{"id":2437,"date":"2012-10-01T13:50:15","date_gmt":"2012-10-01T13:50:15","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/10\/01\/dops-endossa-major-ferreira-2\/"},"modified":"2012-10-01T13:50:15","modified_gmt":"2012-10-01T13:50:15","slug":"dops-endossa-major-ferreira-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/10\/01\/dops-endossa-major-ferreira-2\/","title":{"rendered":"Dops endossa Major Ferreira"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>O prontu\u00e1rio 17.041 dos arquivos do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops) de Pernambuco foi aberto em 1962 para concentrar informa\u00e7\u00f5es sobre o empres\u00e1rio Severino Queiroz de Albuquerque, residente em Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o, na Zona da Mata. A pasta re\u00fane dados levantados pela Pol\u00edcia Civil e pelas For\u00e7as Armadas a respeito das atividades do empres\u00e1rio e sua atua\u00e7\u00e3o como aliado da repress\u00e3o. &#8220;Esclare\u00e7o que h\u00e1 muito tempo, desde antes de mar\u00e7o de 1964, o senhor Severino Queiroz de Albuquerque presta servi\u00e7os ao Ex\u00e9rcito como agente de informa\u00e7\u00e3o&#8221;, destaca um relat\u00f3rio produzido pela 2\u00aa Se\u00e7\u00e3o do IV Ex\u00e9rcito. At\u00e9 a semana passada, Severino Queiroz era um personagem desconhecido do per\u00edodo da ditadura em Pernambuco. Seu apelido \u2013 &#8220;Biu do \u00c1lcool&#8221; \u2013 foi revelado pelo ex-major da Pol\u00edcia Militar de Pernambuco Jos\u00e9 Ferreira dos Anjos \u00e0 Comiss\u00e3o Estadual da Verdade na semana passada. Ferreira garante que o empres\u00e1rio era um dos expoentes locais do Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas (CCC).  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O primeiro documento do prontu\u00e1rio foi produzido pela Pol\u00edcia Civil em 1962 e destaca uma den\u00fancia feita por Severino Queiroz de Albuquerque sobre a forma\u00e7\u00e3o das Ligas Camponesas em Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o. Come\u00e7ava ali a carreira de colaborador do empres\u00e1rio com os militares. O mais importante relat\u00f3rio da pasta 17.041 trata de uma &#8220;investiga\u00e7\u00e3o&#8221; feita pela 2\u00aa Se\u00e7\u00e3o do IV Ex\u00e9rcito contra Biu do \u00c1lcool. Os oficiais encarregados da apura\u00e7\u00e3o dizem ser inver\u00eddicas as informa\u00e7\u00f5es de que o colaborador contrabandeasse \u00e1lcool dos engenhos da regi\u00e3o. O texto ressalta ainda que a metralhadora INA que Queiroz portava ostensivamente em Vit\u00f3ria foi um presente dos militares ao &#8220;parceiro&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Severino Queiroz era um denunciante seguro das atividades exercidas pelos subversivos na cidade de Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o e adjac\u00eancias. Foi com ele que o major Walter Carrocino, ent\u00e3o chefe da 2\u00aa Se\u00e7\u00e3o\/7\u00aa Regi\u00e3o Militar, penetrou em 1963 na Galileia, quando maiores eram as atividades subversivas de Juli\u00e3o e Arraes, colhendo informa\u00e7\u00f5es precisas e de alto valor, do que se passava no principal reduto de agita\u00e7\u00e3o rural do Estado. Durante os acontecimentos de 31 de mar\u00e7o e dias subsequentes, a sua atividade e dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica foi prestimosa e relevante&#8221;, frisa o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na primeira metade da d\u00e9cada de 60, as Ligas Camponesas comandadas por Francisco Juli\u00e3o eram temidas pelos militares que consideravam o movimento um poss\u00edvel foco de resist\u00eancia armada ao golpe. O quartel-general das Ligas era o Engenho Galileia, na zona rural de Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>COMPROVA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para o advogado Pedro Eurico, integrante da Comiss\u00e3o da Verdade, os documentos do Dops endossam a vers\u00e3o apresentada pelo ex-major Ferreira em seu depoimento. &#8220;O Dops levantava informa\u00e7\u00f5es tanto de quem era contra, quanto de quem era a favor da repress\u00e3o. Esses dados sobre o Biu do \u00c1lcool demonstram que realmente havia uma rela\u00e7\u00e3o de colabora\u00e7\u00e3o dele com as For\u00e7as Armadas e apontam para a veracidade do depoimento de Ferreira de que o empres\u00e1rio integrava o CCC&#8221;, avaliou Eurico.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A professora Nadja Brayner, tamb\u00e9m membro da Comiss\u00e3o Estadual da Verdade, asseverou que os dados levantados nas sess\u00f5es ser\u00e3o confrontados com os arquivos do Dops. &#8220;Temos acesso aos prontu\u00e1rios locais e os levantamentos produzidos pelo Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI). Esses dados chegaram at\u00e9 n\u00f3s atrav\u00e9s da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. Faremos esse cruzamento para avan\u00e7ar na identifica\u00e7\u00e3o das pessoas citadas pelos depoentes&#8221;, concluiu Nadja Brayner.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;O CCC agia para bajular os militares&#8221;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em entrevista \u00e0 R\u00e1dio Jornal, na quarta-feira (26), o ex-major Jos\u00e9 Ferreira dos Anjos deu mais detalhes sobre a atua\u00e7\u00e3o do Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas (CCC) em Pernambuco. O ex-oficial da PM voltou a falar que o grupo de extrema direita concentrava civis, policiais e militares.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Aquilo era uma equipe de aventura. Eles praticavam atos para bajular os militares&#8221;, disse Ferreira.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o no atentado ao estudante C\u00e2ndido Pinto e o assassinato do padre Ant\u00f4nio Henrique Pereira Neto, o CCC esteve envolvido nos ataques e picha\u00e7\u00f5es \u00e0 sede da Arquidiocese de Olinda e Recife e ao Teatro Popular do Nordeste. Todos crimes ocorridos em 1969.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O ex-major acusou a exist\u00eancia de excessos. No entanto, argumentou que as For\u00e7as Armadas apenas reagiram a atos de terrorismo praticados pelos &#8220;subversivos&#8221;. A instala\u00e7\u00e3o dos Destacamentos de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es &#8211; Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (DOI-CODI) em todo o Pa\u00eds seria a estrat\u00e9gia oficial de conter as organiza\u00e7\u00f5es de esquerda.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;As For\u00e7as Armadas e as pol\u00edcias cometeram erros, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida disso. Houve mortes e torturas, mas contra elementos que eram terroristas&#8221;, justificou o ex-major.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O advogado Pedro Eurico, que atuou como advogado de dom Helder C\u00e2mara durante a ditadura, lembrou que o verdadeiro terror estava nos quart\u00e9is e delegacias. &#8220;O maior terrorismo era o oficial. Todos que lutaram pela democracia nessa \u00e9poca recordam bem de onde partia a viol\u00eancia&#8221;, rebateu Eurico, durante o debate na R\u00e1dio Jornal.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ainda participou do debate o ex-delegado e advogado da fam\u00edlia do padre Henrique, Jorge Tasso de Souza. Tasso recordou que durante a ditadura, v\u00e1rios membros de sua fam\u00edlia foram presos ou sofreram press\u00f5es por seu envolvimento e rela\u00e7\u00f5es de amizade com pessoas consideradas de esquerda.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Filha n\u00e3o sabia da a\u00e7\u00e3o de Biu do \u00c1lcool<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O empres\u00e1rio Severino Queiroz de Albuquerque, Biu do \u00c1lcool, faleceu em 1993. A filha mais velha dele, a comerciante Maria Auxiliadora Queiroz assegurou que n\u00e3o conhecia as atividades do pai na \u00e9poca da ditadura. A comerciante viveu a maior parte da inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia fora de Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu estudei em col\u00e9gio interno em outra cidade. N\u00e3o posso falar sobre o que o meu pai fazia naquela \u00e9poca porque n\u00e3o vivia em Vit\u00f3ria&#8221;, argumentou Maria Auxiliadora.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O JC localizou em Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o, Mata Sul, o ex-sargento da Pol\u00edcia Militar Aguinaldo Amorim da Silva. Aguinaldo trabalhou por muitos anos como auxiliar de Biu do \u00c1lcool, por determina\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito. Com 82 anos, o ex-sargento tem dificuldade em lembrar datas e acontecimentos, mas foi taxativo em dizer que s\u00f3 auxiliou o chefe no ramo de venda de \u00e1lcool.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele n\u00e3o me chamava para atividades diferentes. Minha responsabilidade era acompanhar o transporte de \u00e1lcool das usinas para as destilarias&#8221;, resumiu o ex-PM.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Aguinaldo revelou ainda que sua cess\u00e3o ao empres\u00e1rio Biu do \u00c1lcool foi uma determina\u00e7\u00e3o pessoal do ent\u00e3o coronel Antonio Bandeira, comandante do IV Ex\u00e9rcito no Recife, na d\u00e9cada de 60.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu trabalhava na Radiopatrulha e fui deslocado para ficar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dele (Biu do \u00c1lcool). O meu sal\u00e1rio continuava sendo pago pela Pol\u00edcia Militar. Depois de algum tempo, voltei para o quartel e me aposentei em 1983. Hoje, vivo muito doente&#8221;, lamentou Aguinaldo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O ex-sargento diz que ouviu falar do assassinato do padre Ant\u00f4nio Henrique Pereira Neto pela imprensa e que Biu do \u00c1lcool nunca fez qualquer men\u00e7\u00e3o ao caso. &#8220;\u00cble n\u00e3o era homem de muita conversa comigo&#8221;, finalizou o militar aposentado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A atividade de venda de \u00e1lcool de Severino Queiroz de Albuquerque tamb\u00e9m foi abordada nos informes reunidos pelo Dops. Em 15 de outubro de 1965, uma fiscaliza\u00e7\u00e3o realizada pela Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal na distribuidora do empres\u00e1rio localizou um caminh\u00e3o com 7,8 mil litros de \u00e1lcool. Os funcion\u00e1rios da empresa apresentaram a nota fiscal da mercadoria e o transporte do combust\u00edvel foi autorizado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O oficial respons\u00e1vel pela opera\u00e7\u00e3o relatou o fato da seguinte forma: &#8220;Quanto \u00e0s supostas irregularidades fiscais (sonega\u00e7\u00e3o de impostos), praticadas pelo senhor Severino Queiroz Albuquerque: O senhor Severino \u00e9 estabelecido \u00e0 Rua Jos\u00e9 Augusto, 950, Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o, com uma firma de \u00e1lcool por atacado e exporta\u00e7\u00e3o, com inscri\u00e7\u00e3o no Departamento de Rendas do Interior, sob o n\u00famero 459. Segundo o chefe da 10\u00aa Regi\u00e3o Fiscal, com sede naquela cidade, tem sido exercida uma eficiente fiscaliza\u00e7\u00e3o no com\u00e9rcio de \u00e1lcool e, dadas as circunst\u00e2ncias pormenorizadas no informe do PB n\u00ba594-BE\/2 de 27 de setembro de 1965, do IV Ex\u00e9rcito, \u00e9 pouco prov\u00e1vel que seja ver\u00eddica (a den\u00fancia de sonega\u00e7\u00e3o).&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O assassinato do padre Henrique, o atentado ao estudante C\u00e2ndido Pinto e o desaparecimento dos ativistas Fernando Santa Cruz e Eduardo Collier s\u00e3o considerados os casos priorit\u00e1rios pela Comiss\u00e3o Estadual da Verdade. Os dois primeiros casos nunca foram esclarecidos. Os suspeitos apontados pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o chegaram a ser julgados e os crimes prescreveram.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Fernando Santa Cruz e Eduardo Collier foram sequestrados por agentes da repress\u00e3o no Rio de Janeiro, em 1974. Os dois, que eram militantes da A\u00e7\u00e3o Popular Marxista-Leninista, nunca mais foram vistos.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p2\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Minist\u00e9rio P\u00fablico de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O prontu\u00e1rio 17.041 dos arquivos do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops) de Pernambuco foi aberto em 1962 para concentrar informa\u00e7\u00f5es sobre o empres\u00e1rio Severino Queiroz de Albuquerque, residente em Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o, na Zona da Mata. 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