{"id":7055,"date":"2014-03-24T19:09:30","date_gmt":"2014-03-24T19:09:30","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/03\/24\/trauma-das-vitimas-da-ditadura-exige-tratamento-da-sociedade\/"},"modified":"2014-03-24T19:09:30","modified_gmt":"2014-03-24T19:09:30","slug":"trauma-das-vitimas-da-ditadura-exige-tratamento-da-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/03\/24\/trauma-das-vitimas-da-ditadura-exige-tratamento-da-sociedade\/","title":{"rendered":"Trauma das v\u00edtimas da ditadura exige tratamento da sociedade"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o da Anistia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a realizou na semana passada, em Recife (PE), o \u201cCongresso Internacional 50 anos do Golpe e a Nova Agenda da Justi\u00e7a de Transi\u00e7\u00e3o no Brasil\u201d. Dentre outras atividades, durante este evento ocorreu a primeira audi\u00eancia p\u00fablica de presta\u00e7\u00e3o de contas das Cl\u00ednicas do Testemunho.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7054\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/clinicastestemunho57992.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\" \/>Os integrantes das Cl\u00ednicas destacam a import\u00e2ncia de pol\u00edticas de mem\u00f3ria n\u00e3o apenas para as v\u00edtimas da viol\u00eancia, mas para toda a sociedade.\u00a0  <!--more-->  <\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<address><\/address>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Iniciativa inovadora no pa\u00eds, o Projeto Cl\u00ednicas do Testemunho \u00e9 um programa vinculado \u00e0 Comiss\u00e3o de Anistia que consiste na forma\u00e7\u00e3o de n\u00facleos de apoio e aten\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica aos afetados pela viol\u00eancia do Estado durante a ditadura militar.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o cinco as Cl\u00ednicas do Testemunho: do Instituto Sedes Sapientiae (S\u00e3o Paulo), do Instituto Projetos Terap\u00eauticos (S\u00e3o Paulo), da Sigmund Freud Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica (presente tanto em Porto Alegre quanto em Pernambuco) e do Instituto Projetos Terap\u00eauticos (Rio de Janeiro).<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Durante a audi\u00eancia, membros das Cl\u00ednicas do Testemunho falaram sobre suas experi\u00eancias cl\u00ednicas e institucionais e sobre a evolu\u00e7\u00e3o dos trabalhos nestes primeiros meses do projeto.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O Viomundo conversou com Maria Beatriz Vanucchi, do Instituto Projetos Terap\u00eauticos, e com Vera Vital Brasil e Alexei Conte Indursky, da associa\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica Sigmund Freud das cidades de Rio de Janeiro e Recife, respectivamente. Todos eles s\u00e3o coordenadores das Cl\u00ednicas do Testemunho.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Viomundo: De uma maneira breve como voc\u00eas avaliam a experi\u00eancia das Cl\u00ednicas do Testemunho?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Vera Vital Brasil: <\/strong>\u00c9 um projeto piloto para uma politica p\u00fablica que mostra que, finalmente, depois de tantos anos, o Estado come\u00e7a a se responsabilizar por este campo de repara\u00e7\u00e3o aos afetados pela viol\u00eancia praticada por seus agentes. Inicia-se um processo que esperamos poder se efetivar, posteriormente, como programa estatal.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Viomundo: Quais s\u00e3o as especificidades do sofrimento de pessoas que s\u00e3o v\u00edtimas de crimes que nunca foram devidamente reconhecidos enquanto tais pelo Estado, nunca tiveram os criminosos responsabilizados e nunca tiveram suas circunst\u00e2ncias completamente esclarecidas?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Vera Vital Brasil:<\/strong> O projeto piloto da Cl\u00ednica do Testemunho tem propiciado uma experi\u00eancia muito interessante e importante, porque os usu\u00e1rios deste servi\u00e7o podem, pela primeira vez, tratar-se num dispositivo terap\u00eautico proposto e suportado pelo Estado brasileiro. O tra\u00e7o de ser uma cl\u00ednica inclu\u00edda numa pol\u00edtica de repara\u00e7\u00e3o dos danos causados pelo pr\u00f3prio Estado \u00e9 uma marca distintiva. N\u00e3o s\u00f3 porque implica o reconhecimento de um dever, mas pelo efeito simb\u00f3lico que esta marca propicia. Muitos dos nossos pacientes j\u00e1 se trataram das mais variadas formas, durante esses 40 anos, mas neste momento t\u00eam a oportunidade de ter um tratamento num espa\u00e7o terap\u00eautico compartilhado. Podemos dizer que a cl\u00ednica do trauma \u00e9 uma cl\u00ednica que tem suas especificidades, mas neste caso essa especificidade ganha uma dimens\u00e3o mais aguda: a Cl\u00ednica do Testemunho \u00e9 uma cl\u00ednica do trauma decorrente de uma cat\u00e1strofe social. Definimos como cat\u00e1strofe social o efeito na sociedade da quebra da fun\u00e7\u00e3o do Estado de sua posi\u00e7\u00e3o de regula\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os sociais. Nos per\u00edodos caracterizados como \u201cper\u00edodos de exce\u00e7\u00e3o\u201d, o Estado, que seria o garantidor da lei, passa a ser o agente da viola\u00e7\u00e3o da lei, aparece como o condutor de uma pol\u00edtica pensada e dirigida para o exterm\u00ednio e o terror. Portanto h\u00e1 uma dimens\u00e3o de tratamento da sociedade como um todo, do trauma social.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Viomundo: Qual \u00e9 a especificidade da cl\u00ednica, neste caso?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Maria Beatriz Vannuchi:<\/strong> Por ser uma cl\u00ednica no la\u00e7o social, propomos uma cl\u00ednica articulada nos dispositivos coletivos, grupais e familiares. E tamb\u00e9m propomos que sejam grupos transgeracionais. As v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es afetadas devem poder falar da hist\u00f3ria pessoal e social e de suas heran\u00e7as.Podemos recorrer aos atendimentos individuais, ou mesmo ao recurso medicamentoso, quando necess\u00e1rio. Por\u00e9m, ao nossa proposta \u00e9 que esses recursos sejam usados pontualmente e n\u00e3o desloquem o grupo e os dispositivos coletivos do lugar de articula\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o desta cl\u00ednica. H\u00e1 uma outra quest\u00e3o importante. Como bem disse Paulo Abr\u00e3o, na abertura deste congresso, a viol\u00eancia de uma ditadura n\u00e3o se mede pela pilha de cad\u00e1veres que ela fez, mas pelo terror que difundiu em toda a sociedade. Nesse sentido h\u00e1 um dispositivo que temos tomado como cl\u00ednico porque pretende incidir sobre o silenciamento ainda existente nos espa\u00e7os sociais e que se refere aos efeitos do terrorismo de Estado na subjetividade de seus cidad\u00e3os. Esse dispositivo que tem um car\u00e1ter mais coletivo e \u00e9 o que chamamos de \u201cConversas Cl\u00ednicas P\u00fablicas\u201d, nas quais se abre um espa\u00e7o coletivo para que as pessoas possam falar e ouvir.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Viomundo: Qual a import\u00e2ncia de pol\u00edticas p\u00fablicas de mem\u00f3ria para a evolu\u00e7\u00e3o cl\u00ednica destes pacientes?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Alexei Conte Indursky:<\/strong> O desenvolvimento de pol\u00edticas de mem\u00f3ria em todos os pa\u00edses que pretendem realizar sua transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica \u00e9 fundamental n\u00e3o apenas para os afetados diretamente pelo viol\u00eancia totalit\u00e1ria, mas para a comunidade em sua ampla concep\u00e7\u00e3o. No tocante aos afetados diretamente pelas viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, os memoriais e s\u00edtios de mem\u00f3ria permitem que a viv\u00eancia individual e subjetiva destes possa se conectar com a mem\u00f3ria coletiva e social de sua comunidade que, ap\u00f3s anos de silenciamento, torna-se p\u00fablica. O memorial possui a pot\u00eancia de associar a pesquisa documental dos arquivos aos testemunhos, n\u00e3o se restringindo \u00e0 frieza ou dureza de monumentos ou museus que muitas vezes fracassam em transmitir as experi\u00eancias de resist\u00eancia e solidariedade, bem como de terror e barb\u00e1rie, \u00e0s novas e velhas gera\u00e7\u00f5es. Ali\u00e1s, essa preocupa\u00e7\u00e3o de que as pol\u00edticas de mem\u00f3ria n\u00e3o sobreponham o terror \u00e0 resist\u00eancia e \u00e0 solidariedade \u00e9 fundamental no trabalho com os testemunhos, uma vez que s\u00e3o as mem\u00f3rias de solidariedade que muitas vezes se constituem como elementos desentoxicadores e curativos frente aos traumas que congelam os afetos e pensamentos. Assim sendo, as pol\u00edticas de mem\u00f3rias s\u00e3o uma das a\u00e7\u00f5es que convocam aos sujeitos afetados a se tornarem atores da justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o, rompendo o silenciamento ao devolver \u00e0s experi\u00eancias sua dimens\u00e3o hist\u00f3rica e coletiva.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Viomundo: Como voc\u00eas veem, enquanto psicanalistas, a no\u00e7\u00e3o de repara\u00e7\u00e3o? A psican\u00e1lise n\u00e3o v\u00ea o trauma como algo que \u00e9 radicalmente irrepar\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Alexei Conte Indursky: <\/strong>De fato, o trauma na psican\u00e1lise possui um car\u00e1ter irredut\u00edvel quanto ao real da viol\u00eancia que invade o sujeito. Existem coisas de que n\u00e3o se esquece nunca. Mas n\u00f3s pensamos a repara\u00e7\u00e3o ps\u00edquica n\u00e3o enquanto uma a\u00e7\u00e3o que viria apaziguar o sofrimento atrav\u00e9s do apagamento do vivido. Muito antes, a repara\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel na medida em que o sujeito, atrav\u00e9s de tratamento individual ou grupos de testemunho, consegue apropriar-se das viv\u00eancias de horror as quais foi exposto narrando-as, ao inv\u00e9s de ser narrado por elas.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Maria Beatriz Vannuchi:<\/strong> O trauma, para a psican\u00e1lise, se caracteriza menos pelos fatos ocorridos do que pelo efeito de ruptura dos recursos ps\u00edquicos e dos la\u00e7os de sustenta\u00e7\u00e3o de um sujeito para lidar com o excesso na dor, tanto ps\u00edquica quanto f\u00edsica. Muitos pacientes se referem \u00e0 sua dor pelo efeito dos golpes da tortura, mas tamb\u00e9m pelo golpe de seus la\u00e7os de cumplicidade ou de seus grupos de refer\u00eancia. Para alguns, o efeito de devasta\u00e7\u00e3o foi sentido na sa\u00edda da pris\u00e3o, ou na chegada ao lugar de ex\u00edlio, onde n\u00e3o encontravam mais ningu\u00e9m para partilhar seus ideais.Neste sentido, a \u201crepara\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o \u00e9 a elimina\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria traum\u00e1tica, mas a cria\u00e7\u00e3o, a constru\u00e7\u00e3o de um repert\u00f3rio ps\u00edquico, de narrativas e de la\u00e7os afetivos, defesas que temos para lidar com a experi\u00eancia do desamparo. A inclus\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 parte da repara\u00e7\u00e3o. O reconhecimento da quebra como parte da trajet\u00f3ria \u00e9 uma passagem necess\u00e1ria para a reconstru\u00e7\u00e3o de um lugar no mundo. A ideia desta cl\u00ednica n\u00e3o visa \u201ccurar\u201d nem reparar integralmente o que n\u00e3o tem cura, mas incluir no repert\u00f3rio subjetivo e na historia compartilhada socialmente elementos que permitam a intermedia\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os sociais e afetivos desses sujeitos no mundo.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"line-height: 1.3em;\">Viomundo: Que tipo de dispositivos cl\u00ednicos voc\u00eas consideram o mais apropriado para estes casos?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Maria Beatriz Vannuchi:<\/strong> O dispositivo articulador do tratamento \u00e9 o grupo intergeracional. As interven\u00e7\u00f5es pontuais nos atendimento de fam\u00edlias, ou mesmo individuais, s\u00e3o dispositivos cl\u00ednicos que temos usado nestes tratamentos e tem se mostrado bastante importantes. Quando uma situa\u00e7\u00e3o mais delicada, referente aos la\u00e7os familiares, desponta no grupo, para n\u00e3o incorrer na viol\u00eancia de expor e invadir os sujeitos em tratamento, propomos uma sequ\u00eancia de sess\u00f5es familiares em paralelo aos atendimentos em grupo. As sess\u00f5es individuais, quando necess\u00e1rias, tamb\u00e9m s\u00e3o propostas. Mas o grupo permanece como articulador do tratamento. \u00c9 importante ressaltar que essas interven\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas pontuais s\u00e3o usadas para evitar que se reproduza a re-vitimiza\u00e7\u00e3o pelo excesso de exposi\u00e7\u00e3o, experi\u00eancia t\u00e3o terr\u00edvel da condi\u00e7\u00e3o da tortura. Na tortura, o primeiro golpe \u00e9 o da quebra dos limites da condi\u00e7\u00e3o de intimidade, quando o corpo torturado sofre uma exposi\u00e7\u00e3o obscena, um corpo para o uso do torturador. Respeitar o delicado limite da intimidade \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de tratamento. Por outro lado, h\u00e1 uma tessitura dos la\u00e7os e da cumplicidade que o grupo propicia, muito al\u00e9m das individualidades.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Viomundo: E como se trabalha clinicamente com a ideia de testemunhos? Quais os impactos da sistematiza\u00e7\u00e3o e publiciza\u00e7\u00e3o de um testemunho para os pacientes?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Alexei Conte Indursky: <\/strong>\u00c9 justamente na medida em que o sofrimento individualizado pode ser endere\u00e7ado a um outro, seja ele o terapeuta, um grupo de testemunho ou uma comiss\u00e3o de verdade, que o sujeito pode se re-posicionar frente a cena traum\u00e1tica, metabolizando o horror atrav\u00e9s da fala, do compartilhamento e da identifica\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o coletiva de sua viv\u00eancia. Ou seja, cria-se espa\u00e7os seguros para que o horror n\u00e3o invada novamente o sujeito, desestabilizando-o. Importante lembrar que o testemunho \u00e9 sempre uma co-cria\u00e7\u00e3o. Ele depende tanto da posi\u00e7\u00e3o do testemunho frente sua experi\u00eancia quanto das condi\u00e7\u00f5es sociais de recebimento do testemunho. Muitas vezes \u00e9 mais traum\u00e1tico para um testemunho n\u00e3o ser escutado ou ser tomado por um embuste do que o pr\u00f3prio conte\u00fado das cenas sobre as quais se fala. Nesse sentido, o Cl\u00ednicas do Testemunho trabalha para produzir condi\u00e7\u00f5es de possibilidade para que novos e velhos testemunhos possam vir ao p\u00fablico, minimizando os riscos de reatualiza\u00e7\u00e3o do traum\u00e1tico ou revitimiza\u00e7\u00e3o. O acompanhamento dos sujeitos que desejam testemunhar pela primeira vez, ou ainda daqueles que j\u00e1 o fizeram, mas desejam repensar qual \u00e9 sua posi\u00e7\u00e3o de testemunho, revela que o processo testemunhal \u00e9 complexo e demanda muita coragem dos envolvidos, testemunhos e ouvintes. N\u00e3o se toma um testemunho do dia para noite, evidentemente. Existe uma temporalidade necess\u00e1ria para acomodar\/desacomodar as mem\u00f3rias e afetos que solicita dos terapeutas do Cl\u00ednicas um acompanhamento durante esse processo para que os riscos de melancoliza\u00e7\u00e3o e isolamento n\u00e3o abatam o sujeito de forma abrupta. Frente a tais constata\u00e7\u00f5es, quando os participantes do Cl\u00ednicas decidem por formalizar os registros orais ou\/e escritos feitos por eles, vemos uma pot\u00eancia cl\u00ednica muito forte na possibilidade de historicizar e de publicizar esse processo testemunhal, no qual essas ida e vindas subjetivas ser\u00e3o registradas. S\u00e3o movimentos de sa\u00fade muito importantes, mas n\u00e3o compuls\u00f3rios. O trabalho cl\u00ednico trata de acompanhar o sujeito na sua descoberta por horizontes poss\u00edveis de express\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o do trauma.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Maria Beatriz Vannuchi:<\/strong> O testemunho, na concep\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, pode ser pensado como a produ\u00e7\u00e3o de sentido produzido por um sujeito sobre suas experi\u00eancias em sua narrativa. O testemunho p\u00fablico, com tudo o que carrega de pol\u00edtico e tamb\u00e9m em sua dimens\u00e3o jur\u00eddica, pode ou n\u00e3o ter um efeito simb\u00f3lico importante, pode ser ou n\u00e3o uma produ\u00e7\u00e3o de sentido. A fala por si s\u00f3 \u00e9 um in\u00edcio, mas n\u00e3o tem um efeito de repara\u00e7\u00e3o. H\u00e1 cidad\u00e3os que nunca puderam falar disso e outros que s\u00f3 conseguem falar disso. Uma situa\u00e7\u00e3o bastante recorrente nos grupos \u00e9 o horror, que muitas vezes essas pessoas vivem, quando tentam falar e ouvem um sil\u00eancio ou uma desqualifica\u00e7\u00e3o de sua fala. Isso pode gerar o sil\u00eancio ou a compuls\u00e3o \u00e0 fala. Quando o sujeito pode fazer o movimento importante de se apropriar desta fala no testemunho, e tamb\u00e9m escutar o reconhecimento que a sua narrativa causa no outro, h\u00e1 um ponto de partida para tecer os efeitos de repara\u00e7\u00e3o. A repara\u00e7\u00e3o poss\u00edvel vem pela abertura do que se instalou como um sofrimento privado, uma cripta isolada e devastadora que invade pela dor, pelo adoecimento ou pelo terror. A repara\u00e7\u00e3o passa necessariamente pela tessitura dos la\u00e7os que sustentam o sujeito, o que permite que ele possa lembrar e esquecer. A repara\u00e7\u00e3o \u00e9 a possibilidade de sair de uma posi\u00e7\u00e3o passiva, para uma possibilidade de fazer algo com isso. Portanto, o efeito reparador do testemunho depende bastante daquilo que ele constr\u00f3i com o outro, no campo social.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por Dario de Negreiros e Rafael Schincariol, especial para o Viomundo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o da Anistia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a realizou na semana passada, em Recife (PE), o \u201cCongresso Internacional 50 anos do Golpe e a Nova Agenda da Justi\u00e7a de Transi\u00e7\u00e3o no Brasil\u201d. 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