{"id":7020,"date":"2014-03-18T13:28:35","date_gmt":"2014-03-18T13:28:35","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/03\/18\/ufmg-seminario-qum-olhar-critico-para-nao-esquecerq-comeca-nesta-terca-feira-18\/"},"modified":"2014-03-18T13:28:35","modified_gmt":"2014-03-18T13:28:35","slug":"ufmg-seminario-qum-olhar-critico-para-nao-esquecerq-comeca-nesta-terca-feira-18","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/03\/18\/ufmg-seminario-qum-olhar-critico-para-nao-esquecerq-comeca-nesta-terca-feira-18\/","title":{"rendered":"UFMG: Semin\u00e1rio &#8220;Um olhar cr\u00edtico para n\u00e3o esquecer&#8221; come\u00e7a nesta ter\u00e7a-feira (18)"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O professor Marcelo Ridenti, da Unicamp, representa uma corrente de soci\u00f3logos que, antes mesmo dos historiadores, se debru\u00e7ou sobre o regime militar. Combinando vi\u00e9s historiogr\u00e1fico com o que chama de \u201cmorfologia social\u201d dos fen\u00f4menos de massa, Ridenti \u00e9 hoje uma das principais refer\u00eancias brasileiras no estudo do golpe.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7019\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/73bb8c801245e6e7001ae4f344bc59fe.jpg\" border=\"0\" width=\"170\" height=\"255\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ele \u00e9 co-organizador do livro <span class=\"s1\">A ditadura que mudou o Brasil \u2013 50 anos do golpe de 1964<\/span>(Zahar, 2014), junto com os professores Daniel Aar\u00e3o Reis, da Universidade Federal Fluminense, e Rodrigo Patto S\u00e1 Motta, da UFMG, e est\u00e1 lan\u00e7ando edi\u00e7\u00e3o revista e atualizada de<span class=\"s1\">Em busca do povo brasileiro, artistas da revolu\u00e7\u00e3o, do CPC \u00e0 era da TV<\/span> (editora Unesp,2014).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ao lado de Aar\u00e3o Reis e S\u00e1 Motta, Marcelo Ridenti participar\u00e1 da mesa inaugural do semin\u00e1rio<span class=\"s1\">1964-2014: Um olhar cr\u00edtico, para n\u00e3o esquecer<\/span>, que come\u00e7a nesta ter\u00e7a-feira, dia 18, a partir de 14h30, no audit\u00f3rio do CAD2, campus Pampulha.<span style=\"line-height: 1.3em;\"> <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em entrevista ao Portal UFMG, o cientista social analisa o papel das for\u00e7as contr\u00e1rias ao regime, incluindo a esquerda armada, que, em sua vis\u00e3o, teve import\u00e2ncia \u201c\u00e9tico-moral\u201d ao n\u00e3o baixar a cabe\u00e7a para o regime. Ridenti tamb\u00e9m tra\u00e7a um paralelo entre os movimentos da \u00e9poca e as recentes manifesta\u00e7\u00f5es e sustenta que o debate sobre 64 \u201cainda est\u00e1 quente\u201d, uma vez que o desafio de se construir uma sociedade democr\u00e1tica sob os pontos de vista econ\u00f4mico e social ainda n\u00e3o foi vencido.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><strong>Na mesa inaugural do semin\u00e1rio, o senhor falar\u00e1 sobre as oposi\u00e7\u00f5es \u00e0 ditadura. Que balan\u00e7o \u00e9 poss\u00edvel fazer sobre elas?<\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Essas oposi\u00e7\u00f5es compuseram um arco bem amplo. N\u00e3o d\u00e1 para pensar a oposi\u00e7\u00e3o sem pensar na situa\u00e7\u00e3o, numa perspectiva de alteridade. As a\u00e7\u00f5es da ditadura eram, em grande parte, respostas \u00e0s demandas da oposi\u00e7\u00e3o. Se, de um lado reprimia duramente, de outro, a ditadura tinha a preocupa\u00e7\u00e3o de se legitimar para ter uma continuidade ao longo do tempo. Havia, por exemplo, uma forte demanda por mais ensino e por uma reforma universit\u00e1ria e educacional de car\u00e1ter democratizante.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A ditadura n\u00e3o seguiu esse caminho, mas fez uma reforma universit\u00e1ria que permanece at\u00e9 hoje. Ela ampliou o ensino b\u00e1sico p\u00fablico, ainda que no geral a \u00eanfase estivesse na educa\u00e7\u00e3o privada. Em suas mem\u00f3rias, Jarbas Passarinho [<span class=\"s1\">ministro da Educa\u00e7\u00e3o entre 1969 e 1974<\/span>] revelou que seu projeto era instaurar o ensino pago no Brasil. Mas isso n\u00e3o se concretizou porque ele disse ter recebido um comunicado da \u00e1rea de seguran\u00e7a alertando que seria uma medida muito arriscada naquele contexto, porque o ensino pago poderia mobilizar novamente os estudantes contra a ditadura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ainda que o movimento estudantil tenha sido massacrado, havia for\u00e7as favor\u00e1veis ao ensino pago que temiam uma rea\u00e7\u00e3o. Esse exemplo mostra que, em seus atos, a ditadura levava a oposi\u00e7\u00e3o em conta. Antes de 1964, havia um movimento de alfabetiza\u00e7\u00e3o, baseado no M\u00e9todo Paulo Freire. Depois do golpe, a ditadura implantou o Mobral, modelo de alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos destitu\u00eddo do car\u00e1ter politizado do M\u00e9todo Paulo Freire. Outro exemplo: a ditadura n\u00e3o fez a reforma agr\u00e1ria, mas tentou resolver a quest\u00e3o de outra maneira, modernizando o campo e impulsionando o agroneg\u00f3cio. Ao mesmo tempo em que reprimia os camponeses, criou o Funrural [<span class=\"s1\">Fundo de Assist\u00eancia ao Trabalhador Rural, em 1971<\/span>], que representou uma expans\u00e3o dos direitos dos trabalhadores rurais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><strong>As demandas que estavam postas pela sociedade brasileira no pr\u00e9-64 foram, de certa forma, atacadas pela ditadura&#8230;<\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A ditadura tinha uma proposta modernizadora, n\u00e3o no sentido do capitalismo de massas como parecia propor o [<span class=\"s1\">economista<\/span>] Celso Furtado antes do golpe. Era um modelo altamente concentrador de riquezas e de poder. Depois de 1964, ficou claro o que se chamava de arrocho salarial, principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao poder de compra do sal\u00e1rio-m\u00ednimo. Por outro lado, veio o <span class=\"s1\">milagre econ\u00f4mico<\/span>, que gerou um ambiente de pleno emprego, ainda que com pessoas exploradas. Bem ou mal, ao menos tinham um emprego. A ditadura ent\u00e3o se dividia entre repress\u00e3o e busca de legitimidade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><strong>\u00c9 poss\u00edvel estabelecer um perfil para essa oposi\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Talvez possamos dividi-la em uma oposi\u00e7\u00e3o institucional, de um lado, e clandestina, de outro. O regime permitia algum tipo de oposi\u00e7\u00e3o formal. S\u00f3 no final de 1965 \u00e9 que o antigo sistema partid\u00e1rio foi substitu\u00eddo pelo bipartidarismo, formado por um partido de situa\u00e7\u00e3o, a Arena, e outro da oposi\u00e7\u00e3o consentida, o MDB. Embora poucas alas do PTB e do PSD fossem nitidamente de oposi\u00e7\u00e3o, esses partidos conseguiram eleger governadores em Minas [<span class=\"s1\">Israel Pinheiro<\/span>] e no antigo estado da Guanabara [<span class=\"s1\">Francisco Negr\u00e3o de Lima<\/span>], o que desencadeou a reforma que instituiu o bipartidarismo.<span style=\"line-height: 1.3em;\"> <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, muitos grupos n\u00e3o puderam mais se organizar livremente, como a Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE) e o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), e os sindicalistas rurais foram especialmente combatidos. Esses grupos tentaram se reunir em uma oposi\u00e7\u00e3o clandestina, que grosso modo poderia ser dividida entre aqueles que queriam derrubar a ditadura pela for\u00e7a e os que pretendiam derrotar o regime pela via pol\u00edtica pac\u00edfica, caso do Partido Comunista Brasileiro, que defendia, inclusive, a articula\u00e7\u00e3o com a oposi\u00e7\u00e3o institucional representada pelo MDB.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Outros pregavam o uso de armas para enfrentar a ditadura, como as dissid\u00eancias do PCB, os trotskistas, a Polop (Pol\u00edtica Oper\u00e1ria) &#8211; que foi muito importante em Belo Horizonte e na qual militou a presidente Dilma Rousseff, gerando uma dissid\u00eancia que resultou nos Comandos de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (Colina). Alguns grupos radicais pegaram mesmo em armas, outros n\u00e3o, como a AP, que manteve suas teses radicais, mas que, com exce\u00e7\u00e3o do atentado ao aeroporto de Guararapes, em Recife [<span class=\"s1\">ocorrido em julho de 1966<\/span>] n\u00e3o se envolveu em a\u00e7\u00f5es armadas. Outras pegaram em armas nas cidades, como a ALN [<span class=\"s1\">Alian\u00e7a Libertadora Nacional<\/span>], a VPR [<span class=\"s1\">Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria<\/span>] e a Colina, grupos que se aproximavam da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana. Outros eram mais sintonizados com a Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa, como o Partido Comunista do Brasil, que tentou fazer uma guerrilha rural no Araguaia. Essa oposi\u00e7\u00e3o que se considerava revolucion\u00e1ria era muito dividida; havia mais de 30 siglas envolvidas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><strong>Que relev\u00e2ncia essa esquerda armada teve no regime militar. Ela n\u00e3o teria sido mais um bode expiat\u00f3rio para o recrudescimento da repress\u00e3o?<\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Creio que ela teve uma import\u00e2ncia que podemos chamar de \u201c\u00e9tico-moral\u201d, de n\u00e3o baixar a cabe\u00e7a para a repress\u00e3o. Deram um golpe e n\u00e3o houve resist\u00eancia naquele momento. Ficou um travo amargo. Mas a quest\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 mais complexa. Houve uma radicaliza\u00e7\u00e3o da luta sem uma efetiva sustenta\u00e7\u00e3o social. A esquerda acreditava que havia um impasse econ\u00f4mico, que a ditadura levaria o pa\u00eds a um retrocesso, num momento em que o pa\u00eds atravessava um processo de urbaniza\u00e7\u00e3o e industrializa\u00e7\u00e3o \u2013 o censo de 1970 j\u00e1 mostrava que o Brasil era claramente um pa\u00eds urbano.<span style=\"line-height: 1.3em;\"> <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para essa esquerda, a ditadura impediria a moderniza\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira, o que se revelou um equ\u00edvoco de avalia\u00e7\u00e3o, porque logo depois veio o <span class=\"s1\">milagre econ\u00f4mico<\/span>. Mas n\u00e3o podemos superdimensionar a import\u00e2ncia da esquerda armada. N\u00e3o foi ela que gerou a radicaliza\u00e7\u00e3o da ditadura em 1968 e tamb\u00e9m n\u00e3o foi respons\u00e1vel pela redemocratiza\u00e7\u00e3o. At\u00e9 porque, nos anos 1970, quando se intensificaram os movimentos pela redemocratiza\u00e7\u00e3o, ela estava destru\u00edda. O projeto golpista de 1964 estava posto bem antes. Ele remonta, por exemplo, ao epis\u00f3dio do suic\u00eddio de Vargas, em 1954, quando tentaram derrub\u00e1-lo, continua com a tentativa de impedir a posse de JK, no ano seguinte, e de Jo\u00e3o Goulart, em 1961.<span style=\"line-height: 1.3em;\"> <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Essas ra\u00edzes estavam, por exemplo, na organiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de direita nas marchas daFam\u00edlia<span class=\"s1\"> com Deus pela liberdade<\/span>, no sistema Ipes\/Ibad [<span class=\"s1\">Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais\/Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica<\/span>], organizado pelos empres\u00e1rios. Essa din\u00e2mica n\u00e3o foi dada pela esquerda armada; ela vinha da luta de grupos importantes da sociedade brasileira aos quais n\u00e3o interessavam as reformas de base e outras transforma\u00e7\u00f5es mais fundas. Culpar a esquerda pelo golpe \u00e9 quase que absolver os golpistas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><strong>Gra\u00e7as \u00e0 influ\u00eancia de Cuba e do seu ideal de \u201cexportar a revolu\u00e7\u00e3o\u201d, a esquerda armada brasileira j\u00e1 se estruturava antes mesmo do golpe. Acreditava-se que mesmo que n\u00e3o houvesse golpe, haveria focos de guerrilha no Brasil&#8230;<\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O MRT [<span class=\"s1\">Movimento Revolucion\u00e1rio Tiradentes<\/span>] esbo\u00e7ou uma guerrilha que foi facilmente debelada pelo pr\u00f3prio governo Goulart. De fato, \u00e9 poss\u00edvel que, sem o golpe, houvesse algum tipo de guerrilha no Brasil, mas seguramente n\u00e3o com o sentido que assumiu concretamente. Antes do golpe, a maioria da esquerda (cat\u00f3lica, PCB, todo o setor trabalhista) tinha um projeto institucional.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Brizola [<span class=\"s1\">ex-governador Leonel Brizola<\/span>], que liderava a esquerda do PTB, passou a defender a luta armada, mas antes do golpe ele transitava pela via reformista. Quando o projeto das Reformas de Base foi derrotado pelo regime, uma parte da esquerda decidiu: \u201cAgora temos que ir para o enfrentamento\u201d. Embora todos esses grupos alimentassem pretens\u00f5es revolucion\u00e1rias, fossem de car\u00e1ter democr\u00e1tico-nacional, fossem de vi\u00e9s socialista, o eixo de combate deles, na minha interpreta\u00e7\u00e3o, era a ditadura.<span style=\"line-height: 1.3em;\"> <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o do ideal da Revolu\u00e7\u00e3o exportado por Cuba a que voc\u00ea se refere embute um problema. Parte da direita dizia o seguinte: \u201cO povo brasileiro \u00e9 bom, s\u00f3 teve guerrilha no Brasil porque Cuba quis exportar a revolu\u00e7\u00e3o\u201d. Parte da esquerda contra-argumentava: \u201cO povo brasileiro \u00e9 bom, s\u00f3 houve golpe em 64 porque os americanos fizeram a opera\u00e7\u00e3o Brother Sam\u201d. Cuba apoiou a esquerda armada e os americanos, o golpe. S\u00e3o fatos hist\u00f3ricos incontest\u00e1veis. Agora, isso n\u00e3o quer dizer que o golpe s\u00f3 ocorreu porque os americanos queriam e que houve uma oposi\u00e7\u00e3o armada s\u00f3 porque os cubanos assim desejavam. Havia uma din\u00e2mica interna na sociedade brasileira que levava alguns grupos a buscarem apoio do lado americano na Guerra Fria e outros que recorriam aos cubanos, sovi\u00e9ticos ou chineses.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><strong>O senhor publicou um artigo na Folha de S. Paulo que teve muita repercuss\u00e3o no ano passado, intitulado <span class=\"s3\">Que juventude \u00e9 essa?<\/span>. No in\u00edcio do texto, o senhor registra que as ruas foram tomadas em 2013 tanto pelos netos dos que marcharam pela<span class=\"s3\">fam\u00edlia<\/span>, em 1964, quanto pelos descendentes daqueles que engrossaram a Passeata dos Cem Mil, em 1968. Existem pontos de aproxima\u00e7\u00e3o que podem ser identificados no cen\u00e1rio pol\u00edtico-social de 2013\/2014 com as turbul\u00eancias de 64\/68?<\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um aspecto comum nas duas conjunturas que \u00e9 o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior. Naquela \u00e9poca, em termos percentuais, o n\u00famero de estudantes universit\u00e1rios triplicou em poucos anos. O mesmo ocorre agora. S\u00f3 que antes se tratava de dezenas de milhares, agora de milh\u00f5es de jovens. Em 2001 eram cerca de 2,5 milh\u00f5es e hoje s\u00e3o sete milh\u00f5es de universit\u00e1rios. Nos anos 60 esse contingente era formado por uma elite mais intelectualizada, egressa, sobretudo, da escola p\u00fablica. Hoje, h\u00e1 uma massifica\u00e7\u00e3o muito forte e o predom\u00ednio do ensino privado, que gerou expectativas semelhantes \u00e0s dos anos 60, quando se acreditava que pela escola as pessoas poderiam conseguir uma ascens\u00e3o social, o que tem sido desmentido pela realidade nos anos recentes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os meninos que foram presos pela morte do cinegrafista Santiago Andrade est\u00e3o estudando ou at\u00e9 formados, mas o emprego deles \u00e9 absolutamente prec\u00e1rio. Isso \u00e9 um exemplo do descolamento entre a realidade e certas proje\u00e7\u00f5es de realiza\u00e7\u00e3o pessoal e profissional. Ontem como hoje, detecta-se um desejo de participa\u00e7\u00e3o que as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o conseguem viabilizar. Ao mesmo tempo, \u00e9 um n\u00famero t\u00e3o grande de gente ascendendo ao ensino superior que assusta certas elites, compostas por jovens que sempre foram privilegiados, mas come\u00e7am a temer que n\u00e3o mais conseguir\u00e3o reproduzir a vida dos pais, constatam que n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o f\u00e1cil conseguir um bom emprego, comprar um im\u00f3vel.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os movimentos atuais envolvem um jogo de expectativas: parte da sociedade teme perder alguns privil\u00e9gios e a outra parte deseja uma ascens\u00e3o social que n\u00e3o se realiza. Esse \u00e9 o caldo de cultura social que est\u00e1 por tr\u00e1s desses movimentos e que, de algum modo, lembra os da d\u00e9cada de 1960, ainda que o contexto seja completamente diferente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><strong>O senhor tem forma\u00e7\u00e3o em sociologia (doutorado e atua\u00e7\u00e3o como docente), mas se debru\u00e7a sobre um tema que est\u00e1 mais ligado \u00e0 historiografia. Por que escolheu esse caminho e como a sua forma\u00e7\u00e3o como soci\u00f3logo favoreceu o di\u00e1logo com a pesquisa hist\u00f3rica?<\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Isso tem a ver com o fato de que as primeiras reflex\u00f5es iniciaram-se com os soci\u00f3logos e cientistas sociais, como Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso e Francisco Weffort, e economistas como Paul Singer. A seguir vieram cientistas pol\u00edticos, como Wanderley Guilherme dos Santos e Argelina Figueiredo. Os historiadores chegaram depois, at\u00e9 porque a hist\u00f3ria do tempo presente ganhou for\u00e7a a partir dos anos 90. N\u00e3o acredito muito nas divis\u00f5es r\u00edgidas entre as disciplinas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O vi\u00e9s hist\u00f3rico \u00e9 fundamental para o meu trabalho, mas tamb\u00e9m \u00e9 importante pensar o que alguns chamam de morfologia social dos movimentos. Em meu livro <span class=\"s1\">O fantasma da revolu\u00e7\u00e3o brasileira<\/span>, trabalho com os dados do projeto Brasil: Nunca Mais sobre os perseguidos pela ditadura, para saber sexo, idade, profiss\u00e3o. Enfim, como eles se inseriam na sociedade. Esse \u00e9 o vi\u00e9s sociol\u00f3gico, que se articula com a reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica a partir de an\u00e1lise documental e de depoimentos orais, entre outras fontes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><strong>Os 50 anos do golpe militar s\u00e3o, antes de tudo, uma efem\u00e9ride. Qual a import\u00e2ncia dela no est\u00edmulo a reflex\u00f5es capazes de iluminar esse tema?<\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante associar essa efem\u00e9ride com outra, a das Diretas J\u00e1, de 1984. Sempre digo que, se o povo brasileiro n\u00e3o tem mem\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 por falta de informa\u00e7\u00e3o e de an\u00e1lises publicadas. H\u00e1 centenas de trabalhos sobre esse per\u00edodo, sob diversos aspectos, mas \u00e0s vezes perde-se o foco de uma quest\u00e3o absolutamente central. A hist\u00f3ria do Brasil \u00e9 caracterizada por pactos pelo alto, de moderniza\u00e7\u00e3o social pelas elites. No pr\u00e9-1964 abriu-se a possibilidade de se criar uma moderniza\u00e7\u00e3o alternativa que envolvesse mais diretamente os setores populares.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se sabe que sociedade sairia do movimento popular pr\u00e9-64, mas muito provavelmente seria menos desigual. S\u00f3 que o problema da desigualdade social n\u00e3o foi resolvido pela moderniza\u00e7\u00e3o conservadora, nem ap\u00f3s a democratiza\u00e7\u00e3o. Os principais partidos da atualidade (PSDB e PT) t\u00eam ra\u00edzes l\u00e1 na oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura. Mas como eles se viabilizaram pra governar hoje? Aliando-se com for\u00e7as favor\u00e1veis ao golpe. O Sarney [<span class=\"s1\">senador Jos\u00e9 Sarney<\/span>] hoje \u00e9 aliado do Lula; o Marco Maciel [<span class=\"s1\">governador de <span class=\"s3\">Pernambuco<\/span> indicado pelo regime no per\u00edodo 1979-1982<\/span>] foi vice do FHC.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><strong>O Brasil de hoje ainda \u00e9 muito parecido com o de 64?<\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ele se urbanizou e modernizou, mas ainda \u00e9 ref\u00e9m das for\u00e7as que deram o golpe de 64. Por isso, n\u00e3o houve um processo efetivo de puni\u00e7\u00e3o dos envolvidos com as atrocidades daquele per\u00edodo. Apesar de mudan\u00e7as t\u00f3picas e importantes, as quest\u00f5es-chave que permitiriam a diminui\u00e7\u00e3o da desigualdade no Brasil n\u00e3o foram resolvidas. \u00c9 isso que torna t\u00e3o quente o debate sobre 1964. A discuss\u00e3o de fundo era a seguinte: vamos modernizar a sociedade brasileira de uma maneira que se amplie a democracia pol\u00edtica no sentido econ\u00f4mico e social.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso, sim, pensar o futuro da sociedade brasileira sob o vi\u00e9s da democracia pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m dos pontos de vista social e econ\u00f4mico. A\u00ed est\u00e1 o v\u00ednculo com os movimentos recentes. O regime e depois a redemocratiza\u00e7\u00e3o permitiram, por exemplo, que mais gente chegasse ao ensino superior, ainda que de m\u00e1 qualidade. Projetos de assist\u00eancia social que minimizaram o problema da fome e da mis\u00e9ria foram viabilizados, mas eles n\u00e3o combatem estruturalmente a desigualdade no Brasil. No fundo, esse ainda \u00e9 o grande desafio da sociedade brasileira: encontrar um jeito de combater as desigualdades aprofundando a democracia pol\u00edtico-social. A efem\u00e9ride \u00e9 importante e est\u00e1 longe de ser ultrapassada, pois tem implica\u00e7\u00f5es diretas na pol\u00edtica dos dias atuais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Universidade Federal de Minas Gerais<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O professor Marcelo Ridenti, da Unicamp, representa uma corrente de soci\u00f3logos que, antes mesmo dos historiadores, se debru\u00e7ou sobre o regime militar. Combinando vi\u00e9s historiogr\u00e1fico com o que chama de \u201cmorfologia social\u201d dos fen\u00f4menos de massa, Ridenti \u00e9 hoje uma das principais refer\u00eancias brasileiras no estudo do golpe.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7020"}],"collection":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7020"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7020\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7020"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7020"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7020"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}