{"id":2197,"date":"2012-09-01T21:48:13","date_gmt":"2012-09-01T21:48:13","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/09\/01\/jk-a-historia-revista-2\/"},"modified":"2012-09-01T21:48:13","modified_gmt":"2012-09-01T21:48:13","slug":"jk-a-historia-revista-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/09\/01\/jk-a-historia-revista-2\/","title":{"rendered":"JK, a hist\u00f3ria revista"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O ex-presidente se sentia tra\u00eddo por Jo\u00e3o Goulart e Castelo Branco, teria amea\u00e7ado J\u00e2nio Quadros com um soco e procurado ajuda na Opus Dei durante uma depress\u00e3o  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ao lan\u00e7ar em 1982 o livro &#8220;Memorial do Ex\u00edlio&#8221;, baseado nas mem\u00f3rias do ex-presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976), o jornalista e romancista Carlos Heitor Cony n\u00e3o p\u00f4de esmiu\u00e7ar o epis\u00f3dio sobre o qual tinha mais interesse: a morte de JK num desastre automobil\u00edstico cercado de mist\u00e9rio. Com os direitos pol\u00edticos cassados ap\u00f3s o golpe militar de 1964, a suspeita era de que Juscelino tivesse sido assassinado pela ditadura (nesse mesmo ano de 1976, morreriam Jo\u00e3o Goulart e a estilista carioca Zuzu Angel, tamb\u00e9m num acidente pouco explicado). A pr\u00f3pria fam\u00edlia do estadista deu o recado para Cony n\u00e3o se aprofundar em certos assuntos. A recomenda\u00e7\u00e3o mais veemente veio da esposa, Sarah, pois havia a suspeita de que, momentos antes, o ex-mandat\u00e1rio teria se encontrado num hotel com a amante, Maria L\u00facia Pedroso. Agora, 30 anos ap\u00f3s a primeira edi\u00e7\u00e3o da obra, a vis\u00e3o do pol\u00edtico mineiro sobre o per\u00edodo posterior \u00e0 sua sa\u00edda do poder volta \u00e0s livrarias, com o acr\u00e9scimo desse ponto nebuloso do acidente. Cony n\u00e3o traz uma prova cabal de que o ex-presidente foi eliminado pelo regime militar. Apenas re\u00fane ind\u00edcios. Cabe ao leitor tirar as conclus\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Essa edi\u00e7\u00e3o revista ganhou o t\u00edtulo &#8220;JK e a Ditadura&#8221; (Objetiva) e, assim como a original, \u00e9 lan\u00e7ada sem festa e noite de aut\u00f3grafos. Mas, enquanto na \u00e9poca o governo do general Jo\u00e3o Batista Figueiredo proibiu qualquer alarde, agora \u00e9 a discri\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio autor que falou mais alto. Ele contou \u00e0 ISTO\u00c9 que Juscelino suspeitou de que morreria duas semanas antes do fat\u00eddico dia 22 de agosto de 1976. Em sua fazenda em Goi\u00e1s, ele se sentiu profundamente amargurado depois que um boato dava conta de sua morte num acidente de carro numa viagem para Bras\u00edlia. Para o escritor, essa morte anunciada teve outros sinais de que fora planejada, devido \u00e0 r\u00e1pida presen\u00e7a de militares no local da trag\u00e9dia, quando o carro Opala que levava JK para o Rio bateu em uma carreta na via Dutra, pr\u00f3ximo a Resende. O relat\u00f3rio da comiss\u00e3o de militares apontava um suposto encontro com a amante, momentos antes, fato que foi por ela desmentido. Cony esteve com Juscelino nesse dia, em S\u00e3o Paulo, e ressalta que n\u00e3o foi devidamente investigado o fato de a per\u00edcia ter constatado defeito na suspens\u00e3o do Opala, um sinal claro de sabotagem: &#8220;Quem primeiro apareceu na cena do desastre foi o Guilherme Romano, emin\u00eancia parda do regime.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O autor organizou as mem\u00f3rias do ex-presidente a partir da posse de J\u00e2nio Quadros. Conta que na transmiss\u00e3o do cargo o pol\u00edtico paulista se livrou de levar um murro do antecessor, preocupado com o teor de suas ofensas no discurso. Um Juscelino at\u00e9 ent\u00e3o aguerrido sofreu tantas persegui\u00e7\u00f5es que deu lugar a um homem amargurado e deprimido. &#8220;Ele chegou a pensar em suic\u00eddio no ex\u00edlio nos EUA&#8221;, diz Cony. Precisou recorrer at\u00e9 \u00e0 religiosidade e, em 1973, participou de um curs\u00edlio patrocinado pela organiza\u00e7\u00e3o Opus Dei. Os maiores ressentimentos vinham de dois colegas: Jo\u00e3o Goulart, que foi o seu vice, por n\u00e3o ter apoiado a sua volta ao poder em 1965, e o ex-presidente Castelo Branco, por n\u00e3o ter cumprido o prometido. O marechal e ditador contou com o apoio de JK para sua elei\u00e7\u00e3o pelo Congresso, mas recusou-se a fazer uma transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. &#8220;Juscelino ainda acreditava que ia desempenhar o papel que muito tempo depois coube a Tancredo Neves, de ser o civil que ia reconduzir o Pa\u00eds \u00e0 democracia&#8221;, conclui Cony.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia um trecho do primeiro cap\u00edtulo da obra :<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O sucessor sem sucesso<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">31 de janeiro de 1961 \u2014 &#8220;&#8230; infelizmente, ainda estamos na Am\u00e9rica Latina&#8221;.\u00a0A 10 mil metros de altura, cruzando o Atl\u00e2ntico rumo a Dacar, em escala\u00a0para Paris, o DC-7 Bandeirante Ant\u00f4nio Raposo Tavares deixara Bras\u00edlia tr\u00eas\u00a0horas antes. Levava a bordo uma esp\u00e9cie de novo bandeirante, o brasileiro\u00a0Juscelino Kubitschek de Oliveira, de 59 anos, que acabara de\u00a0transmitir a\u00a0presid\u00eancia da Rep\u00fablica a J\u00e2nio da Silva Quadros. Aparentemente, fora\u00a0uma sucess\u00e3o tranquila do ponto de vista constitucional. Contrariando antiga praxe\u00a0entusiasticamente adotada no pa\u00eds, ningu\u00e9m pensou em anular as elei\u00e7\u00f5es ou\u00a0em negar posse ao eleito. Al\u00e9m de tranquila \u2014 seria tamb\u00e9m a \u00faltima elei\u00e7\u00e3o\u00a0presidencial pelos pr\u00f3ximos vinte e tantos anos \u2014, fora uma sucess\u00e3o gloriosa\u00a0para quem deixava o poder. Juracy Magalh\u00e3es, seu advers\u00e1rio pol\u00edtico, mas\u00a0amigo pessoal, sintetizara numa frase o espet\u00e1culo da multid\u00e3o que provocou o\u00a0primeiro congestionamento nas largas avenidas que JK abrira no \u00e1spero ch\u00e3o\u00a0do cerrado: &#8220;O seu governo tem um ocaso que parece uma alvorada!&#8221; E de\u00a0todos os cantos do pa\u00eds j\u00e1 surgira o refr\u00e3o, JK-65, que nascera t\u00e3o logo ele se\u00a0recusara a articular uma emenda na Constitui\u00e7\u00e3o para\u00a0tornar-se eleg\u00edvel \u00e0\u00a0pr\u00f3pria sucess\u00e3o \u2014 outra praxe, tamb\u00e9m, de nossos costumes pol\u00edticos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ao descer a rampa do Pal\u00e1cio do Planalto, acompanhado pelo novo presidente,\u00a0ambos ouviram os gritos da multid\u00e3o que antecipavam, de forma exagerada, o\u00a0problema sucess\u00f3rio: ao mesmo tempo que se tornava um ex-presidente, transformava-se\u00a0em poderoso candidato presidencial, em torno\u00a0do qual, por bem ou por mal, gravitariam\u00a0todas as articula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. E\u00a0como o Brasil estranhamente tem pressa \u2014 ao menos\u00a0nessa quest\u00e3o \u2014, essas\u00a0articula\u00e7\u00f5es costumam come\u00e7ar no mesmo dia em que\u00a0um cidad\u00e3o toma posse\u00a0de qualquer poder.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em sua poltrona, cercado pela fam\u00edlia \u2014 dona Sarah, M\u00e1rcia e Maria\u00a0Estela \u2014, seu m\u00e9dico Carlos Martins Teixeira, os amigos Jos\u00e9 Sette C\u00e2mara e\u00a0Saulo Diniz, JK tenta for\u00e7ar o sono que habitualmente lhe vinha f\u00e1cil em\u00a0viagens demoradas (15 anos mais tarde, dormindo, sofreria o acidente fatal na\u00a0Rio-S\u00e3o Paulo). A frase ressoava em sua cabe\u00e7a, prolongamento mon\u00f3tono do\u00a0ru\u00eddo dos motores: &#8220;&#8230; infelizmente, ainda estamos na Am\u00e9rica Latina&#8221;. Frase\u00a0que, ao encerrar seu \u00faltimo volume de mem\u00f3rias, fez quest\u00e3o de transcrever,\u00a0tornando-a ponto final n\u00e3o apenas de um per\u00edodo de sua vida que acabara,\u00a0mas, sobretudo, de um novo desafio que come\u00e7ava.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Momentos antes, o comandante do avi\u00e3o viera cham\u00e1-lo \u00e0 cabina. O r\u00e1dio\u00a0de bordo\u00a0transmitia, atrav\u00e9s da Voz do Brasil, a primeira manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica do novo\u00a0presidente do Brasil. JK ouvira apenas algumas frases \u2014 o bastante para compreender\u00a0que, afinal, era o discurso que o preocupara nos \u00faltimos dias, que toldara sua habitual\u00a0serenidade diante do drama pol\u00edtico. Na semana anterior, recebendo em visita protocolar\u00a0o futuro ministro da Justi\u00e7a, Oscar Pedroso Horta,fora informado de que J\u00e2nio falaria durante\u00a0a cerim\u00f4nia de posse e, na certa, alguns aspectos da antiga administra\u00e7\u00e3o seriam criticados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A princ\u00edpio, ele n\u00e3o dera import\u00e2ncia. Sabia que empossaria um advers\u00e1rio\u00a0pol\u00edtico, um homem que se elegera com espetacular vota\u00e7\u00e3o, usando os\u00a0recursos normais de qualquer candidato da oposi\u00e7\u00e3o. Mais tarde, alguns amigos\u00a0tamb\u00e9m o advertiram no mesmo sentido. Dizia-se que Clemente Mariani,\u00a0futuro ministro da Fazenda, ou o pr\u00f3prio Carlos Lacerda, o mais virulento\u00a0advers\u00e1rio de todos os presidentes da Rep\u00fablica desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o do\u00a0pa\u00eds, em 1945, um ou outro ou ambos haviam redigido um discurso insultuoso,\u00a0apocal\u00edptico, letal. E Auro de Moura Andrade, da tribuna do Senado,\u00a0deixara escapar uma frase que, subitamente, se destacou em seu subconsciente:\u00a0&#8220;V\u00e1 tranquilo, presidente&#8221;, dissera o senador, &#8220;estaremos no Legislativo\u00a0defendendo suas obras, sua honra pessoal e cada ato praticado por\u00a0Vossa Excel\u00eancia em benef\u00edcio do Brasil!&#8221;<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ex-presidente se sentia tra\u00eddo por Jo\u00e3o Goulart e Castelo Branco, teria amea\u00e7ado J\u00e2nio Quadros com um soco e procurado ajuda na Opus Dei durante uma depress\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2197"}],"collection":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2197"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2197\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2197"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2197"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2197"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}