{"id":7070,"date":"2014-03-28T14:40:30","date_gmt":"2014-03-28T14:40:30","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/03\/28\/historiador-contesta-visao-hegemonica-do-golpe-e-da-ditadura-militar\/"},"modified":"2014-03-28T14:40:30","modified_gmt":"2014-03-28T14:40:30","slug":"historiador-contesta-visao-hegemonica-do-golpe-e-da-ditadura-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/03\/28\/historiador-contesta-visao-hegemonica-do-golpe-e-da-ditadura-militar\/","title":{"rendered":"Historiador contesta vis\u00e3o hegem\u00f4nica do golpe e da ditadura militar"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Costuma-se afirmar que a Hist\u00f3ria \u00e9 escrita pelos vencedores, mas no caso do golpe de 1964 e da ditadura que se seguiu aconteceu o oposto: a narrativa que prevaleceu em nosso imagin\u00e1rio coletivo sobre o per\u00edodo foi a dos derrotados, dos torturados, dos exilados, das v\u00edtimas. Nesse sentido, um dos maiores fracassos do regime militar foi n\u00e3o ter conseguido afirmar minimamente para a posteridade um discurso consistente que tentasse justificar suas a\u00e7\u00f5es. Essa peculiaridade de nossa Hist\u00f3ria recente, se por um lado \u00e9 confortadora, por outro \u00e9 tamb\u00e9m limitadora, por reduzir um per\u00edodo complexo a uma leitura manique\u00edsta, focada na resist\u00eancia, com se a ditadura tivesse sido um hiato negro entre dois momentos \u201cnormais\u201d da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cdn.jornaldamidia.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Ditadura_e_Democracia_no_Brasil.jpg?773ff7\" border=\"0\" width=\"290\" height=\"350\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cDitadura e democracia no Brasil\u201d, do historiador da UFF Daniel Aar\u00e3o Reis (Zahar, 192 pgs. R$ 35,90), um dos muitos lan\u00e7amentos editoriais motivados pelos 50 anos do golpe militar, destaca-se pelo esp\u00edrito cr\u00edtico e pela afirma\u00e7\u00e3o de que, sem o conhecimento aprofundado e sem o debate sobre os fundamentos sociais e hist\u00f3ricos da ditadura, n\u00e3o faremos mais que refor\u00e7ar estere\u00f3tipos. No livro, a reconstitui\u00e7\u00e3o equilibrada das diferentes etapas do regime militar \u00e9 sempre pontuada pela an\u00e1lise da rela\u00e7\u00e3o entre ditadura e sociedade civil \u2013 que esteve longe de ser apenas uma rela\u00e7\u00e3o entre opressor e oprimido, at\u00e9 porque houve mais de uma ditadura, e dentro de cada uma houve for\u00e7as e interesses civis e militares em conflito.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria ideia de ditadura militar, adotada pelas esquerdas derrotadas em 1964, apaga da equa\u00e7\u00e3o da ditadura seu elemento civil, que foi da toler\u00e2ncia passiva \u00e0 cumplicidade aberta. Para al\u00edvio e conveni\u00eancia de muita gente, foram assim os \u201cmilicos\u201d os \u00fanicos responsabilizados por tudo que aconteceu. Como escreve o autor, \u201c\u00e9 inquestion\u00e1vel a dimens\u00e3o civil do regime ditatorial, mesmo que o topo da pir\u00e2mide do poder fosse ocupado por chefes militares\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O golpe, afirma, \u201cn\u00e3o foi um raio que desceu de um c\u00e9u sem nuvens\u201d: Jango \u201cestava atolado, sem projeto, pilotando a olho nu a crise do pa\u00eds\u201d \u2013 infla\u00e7\u00e3o de 80%, crescimento p\u00edfio em 1963 etc, gerando crescente insatisfa\u00e7\u00e3o popular; e, j\u00e1 \u00e0s v\u00e9speras do 31 de mar\u00e7o: \u201cJango n\u00e3o queria dar ordens, estava apavorado diante do inc\u00eandio que ajudara a provocar, horrorizado com a hip\u00f3tese de uma guerra civil que n\u00e3o desejava\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Racioc\u00ednios polarizados (opress\u00e3o e liberdade; repress\u00e3o e resist\u00eancia) s\u00e3o mais f\u00e1ceis de entender, mas ignoram a conspira\u00e7\u00e3o de fatores que permitiram o golpe e a manuten\u00e7\u00e3o da ditadura, bem como os seus desdobramentos e resqu\u00edcios autorit\u00e1rios nos governos democr\u00e1ticos que se seguiram. Conhecemos (escolhemos conhecer?) apenas uma parte da Hist\u00f3ria, o que n\u00e3o deixa de ser uma forma de falsific\u00e1-la. O fato \u00e9 que amplos segmentos da popula\u00e7\u00e3o apoiaram o golpe de 1964 \u2013 ao qual praticamente n\u00e3o houve resist\u00eancia, vale lembrar: (\u201c\u2026a hip\u00f3tese de uma luta derrotada n\u00e3o p\u00f4de ser verificada, porque a rendi\u00e7\u00e3o assegurou uma derrota sem luta\u201d) \u2013 e sustentaram o regime militar, at\u00e9 onde interessou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Daniel Aar\u00e3o Reis lembra que apoiaram as Marchas com Deus pela Liberdade (que hoje tentam ridiculamente reeditar, resta saber atendendo a quais interesses) os principais partidos, lideran\u00e7as empresariais e pol\u00edticas e importantes entidades da sociedade civil, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Confer\u00eancia Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para s\u00f3 citar alguns exemplos, Ulysses Guimar\u00e3es foi um dos l\u00edderes da Marcha da Fam\u00edlia e apoiou o golpe, tendo feito parte da comiss\u00e3o do Congresso respons\u00e1vel por elaborar o primeiro Ato Institucional. A pr\u00f3pria CNBB, que mais tarde teria importante papel na den\u00fancia de viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos durante a ditadura, tamb\u00e9m apoiou o golpe. D.Paulo Evaristo Arns, ent\u00e3o bispo de Petr\u00f3polis, apoiou as tropas do General Ol\u00edmpio Mour\u00e3o Filho que marcharam de Minas para o Rio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sempre segundo o autor, mesmo Juscelino Kubitscheck defendeu o golpe e a elei\u00e7\u00e3o do general Castello Branco no Congresso. Muito pouco se escreve sobre isso. E muito est\u00e1 para ser revelado sobre a participa\u00e7\u00e3o de diretores e funcion\u00e1rios das grandes empresas estatais e privadas, das diretorias dos sindicatos corporativos, de membros das universidades e das academias, de jornalistas dos principais meios de comunica\u00e7\u00e3o etc. Mas esta \u00e9 uma pesquisa talvez n\u00e3o convenha a todos \u2013 da\u00ed a insist\u00eancia da maioria das pessoas em chover no molhado, em repetir a leitura reconfortante da luta entre her\u00f3is e bandidos e de sua supera\u00e7\u00e3o pac\u00edfica e negociada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Daniel Aar\u00e3o Reis reafirma a independ\u00eancia de sua an\u00e1lise em diversos temas, contrariando a mem\u00f3ria oficial da resist\u00eancia. Por exemplo, ele afirma que \u00e9 um equ\u00edvoco superestimar o papel externo (leia-se o apoio norte-americano) no processo golpista, cujo sucesso deve ser atribu\u00eddo t\u00e3o-somente \u00e0 ampla alian\u00e7a social entre civis e militares. Em outro momento, ele escreve: \u201c\u00c9 ineg\u00e1vel que o golpe militar e civil foi empreendido sob bandeiras defensivas. N\u00e3o para construir um novo regime. O que a maioria desejava era salvar a democracia, a fam\u00edlia, o direito, a lei (\u2026)\u201d. Tamb\u00e9m enfatiza que ditadura n\u00e3o se limitou a reprimir, torturar e matar, mas tamb\u00e9m conduziu um processo de acelerada \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o conservadora\u201d da economia e da administra\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, com um projeto nacional-estatista que tem desdobramentos at\u00e9 hoje, sendo portanto um equ\u00edvoco associ\u00e1-la a um Brasil arcaico.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O autor questiona ainda a mem\u00f3ria consolidada da saga guerrilheira, imortalizada em relatos simp\u00e1ticos de jovens generosos, que acabam por refor\u00e7ar a leitura simplificadora da ditadura e atender \u00e0 aspira\u00e7\u00e3o coletiva por concilia\u00e7\u00e3o. Escreve, por exemplo, que \u201cas passeatas eram um movimento democr\u00e1tico\u201d, mas em rela\u00e7\u00e3o aos esquerdistas revolucion\u00e1rios reconhece que \u201cn\u00e3o desejavam apenas se livrar da ditadura, queriam tamb\u00e9m destruir o sistema capitalista, abrindo a via para a constru\u00e7\u00e3o de um regime alternativo, socialista\u201d \u2013 o que nem sempre \u00e9 t\u00e3o claramente admitido por historiadores do per\u00edodo. E, mais adiante, em rela\u00e7\u00e3o ao sequestro de diplomatas estrangeiros: \u201cNo plano estrat\u00e9gico, pela magnitude da repress\u00e3o que suscitaram, acabaram sendo nocivas para as esquerdas revolucion\u00e1rias. \u2013 apesar de seu otimismo, elas estavam pol\u00edtica e socialmente isoladas.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Toda mem\u00f3ria, individual ou coletiva, \u00e9 at\u00e9 certo ponto seletiva e fabricada. 50 anos ap\u00f3s o golpe, enxergar a ditadura como um conflito em preto e branco entre bandidos e mocinhos \u00e9 sinal de ingenuidade ou pregui\u00e7a intelectual, que s\u00f3 serve \u00e0queles que apoiaram o golpe, que se beneficiaram da ditadura, que financiaram a repress\u00e3o, que comemoraram na tranquilidade do lar os atos de exce\u00e7\u00e3o. Se os militares foram os \u00fanicos culpados, a sociedade civil foi absolvida, ficando para a posteridade a conveniente imagem de que todos foram desde sempre oposicionistas e her\u00f3is da resist\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/blog\/maquina-de-escrever\/post\/historiador-contesta-visao-hegemonica-do-golpe-e-da-ditadura.html\">(Luciano Trigo, do G1)<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Costuma-se afirmar que a Hist\u00f3ria \u00e9 escrita pelos vencedores, mas no caso do golpe de 1964 e da ditadura que se seguiu aconteceu o oposto: a narrativa que prevaleceu em nosso imagin\u00e1rio coletivo sobre o per\u00edodo foi a dos derrotados, dos torturados, dos exilados, das v\u00edtimas. 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