil\u00f4metros do lugarejo de Buriti Cristalino, ouvira os tiros e fugira, internando-se com Zequinha mata a dentro.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Sem saber do acontecido e sentindo-se &#8220;queimado&#8221; no Rio de Janeiro, C\u00e9sar de Queiroz Benjamin retornou a Salvador, sendo preso em 30 de agosto, num &#8220;ponto&#8221; delatado por Jaileno, no Rio Vermelho. Ap\u00f3s longa s\u00e9rie de assaltos e ter escapado de tr\u00eas choques com a pol\u00edcia, o &#8220;terr\u00edvel Menininho&#8221;, com apenas 17 anos, mostrou-se extremamente d\u00f3cil nos interrogat\u00f3rios. Suas extensas declara\u00e7\u00f5es, todas de pr\u00f3prio punho, desvendaram a linha pol\u00edtica e as a\u00e7\u00f5es do MR-8. Muitos militantes foram, ent\u00e3o, identificados. Chegou, inclusive, a fazer uma an\u00e1lise dos m\u00e9todos de interrogat\u00f3rio aplicados, declarando-se surpreso com o bom tratamento recebido e com o n\u00edvel de seus interlocutores.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>Com essa nova e importante fonte, os \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a, que j\u00e1 haviam retirado boa parte de seus efetivos da regi\u00e3o de Brotas de Maca\u00fabas, retornaram ao local, iniciando-se nova ca\u00e7ada a Lamarca e a Zequinha.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span>No meio da tarde de 17 de setembro de 1971, uma equipe de agentes, integrantes da Opera\u00e7\u00e3o Pajussara, localizou os dois militantes, que descansavam \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore, perto do arruado de Pintada, munic\u00edpio de Oliveira dos Brejinhos. \u00c0 voz de pris\u00e3o, tentaram sacar de suas armas.\u00a0Uma s\u00e9rie de tiros p\u00f4s fim ao ex-Capit\u00e3o comunista &#8211; que deixara um rastro de sangue atr\u00e1s de si &#8211; e a Jos\u00e9 Campos Barreto.<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s3\"><br \/> <span class=\"s1\"><strong>08. TRAIDOR DO EX\u00c9RCITO BRASILEIRO <\/strong><\/span><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><br \/> <span class=\"s1\">Essa \u00e9 a verdadeira hist\u00f3ria de Carlos Lamarca, a qual poucos conhecem, pois sempre foi contada por s\u00f3 um dos lados.<\/span><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s1\">Mais de 28 anos ap\u00f3s sua morte, os tempos mudaram.<\/span><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s1\">Os militantes comunistas que ensang\u00fcentaram o Pa\u00eds em nome de uma revolu\u00e7\u00e3o &#8212; hoje, por eles mesmos vista como equivocada &#8211;, n\u00e3o mais matam, seq\u00fcestram ou roubam e nem mais descansam nas enx\u00eargas dos &#8220;aparelhos&#8221; ou da selva. Beneficiados pela anistia, seus crimes foram esquecidos. Seus atos ensandecidos foram transformados em her\u00f3icos e seus passados s\u00e3o avaliados pelas maiores ou menores &#8220;persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas&#8221; que, supostamente, teriam sofrido.<\/span><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s1\">Em contrapartida, aqueles que lutaram contra a luta armada, ao lado da Lei e a Ordem, s\u00e3o tachados de torturadores, de opressores e de reacion\u00e1rios. Listados nos livros vermelhos elaborados por esquerdistas, s\u00e3o marcados durante toda a vida, ao arrepio da Justi\u00e7a, pelos intolerantes derrotados.<\/span><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s1\">Enquanto uns ganham homenagens, monumentos, nomes em logradouros p\u00fablicos e filmes patrocinados pelo dinheiro p\u00fablico, outros s\u00e3o acusados, perseguidos, destitu\u00eddos de suas fun\u00e7\u00f5es e convocados a pseudas &#8220;comiss\u00f5es de inqu\u00e9rito&#8221;.<\/span><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s1\">Para os primeiros, os derrotados na luta armada, a anistia de 1979 n\u00e3o serviu para sepultar as id\u00e9ias exacerbadas e conduzir a Na\u00e7\u00e3o para o caminho do entendimento mas, apenas, para conceder-lhes a liberdade de atacar seus antigos inimigos e de praticar o revanchismo.<\/span><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s1\">Para os segundos, a vit\u00f3ria na luta armada foi o estopim da derrota pol\u00edtica e amargam um compulsivo sil\u00eancio, patrulhados pela m\u00eddia ideol\u00f3gica.<\/span><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s1\">Assim \u00e9 com Carlos Lamarca.<\/span><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s1\">H\u00e1 mais de 16 anos, em 25 de agosto de 1983, um desses ex-terroristas, Liszt Benjamim Vieira, ent\u00e3o Deputado Estadual pelo PT do Rio de Janeiro, pronunciou um discurso na Assembl\u00e9ia Legislativa, no qual fez a seguinte assertiva sobre o ex-Capit\u00e3o:<\/span><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s1\">&#8220;Senhor Presidente, Senhores Deputados, hoje, 25 de agosto, Dia do Soldado, queremos homenagear um her\u00f3i brasileiro. (&#8230;) Cursou a Escola Militar, onde foi o primeiro aluno. Seguiu brilhante carreira militar.&#8221;<\/span><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s1\">Por ser &#8220;her\u00f3i&#8221;, sua vi\u00fava, desde 1984, recebe pens\u00e3o do Ex\u00e9rcito. Por ser &#8220;her\u00f3i&#8221;, sua fam\u00edlia tamb\u00e9m recebeu, por decis\u00e3o da Comiss\u00e3o dos Desaparecidos, em 11 de Setembro de 1996, a quantia de R$ 100 mil de indeniza\u00e7\u00e3o.<\/span><span class=\"s4\"><\/p>\n<p> <\/span><span class=\"s1\">Na realidade, em torno de Lamarca constru\u00edram-se muitas lendas.<\/span><span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s2\">\u00c0 lenda de que foi primeiro aluno da AMAN, op\u00f5e-se a realidade de que saiu Aspirante-a-Oficial classificado em 46\u00ba lugar numa turma de 57 cadetes.<\/span><br \/> <span class=\"s2\">\u00c0 lenda de que era brilhante atirador, op\u00f5e-se a realidade de que nunca conseguiu, com rev\u00f3lver calibre .38, m\u00e9dia maior do que 78 no tiro de precis\u00e3o e, apenas, usava a sua condi\u00e7\u00e3o de &#8220;atirador&#8221; para roubar muni\u00e7\u00e3o e entreg\u00e1-la para as organiza\u00e7\u00f5es comunistas.<\/span><br \/> <span class=\"s2\">\u00c0 lenda de que era um exemplar marido e chefe de fam\u00edlia, op\u00f5e-se a realidade de que foi obrigado a se casar, ainda como cadete, por ter engravidado sua pr\u00f3pria irm\u00e3 de cria\u00e7\u00e3o, Maria Pavan, e que a enviou para Cuba com um casal de filhos &#8212; o menino viria a ser tenente do ex\u00e9rcito cubano &#8212; n\u00e3o por temer por sua seguran\u00e7a, mas para desfrutar do conv\u00edvio com sua j\u00e1 amante, Iara Iavelberg.<\/span><br \/> <span class=\"s2\">\u00c0 lenda de que era um Oficial com brilhante carreira militar, op\u00f5e-se a realidade de que desertou do Ex\u00e9rcito Brasileiro. Ao divergir, n\u00e3o pediu sua sa\u00edda conforme os princ\u00edpios de \u00e9tica e de moral que lhe foram ensinados na caserna. Usando a pr\u00f3pria farda, roubou e traiu seu sagrado juramento de Oficial do Ex\u00e9rcito, demonstrando n\u00e3o possuir a lealdade que caracteriza o soldado.<\/span><br \/> <span class=\"s2\">\u00c0 lenda de que era um her\u00f3i, &#8220;libertador da P\u00e1tria&#8221;, op\u00f5e-se a realidade de suas a\u00e7\u00f5es terroristas: assaltos a bancos, seq\u00fcestros de embaixadores, assassinatos, incentivador de guerrilhas urbana e rural, roubo de armamento e aliciador de outros militares para a causa comunista.<\/span><br \/> <span class=\"s2\">Insuspeitas s\u00e3o as opini\u00f5es de Ariston Oliveira Lucena sobre Lamarca &#8211; que com ele participou do assassinato do Tenente Mendes em Registro, publicadas em entrevista no &#8220;Jornal do Brasil&#8221; de 22 de setembro de 1988: &#8220;&#8230; era teoricamente despreparado e politicamente sem experi\u00eancia &#8230; tinha frieza e intui\u00e7\u00e3o &#8230; era autorit\u00e1rio e n\u00e3o gostava de ser contrariado &#8230;&#8221;<\/span><br \/> <span class=\"s2\">Tamb\u00e9m insuspeitas s\u00e3o as declara\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Ara\u00fajo da N\u00f3brega, ex-sargento do Ex\u00e9rcito e militante da VPR, que, em maio de 1970, escreveu de pr\u00f3prio punho:<\/span><br \/> <span class=\"s2\">&#8220;O Cap Lamarca n\u00e3o possui um QI satisfat\u00f3rio, \u00e0 altura de ser um l\u00edder revolucion\u00e1rio.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um elemento de car\u00e1ter vol\u00favel, n\u00e3o tem posi\u00e7\u00e3o definida, suas decis\u00f5es s\u00e3o tomadas seguindo suas tend\u00eancias emocionais.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Suas qualidades militares s\u00e3o limitadas, tem limites de aproveitamento pr\u00e1tico do conhecimento t\u00e9cnico que possui.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 pouco engenhoso. O valor pol\u00edtico que possui para ser um l\u00edder de esquerda lhe foi dado pela imprensa (interessada ou n\u00e3o).<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">As suas fa\u00e7anhas s\u00e3o limitadas e s\u00e3o raras, todavia \u00e9 elemento audacioso.&#8221;<span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span>Na realidade, apesar da aud\u00e1cia, da lenda e do mito, Lamarca foi um desertor e um traidor do Ex\u00e9rcito Brasileiro.<span class=\"s4\"><br \/> <\/span><span class=\"s3\"><br \/> <\/span><span class=\"s5\">E \u00e9 assim que dever\u00e1 passar \u00e0 Hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">FONTE &#8211; TRAIDOR<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LAMARCA: A TRAJET\u00d3RIA DE UM DESERTOR\u00a0por F. 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