{"id":6672,"date":"2013-10-30T17:45:01","date_gmt":"2013-10-30T17:45:01","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/10\/30\/navio-raul-soares-memorias-do-carcere-flutuante\/"},"modified":"2013-10-30T17:45:01","modified_gmt":"2013-10-30T17:45:01","slug":"navio-raul-soares-memorias-do-carcere-flutuante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/10\/30\/navio-raul-soares-memorias-do-carcere-flutuante\/","title":{"rendered":"Navio Raul Soares &#8211; Mem\u00f3rias do c\u00e1rcere flutuante"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Livro escrito nos calabou\u00e7os do Navio foi lan\u00e7ado ao mar<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os ju\u00edzes t\u00eam canetas, n\u00f3s temos metralhadoras&#8221;, foi a justificativa do Coronel ao seu autor<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Impresso em 1965, o livro \u201cNavio Pres\u00eddio: A Outra Face da Revolu\u00e7\u00e3o\u201d, obra do jornalista Nelson Gatto, um dos presos do Raul Soares, que foi escrito no c\u00e1rcere flutuante, foi apreendido pelo Dops sem chegar \u00e0s livrarias.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Justi\u00e7a Civil mandou devolver o livro que, em seguida, foi apreendido pela Aeron\u00e1utica. No Superior Tribunal Militar, mais uma vez &#8211; e desta por 10 a 0-veio ordem para que fosse liberado, pois o relator, general Mour\u00e3o Filho, nada viu de pernicioso em seu texto. Mas o ent\u00e3o coronel da Aeron\u00e1utica, Francisco Renato de Melo, n\u00e3o obedeceu \u00e0 ordem: invadiu a gr\u00e1fica, apreendeu toda a edi\u00e7\u00e3o e lan\u00e7ou-a ao mar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Poucos exemplares escaparam e um deles est\u00e1 com este jornalista e autor, que o guarda como uma raridade. A obra retrata o clima entre os presos no interior daquela l\u00fagubre embarca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Depois o coronel justificaria a Nelson Gatto: &#8220;Os ju\u00edzes t\u00eam canetas, n\u00f3s temos metralhadoras&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img.diariodolitoral.com.br\/Sindical\/Raul_Soares_2%5B1%5D%20-%20divulga%C3%A7%C3%A3o.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">Impresso em 1965, o livro \u201cNavio Pres\u00eddio: A Outra Face da Revolu\u00e7\u00e3o\u201d, obra do jornalista Nelson Gatto, um dos presos do Raul Soares, que foi escrito no c\u00e1rcere flutuante, foi apreendido pelo Dops sem chegar \u00e0s livrarias (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/address>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;O depoimento que ora torno p\u00fablico, escrito em papel de embrulho num c\u00e1rcere imundo de um dos sombrios navios-pris\u00e3o em que brasileiros foram trancados, tratados como criminosos, \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o que dou aos meus amigos. Sem qualquer pretens\u00e3o liter\u00e1ria, \u00e9 apenas um documento a retratar o Brasil numa \u00e9poca desgra\u00e7ada.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Assim come\u00e7a o livro Navio Pres\u00eddio que poucos leram, ao contr\u00e1rio do que seu autor, o jornalista N\u00e9lson Gatto, pretendia. Escrito em 65, foi apreendido pelo Dops ( Delegacia de Ordem Pol\u00edtica e Social) sem chegar \u00e0s livrarias. A Justi\u00e7a Civil mandou devolver o livro que, em seguida, foi apreendido pela Aeron\u00e1utica. No Superior Tribunal Militar, mais uma vez &#8211; e desta por 10 a 0 &#8211; veio ordem para que fosse liberado, pois o relator, general Mour\u00e3o Filho, nada viu de pernicioso em seu texto. Mas o ent\u00e3o coronel da Aeron\u00e1utica, Francisco Renato de Melo, n\u00e3o obedeceu \u00e0 ordem: invadiu a gr\u00e1fica, apreendeu toda a edi\u00e7\u00e3o e lan\u00e7ou-a ao mar. Poucos exemplares foram salvos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Depois o coronel justificaria ao autor: &#8220;Os ju\u00edzes t\u00eam canetas, n\u00f3s temos metralhadoras&#8221;. Gatto, que havia passado 43 dias no navio-pres\u00eddio, voltou a ser preso em 67, para responder sobre o livro, conforme prometera o ent\u00e3o capit\u00e3o dos portos, J\u00falio de S\u00e1 Bierrembach.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O texto, do jornalista Carlos Mauri Alexandrino, menciona que os velhos ferros rangiam com as oscila\u00e7\u00f5es noturnas das mar\u00e9s, estalavam com os leves balan\u00e7os que o banco de areia onde fora encalhado o navio ainda permitia. Som mon\u00f3tono quebrado pelas tosses doentias dos que j\u00e1 escarravam sangue, que tossiam para fora os pulm\u00f5es corro\u00eddos pela umidade e pelo frio. Era o \u00fanico ru\u00eddo que se permitia atravessar as portas trancadas e vencer os sombrios corredores.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os que mesmo sem cobertas conseguiam dormir sobre imundos colch\u00f5es \u00famidos, vencidos pelo cansa\u00e7o, eram despertados muitas vezes pelo ex\u00e9rcito de pulgas, baratas e percevejos que insistiam em entrar nos narizes, bocas e orelhas adormecidas. Na maioria das celas, entretanto, enfrentar o colch\u00e3o era menos desconfort\u00e1vel que ficar em p\u00e9, com \u00e1gua gelada pelo tornozelo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De repente, uma patrulha abria a porta e lan\u00e7ava para dentro a luz de uma lanterna el\u00e9trica, sempre secundada pelos canos amea\u00e7adores das metralhadoras port\u00e1teis. Os homens da Pol\u00edcia Mar\u00edtima entravam levantando os prisioneiros e revistando tudo, como se fosse poss\u00edvel esconder alguma coisa. Os escritos eram apreendidos para ser anexados aos processos ou ent\u00e3o para abertura de novos inqu\u00e9ritos: uma poesia podia significar mais algumas semanas no imundo navio-pris\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c0s seis horas soava a sirena, a ordem para que todos se levantassem. Em pouco tempo era servido o caf\u00e9 e um peda\u00e7o de p\u00e3o. Eram colocados fora das celas que eram abertas o tempo suficiente para que o preso apanhasse a caneca, sob a mira das metralhadoras, para que n\u00e3o conversasse ou lan\u00e7asse qualquer olhar sobre o vizinho de infort\u00fanio. \u00c0s onze horas, era servido o almo\u00e7o, no conv\u00e9s, para onde os presos eram encaminhados em fila indiana, sob mira das armas tamb\u00e9m.<br \/> Cada um pegava sua bandeja que era enchida com uma pasta de arroz e feij\u00e3o-preto, na maioria das vezes, azeda e malcheirosa, que provocava diarr\u00e9ias incontrol\u00e1veis e dores de est\u00f4mago. N\u00e3o havia talheres para todos e por isso eram obrigados a comer com as m\u00e3os.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Alguns se recusavam a esse tratamento, exigindo o tratamento digno de um preso pol\u00edtico: esses simplesmente n\u00e3o comiam mais, contentando-se com a banana ou a laranja servida como sobremesa. O jantar era uma sopa intrag\u00e1vel feita com os restos do almo\u00e7o, servida l\u00e1 pelas 16,30 horas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As sa\u00eddas das celas eram limitadas a uma ida di\u00e1ria ao banheiro e aos chamados arejamentos que n\u00e3o eram di\u00e1rios e, preferencialmente, nos dias chuvosos e frios, quando os presos eram colocados no conv\u00e9s para caminhar ou fazer exerc\u00edcios for\u00e7ados incompat\u00edveis com suas condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas. Muitos presos, em cinquenta dias de pris\u00e3o, n\u00e3o chegaram a sair para arejamento dez vezes, meia hora em cada uma. Nada de conversa: era proibido.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A ida ao banheiro eram sempre acompanhadas por soldados armados com metralhadoras que exerciam forte vigil\u00e2ncia nos presos, que tinham que fazer suas necessidades fisiol\u00f3gicas com a porta aberta e sempre com a metralhadora empunhada pelo soldado, voltada amea\u00e7adoramente para seus corpos, numa situa\u00e7\u00e3o humilhante e degradante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Di\u00e1rio do Litoral<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Livro escrito nos calabou\u00e7os do Navio foi lan\u00e7ado ao mar &#8220;Os ju\u00edzes t\u00eam canetas, n\u00f3s temos metralhadoras&#8221;, foi a justificativa do Coronel ao seu autor Impresso em 1965, o livro \u201cNavio Pres\u00eddio: A Outra Face da Revolu\u00e7\u00e3o\u201d, obra do jornalista Nelson Gatto, um dos presos do Raul Soares, que foi escrito no c\u00e1rcere flutuante, foi [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6672"}],"collection":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6672"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6672\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6672"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6672"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6672"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}