{"id":7050,"date":"2014-03-22T14:21:56","date_gmt":"2014-03-22T14:21:56","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/03\/22\/depoimento-meu-pai-traduziu-a-ditadura-em-consciencia-politica-nao-em-rancor\/"},"modified":"2014-03-22T14:21:56","modified_gmt":"2014-03-22T14:21:56","slug":"depoimento-meu-pai-traduziu-a-ditadura-em-consciencia-politica-nao-em-rancor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/03\/22\/depoimento-meu-pai-traduziu-a-ditadura-em-consciencia-politica-nao-em-rancor\/","title":{"rendered":"Depoimento: &#8216;Meu pai traduziu a ditadura em consci\u00eancia pol\u00edtica, n\u00e3o em rancor&#8217;"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O regime militar deixou marcas profundas no corpo e na alma de muitos brasileiros. Com a proximidade do anivers\u00e1rio de 50 anos do golpe, em primeiro de abril, muitas v\u00edtimas dos anos de chumbo iniciam um per\u00edodo de reflex\u00e3o, em que dolorosas lembran\u00e7as voltam \u00e0 tona.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7047\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/140321102449_familia_pablo_uchoa_304x304_arquivofamiliarpablouchoa_nocredit.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/140321102449_familia_pablo_uchoa_304x304_arquivofamiliarpablouchoa_nocredit.jpg 304w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/140321102449_familia_pablo_uchoa_304x304_arquivofamiliarpablouchoa_nocredit-150x150.jpg 150w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/140321102449_familia_pablo_uchoa_304x304_arquivofamiliarpablouchoa_nocredit-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<address \/>Rep\u00f3rter conta que pais transformaram experi\u00eancia traum\u00e1tica em conscientiza\u00e7\u00e3o dos filhos  <!--more-->  <\/address>\n<address><\/address>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Durante a pr\u00f3xima semana, a BBC Brasil publicar\u00e1 uma s\u00e9rie de reportagens sobre o tema, abordando diversos aspectos do per\u00edodo militar no Brasil e destacando personagens que, com suas hist\u00f3rias, trazem \u00e0 vida os fantasmas dos 21 anos entre a queda de Jo\u00e3o Goulart e a Nova Rep\u00fablica.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O pai de Pablo Uch\u00f4a, correspondente da BBC Brasil em Washington, foi uma das v\u00edtimas. Militante trotskista, ele cumpriu pena de pris\u00e3o em Pernambuco nos anos 70, depois de ter passado tr\u00eas meses em uma pris\u00e3o \u201cdantesca\u201d do Dops em Recife.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">No depoimento abaixo, Uch\u00f4a narra a trajet\u00f3ria de seu pai e relembra a forma como ele encarou as dificuldades do per\u00edodo, transformando o legado da ditadura \u201cn\u00e3o em rancor, mas em consci\u00eancia pol\u00edtica para os seus filhos\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Na minha meninice, nunca achei que meu pai, Inoc\u00eancio, fosse super-her\u00f3i. Mas eu sabia que ele era um homem forte.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Diziam que, nos anos de chumbo, tinha apanhado tanto que, certa vez, os algozes do regime militar lhe haviam quebrado um cacetete no peito.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">E, no entanto, como em um filme de Roberto Benigni, crescemos, meu irm\u00e3o e eu, relativamente protegidos dos detalhes mais cru\u00e9is da persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que tocou nossa fam\u00edlia.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Tive o privil\u00e9gio de nascer em uma fam\u00edlia politizada e militante de classe m\u00e9dia de Fortaleza. Aprendi, talvez mais precocemente que outras crian\u00e7as, o significado da palavra anistia.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Conhecia, por depoimentos alheios, o terror a que foram submetidos os prisioneiros pol\u00edticos durante o regime militar que se instalou no Brasil 50 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o foi sen\u00e3o recentemente que meu pai me contou sobre sua pr\u00f3pria experi\u00eancia nas celas insalubres e infestadas de ratos e baratas no Dops do Recife, onde ficou detido por tr\u00eas meses antes de cumprir senten\u00e7a na Casa de Deten\u00e7\u00e3o daquela cidade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Retrato &#8216;dantesco&#8217;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Apelidado de &#8220;buque&#8221;, o &#8220;submundo do \u00f3rg\u00e3o&#8221;, ele descreve, era o retrato &#8220;dantesco&#8221; de uma pris\u00e3o medieval, com suas grades que garantiam nenhuma privacidade aos detentos. Estes dormiam seminus no ch\u00e3o, esfomeados, com frio e embrulhados em folhas de jornais velhos.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 ent\u00e3o eu ignorava que meu pai havia passado noites algemado \u00e0s grades, isolado, for\u00e7ado a se manter acordado ap\u00f3s um bate-boca com um oficial na Companhia de Guardas, onde permanecera por outros dois meses.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7048\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/140321103726_pablouchoa_pai_304x304_arquivofamiliar_nocredit.jpg\" border=\"0\" width=\"304\" height=\"304\" srcset=\"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/140321103726_pablouchoa_pai_304x304_arquivofamiliar_nocredit.jpg 304w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/140321103726_pablouchoa_pai_304x304_arquivofamiliar_nocredit-150x150.jpg 150w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/140321103726_pablouchoa_pai_304x304_arquivofamiliar_nocredit-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 304px) 100vw, 304px\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">Inoc\u00eancio Uchoa chegou a passar por uma simula\u00e7\u00e3o de execu\u00e7\u00e3o quando estava preso<\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">E que certa vez, alta madrugada, fora arrancado com alguns companheiros de sua cela e levado em um caminh\u00e3o do regime militar at\u00e9 uma praia deserta.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A resigna\u00e7\u00e3o de haver chegado ao fim de tudo quando os militares se alinharam em fila, empunharam seus rifles \u2013 preparar, apontar&#8230; e suspenderam a encenada execu\u00e7\u00e3o, tortura psicol\u00f3gica das mais duradouras.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O termo &#8220;psicol\u00f3gico&#8221;, aqui, usado por meu pai como um poderoso eufemismo para o terror imposto aos presos pol\u00edticos dos anos de chumbo.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 que, no curioso ordenamento dos ex-detidos, respeita-se a mem\u00f3ria dos que foram submetidos \u00e0 dor mais excruciante da pior tortura f\u00edsica \u2013 o infame pau-de-arara, os choques el\u00e9tricos na ponta dos dedos, test\u00edculos e \u00e2nus, os estupros \u2013 e n\u00e3o sa\u00edram vivos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Deten\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A foto em preto-e-branco que recebo de minha m\u00e3e, Angela, mostra um jovem de bigode farto e \u00f3culos de aros grossos, aparente normalidade s\u00f3 desmentida pelas grades de ferro ao fundo.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Foi tirada entre em 1970 ou 1971, quando meu pai ficou preso na Casa de Deten\u00e7\u00e3o do Recife.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;A deten\u00e7\u00e3o foi um al\u00edvio. Porque, quando voc\u00ea chega na Casa de Deten\u00e7\u00e3o, a sua pris\u00e3o fica legalizada&#8221;, resumiu um de seus colegas de pris\u00e3o, M\u00e1rio Miranda, em um document\u00e1rio apoiado pela Comiss\u00e3o da Anistia sobre 23 ex-presos pol\u00edticos da deten\u00e7\u00e3o, A Mesa Vermelha(2013, dire\u00e7\u00e3o Tuca Siqueira).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Isso n\u00e3o \u00e9 pouca coisa numa ditadura&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O tratamento ali tampouco era &#8220;dos melhores&#8221;, diz meu pai, e com frequ\u00eancia os presos eram levados a fazer greves de fome em protesto contra os castigos, a degrada\u00e7\u00e3o da revista a que os familiares eram submetidos \u2013 em especial as mulheres \u2013, e por direitos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O filho do munic\u00edpio de Aracati, irm\u00e3o de 13, cuja propens\u00e3o para os estudos o levara ao col\u00e9gio marista (melhor possibilidade de educa\u00e7\u00e3o para a \u00e9poca), j\u00e1 contava ent\u00e3o com quatro processos penal-militares em Fortaleza, Recife e S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7049\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/140321111215_pablo_uchoa_arquivo_familiar_304x171_arquivofamiliar_nocredit.jpg\" border=\"0\" width=\"304\" height=\"171\" srcset=\"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/140321111215_pablo_uchoa_arquivo_familiar_304x171_arquivofamiliar_nocredit.jpg 304w, https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/140321111215_pablo_uchoa_arquivo_familiar_304x171_arquivofamiliar_nocredit-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 304px) 100vw, 304px\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">Rep\u00f3rter diz que seus pais n\u00e3o se deixaram tomar pelo rancor, mesmo diante de horrores da ditadura<\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Meu pai presidia o Centro Acad\u00eamico da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC) quando o regime militar estourou o Congresso da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE) na cidade de Ibi\u00fana, S\u00e3o Paulo, em 1968.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Dos cerca de 70 indiciados, dez eram do Cear\u00e1, meu pai, um deles. O incidente lhe rendeu o trancamento compuls\u00f3rio da matr\u00edcula pelos tr\u00eas anos seguintes.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Mas, \u00e0quela altura, quem havia entrado na Universidade como estudante havia se comprometido, no decorrer dos anos, com &#8220;fazer a revolu\u00e7\u00e3o&#8221;, conta meu pai.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O regime militar p\u00f3s-AI-5 (anunciado em dezembro de 1968) apertava o cerco contra os dissidentes. Para escapar, ele foi enviado a Pernambuco em 1969 como militante da Fra\u00e7\u00e3o Bolchevique-Trotskista, atuando entre os camponeses nas lavouras de a\u00e7\u00facar da Zona da Mata.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">De certa forma, foi uma sorte que seu &#8220;aparelho&#8221;, como reportaram os jornais da \u00e9poca, tenha sido desbaratado rapidamente, em opera\u00e7\u00f5es no Recife e em Fortaleza.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o era segredo de ningu\u00e9m a metodologia que os torturadores aplicavam aos &#8220;subversivos&#8221; para arrancar informa\u00e7\u00f5es sobre o paradeiro de seus companheiros foragidos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Clandestinidade<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Meu pai deixou a pris\u00e3o em abril de 1971. Casou-se com minha m\u00e3e (meu av\u00f4 materno conseguiu que a uni\u00e3o n\u00e3o sa\u00edsse publicada nos boletins oficiais) e, dois meses depois, se mudou para o Rio de Janeiro, onde ela dava prosseguimento aos seus estudos de medicina.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Em setembro de 1971, a Justi\u00e7a elevou sua senten\u00e7a, lan\u00e7ando novamente sobre meus pais o manto da clandestinidade. As fotos de fam\u00edlia da \u00e9poca s\u00e3o escassas.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">De favores, meu pai conseguiu matricular-se a fim de terminar seus estudos de Direito na faculdade C\u00e2ndido Mendes, em troca de &#8220;entrar mudo e sair calado&#8221; da sala de aula.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Sobre a vida na clandestinidade, destaco a descri\u00e7\u00e3o do amigo e ex-companheiro de cela de meu pai, Jos\u00e9 Arlindo Soares.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;A gente vivia completamente isolados&#8221;, contou ele no mesmo document\u00e1rio (referia-se a quando, expulso da faculdade, vivia na imin\u00eancia de ser preso).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 como se voc\u00ea vivesse na cidade, mas a cidade n\u00e3o vivesse dentro de voc\u00ea. Voc\u00ea n\u00e3o interagia com a cidade.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Meu irm\u00e3o Marcelo (batizado em homenagem ao antigo nome de guerra do meu pai) e eu nascemos nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ele ainda ret\u00e9m mem\u00f3rias de uma inf\u00e2ncia relativamente normal no Rio de Janeiro: passeatas em que sa\u00eda gritando &#8220;Abaixo a dentadura!&#8221; montado sobre os ombros do meu pai; a distribui\u00e7\u00e3o de panfletos do MDB (Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro) sob as portas na campanha para o governo do Estado em 1978; amigos de fam\u00edlia tocando m\u00fasicas de Chico Buarque e Gilberto Gil ao viol\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Cenas de uma vida bela, alheia aos horrores de um regime que iniciava sua derrocada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8216;Passado a limpo&#8217;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Considero um sucesso que meus pais tenham traduzido 21 anos de ditadura n\u00e3o em rancor, mas em consci\u00eancia pol\u00edtica para os seus filhos.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">(Marcelo, com seu engajamento pol\u00edtico precoce, seria entrevistado aos nove anos de idade pelo jornal Di\u00e1rio do Nordeste durante um com\u00edcio das Diretas J\u00e1 em Fortaleza: &#8220;Interrogado se estava gostando da festa, Marcelo respondeu: &#8216;Claro, eu sou das Diretas, ora'&#8221;, escreveu o jornal.)<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">De certa forma, meu irm\u00e3o continuou a luta de meus pais, advogando por ex-presos pol\u00edticos, ensinando Direito Internacional e Direitos Humanos na Universidade de Fortaleza e escrevendo sobre mem\u00f3ria e verdade.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ex-coordenador especial de Pol\u00edticas P\u00fablicas de Direitos Humanos no Estado, chegou a ciceronear uma Caravana da Anistia promovida pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Os momentos mais sombrios da hist\u00f3ria familiar n\u00e3o ficaram esquecidos, mas meu pai diz que tinha raz\u00f5es para manter a discri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ningu\u00e9m quer falar (de tortura) num primeiro momento. \u00c9 uma coisa muito dolorosa. A sociedade precisa de um pouco de sil\u00eancio&#8221;, reflete.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, ele diz, &#8220;n\u00f3s entramos na l\u00f3gica de ajudar na organiza\u00e7\u00e3o dos sindicatos, de associa\u00e7\u00f5es, de lutar pela Constituinte, por elei\u00e7\u00f5es diretas, uma sucess\u00e3o de coisas que n\u00e3o nos permitia ainda falar disso&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Acredito que existissem igualmente raz\u00f5es pr\u00e1ticas: uma busca nos arquivos do antigo Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI) e de outros \u00f3rg\u00e3os do regime militar indicaram que meu pai continuava sendo alvo de interesse pelo menos at\u00e9 1989, uma d\u00e9cada inteira ap\u00f3s a Lei da Anistia.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Nessa \u00e9poca, ele estava fortemente envolvido com o estabelecimento de sindicatos e de organiza\u00e7\u00f5es de esquerda no Cear\u00e1.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O advento da Comiss\u00e3o da Verdade, com seu objetivo de &#8220;passar a limpo&#8221; a hist\u00f3ria do per\u00edodo, \u00e9 o mote para que venham \u00e0 tona os segredos dos indiv\u00edduos, bem como das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma hist\u00f3ria intrinsecamente coletiva e, ao mesmo tempo, profundamente pessoal.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Fonte &#8211; <\/span>BBC Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O regime militar deixou marcas profundas no corpo e na alma de muitos brasileiros. 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