{"id":2233,"date":"2012-09-04T21:21:34","date_gmt":"2012-09-04T21:21:34","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/09\/04\/sobre-o-aprimoramento-da-expressao-ditadura-militar-2\/"},"modified":"2012-09-04T21:21:34","modified_gmt":"2012-09-04T21:21:34","slug":"sobre-o-aprimoramento-da-expressao-ditadura-militar-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/09\/04\/sobre-o-aprimoramento-da-expressao-ditadura-militar-2\/","title":{"rendered":"Sobre o \u201caprimoramento\u201d da express\u00e3o ditadura militar"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>O recente e oportuno artigo de Pedro da Rocha Pomar criticando, como diz o t\u00edtulo, \u201cO modismo \u2018civil-militar\u2019 para designar a Ditadura Militar\u201d, tem o duplo m\u00e9rito de mostrar as fal\u00e1cias de uma nada inocente manipula\u00e7\u00e3o terminol\u00f3gica e de reativar a an\u00e1lise do regime que violentou o Brasil de 1964 a 1985.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A principal fal\u00e1cia consiste em dar a entender que a express\u00e3o \u201cditadura militar\u201d pretende explicitar o conte\u00fado social daquele regime. Sei que invocar o esp\u00edrito dos mortos \u00e9 procedimento discut\u00edvel, utilizado por charlat\u00f5es de todo tipo. Tenho, por\u00e9m forte convic\u00e7\u00e3o de que se o c\u00e9lebre Ant\u00f4nio Gramsci tivesse tido conhecimento da profunda descoberta te\u00f3rica de que a ditadura foi civil-militar e n\u00e3o apenas militar, teria ponderado que os militares n\u00e3o formam uma classe, mas toda classe tem seus militares. Nenhuma ditadura \u00e9 puramente militar, pela mesma raz\u00e3o que nenhuma domina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica \u00e9 puramente intelectual e que nenhuma \u201cdemocracia\u201d, no sentido que os liberais d\u00e3o a esse termo, prescinde de for\u00e7as armadas e policiais: o concreto hist\u00f3rico \u00e9 sempre complexo. Quando dizemos que o Brasil \u00e9 hoje uma democracia liberal e que entre1964 e 1985 foi uma ditadura militar, estamos nos referindo ao modo de exerc\u00edcio do poder pol\u00edtico e, portanto deixando impl\u00edcito que a classe dominante era e \u00e9 a burguesia. Durante aquele per\u00edodo a c\u00fapula do aparelho militar monopolizou o controle do Executivo federal e recorreu ao terrorismo de Estado, notadamente \u00e0 tortura sistem\u00e1tica dos presos pol\u00edticos para aniquilar a resist\u00eancia clandestina. Os \u201ccivis\u201d, entendamos, os porta-vozes da grande ind\u00fastria, da alta finan\u00e7a e do latif\u00fandio, participaram dos governos ditatoriais, embora nas situa\u00e7\u00f5es graves a decis\u00e3o em \u00faltima inst\u00e2ncia pertencia aos generais de quatro estrelas e de garras afiadas.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"> <br \/> <\/span>N\u00e3o apenas o regime, mas tamb\u00e9m o golpe de Estado teve car\u00e1ter civil-militar. Bem antes de certos pensadores que se imaginam profundos terem desvelado o car\u00e1ter tamb\u00e9m \u201ccivil\u201d do golpe de 1964, o saudoso Nelson Werneck Sodr\u00e9 sublinhara com l\u00facida precis\u00e3o que ele \u201cfoi pol\u00edtico, embora operado por for\u00e7as militares\u201d. Mostrando que, de 1945 em diante, as interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas das For\u00e7as Armadas foram inspiradas pelos partidos de direita, ele explicou com farta documenta\u00e7\u00e3o o processo atrav\u00e9s do qual os latifundi\u00e1rios e a burguesia entreguista intoxicaram ideologicamente parcela ponder\u00e1vel da oficialidade: \u201cDevidamente dopados pelo anticomunismo e pela a\u00e7\u00e3o maci\u00e7a da m\u00eddia, os militares faziam sempre o servi\u00e7o que lhes era solicitado. Jejunos em pol\u00edtica, alimentados pela propaganda, supunham que estavam mesmo salvando Deus, a P\u00e1tria e a Fam\u00edlia, nada menos do que isso\u201d. Essa trilogia nos faz lembrar o componente clerical da mobiliza\u00e7\u00e3o contra revolucion\u00e1ria de 1964. Com efeito, as famigeradas Marchas da Fam\u00edlia, com Deus pela Liberdade, enquadradas por cripto fascistas de choque e aben\u00e7oadas por incont\u00e1veis ratazanas de sacristia, conferiram ao golpe ampla base de massa. Se fossem mesmo teoricamente consequentes, os adeptos do novo modismo ampliariam sua f\u00f3rmula, falando em golpe \u201ceclesi\u00e1stico-civil-militar\u201d. <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Em seu 1964: A Conquista do Estado Ren\u00e9 Dreyfuss comprovou com maci\u00e7a e irrefut\u00e1vel documenta\u00e7\u00e3o que (1) o golpe reacion\u00e1rio de 1964 come\u00e7ou a ser sistematicamente preparado desde 1961 (quando Jo\u00e3o Goulart assumiu a presid\u00eancia), desmentindo rigorosa e frontalmente o argumento de protagonistas e defensores do movimento sedicioso (reiterado ad nauseam pelo coronel Passarinho e s\u00f3cios da direita militar e retomado por liberais reacion\u00e1rios de choque e \u201csocialistas\u201d cor de rosa) de que eles recorreram preventivamente \u00e0 for\u00e7a para se antecipar a um projeto golpista que estaria sendo meditado ou at\u00e9 mesmo urdido por Goulart e que (2) foi decisiva, na mobiliza\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria que culminou no golpe de 1964, a iniciativa direta de banqueiros, grandes industriais, comerciantes e outros plutocratas, apoiados pelas principais associa\u00e7\u00f5es e federa\u00e7\u00f5es patronais do pa\u00eds. Entretanto, do reconhecimento do car\u00e1ter decisivo da mobiliza\u00e7\u00e3o contra revolucion\u00e1ria da burguesia n\u00e3o se infere que o termo ditadura militar precise ser aprimorado. Os bons historiadores da pol\u00edtica d\u00e3o mais import\u00e2ncia ao vocabul\u00e1rio das lutas concretas do que \u00e0s elucubra\u00e7\u00f5es de sabich\u00f5es tardios. As ideias for\u00e7a que animam o combate pol\u00edtico devem sintetizar-se numa f\u00f3rmula clara que oriente e concentre a energia coletiva. O inimigo imediato que os movimentos contra as ditaduras enfrentaram em todo o Cone Sul foram as c\u00fapulas militares reacion\u00e1rias, que exerciam quase monopolisticamente o poder de Estado, recorrendo ao terror repressivo para aniquilar a resist\u00eancia clandestina e intimidar a oposi\u00e7\u00e3o consentida. A grande maioria dos que clamavam nas ruas \u201cabaixo a ditadura\u201d bem sabiam que a causa da fam\u00edlia (patriarcal), de Deus (\u201cin God we trust\u201d) e da Liberdade (de com\u00e9rcio e de explora\u00e7\u00e3o do trabalho) n\u00e3o interessava apenas aos militares, mas tamb\u00e9m \u00e0queles que os haviam a\u00e7ulado contra a esquerda e os comunistas. Deveriam por isso bradar \u201cabaixo a ditadura civil-militar\u201d?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>N\u00e3o acompanhamos por\u00e9m a \u00eanfase demasiado unilateral de Pomar no car\u00e1ter principalmente militar do regime ditatorial. \u00c9 excessivo dizer que \u201cos militares passaram a controlar a educa\u00e7\u00e3o, a cultura, o esporte&#8230;\u201d e que \u201csobretudo, deram as linhas na pol\u00edtica e na economia\u201d. Assim fica parecendo que os militares formam uma classe com interesses sociais pr\u00f3prios, distintos dos da burguesia e de seus c\u00edrculos dirigentes. Embora n\u00e3o pare\u00e7a ser essa a posi\u00e7\u00e3o que ele defende, o pressuposto te\u00f3rico de seu argumento \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o abstrata entre sociedade civil e Estado. Pensamos que vale a pena levar adiante esse debate.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Vermelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O recente e oportuno artigo de Pedro da Rocha Pomar criticando, como diz o t\u00edtulo, \u201cO modismo \u2018civil-militar\u2019 para designar a Ditadura Militar\u201d, tem o duplo m\u00e9rito de mostrar as fal\u00e1cias de uma nada inocente manipula\u00e7\u00e3o terminol\u00f3gica e de reativar a an\u00e1lise do regime que violentou o Brasil de 1964 a 1985.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2233"}],"collection":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2233"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2233\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}