{"id":6971,"date":"2014-02-25T21:23:18","date_gmt":"2014-02-25T21:23:18","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/02\/25\/ditadura-tentou-esconder-militantes-enterrados-como-indigentes-em-perus\/"},"modified":"2014-02-25T21:23:18","modified_gmt":"2014-02-25T21:23:18","slug":"ditadura-tentou-esconder-militantes-enterrados-como-indigentes-em-perus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/02\/25\/ditadura-tentou-esconder-militantes-enterrados-como-indigentes-em-perus\/","title":{"rendered":"Ditadura tentou esconder militantes enterrados como indigentes em Perus"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Administrador do cemit\u00e9rio Dom Bosco, em S\u00e3o Paulo, estranhou falta de registros da destina\u00e7\u00e3o de ossadas de indigentes, mas foi orientado a nunca falar no assunto nem mostrar documentos a ningu\u00e9m<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/cidadania\/2014\/02\/ditadura-tentou-esconder-militantes-enterrados-como-indigentes-em-perus-8084.html\/perus\/image_preview\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\" \/>O administrador foi amea\u00e7ado por auxiliar fam\u00edlias que buscavam militantes desaparecidos durante a ditadura  <!--more-->  <\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O ex-administrador do cemit\u00e9rio Dom Bosco (em Perus, zona noroeste da capital paulista) Ant\u00f4nio Pires Eust\u00e1quio afirmou hoje (24), em audi\u00eancia p\u00fablica das comiss\u00f5es estadual e nacional da verdade, na Assembleia Legislativa de S\u00e3o Paulo, que foi orientado a n\u00e3o falar sobre indigentes e n\u00e3o mostrar a ningu\u00e9m os registros de sepultamento do local. Isso teria ocorrido noin\u00edcio dos anos 1980, durante reuni\u00e3o com toda a administra\u00e7\u00e3o de cemit\u00e9rios da cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Os gestores p\u00fablicos temiam que familiares de v\u00edtimas come\u00e7assem a procurar por militantes dados como desaparecidos durante a ditadura (1964-1985). Segundo Eust\u00e1quio, estava reunida toda a diretoria do departamento de cemit\u00e9rios da capital. \u201cOrientaram a gente que n\u00e3o desse entrevista, n\u00e3o mostrasse os registros, n\u00e3o mostrasse o local. Nem desse os livros de registro nas m\u00e3os de ningu\u00e9m. Me foi pedido que n\u00e3o desse muito alarde ou que falasse muito sobre indigentes sepultados naquela \u00e9poca\u201d, contou.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ele disse ainda que recebeu amea\u00e7as por ter se engajado no aux\u00edlio \u00e0s fam\u00edlias que buscavam militantes desaparecidos durante a ditadura. \u201cEles ligavam no cemit\u00e9rio, mandavam recado pelos funcion\u00e1rios. N\u00e3o sei quem era. A (ex-prefeita) Luiza Erundina garantiu minha seguran\u00e7a. Eu morava bem na frente do cemit\u00e9rio, tinha filhos pequenos. Fomos para longe\u201d, relatou.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Leia mais:<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span> <\/span>\u2022<span> <\/span><a href=\"http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/cidadania\/2014\/02\/perito-afirma-que-militantes-da-aln-foram-executados-pela-ditadura-353.html\">Perito contesta vers\u00e3o oficial para mortes de militantes da ALN durante a ditadura<\/a><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Eust\u00e1quio administrou o cemit\u00e9rio entre 1976 e 1992. \u201cOs funcion\u00e1rios mais antigos tinham medo de falar no assunto. Mas ouvi algumas coisas sobre o per\u00edodo em que os chamados terroristas eram trazidos para o Dom Bosco.\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Segundo os relatos, n\u00e3o havia separa\u00e7\u00e3o onde eram sepultados os militantes assassinados e os indigentes de verdade. \u201cAs quadras I e II da gleba I foram os primeiros lugares destinados para enterro de indigentes\u201d, disse.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o havia uma vala comum. Eram enterrados normalmente como indigentes.\u00a0O que mudava era a forma como os corpos chegavam. N\u00e3o em caminh\u00f5es com cinco ou seis corpos, mas um por um. \u201cQuando chegavam essas pessoas que chamavam de terroristas, vinha de forma diferente. Vinha um s\u00f3. Acompanhado de militares, de carros oficiais. Fechavam o local e s\u00f3 podia entrar no cemit\u00e9rio depois que fossem enterrados. Isso \u00e9 relato de funcion\u00e1rios da \u00e9poca\u201d, descreveu.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">De acordo com Eust\u00e1quio, os militantes vinham descritos em condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas em uma certid\u00e3o de \u00f3bito. O n\u00famero do documento vinha gravado na perna ou outro membro da pessoa, com &#8216;canet\u00e3o&#8217; azul. \u201cAlguns indigentes vinham com uma grande letra T em vermelho, no topo da p\u00e1gina, que depois soube ser de terrorista. Registr\u00e1vamos isso no livro de sepultamentos e a certid\u00e3o ia para o arquivo\u201d, relatou o ex-administrador.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEu n\u00e3o sabia que eram terroristas. S\u00f3 depois em contatos com familiares e com a Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito sobre a Vala de Perus \u00e9 que fiquei sabendo que a marca\u00e7\u00e3o no documento era de terrorista. N\u00e3o havia nada diferente neles, al\u00e9m da letra T\u201d, completou.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Eust\u00e1quio percebeu outro problema com a documenta\u00e7\u00e3o do cemit\u00e9rio, que acabou chamando a aten\u00e7\u00e3o dele para a exist\u00eancia de uma vala oculta. \u201cEu descobri a vala porque meu levantamento dos livros de sepultados comuns demonstrou que havia exumados e reenterrados. No livro de indigente constava s\u00f3 a exuma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia reenterro ou destina\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u201cComecei a perguntar, mas ningu\u00e9m queria falar. Eles tinham muito medo, porque ali estavam terroristas. Depois de muito tempo, fora do ambiente de trabalho, em uma pescaria com o Pedro Batista, operador da retroescavadeira, ele me conta que os ossos dos terroristas estavam numa vala perto do barranco, fora da \u00e1rea de sepultamentos.\u201d Batista ainda est\u00e1 vivo e deve ser procurado pela comiss\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Decidido a encontr\u00e1-la, Eust\u00e1quio pegou uma sonda utilizada para procurar restos mortais ou constru\u00e7\u00f5es enterradas e fez sondagens no solo. \u201cEu descobri que havia algo ali. Mas n\u00e3o mexi porque podia ser viola\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Gilberto Carvalho Molina, irm\u00e3o do militante desaparecido Fl\u00e1vio Carvalho Molina, do Movimento de Liberta\u00e7\u00e3o Popular (Molipo), procurou por Eust\u00e1quio nos in\u00edcio dos anos 1980, em busca de informa\u00e7\u00f5es.\u00a0\u201cEu descobri que o irm\u00e3o dele estava na vala, de acordo com o registro. Ele perguntou se podia mexer e eu disse que ele precisava de autoriza\u00e7\u00e3o. Ele conseguiu uma e n\u00f3s abrimos coisa de um metro. Descobrimos os sacos de pl\u00e1stico destinados a ossos. Retiramos alguns e n\u00e3o tinha identifica\u00e7\u00e3o. Ele tentou continuar, mas n\u00e3o foi autorizado\u201d, contou.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A vala tinha 30 metros de comprimento, por tr\u00eas de profundidade e 30 cent\u00edmetros de largura. Todos as ossadas dos indigentes haviam sido colocadas ali, ent\u00e3o n\u00e3o era poss\u00edvel saber quem era quem. Junto com elas foram as dos militantes assassinados. E esse era o motivo de n\u00e3o haver registro nas documenta\u00e7\u00f5es de exuma\u00e7\u00e3o dos ossos.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A ent\u00e3o prefeita Luiza Erundina (1989-1992) mandou abrir a vala e catalogar as ossadas. Ela selecionou a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a equipe do perito Badan Palhares para analisar o local. \u201cJ\u00e1 na sa\u00edda da vala recebia uma identifica\u00e7\u00e3o e era colocada no sal\u00e3o de vel\u00f3rios, onde n\u00e3o tinha vel\u00f3rios. A Unicamp criou uma esp\u00e9cie de laborat\u00f3rio ao lado da administra\u00e7\u00e3o para fazer as identifica\u00e7\u00f5es. Era tudo filmado e catalogado. Ia para um saco de pano e ganhava uma nova etiqueta de identifica\u00e7\u00e3o\u201d, disse Eust\u00e1quio.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">As ossadas foram enviadas \u00e0 Unicamp, onde permaneceram durante quase 20 anos. Depois foram levadas de volta a S\u00e3o Paulo, para o oss\u00e1rio do cemit\u00e9rio do Ara\u00e7\u00e1, que foi atacado em 3 de novembro do ano passado, logo ap\u00f3s um ato interreligioso do Comit\u00ea Paulista pela Mem\u00f3ria, Verdade e Justi\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Eust\u00e1quio n\u00e3o soube dizer quantos dos registros de sepultamento continham a letra T, que identificava os militantes. E afirmou que os registros para arquivo eram encaminhados a uma sede da administra\u00e7\u00e3o de cemit\u00e9rios, no viaduto Dona Paulina, regi\u00e3o central da cidade.\u00a0Ele disse tamb\u00e9m n\u00e3o ter detalhes sobre os administradores anteriores a ele. O cemit\u00e9rio Dom Bosco foi inaugurado em 3 de mar\u00e7o de 1971, quando Paulo Maluf era prefeito nomeado da capital. Segundo Eust\u00e1quio, era um local muito usado para enterros de indigentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u201cFui o terceiro administrador. S\u00f3 sei o primeiro nome dos outros. Guilhermano foi o primeiro. Rubens foi o segundo. Este tinha qualquer liga\u00e7\u00e3o com o Jo\u00e3o Brasil Vitta (ex-vereador e prefeito interino de S\u00e3o Paulo) e o Maluf. Me disseram que houve diverg\u00eancias pol\u00edticas e ele saiu. Eu administrava o cemit\u00e9rio da Consola\u00e7\u00e3o e fui mandado para l\u00e1\u201d, concluiu.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Rede Brasil Atual<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Administrador do cemit\u00e9rio Dom Bosco, em S\u00e3o Paulo, estranhou falta de registros da destina\u00e7\u00e3o de ossadas de indigentes, mas foi orientado a nunca falar no assunto nem mostrar documentos a ningu\u00e9m \u00a0 O administrador foi amea\u00e7ado por auxiliar fam\u00edlias que buscavam militantes desaparecidos durante a ditadura<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6971"}],"collection":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6971"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6971\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6971"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6971"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6971"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}