{"id":6712,"date":"2013-11-18T13:00:33","date_gmt":"2013-11-18T13:00:33","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/11\/18\/a-ultima-clandestina-da-ditadura-no-brasil\/"},"modified":"2013-11-18T13:00:33","modified_gmt":"2013-11-18T13:00:33","slug":"a-ultima-clandestina-da-ditadura-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/11\/18\/a-ultima-clandestina-da-ditadura-no-brasil\/","title":{"rendered":"A \u00faltima clandestina da ditadura no Brasil"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6711\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/650x375_1369456.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<address \/>Perseguida pelo regime militar, Maria Jos\u00e9 conseguiu s\u00f3 agora deixar a clandestinidade  <!--more-->  <\/address>\n<address><\/address>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 30 anos morando na Fran\u00e7a, a arquiteta e urbanista baiana Maria Jos\u00e9 Malheiros decidiu, tardiamente, reabrir o processo de anistia, concedido em 1979 a todos os brasileiros punidos pelo regime militar,\u00a0 e pedir a regularidade definitiva de sua identidade.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nesses anos tive a sensa\u00e7\u00e3o de ser uma pessoa em peda\u00e7os. Uma pessoa com tr\u00eas vidas&#8221;, declarou ela, que optou por adotar o nome usado na clandestinidade.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A identidade resgatada encerra 40 anos de constrangimentos e medo de ser descoberta. &#8220;Tinha muita dificuldade em falar de n\u00famero, de guardar a data de nascimento, a n\u00e3o original&#8221;, conta Maria Jos\u00e9.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Num depoimento emocionado concedido ao A TARDE, ela define como &#8220;muito especial&#8221; o dia 24 de outubro de 2013, data em que foi anistiada pela Comiss\u00e3o da Anistia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pela primeira vez na minha vida eu caminhei em S\u00e3o Paulo, sozinha. S\u00e3o Paulo para mim era uma cidade do medo. Mas tinha um sol bel\u00edssimo naquele dia; achei a cidade linda&#8221;, descreveu.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>A vida no subterr\u00e2neo<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Terceira filha de uma fam\u00edlia de seis irm\u00e3os, Maria Neide Ara\u00fajo Moraes s\u00f3 tinha cinco anos quando os pais decidiram se mudar de Palmas de Monte Alto, no interior da Bahia, para Goi\u00e2nia, a capital de Goi\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Aos 17 anos, j\u00e1 aluna da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Goi\u00e1s e contratada como chargista do jornal O Popular, experimentou, naquele 8 de setembro de 1968, o\u00a0 clima de repress\u00e3o e medo no qual o Pa\u00eds mergulharia nos anos seguintes.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fui presa na v\u00e9spera do meu anivers\u00e1rio, em raz\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es estudantis. Depois fui colocada para fora do jornal por conta de uma charge sobre censura&#8221;, diz Maria Jos\u00e9, lembrando que o jornal foi fechado duas vezes pela pol\u00edcia por charges feitas por ela.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Expulsa da universidade, enquadrada no decreto-lei 477 (o AI-5 das universidades baixado pelo presidente-militar Artur da Costa e Silva contra culpados de subvers\u00e3o ao regime), ela foi sequestrada em casa, por agentes do Dops (Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Integrando os quadros da AP (A\u00e7\u00e3o Popular Marxista Leninista) e percebendo o agravamento da repress\u00e3o em Goi\u00e2nia, foi emancipada pelo pai, j\u00e1 que n\u00e3o tinha completado os 21 anos, e se mudou para S\u00e3o Paulo. Foi trabalhar no Banco Ita\u00fa, em 1971, onde atuou como digitadora de dados. Temendo ser presa, deixou o banco. Foi ent\u00e3o enquadrada no caso de abandono de emprego e passou para a clandestinidade.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;A situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica era muito mais dura no Pa\u00eds naquela \u00e9poca. A repress\u00e3o era violent\u00edssima, ent\u00e3o qualquer tipo de atua\u00e7\u00e3o era punido com pris\u00e3o&#8221;, relata ela. &#8220;Tive que abandonar a minha casa mais uma vez, meu companheiro (Hel\u00e1dio Jos\u00e9 de Campos Leme) ficou preso durante um ano, e eu tive que ir embora para o Rio de Janeiro&#8221;.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Seis meses depois Maria Jos\u00e9, j\u00e1 filiada ao PCdoB, veiopara a Bahia. Foi morar em Vit\u00f3ria da Conquista com o comunista e militante pol\u00edtico de esquerda Jos\u00e9 Novaes, que a adotou como filha leg\u00edtima.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ela, ent\u00e3o, que j\u00e1 abdicara do &#8220;nome original&#8221;, Maria Neide, passou a se chamar Maria Jos\u00e9 Novaes. &#8220;Fiquei em Vit\u00f3ria da Conquista um ano e tr\u00eas meses convivendo com a fam\u00edlia de Jos\u00e9 Novaes num bairro muito pobre&#8221;. Nessa \u00e9poca, lembra ela, o seu companheiro, pai de seu filho mais velho, saiu da pris\u00e3o. Eles ent\u00e3o\u00a0 decidiram voltar a S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Mas Maria Jos\u00e9 Novaes, assim como Maria Neide, tamb\u00e9m era procurada pelas for\u00e7as da repress\u00e3o. O PCdoB chegou a sugerir para ela ir para o Chile, destino buscado por v\u00e1rios comunistas brasileiros nos anos de chumbo. Mas ela decidiu ficar e voltar a Goi\u00e2nia clandestinamente. &#8220;Minha m\u00e3e me registrou, novamente. Me colocou entre dois filhos, na vaga do filho que tinha morrido, com o nome de Maria Jos\u00e9 Malheiros. Mudei novamente de idade e de nome&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Em setembro de 1973, decidem recome\u00e7ar a vida em Salvador. Com a certid\u00e3o de nascimento, conseguiu fazer uma carteira de trabalho. Volta a Goi\u00e2nia, em 1975, para\u00a0 fazer novo documento de identidade. &#8220;Passei a trabalhar e tentar viver uma vida clandestina, por\u00e9m, mais pr\u00f3xima da normalidade&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Em 1976 fez o supletivo, passou no vestibular de arquitetura da Ufba e ficou gr\u00e1vida. &#8220;Foi um ano muito pleno para mim&#8221;. Na universidade, ela militou no movimento estudantil e atuou\u00a0 na campanha pela anistia, ao lado de companheiros como Jos\u00e9 Sergio Gabrielli, Emiliano Jos\u00e9, Oldack Miranda, Jos\u00e9 Carlos Zanetti, Milton Vasconcelos, Javier Alfaya, L\u00eddice da Mata, P\u00e9ricles Souza e Jorge Almeida.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Em 1982, j\u00e1 separada do seu companheiro, foi para a Fran\u00e7a fazer doutorado. Conheceu o atual marido, com quem vive h\u00e1 30 anos e teve outro filho. Mas a &#8220;crise de nome e de idade&#8221; enfrentada todos os anos fez com que a engenheira de vias urbanas da prefeitura de Paris negociasse, h\u00e1 dois anos, uma licen\u00e7a n\u00e3o remunerada para retornar ao Brasil, requerer a anistia e regularizar sua identidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Na Fran\u00e7a continuava clandestina. O fato de ter dois nomes n\u00e3o adiantava. Tinha sempre que tomar cuidado, esses medos de ser descoberta. Esta anistia me permitiu isso. Hoje eu n\u00e3o preciso esconder mais para os outros quem sou&#8221;, diz ela, que at\u00e9 dezembro, quando retorna a Paris, continuar\u00e1 dando aulas na Faculdade de Arquitetura da Unifacs em Salvador.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; A Tarde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perseguida pelo regime militar, Maria Jos\u00e9 conseguiu s\u00f3 agora deixar a clandestinidade<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6712"}],"collection":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6712"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6712\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6712"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6712"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6712"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}