{"id":6157,"date":"2013-07-07T23:02:16","date_gmt":"2013-07-07T23:02:16","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/07\/07\/caminhos-das-esquerdas-na-ditadura-militar-brasileira\/"},"modified":"2013-07-07T23:02:16","modified_gmt":"2013-07-07T23:02:16","slug":"caminhos-das-esquerdas-na-ditadura-militar-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/07\/07\/caminhos-das-esquerdas-na-ditadura-militar-brasileira\/","title":{"rendered":"Caminhos das esquerdas na Ditadura Militar brasileira"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" \/>O papel exercido historicamente pela for\u00e7a pol\u00edtica das esquerdas no Brasil tem sua marca de import\u00e2ncia no que diz respeito minimamente ao questionamento da ordem capitalista.   <!--more-->  A bandeira da \u201ctransforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social\u201d est\u00e1 na pauta da matriz te\u00f3rica do Marxismo, sendo levada adiante por muitas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ligadas a este pensamento. Juntamente a este fator, percebe-se, como demonstraremos a seguir, que erros e acertos caminham juntos no processo de aprendizagem da milit\u00e2ncia progressista e a variedade te\u00f3rica gerada pela filosofia marxista fez com que as esquerdas no Brasil divergissem em seus projetos revolucion\u00e1rios para o pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6156\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Sem%20t%C3%ADtulo.jpg\" border=\"0\" width=\"440\" height=\"217\" style=\"vertical-align: baseline;\" \/><\/p>\n<p class=\"p2\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Temos como objetivo neste trabalho apresentar como foram pensadas as concep\u00e7\u00f5es de revolu\u00e7\u00e3o para o Brasil pelas esquerdas, discutir a fragilidade dessas for\u00e7as pol\u00edticas no que diz respeito \u00e0s an\u00e1lises de conjuntura pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social, bem como suas inconsist\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o a uma liga\u00e7\u00e3o direta e efetiva com a classe trabalhadora.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">O Regime Militar brasileiro trabalhou com diversas formas de silenciamento. Impondo o sil\u00eancio \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o, a milit\u00e2ncia de esquerda se viu na necessidade de trabalhar com sua forma pr\u00f3pria de sil\u00eancio: a clandestinidade. Desta forma, os jovens que ingressavam nesta batalha viram nas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda um instrumento de derrubada do regime pol\u00edtico ent\u00e3o vigente, mesmo passando pelas dificuldades em se conviver com o \u201csil\u00eancio de si mesmo\u201d devido \u00e0 clandestinidade (ARAUJO, 2002).<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Para conseguir atingir o objetivo de derrubada da ditadura boa parte das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda atuaram como grupos de guerrilha, com o intuito de alcan\u00e7ar a transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds atrav\u00e9s da luta armada. Tais organiza\u00e7\u00f5es tinham suas propostas para uma revolu\u00e7\u00e3o no Brasil, entre os principais podemos citar: A\u00e7\u00e3o Popular (AP), Partido Comunista do Brasil (PC do B), Pol\u00edtica Oper\u00e1ria (Polop), Alian\u00e7a Libertadora Nacional (ALN), Movimento Nacional Revolucion\u00e1rio (MNR), Partido Comunista Brasileiro Revolucion\u00e1rio (PCBR), Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR), Vanguarda Armada Revolucion\u00e1ria Palmares (VAR-Palmares), Partido Oper\u00e1rio Comunista (POC), Movimento Revolucion\u00e1rio 8 de Outubro (MR-8), Movimento de Liberta\u00e7\u00e3o Popular (Molipo), entre outros.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\">Deste consider\u00e1vel n\u00famero de organiza\u00e7\u00f5es j\u00e1 se percebe uma falha inicial em um projeto de derrubada, atrav\u00e9s das armas, de um governo militar: a extrema fragmenta\u00e7\u00e3o da esquerda. Esta falta de unidade da esquerda brasileira abriu brechas para que os militares esmagassem boa parte da oposi\u00e7\u00e3o armada.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s propostas de revolu\u00e7\u00e3o destas organiza\u00e7\u00f5es para o Brasil, Marcelo Ridenti destaca que em meados dos anos 60 a principal vers\u00e3o era a que foi definida no VI Congresso da III Internacional Comunista, de 1928, que era inclusive utilizada pelo PCB.<\/p>\n<p class=\"p1\">Previa-se a revolu\u00e7\u00e3o em duas etapas, a primeira das quais deveria ser \u201cburguesa\u201d, ou de \u201cliberta\u00e7\u00e3o nacional\u201d. Congregando uma somat\u00f3ria de classes sociais progressistas, unidas para desenvolver as for\u00e7as produtivas, a revolu\u00e7\u00e3o burguesa implicaria superar os entraves impostos ao desenvolvimento nacional pelas rela\u00e7\u00f5es feudais no campo e pela presen\u00e7a do imperialismo na economia. Muitas organiza\u00e7\u00f5es que pegaram em armas mantiveram com poucas altera\u00e7\u00f5es esse esquema anal\u00edtico, como foi o caso da ALN e, tamb\u00e9m, dos grupos nacionalistas, como MNR e RAN, que, naturalmente, eram favor\u00e1veis a uma luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional (RIDENTI, 1993: 30, 31)<\/p>\n<p class=\"p1\">Sobre a quest\u00e3o das \u201crela\u00e7\u00f5es feudais no campo\u201d, Caio Prado Jr. aponta algumas cr\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o a aus\u00eancia de uma an\u00e1lise mais s\u00f3lida por parte das esquerdas sobre os trabalhadores do campo.<\/p>\n<p class=\"p1\">[&#8230;] porque no campo, onde o assunto se apresentava muito mais complexo, a coisa era pior, pois as pr\u00e9dicas para uma massa trabalhadora rural fantasiada para a circunst\u00e2ncia do campesinato do tipo europeu dos s\u00e9culos XVIII e XIX, e as impreca\u00e7\u00f5es contra o \u201cfeudalismo\u201d n\u00e3o encontravam ai, nem podia encontrar, nenhuma resson\u00e2ncia (JUNIOR, 2005: 46)<\/p>\n<p class=\"p1\">A ALN, de Marighella, inclu\u00eda em seu projeto a inclus\u00e3o de setores pequeno-burgueses e pequenos empres\u00e1rios nacionais no processo revolucion\u00e1rio, n\u00e3o tendo, ent\u00e3o, um car\u00e1ter socialista de in\u00edcio e sim um teor de liberta\u00e7\u00e3o nacional, antiolig\u00e1rquico e anticapitalista. A proposta de um governo popular-revolucion\u00e1rio se aproximava do PCBR, apesar de que este \u00faltimo j\u00e1 propunha um caminho socialista para a Revolu\u00e7\u00e3o Popular. (RIDENTI, 1993)<\/p>\n<p class=\"p1\">Outro grupo que se assemelhava em alguns pontos com a ALN e o PCBR, sobretudo no que diz respeito a id\u00e9ia de se implantar um \u201cGoverno Popular Revolucion\u00e1rio\u201d, foi a Ala Vermelha do PC do B, e inclusive se assemelhava da ALN em sua proposta de uma coliga\u00e7\u00e3o ampla, envolvendo a burguesia nacional, o campesinato, a pequena burguesia, o semiproletariado e o proletariado como vanguarda. J\u00e1 a VPR, VAR- Palmares, POC, PRT e MR-8 propunham um car\u00e1ter socialista de revolu\u00e7\u00e3o (RIDENTI, 1993).<\/p>\n<p class=\"p1\">As esquerdas teorizavam sobre o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Estes sistema teria ent\u00e3o um entreve sobre ele, devido \u00e0s alian\u00e7as da burguesia com latifundi\u00e1rios e \u00e0 vincula\u00e7\u00e3o da economia brasileira com as multinacionais. Desta forma, \u201co \u2018inimigo imediato\u2019 da revolu\u00e7\u00e3o seria a \u2018burguesia local\u2019 e o \u2018inimigo principal\u2019 o \u2018imperialismo\u2019 (a burguesia brasileira seria mera representante local do imperialismo)\u201d (RIDENTI, 1993: 36).<\/p>\n<p class=\"p1\">Uma semelhan\u00e7a entre as ideias de Marcelo Ridenti e Caio Prado Jr. s\u00e3o suas cr\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fragilidade das an\u00e1lises pol\u00edticas das esquerdas. Ridenti aponta que as esquerdas n\u00e3o conseguiam esbo\u00e7ar uma an\u00e1lise consistente das classes despossu\u00eddas. Tal quest\u00e3o nos leva a pensar sobre uma caracter\u00edstica negativa das esquerdas neste per\u00edodo: sua falta de aproxima\u00e7\u00e3o direta com a classe trabalhadora.<\/p>\n<p class=\"p1\">Uma quest\u00e3o que fica clara sobre este ponto \u00e9 a seguinte conclus\u00e3o: os jovens militantes, oriundos em sua maioria da classe m\u00e9dia, tinham em m\u00e3os a teoria marxista, a coragem e a persist\u00eancia da milit\u00e2ncia clandestina para defender a classe trabalhadora, mas n\u00e3o tinham o fator principal, uma rela\u00e7\u00e3o mais estreita com esta classe. Desta forma, as camadas populares da sociedade n\u00e3o se viam representadas por estes grupos pol\u00edticos.<span style=\"line-height: 1.3em;\"> <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\">Al\u00e9m desta quest\u00e3o, havia tamb\u00e9m os caminhos vacilantes pelos quais as esquerdas passaram at\u00e9 mesmo antes do Regime Militar, que incluem al\u00e9m deste distanciamento com as camadas populares, algumas coliga\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias com setores conservadores da sociedade.<\/p>\n<p class=\"p1\">[&#8230;] as bases, as massas populares, assistiam passivamente, ou pouco mais que isso, aos acontecimentos. E na melhor das hip\u00f3teses faziam, nos momentos de maior tens\u00e3o, de torcida, como nos jogos de futebol. Nessas condi\u00e7\u00f5es, encerradas em seus \u201cslogans\u201d, que nem por sua infinita e mon\u00f3tona repeti\u00e7\u00e3o se abriam e projetavam em diretrizes eficazes e normas fecundas de a\u00e7\u00e3o \u2013 pois para isso n\u00e3o serviam os seus inaplic\u00e1veis esquemas te\u00f3ricos \u2013 e privadas assim de perspectivas concretas, as esquerdas n\u00e3o lograram nunca atinar, afora uma agita\u00e7\u00e3o no mais das vezes completamente est\u00e9ril, com outra sa\u00edda para seu isolamento que a triste conting\u00eancia de alian\u00e7as com quaisquer dispositivos partid\u00e1rios que aceitassem seu apoio e concurso em troca de migalha de pequenos favores pol\u00edticos muito mais de natureza pessoal que outra coisa qualquer. E assim se procedia mesmo \u00e0 custa de concess\u00f5es e abdica\u00e7\u00f5es de ordem ideol\u00f3gica (JUNIOR, 2005: 47, 48).<\/p>\n<p class=\"p1\">A principal cr\u00edtica que Caio Prado Jr apresenta sobre as esquerdas \u00e9, em suma, que estes grupos pol\u00edticos estiveram muito focados em estabelecer esquemas te\u00f3ricos para a revolu\u00e7\u00e3o brasileira e careciam de uma an\u00e1lise mais profunda da conjuntura pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social do pa\u00eds. Pois, para o autor, somente fazendo uma an\u00e1lise e interpreta\u00e7\u00e3o concreta da realidade brasileira, percebendo as contradi\u00e7\u00f5es presentes, \u00e9 que se conseguiria tirar da\u00ed as poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es para a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pela qual o pa\u00eds vivia.<\/p>\n<p class=\"p1\">Caio Prado Jr. utiliza o exemplo da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, que passou pelas etapas antiditatorial, revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria e anti-imperialista at\u00e9 chegar em revolu\u00e7\u00e3o socialista (1961), para comentar como deve ser a teoria revolucion\u00e1ria brasileira. Demonstrando, desta forma, que o car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o deve estar calcado nas bases reais da sociedade, e n\u00e3o em esquemas te\u00f3ricos pr\u00e9-determinados.<\/p>\n<p class=\"p1\">Tal quest\u00e3o demonstra mais um equ\u00edvoco das esquerdas, o de importar modelos revolucion\u00e1rios de realidades totalmente distintas da brasileira. Somente o fato de adotarem o modelo de revolu\u00e7\u00e3o proposto no VI Congresso da III Internacional Comunista, demonstra esta fragilidade de an\u00e1lise de conjuntura dos militantes.<\/p>\n<p class=\"p1\">Considera\u00e7\u00f5es finais<\/p>\n<p class=\"p1\">Percebemos ent\u00e3o que as esquerdas brasileiras se mostraram carentes de uma unidade coesa e com alguns equ\u00edvocos em suas propostas para derrubada do Regime Militar. A aus\u00eancia de uma an\u00e1lise de conjuntura, o distanciamento com as classes trabalhadoras, s\u00e3o alguns exemplos desta fraqueza (apesar de serem fortes enquanto militantes em um regime autorit\u00e1rio).<\/p>\n<p class=\"p1\">V\u00e1rias foram as propostas do processo revolucion\u00e1rio, que inclu\u00edam deste a inser\u00e7\u00e3o de grupos conservadores, como empres\u00e1rios nacionais, pequena burguesia, etc. Mas dentre todas as quest\u00f5es colocadas aqui, talvez a que mais tenha prejudicado os guerrilheiros foi a fragmenta\u00e7\u00e3o das esquerdas em v\u00e1rios grupos armados e com reduzido n\u00famero de membros e sua n\u00e3o inser\u00e7\u00e3o nas camadas populares da sociedade brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O papel exercido historicamente pela for\u00e7a pol\u00edtica das esquerdas no Brasil tem sua marca de import\u00e2ncia no que diz respeito minimamente ao questionamento da ordem capitalista.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6156,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6157"}],"collection":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6157"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6157\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6156"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6157"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6157"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6157"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}