{"id":6967,"date":"2014-02-24T12:07:33","date_gmt":"2014-02-24T12:07:33","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/02\/24\/augusto-buonicore-da-ditadura-militar-brasileira\/"},"modified":"2014-02-24T12:07:33","modified_gmt":"2014-02-24T12:07:33","slug":"augusto-buonicore-da-ditadura-militar-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/02\/24\/augusto-buonicore-da-ditadura-militar-brasileira\/","title":{"rendered":"Augusto Buonicore: Da ditadura militar brasileira"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>At\u00e9 a d\u00e9cada de 1990 existia um amplo consenso entre os principais intelectuais e organiza\u00e7\u00f5es marxistas brasileiros em rela\u00e7\u00e3o ao car\u00e1ter do golpe e do regime implantado no pa\u00eds em mar\u00e7o de 1964. Poucos na esquerda questionavam que hav\u00edamos tido em 1\u00ba de abril de 1964 um \u201cgolpe militar\u201d e que este, por sua vez, implantara uma \u201cditadura militar\u201d.\u00a0  <!--more-->  <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Por Augusto Buonicore*, na Funda\u00e7\u00e3o Mauricio Grabois<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As maiores cr\u00edticas a essas conceitua\u00e7\u00f5es vinham dos liberais que, muitas vezes, preferiam usar os termos regime e governos autorit\u00e1rios, de carga sem\u00e2ntica mais suavizada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 indispens\u00e1vel fixar o conceito do movimento civil e militar que acaba de abrir ao Brasil uma nova perspectiva sobre o seu futuro (&#8230;). A revolu\u00e7\u00e3o se distingue de outros movimentos armados pelo fato de que nela se traduz n\u00e3o o interesse e a vontade de um grupo, mas o interesse e a vontade da Na\u00e7\u00e3o\u201d (trecho do Ato Institucional n\u00ba 1, decretado pela junta militar em abril de 1964).<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">\u201cA primeiro de abril o que houve foi um golpe militar fascista, com toda a sequ\u00eancia de arbitrariedade, despotismo e opress\u00e3o\u201d (Carlos Marighella. Por que resisti \u00e0 pris\u00e3o, 1965).<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Atualmente cresceu o n\u00famero daqueles que utilizam termos como \u201cgolpe civil-militar\u201d e \u201cditadura civil-militar\u201d. Talvez, o primeiro intelectual de esquerda a problematizar o uso do termo \u201cditadura militar\u201d tenha sido Ren\u00e9 Armand Dreifuss. O seu livro 1964: a conquista do Estado \u00e9 fruto de uma exaustiva pesquisa em torno do papel dos grandes empres\u00e1rios, vinculados ao complexo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais\/ Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica (IPES-IBAD), na conspira\u00e7\u00e3o que levou ao golpe e nos pr\u00f3prios governos \u201cautorit\u00e1rios\u201d que se seguiram.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Escreveu ele: \u201cApesar de a administra\u00e7\u00e3o p\u00f3s-1964 ser rotulada de \u2018militar\u2019 por muitos estudiosos de pol\u00edtica brasileira, a predomin\u00e2ncia cont\u00ednua de civis, os chamados t\u00e9cnicos, nos minist\u00e9rios e \u00f3rg\u00e3os administrativos tradicionalmente n\u00e3o-militares, \u00e9 bastante not\u00e1vel (&#8230;). Um exame mais cuidadoso desses civis indica que a maioria esmagadora dos principais t\u00e9cnicos em cargos burocr\u00e1ticos deveria (em decorr\u00eancia de suas fortes liga\u00e7\u00f5es industriais e banc\u00e1rias) ser chamada mais precisamente de empres\u00e1rios, ou, na melhor das hip\u00f3teses, de t\u00e9cnico-empres\u00e1rios\u201d. E vai mais longe ao afirmar que \u201cos empres\u00e1rios e t\u00e9cnico-empres\u00e1rios do IPES controlavam os mecanismos e processos de formula\u00e7\u00e3o de diretrizes e de tomadas de decis\u00e3o no aparelho de Estado\u201d. Menos, \u00e9 claro, a presid\u00eancia da Rep\u00fablica e a chefia das For\u00e7as Armadas \u2013 e isso n\u00e3o \u00e9 algo trivial.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nesta obra, curiosamente, ele n\u00e3o usa os termos ditadura ou golpe. Prefere palavras menos carregadas, como interven\u00e7\u00e3o, administra\u00e7\u00e3o e governo autorit\u00e1rios. Contudo, se Dreifuss tem d\u00favidas quanto ao car\u00e1ter \u201cmilitar\u201d da \u201cadministra\u00e7\u00e3o\u201d, parece n\u00e3o t\u00ea-las quanto ao car\u00e1ter da \u201cinterven\u00e7\u00e3o\u201d ocorrida em primeiro de abril de 1964. Sobre isso escreveu: \u201cAs classes capitalistas se \u2018unificariam\u2019 sob uma \u00fanica lideran\u00e7a \u2013 o complexo IPES\/IBAD \u2013 no Estado-Maior da burguesia, como tamb\u00e9m agiram sob a bandeira de um \u00fanico partido da ordem: as For\u00e7as Armadas\u201d. Continua: \u201cpor interm\u00e9dio da interven\u00e7\u00e3o militar, o bloco de poder multinacional-associado emergente elevava o n\u00edvel e a qualidade da luta de classes, impondo solu\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias para a crise, controlando a sociedade pol\u00edtica e produzindo um realinhamento nas rela\u00e7\u00f5es de dom\u00ednio atrav\u00e9s de uma forma de governo militar autorit\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos a tese do \u201cgolpe civil-militar\u201d (e da \u201cditadura civil-militar\u201d) ganhou importante apoio do historiador Daniel Aar\u00e3o Reis, um dos maiores estudiosos da atua\u00e7\u00e3o da esquerda brasileira durante a ditadura. Fazendo uma autocr\u00edtica dos seus escritos anteriores, onde usava livremente a palavra ditadura militar, passou a utilizar o termo \u201ccivil-militar\u201d. Fez isso n\u00e3o apenas para jogar luz sobre a participa\u00e7\u00e3o dos grandes empres\u00e1rios no golpe e o apoio destes \u00e0 ditadura, mas tamb\u00e9m para problematizar a complexa rela\u00e7\u00e3o existente entre a sociedade brasileira e o regime implantado em 1964. Aar\u00e3o chega mesmo a afirmar, de maneira pol\u00eamica, que os \u201canos de chumbo\u201d (1969-1973) tamb\u00e9m poderiam ser considerados \u201canos de ouro\u201d para \u201cn\u00e3o poucos\u201d brasileiros.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A primeira cr\u00edtica que devemos fazer aos criadores deste neologismo \u2013 na qual n\u00e3o incluo Aar\u00e3o Reis \u2013 \u00e9 quanto \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o que fazem aos que criaram e utilizaram os conceitos \u201cgolpe militar\u201d e \u201cditadura militar\u201d. Eles teriam por objetivo esconder a participa\u00e7\u00e3o da grande burguesia e dos latifundi\u00e1rios naqueles tr\u00e1gicos eventos. A exclus\u00e3o do termo \u201ccivil\u201d seria, na verdade, uma opera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Esta ideia \u00e9 err\u00f4nea e injusta, pois a esquerda marxista \u2013 a primeira a constatar o car\u00e1ter militar do golpe e do regime implantado em 1964 \u2013 sempre denunciou o papel desempenhado pela burguesia, o latif\u00fandio e o imperialismo estadunidense.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A esquerda marxista diante do golpe e a ditadura<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Vejamos agora como alguns dos principais marxistas brasileiros definiram o golpe e a ditadura brasileira. O historiador e general comunista Nelson Werneck Sodr\u00e9 escreveu: em 1964 \u201cas For\u00e7as Armadas tomam e instalam-se no poder, n\u00e3o o cedendo \u00e0s for\u00e7as pol\u00edticas que as manipularam. H\u00e1 um significado novo, portanto, na forma de interven\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas, que \u00e9 o de manter as velhas estruturas que controlavam este pa\u00eds desde a \u00e9poca colonial\u201d. O golpe e a ditadura n\u00e3o eram socialmente neutros, pois serviam aos interesses de determinadas classes: a burguesia associada ao imperialismo e o latif\u00fandio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Golpes e tentativas de golpes militares n\u00e3o eram novidades na hist\u00f3ria do Brasil. \u201cA forma dos golpes\u201d, continua Sodr\u00e9, \u201c\u00e9 sempre a mesma: a a\u00e7\u00e3o preparat\u00f3ria da m\u00eddia, uma prega\u00e7\u00e3o intensiva, visando isolar as for\u00e7as pol\u00edticas progressistas e o coroamento por meio de uma interven\u00e7\u00e3o militar do tipo que vai e vem. Ou seja, as for\u00e7as militares interv\u00eam, dep\u00f5em o detentor do poder naquele momento, asseguram a sua substitui\u00e7\u00e3o e se retraem\u201d. Em 1964, ao contr\u00e1rio do que ocorrera antes, os militares n\u00e3o voltaram aos quart\u00e9is e permaneceram no centro do poder pol\u00edtico por mais de 20 anos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Outro intelectual marxista oriundo do PCB \u2013 mas de uma tradi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica diferente da de Sodr\u00e9 \u2013, Jacob Gorender, referindo-se ao golpe afirmou: \u201cA solu\u00e7\u00e3o encontrada foi in\u00e9dita na hist\u00f3ria do Brasil, porque logo depois do golpe de 64, a partir do Ato Institucional n\u00ba 1, tivemos a primeira ditadura militar brasileira (&#8230;). O Estado Novo n\u00e3o foi uma ditadura militar, mas civil. Get\u00falio Vargas encarnava, em sua pessoa, a lideran\u00e7a carism\u00e1tica pr\u00f3pria do populismo. Exerceu um poder ditatorial apoiado nas For\u00e7as Armadas (&#8230;), mas isso n\u00e3o chegou a se caracterizar uma ditadura militar\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cNo Brasil, o poder foi assumido, em 1964, pelas For\u00e7as Armadas, que institucionalizaram um processo de sucess\u00e3o de presidentes da Rep\u00fablica escolhidos entre os pares do alto comando, de tal maneira que n\u00e3o houve lugar para caudilho militar\u201d. A diferen\u00e7a entre a nossa ditadura e a argentina e a chilena \u2013 al\u00e9m da falta de caudilhos \u2013 foi a tentativa de manter uma fachada democr\u00e1tica, atrav\u00e9s da perman\u00eancia do Congresso Nacional e de um partido de oposi\u00e7\u00e3o consentido, o MDB.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Esta, em certo sentido, \u00e9 a mesma opini\u00e3o do professor Jo\u00e3o Quartim de Moraes: \u201cA f\u00f3rmula ditadura militar \u00e9 a designa\u00e7\u00e3o mais adequada para o regime instaurado em 1964 no Brasil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Express\u00f5es como regime autorit\u00e1rio ou autoritarismo n\u00e3o passam, no melhor dos casos, de eufemismo, explic\u00e1veis quando vigorava a censura ditatorial (&#8230;). Ditadura n\u00e3o carrega, como o autoritarismo, uma ambiguidade intr\u00ednseca, mas tamb\u00e9m apresenta inconvenientes, que no uso corrente se manifestam principalmente na confus\u00e3o entre os militares enquanto categoria social e as For\u00e7as Armadas enquanto corpora\u00e7\u00e3o da burocracia estatal. Vulgarmente (&#8230;) entende-se a ditadura militar como a ditadura dos militares. \u00c9 evidente, por\u00e9m, que n\u00e3o s\u00e3o os militares enquanto categoria diferenciada, massa de funcion\u00e1rios armados e uniformizados, que exercem o poder de Estado e sim a corpora\u00e7\u00e3o enquanto tal que extrapola suas fun\u00e7\u00f5es profissionais, transpondo para o poder pol\u00edtico suas normas constitutivas internas, cujo primeiro princ\u00edpio \u00e9 a disciplina hierarquizada sob comando central\u201d. A massa dos militares \u2013 inclusive da oficialidade \u2013 estava submetida ao f\u00e9rreo princ\u00edpio da unidade de comando. Romper com esse princ\u00edpio seria romper com a legalidade castrense. Foi justamente isso o que fizeram milhares de militares que n\u00e3o se submeteram ao golpe de Estado e ao regime implantado pela c\u00fapula das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cA ordem burguesa\u201d \u2013 segue Quartim \u2013 \u201cespecializa crescentemente as fun\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas, coercitivas, econ\u00f4micas e administrativas do Estado (&#8230;). \u00c9 na c\u00fapula e no leme da m\u00e1quina do Estado, no n\u00edvel mais alto da burocracia, que elas se centralizam e coordenam. Portanto, por ditadura militar entendemos o regime pol\u00edtico em que o poder de Estado \u00e9 assumido pela c\u00fapula da hierarquia das For\u00e7as Armadas (e n\u00e3o pelos militares enquanto categoria)\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Florestan Fernandes, por sua vez, nos perguntava \u201cpor que os militares julgaram-se no dever de dar um golpe de Estado cujo paradigma procede da contrarrevolu\u00e7\u00e3o \u2018preventiva\u2019?\u201d A l\u00f3gica militar responderia: \u201csem a presen\u00e7a ativa dos militares, o governo ditatorial seria incapaz de defrontar-se com algo mais grave que \u2018turbul\u00eancias\u2019 e a restaura\u00e7\u00e3o da ordem continuaria amea\u00e7ada\u201d. Segundo esse racioc\u00ednio, uma \u201ctirania civil (mesmo) com apoio militar\u201d seria incapaz de conter \u201cas lutas de classes e a propaga\u00e7\u00e3o e o crescimento de for\u00e7as sociais desestabilizadoras e incontrol\u00e1veis\u201d. Assim, \u201ccortar o mal pela raiz (&#8230;) requeria a montagem de um Estado subfascista e de um governo militar ditatorial! Isso n\u00e3o resolveria a crise social cr\u00f4nica, mas permitiria salvar as classes dominantes e suas elites de uma trag\u00e9dia hist\u00f3rica\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os quatro artigos citados acima n\u00e3o foram escritos no \u201ccalor da hora\u201d e sim muitas d\u00e9cadas depois do golpe militar. Compuseram a colet\u00e2nea 1964: vis\u00f5es cr\u00edticas do golpe, resultado de um importante semin\u00e1rio realizado no IFCH-Unicamp e coordenado pelo professor Caio Navarro de Toledo. Era, tamb\u00e9m, um per\u00edodo em que j\u00e1 come\u00e7avam a circular \u2013 ainda sem grandes repercuss\u00f5es \u2013 termos como \u201cgolpe civil-militar\u201d e \u201cditadura civil-militar\u201d. Podemos conjecturar que esses textos se constitu\u00edam em tentativas de inocular a milit\u00e2ncia socialista contra o \u201crevisionismo\u201d hist\u00f3rico em marcha, tanto na sua vertente de direita como de esquerda.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>As organiza\u00e7\u00f5es de esquerda e o golpe militar<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Trataremos agora de como as organiza\u00e7\u00f5es de esquerda revolucion\u00e1rias brasileiras que combateram a ditadura \u2013 muitas vezes de armas nas m\u00e3os \u2013 encararam o golpe e o regime implantado em 1964.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em agosto daquele mesmo ano, a Comiss\u00e3o Executiva do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) se reuniu clandestinamente para debater as raz\u00f5es do golpe de Estado e aprovar a t\u00e1tica a ser adotada naquela nova quadra hist\u00f3rica. O documento sa\u00eddo desse encontro afirmava: \u201cEm situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil e num clima de inseguran\u00e7a e viol\u00eancia vive o povo brasileiro, desde que foi desfechado o golpe militar (&#8230;). Sob o falso pretexto de que Goulart favorecia os comunistas, h\u00e1 muito grupos militares e de civis tinham iniciado a conspira\u00e7\u00e3o para derrubar o governo e deter a ascens\u00e3o das lutas populares\u201d. Continua ele: \u201c(&#8230;) para derrubar o presidente da Rep\u00fablica uniram-se desde Magalh\u00e3es Pinto, Nei Braga e Mauro Borges at\u00e9 Lacerda e Adhemar de Barros\u201d. Como \u00e9 poss\u00edvel ler, os comunistas n\u00e3o tinham a menor d\u00favida da participa\u00e7\u00e3o civil no golpe desfechado, mas sabiam que os agentes principais haviam sido os militares.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO governo chefiado pelo Mal. Castelo Branco \u00e9 fruto de uma quartelada nos moldes tradicionais latino-americanos (&#8230;). Lidera o novo governo um punhado de militares de alta patente que tem como centro a Escola Superior de Guerra, fundada por inspira\u00e7\u00e3o do Pent\u00e1gono\u201d. E segue o texto: \u201c(&#8230;) a oficialidade retr\u00f3grada n\u00e3o somente dep\u00f4s o governo como se apoderou da m\u00e1quina governamental, inclusive da presid\u00eancia da Rep\u00fablica\u201d. De maneira pioneira, o PCdoB conseguiu ver o car\u00e1ter permanente \u2013 e n\u00e3o provis\u00f3rio \u2013 do regime: \u201co grupo de militares que desfechou o golpe n\u00e3o revela a inten\u00e7\u00e3o de entregar o governo nem agora nem depois, em 1967\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As dissid\u00eancias do PCdoB, formadas entre 1966 e 1967, como o Partido Comunista Revolucion\u00e1rio (PCR) e a Ala Vermelha (AV), pensavam da mesma forma. Em maio de 1966, o PCR lan\u00e7ou seu primeiro documento intitulado Carta de 12 pontos. Nele, se l\u00ea: \u201c(&#8230;) o imperialismo ianque dirigiu e executou por interm\u00e9dio dos militares reacion\u00e1rios, os \u2018gorilas\u2019, o golpe de 1\u00ba de abril de 1964. Estabeleceu-se uma ditadura militar apoiada internamente na alta burguesia nacional e nos latifundi\u00e1rios (&#8230;). A classe oper\u00e1ria, os camponeses, os estudantes e intelectuais revolucion\u00e1rios constituem as massas fundamentais para a revolu\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, aquelas que exigem de fato a derrubada da ditadura militar, a expuls\u00e3o do imperialismo norte-americano e a elimina\u00e7\u00e3o como classe da alta burguesia nacional e do latif\u00fandio\u201d. A Ala Vermelha, por sua vez, afirmava: \u201cA sociedade brasileira est\u00e1 submetida \u00e0 domina\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o do neocolonialismo e do seu suporte social interno, que as exercem atrav\u00e9s da contrarrevolu\u00e7\u00e3o armada no poder, sob a forma de uma ditadura militar\u201d. Tanto o PCdoB quanto as suas dissid\u00eancias n\u00e3o pareciam ter d\u00favidas quanto ao car\u00e1ter de classe do golpe e da ditadura militar. Os documentos da A\u00e7\u00e3o Popular (AP) desde 1964 tamb\u00e9m falam em golpe e ditadura militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Comit\u00ea Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB) conseguiu se reunir apenas em maio de 1965. No documento aprovado naquela ocasi\u00e3o falava-se em \u201cgolpe militar reacion\u00e1rio\u201d, que teria instaurado \u201cuma ditadura reacion\u00e1ria e entreguista\u201d. Na resolu\u00e7\u00e3o do seu VI Congresso, de 1967, esse mesmo partido afirmava: \u201c(&#8230;) o Brasil se encontra hoje asfixiado por um regime ditatorial, militar, de conte\u00fado entreguista, antidemocr\u00e1tico e antioper\u00e1rio\u201d. V\u00e1rios anos depois \u2013 em novembro de 1973 \u2013 conclu\u00eda que o \u201cregime evoluiu de uma ditadura militar reacion\u00e1ria para uma ditadura militar caracteristicamente fascista\u201d. Esta tamb\u00e9m era a vis\u00e3o das dissid\u00eancias do partid\u00e3o, nascidas depois de 1964.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Marighella e a A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN) acreditavam que, em primeiro de abril, havia ocorrido um golpe militar e que, desde ent\u00e3o, passamos a viver sob o dom\u00ednio desp\u00f3tico de uma ditadura militar. Bem antes da cria\u00e7\u00e3o da ALN, no seu livro Por que resisti \u00e0 pris\u00e3o, o futuro l\u00edder da guerrilha urbana afirmaria: \u201cN\u00e3o houve, pois, revolu\u00e7\u00e3o. Os \u2018gorilas\u2019 simplesmente desfecharam o golpe e acabaram com a democracia. O termo \u00e9 mesmo golpe, quartelada, abrilada, gorilada. E o mais jocoso de tudo, um aut\u00eantico primeiro de abril\u201d. Em outro trecho, de maneira enf\u00e1tica, disse: \u201cfiz quest\u00e3o de tornar p\u00fablico que vivemos sob uma ditadura militar fascista. E outra n\u00e3o pode ser a caracteriza\u00e7\u00e3o do atual estado de coisas\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cTratando-se, pois de uma ditadura militar (&#8230;) criou uma contradi\u00e7\u00e3o com o poder civil. O Brasil entrou numa fase de militariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica \u2013 resultado l\u00f3gico de um militarismo que se implantou no poder pela for\u00e7a \u2013 entendido como militarismo o predom\u00ednio dos militares sobre os civis em todos os aspectos da vida da na\u00e7\u00e3o, a subordina\u00e7\u00e3o dos interesses do pa\u00eds aos interesses do poder militar\u201d. E concluiu: \u201ca contradi\u00e7\u00e3o militarismo versus poder civil voltou a ser um fen\u00f4meno pol\u00edtico na vida do povo brasileiro\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um \u00faltimo exemplo. O Partido Comunista Brasileiro Revolucion\u00e1rio (PCBR) \u2013 outra dissid\u00eancia do PCB comandada por M\u00e1rio Alves, Apol\u00f4nio de Carvalho e Jacob Gorender \u2013, no seu documento program\u00e1tico de 1968, afirmava: \u201cSendo a ditadura militar a express\u00e3o do poder burgu\u00eas-latifundi\u00e1rio, a luta pela sua derrubada est\u00e1 indissoluvelmente ligada ao objetivo principal da for\u00e7as revolucion\u00e1rias \u2013 a forma\u00e7\u00e3o de um governo popular que leve a termo a revolu\u00e7\u00e3o e abra o caminho socialista de desenvolvimento\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Reconhe\u00e7o que esse primeiro artigo n\u00e3o passa de um elenco de \u201cargumentos de autoridade\u201d \u2013 e que autoridades! Mas isso foi necess\u00e1rio para demonstrar que a utiliza\u00e7\u00e3o dos conceitos \u201cgolpe militar\u201d e \u201cditadura militar\u201d tem uma longa e respeit\u00e1vel tradi\u00e7\u00e3o no seio da cultura marxista e revolucion\u00e1ria brasileira. N\u00e3o s\u00e3o inven\u00e7\u00f5es p\u00f3s-fato, criadas com o simples objetivo de inocentar a burguesia, os latifundi\u00e1rios e o imperialismo de suas responsabilidades. Eram, pelo contr\u00e1rio, resultado de um louv\u00e1vel esfor\u00e7o te\u00f3rico-pol\u00edtico, desenvolvido por centenas de militantes revolucion\u00e1rios em condi\u00e7\u00f5es nem sempre favor\u00e1veis.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No pr\u00f3ximo artigo apresentarei as bases te\u00f3ricas e as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da utiliza\u00e7\u00e3o dos conceitos \u201cgolpe militar\u201d e \u201cditadura militar\u201d entre as d\u00e9cadas de 1960 e 1980.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">* Augusto Buonicore \u00e9 historiador, secret\u00e1rio-geral da Funda\u00e7\u00e3o Maur\u00edcio Grabois. E autor dos livros Marxismo, hist\u00f3ria e a revolu\u00e7\u00e3o brasileira e Meu Verbo \u00e9 Lutar: a vida e o pensamento de Jo\u00e3o Amazonas, ambos publicados pela Editora Anita Garibaldi.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Bibliografia <\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">DREIFUSS, Ren\u00e9 Armand. 1964: a conquista do Estado \u2013 a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, poder e golpe de classe. Rio de Janeiro: Petr\u00f3polis, 1981.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">MARIGHELLA, Carlos. Por que resisti \u00e0 pris\u00e3o. S\u00e3o Paulo\/ Bahia: Brasiliense\/Edufba, 1995.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">MORAES, Jo\u00e3o Quartim de. Liberalismo e ditadura no Cone Sul. Campinas: IFCH-Unicamp, 2001.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">PCdoB. Em defesa dos trabalhadores e do povo brasileiro \u2013 documentos do PCdoB de 1960 a 2000. S\u00e3o Paulo: Anita Garibaldi, 2000.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">REIS FILHO, Daniel Aar\u00e3o &#038; S\u00c1, Jair Ferreira de. Imagens da Revolu\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1985.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">REIS FILHO, Daniel Aar\u00e3o. O golpe e a ditadura militar: 40 anos depois. S\u00e3o Paulo: Edusc, 2004.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO sol sem peneira\u201d. In: Revista de Hist\u00f3ria. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, agosto de 2012.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">TOLEDO, Caio Navarro de (org.). 1964: vis\u00f5es cr\u00edtica do golpe. Campinas: Ed. da Unicamp, 1994.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">*Augusto Buonicore \u00e9 historiador, secret\u00e1rio-geral da Funda\u00e7\u00e3o Maur\u00edcio Grabois. E autor dos livros Marxismo, hist\u00f3ria e a revolu\u00e7\u00e3o brasileira e Meu Verbo \u00e9 Lutar: a vida e o pensamento de Jo\u00e3o Amazonas, ambos publicados pela Editora Anita Garibaldi.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Vermelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 a d\u00e9cada de 1990 existia um amplo consenso entre os principais intelectuais e organiza\u00e7\u00f5es marxistas brasileiros em rela\u00e7\u00e3o ao car\u00e1ter do golpe e do regime implantado no pa\u00eds em mar\u00e7o de 1964. Poucos na esquerda questionavam que hav\u00edamos tido em 1\u00ba de abril de 1964 um \u201cgolpe militar\u201d e que este, por sua vez, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6967"}],"collection":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6967"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6967\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6967"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6967"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6967"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}