{"id":6644,"date":"2013-10-23T12:33:00","date_gmt":"2013-10-23T12:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/10\/23\/ex-militante-sobre-sequestro-na-ditadura-embaixador-dos-eua-seria-executado\/"},"modified":"2013-10-23T12:33:00","modified_gmt":"2013-10-23T12:33:00","slug":"ex-militante-sobre-sequestro-na-ditadura-embaixador-dos-eua-seria-executado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/10\/23\/ex-militante-sobre-sequestro-na-ditadura-embaixador-dos-eua-seria-executado\/","title":{"rendered":"Ex-militante sobre sequestro na ditadura: &#8216;Embaixador dos EUA seria executado&#8217;"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Cid Benjamin, que lan\u00e7a o livro &#8216;Gracias a La Vida \u2013 Mem\u00f3ria de um Militante&#8217;, fala ao iG sobre os anos de chumbo e conta que morte do embaixador &#8216;chegou perto&#8217;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6640\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/0xte8rn24pyl6wlz5n08j5u8f.jpg\" border=\"0\" width=\"316\" height=\"236\" srcset=\"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/0xte8rn24pyl6wlz5n08j5u8f.jpg 316w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/0xte8rn24pyl6wlz5n08j5u8f-300x224.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 316px) 100vw, 316px\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\" \/><span style=\"line-height: 1.3em;\">Cid Benjamin de volta ao &#8216;rat\u00e3o&#8217;, solit\u00e1ria onde ficou preso no Dops durante a ditadura. <\/span><span style=\"line-height: 1.3em;\" \/>Eduardo Sarmento\/Divulga\u00e7\u00e3o  <!--more-->  <\/span><\/address>\n<div><span style=\"line-height: 1.3em;\"><br \/><\/span><\/div>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Aos 65 anos, o jornalista Cid Benjamin decidiu, finalmente, romper o sil\u00eancio com um s\u00f3brio e vibrante relato ligando os tenebrosos anos de chumbo \u00e0 pol\u00edtica atual no livro <a href=\"http:\/\/pensata.ig.com.br\/?p=14\">\u201cGracias a La Vida \u2013 Mem\u00f3rias de um Militante\u201d <\/a>(Editora Jos\u00e9 Olympio), a ser lan\u00e7ado na pr\u00f3xima ter\u00e7a-feira, no Rio.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Militante da linha de frente das a\u00e7\u00f5es mais significativas da luta armada, preso, torturado, banido do pa\u00eds, Cid admite, 44 anos depois, que a morte do ex-embaixador americano Charles Burk Elbrick havia sido decidida dentro do planejamento do sequestro, ocorrido em setembro de 1969. Ele n\u00e3o deixa d\u00favidas que a decis\u00e3o era para valer.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6641\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/5ae3isnvzi63fey3blwudj6vq.jpg\" border=\"0\" width=\"652\" height=\"408\" srcset=\"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/5ae3isnvzi63fey3blwudj6vq.jpg 652w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/5ae3isnvzi63fey3blwudj6vq-300x188.jpg 300w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/5ae3isnvzi63fey3blwudj6vq-436x272.jpg 436w\" sizes=\"(max-width: 652px) 100vw, 652px\" \/><\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<address>Ficha de identifica\u00e7\u00e3o de Cid Benjamin na pol\u00edcia, em maio de 1970<\/address>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u201cResistir\u00edamos a qualquer tentativa de invas\u00e3o. E isso chegou perto de acontecer. Se o cativeiro fosse invadido ou nossas reivindica\u00e7\u00f5es n\u00e3o fossem atendidas, o embaixador seria executado\u201d, conta o ex-guerrilheiro em entrevista ao iG .<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O plano surgiu \u201cnum estalo\u201d, fruto da casualidade, quando Cid e o jornalista Franklin Martins, ex-ministro de Comunica\u00e7\u00e3o do governo Lula, ambos do grupo armado do MR-8, caminhavam pelas cercanias da resid\u00eancia do embaixador, na Rua Marques, em Botafogo, e viram o diplomata passar num carro oficial sem escolta.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">O relato de Cid Benjamin liga epis\u00f3dios dos \u00faltimos 50 anos como um roteiro pol\u00edtico, de onde n\u00e3o escapam nem casos escabrosos, como o sequestro e a morte do ex-prefeito de Santo Andr\u00e9 Celso Daniel, em janeiro de 2002, que ele apurou como rep\u00f3rter da grande imprensa: \u201cO problema \u00e9 que o partido trabalhou com mafiosos\u201d, diz.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Confira abaixo a entrevista.<\/strong><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\"><br \/><\/span><\/address>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; Por que o senhor demorou 43 anos para contar sua participa\u00e7\u00e3o na luta armada?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid Benjamin &#8211;<\/strong> Precisava amadurecer. Acabou sendo uma feliz coincid\u00eancia porque esse tema voltou \u00e0 tona com as Comiss\u00f5es da Verdade, o livro do Marighella (Carlos Marighella, criador da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional, ALN, biografado por M\u00e1rio Magalh\u00e3es) e a jornada de manifesta\u00e7\u00f5es de junho. O livro \u00e9 resultado de um processo de amadurecimento e de reflex\u00e3o. N\u00e3o queria escrever, mas muita gente cobrava. As condi\u00e7\u00f5es objetivas s\u00f3 se deram agora.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; Por que o senhor conclui afirmando que a guerrilha foi um erro?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211; <\/strong>N\u00e3o digo que a guerrilha n\u00e3o tenha sido ileg\u00edtima porque pegar em armas contra um regime de opress\u00e3o \u00e9 inteiramente leg\u00edtimo. O problema \u00e9 que naquelas condi\u00e7\u00f5es, num pa\u00eds como o Brasil, a guerrilha n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de crescer e criar um fato. Ela estava fadada ao esmagamento e ao isolamento. E foi o que aconteceu. Mas eu separo essa quest\u00e3o da legitimidade da luta armada, que afirmo e defendo, da decis\u00e3o pol\u00edtica de recorrer a ela. Politicamente foi uma decis\u00e3o incorreta. Nossa derrota n\u00e3o se deu por problemas ocasionais. Naquelas circunst\u00e2ncias n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de crescer e derrubar a ditadura.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; De quantas a\u00e7\u00f5es armadas o senhor participou?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211; <\/strong>De vulto, creio que entre 10 e 15. Mas houve muitas outras porque para cada a\u00e7\u00e3o era necess\u00e1rio roubar carros, armas. Havia tamb\u00e9m a\u00e7\u00f5es em porta de f\u00e1brica. Depois que fui preso, disseram (pol\u00edcia e justi\u00e7a) que entre o sequestro, roubo a bancos e carros de valores, foram entre 10 e 15. As de menor vulto foram tantas que n\u00e3o d\u00e1 nem para contar.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; Ao se referir ao caso do sequestro do embaixador Charles Elbrick, o senhor afirma que ele seria morto se a repress\u00e3o invadisse o cativeiro. Quem faria isso e como isso foi discutido?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211;<\/strong> N\u00e3o chegamos a discutir quem o executaria. Naturalmente, n\u00f3s resistir\u00edamos a qualquer tentativa de invas\u00e3o e ele seria executado, mas n\u00e3o havia algu\u00e9m com essa incumb\u00eancia. E isso chegou perto de acontecer. O que fizemos foi discutir antes da a\u00e7\u00e3o: se o cativeiro fosse invadido ou nossas reivindica\u00e7\u00f5es n\u00e3o fossem atendidas, ele seria executado.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; Quais foram os momentos mais tensos antes do desfecho do sequestro?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6642\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/eb28if8mrfofgdhi2x5s1pspl.jpg\" border=\"0\" width=\"316\" height=\"316\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Cid Benjamin lan\u00e7a o livro &#8216;Gracias a la vida &#8211; Mem\u00f3rias de um militante&#8217;. <\/span><span style=\"line-height: 1.3em;\">Divulga\u00e7\u00e3o<\/span><\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\"><br \/><\/span><\/address>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211;<\/strong> N\u00f3s ach\u00e1vamos que a casa estava sendo vigiada, mas a repress\u00e3o tinha uma percep\u00e7\u00e3o muito clara de que n\u00e3o deveria invadir para n\u00e3o colocar em risco a vida do embaixador. Tanto \u00e9 assim que, j\u00e1 no primeiro dia, a ditadura leu o nosso manifesto, respondeu que aceitaria as condi\u00e7\u00f5es e, no final, soltou os presos. O trabalho dela foi mais de campana, com uma vigil\u00e2ncia discreta. N\u00f3s tamb\u00e9m t\u00ednhamos consci\u00eancia que a situa\u00e7\u00e3o poderia mudar a qualquer momento, mas a vigil\u00e2ncia era discreta, eles olhando de longe, ainda que um deles (suposto agente) tenha tocado a campainha da casa (da Rua Bar\u00e3o de Petr\u00f3polis, em Santa Tereza, no Rio).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; A escolha do embaixador americano foi mesmo uma casualidade?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211;<\/strong> Essa acabou sendo a a\u00e7\u00e3o mais espetacular, mas n\u00e3o foi a mais complicada ou a mais dif\u00edcil. Essa a\u00e7\u00e3o se deu por uma coincid\u00eancia. N\u00f3s est\u00e1vamos caminhando, eu e o Franklin Martins (jornalista e ex-ministro da Comunica\u00e7\u00e3o no governo do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva), na rua em que se deu o sequestro, a Rua Marques, quando o embaixador passou. E o carro tinha at\u00e9 bandeirinhas, ele sozinho como passageiro, sem seguran\u00e7a. Ent\u00e3o deu o estalo. Outro fator que pesou \u00e9 que meses antes o embaixador americano na Guatemala havia sido metralhado pela guerrilha. Ent\u00e3o quando o carro passou n\u00f3s pensamos: esse cara est\u00e1 dando mole. S\u00f3 que (ao contr\u00e1rio da Guatemala) achamos que era mais vantajoso em vez de um atentado contra a vida dele, sequestr\u00e1-lo, o que nos pareceu fact\u00edvel, como de fato foi.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; Por que a op\u00e7\u00e3o pelo sequestro?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211;<\/strong> A Justi\u00e7a Militar era inteiramente submissa aos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o. Houve casos em que as audi\u00eancias foram suspensas para que os presos fossem levados ao por\u00e3o e espancados para que admitissem as acusa\u00e7\u00f5es que estavam negando. Eu, por exemplo, afirmei no depoimento que havia marcas de tortura e nem assim a Justi\u00e7a permitiu que houvesse exame de corpo de delito. Meu irm\u00e3o, Cesar, que quando preso era menor de idade, foi considerado maior por conta de um laudo m\u00e9dico falso aceito pela Justi\u00e7a Militar. De justi\u00e7a n\u00e3o tinha nada.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; O que o sequestro representou para a guerrilha?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211;<\/strong> Foi aberto um caminho. Diante da submiss\u00e3o da Justi\u00e7a Militar, a gente tinha a preocupa\u00e7\u00e3o de libertar os presos que estavam sendo torturados e mortos, e outros sendo condenados a penas altas. No nosso caso, a preocupa\u00e7\u00e3o era libertar o Vladimir Palmeira (\u00e0 \u00e9poca o mais representativo l\u00edder estudantil), trocando-o pelo embaixador. Mas a\u00ed a gente viu que diante daquela \u201cmoeda de troca\u201d era muito pouco pedir s\u00f3 o Vladimir. Poderiam entrar outros presos na negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; Qual o papel de l\u00edderes como Jo\u00e3o Goulart, Leonel Brizola e Miguel Arraes no p\u00f3s-1968? Eles deixaram a esquerda armada sozinha?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211; <\/strong>Esses l\u00edderes estavam todos exilados. Houve uma certa subestima\u00e7\u00e3o, como se a hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o fosse come\u00e7ar depois do golpe de 1964 com a nova esquerda. Ent\u00e3o havia uma certa desvaloriza\u00e7\u00e3o desse segmento. Chegou-se a pensar que a derrota da esquerda se deu quando esses grupos armados foram destru\u00eddos, quando na verdade a derrota estrat\u00e9gica se deu em 1964, que se tratou de um processo mais poderoso e mais forte, e n\u00e3o na destrui\u00e7\u00e3o dos grupos armados. Mas isso era parte da nossa vis\u00e3o m\u00edope e um tanto centrada.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; Voc\u00eas chegaram a se sentir abandonados?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211;<\/strong> N\u00e3o, porque n\u00e3o havia qualquer compromisso de nos estenderem a m\u00e3o. Imagino que alguns marinheiros e sargentos que participaram da guerrilha de Capara\u00f3 (primeiro movimento armado, entre 1966 e 1967, organizado por Brizola na divisa entre Esp\u00edrito Santo e Minas, sufocada), por exemplo, podem ter ficado com algum tipo de ressentimento. Esse n\u00e3o era o nosso caso. Como n\u00e3o t\u00ednhamos nenhum acordo com eles, tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00ednhamos do que reclamar.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6643\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/7kj8kglh0kmf2uubahyoj6p7k.jpg\" border=\"0\" width=\"316\" height=\"421\" srcset=\"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/7kj8kglh0kmf2uubahyoj6p7k.jpg 316w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/7kj8kglh0kmf2uubahyoj6p7k-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 316px) 100vw, 316px\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Cid Benjamin no Gale\u00e3o, ao voltar ao Brasil, com sua filha Ana Sommer e as ex-presas pol\u00edticas Jessie Jane e In\u00e1 Meireles. <\/span><span style=\"line-height: 1.3em;\">Divulga\u00e7\u00e3o<\/span><\/address>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\"><br \/><\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; Passadas mais de quatro d\u00e9cadas, o que est\u00e1 faltando para virar a p\u00e1gina? Que contribui\u00e7\u00e3o esperar da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211; <\/strong>Falta uma coisa central: abrir os arquivos das For\u00e7as Armadas. \u00c9 uma queda de bra\u00e7os e os governos Lula e Dilma esbarraram nessa argumenta\u00e7\u00e3o deles (militares) de que n\u00e3o h\u00e1 arquivos, que foram destru\u00eddos, queimados, etc, quando se sabe que qualquer documento oficial n\u00e3o pode ser destru\u00eddo assim. Tem que haver uma ordem de destrui\u00e7\u00e3o, um respons\u00e1vel, como e onde foi feito. Os arquivos existem e podem dar respostas a muita coisa, como as mortes de Juscelino (Kubitschek), do Jango e o caso dos desaparecidos pol\u00edticos, para se saber onde foram parar os restos mortais.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; O que essa lacuna ainda representa?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211; <\/strong>Isso \u00e9 uma coisa da maior import\u00e2ncia para as fam\u00edlias. Durante muitos anos e at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, as fam\u00edlias sequer mudavam de endere\u00e7o porque os filhos desaparecidos conheciam aquele endere\u00e7o. Em datas festivas como Natal, Ano Novo e anivers\u00e1rios, sempre que se fazia uma festinha na fam\u00edlia, ficava uma cadeira vazia em volta da mesa, na esperan\u00e7a de que a pessoa desaparecida pudesse chegar. Era uma tortura permanente para as m\u00e3es. A localiza\u00e7\u00e3o do paradeiro \u00e9 um direito da fam\u00edlia e da sociedade tamb\u00e9m.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; Que papel a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade pode desempenhar nesse sentido?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211; <\/strong>O trabalho da comiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 olhar para tr\u00e1s. A gente s\u00f3 olha para tr\u00e1s para adquirir anticorpos e evitar que as coisas se repitam. N\u00e3o \u00e9 para revanchismo ou estigmatizar as For\u00e7as Armadas, que s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es permanentes e necess\u00e1rias ao pa\u00eds. Ningu\u00e9m quer achincalhar as For\u00e7as Armadas, mas elas t\u00eam de compreender tamb\u00e9m que numa sociedade democr\u00e1tica \u00e9 inaceit\u00e1vel que continuem mantendo vers\u00f5es tipo a de que o jornalista Vladimir Herzog se suicidou. \u00c9 preciso que elas ajudem a recuperar a verdade hist\u00f3rica para que essa barb\u00e1rie n\u00e3o se repita.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; Como fazer isso?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211; <\/strong>Gosto de citar o exemplo do Mandela, que esteve preso por 27 anos, 13 deles quebrando pedra, a maior parte do tempo em solit\u00e1ria, isolado. Ele foi barbaramente torturado porque era o chefe m\u00e1ximo do setor armado da CNA. Quando libertado, tinha tudo para uma vendetta, mas demonstrou uma grandeza de car\u00e1ter e personalidade, e apresentou um projeto de anistia que abarcava os pr\u00f3prios torturadores e assassinos. Mas com uma condi\u00e7\u00e3o: que eles fossem ao tribunal e dissessem tudo o que fizeram. Qualquer crime omitido poderia dar margem a processo, condena\u00e7\u00e3o e pris\u00e3o. O objetivo era tirar debaixo do tapete as coisas todas, o que \u00e9 mais importante do que a puni\u00e7\u00e3o. Houve ent\u00e3o uma catarse e na \u00c1frica do Sul foram criados anticorpos para que essa barbaridade n\u00e3o se repita.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; Como acha que devem ser tratados no Brasil os torturadores?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211; <\/strong>Sou favor\u00e1vel \u00e0 puni\u00e7\u00e3o dos torturadores porque o futuro da tortura est\u00e1 ligado ao futuro dos torturadores. Se eles tivessem sido punidos, n\u00e3o ter\u00edamos o caso do pedreiro Amarildo, torturado e morto aqui no Rio de Janeiro. Mais importante que a puni\u00e7\u00e3o \u00e9 a abertura dos arquivos e o conhecimento pleno do que aconteceu.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; O atual governo tem vontade pol\u00edtica para tirar esse esqueleto do arm\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211;<\/strong> N\u00e3o, mas n\u00e3o acho que seja quest\u00e3o de vontade. N\u00e3o vejo disposi\u00e7\u00e3o de fazer barulho ou comprar briga com as For\u00e7as Armadas. O comandante em chefe das For\u00e7as Armadas \u00e9 a presidente da Rep\u00fablica. Caberia a ela exigir a abertura dos arquivos. Ningu\u00e9m com mais de dois neur\u00f4nios acredita que os militares destru\u00edram os arquivos. Isso n\u00e3o existe. Arquivo \u00e9 informa\u00e7\u00e3o, informa\u00e7\u00e3o \u00e9 poder e est\u00e1 nas m\u00e3os das For\u00e7as Armadas. Mexer nisso \u00e9 criar uma \u00e1rea de atrito. E uma das caracter\u00edsticas tanto do governo Lula quanto do de Dilma \u00e9 n\u00e3o mexer com os interesses dos poderosos. E isso vale para as For\u00e7as Armadas, bancos, agroneg\u00f3cio, empreiteiras etc.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; Voc\u00ea foi barbaramente torturado. Ficou algum acerto de contas para tr\u00e1s?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211; <\/strong>Guardar rancor (citando Buda) \u00e9 como segurar carv\u00e3o em brasa nas m\u00e3os: voc\u00ea \u00e9 quem acaba se queimando. N\u00e3o tenho acerto de contas a fazer e n\u00e3o guardo rancor nem dos meus torturadores. Minha avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>iG &#8211; Na segunda parte do livro, entre outros assuntos, voc\u00ea trata do caso Celso Daniel (ex-prefeito de Santo Andr\u00e9, sequestrado e morto em 2002). O que voc\u00ea acha que houve?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cid &#8211; <\/strong>A novidade que o livro traz talvez seja a sistematiza\u00e7\u00e3o do caso Celso Daniel. Listei os sete casos de pessoas que foram mortas depois dele e que est\u00e3o relacionadas ao crime. Nenhum dos casos \u00e9 avulso. N\u00e3o sei por que n\u00e3o fizeram essa liga\u00e7\u00e3o. Minha conclus\u00e3o \u00e9 a do Minist\u00e9rio P\u00fablico: n\u00e3o me passa pela cabe\u00e7a que ele possa ter sido morto a mando de algu\u00e9m do PT, mas sim que o PT trabalhava com mafiosos, gente do esquema do roubo. O caso virou um inc\u00f4modo para o PT.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; IG<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cid Benjamin, que lan\u00e7a o livro &#8216;Gracias a La Vida \u2013 Mem\u00f3ria de um Militante&#8217;, fala ao iG sobre os anos de chumbo e conta que morte do embaixador &#8216;chegou perto&#8217; Cid Benjamin de volta ao &#8216;rat\u00e3o&#8217;, solit\u00e1ria onde ficou preso no Dops durante a ditadura. Eduardo Sarmento\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6640,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6644"}],"collection":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6644"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6644\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6640"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6644"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6644"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6644"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}